fevereiro 4, 2010

MILLE COSE

Noite alta...

Noite alta...

Virgem, ascendendo no horizonte leste, indicava 2 da manhã. De certa maneira, as estrelas da constelação se moviam mas, definitivamente, nenhuma vinha em direção à costa! Nenhuma exceto aquela…

Quando a pequena luz chegou perto, um observador teria visto: não era
estrela… mas uma nave alienígena, brilhante, invadindo por sobre o oceano o espaço aéreo da Terra. Pena que àquela hora da madrugada não houvesse nenhum terráqueo à espreita!

É disco, e é voador!

É disco, e é voador!

No interior do veículo, um drama se desenrolava:

(traduziremos os diálogos para maior compreensão)

Outros filhos de Deus

Outros filhos de Deus

- Desgraça! Isso está saindo de controle!
- Anklyk, temos problemas com a fonte de energia da nave.
- Já  percebí. Sabe o que está  acontecendo?
- A carga está quase esgotada. Estamos perdendo altura.
- Droga!… mas veja… uma luz piscando lá  embaixo, vou tentar pousar alí.

Luz sem fim sem tunel

Luz sem fim sem tunel

O mar espatifava-se em ondas sobre a areia e, sem lua, o céu quase não
contrastava a silhueta dos coqueiros. Mais visíveis eram os voos rasantes das primeiras gaivotas famintas, seus gritos mixando-se ao rumor da água na praia.
Se o farol iluminava o que estava ao longe, aqui ao pé de sua base a claridade era muito pouca…

Iluminando o infinito

Iluminando o infinito

E a nave pousou! Desembarcaram.

- Anklyk, veja, é uma espécie de lanterna gigante!
- Sim… e se tem luz tem energia – e isso é tudo o que necessitamos. Vou subir para procurá-la.
- Tem outra coisa parada alí embaixo. Enquanto você sobe, vou ver o que é.
- Achei a escada… mas a porta está  emprerr… Ufff! conseguí!  Sim, fique aqui, já  estou subindo.
- OK! Ligue o rádio para conversarmos. Mas… é uma nave!! Eles também tem uma uma nave aqui. Com uma cor que eu nunca ví!

Isso é novidade...

Isso é novidade...

- (Pelo rádio:) O quê? Uma nave? Tem certeza? Procure pela fonte de energia.
- Muito bem… energia… energia… Mas, Anklyk, é uma nave muito boa.
- Melhor que a nossa?
- Menor, mas por dentro parece muito confortável.
- Tente acioná-la. Procure pelo start.
- Bem… ligar não estou conseguindo… vejamos esse comando… puxa, ela tem luzes fortes!

Fachos interestelares

Fachos interestelares

- Se tem luzes, tem energia… procure pela fonte. Já estou quase chegando ao topo.
- Anklyk, você tem que ver o engenho propulsor desta máquina. Estava escondido debaixo desta tampa. Não estou entendendo nada, mas parece feito com uma tecnologia tão avançada quanto a nossa!
- Sim, tecnolog… uau, como é lindo este planeta daqui de cima! Veja só este oceano imenso sumindo na escuridão.

Ops, foto errada...

Ops, foto errada...

- Ah, ah. Descobri, Anklyk, eu descobri. Aqui está a fonte de energia da nave. Quando eu junto estes dois pólos (bzzzzzzzzzzz), veja (bzzzzzzzzzzzzzttttt) saem faíscas…  é energia elétrica!!

funciona !!

funciona !!

- Estou descendo, estou descendo. Nada aqui em cima! Não entendi de onde vem a energia que faz piscar a lanterna gigante. Elétrica, você disse? Serve, serve…

- Pronto. Já  retirei a fonte! Agora é só instalá-la na nossa nave.
- (Chegando) OK! Deixe-me ver esta peça… B-A-T-E-R-I-A hum… que língua enrolada.

deve ser isso...

deve ser isso...

- Ora Anklyk, não temos tempo para bobagens. Me ajude aqui a instalá -la.
- Está  certo que é uma emergência, mas o que estamos fazendo não é correto. Vamos ao menos deixar no lugar nossa fonte usada de energia. Ela ainda tem alguma carga…
- OK, faça isso enquanto eu testo a partida. Vamos ver… (Zuuuuuuuuuuummm) Funciona, Anklyk, funciona! Ah, ah, ah!
- Ótimo. Já  instalei nossa fonte usada no lugar. Só mais este parafuso… pronto!
- Então vamos embora.
- Ufa, que sorte!

(Zuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm!)

Seis da manhã. Com a barba por fazer, o velho faroleiro assustou-se: viu flutuando em meio à neblina uma esfera de luz lilás. Esfregou os olhos e, incrédulo, reconheceu… seu Mille vermelho, a 3 metros de altura, derivava ao sabor do vento.

energético !

energético !

- – - * * * – - -

Conto escrito para participar de um concurso promovido pela Fiat mas que, por alguma razão que não me lembro mais, nunca foi enviado…

julho 4, 2009

SUR LA TOUR (alegoria atemporal)

recém-construída

... então zerada...

Microbureau

Microbureau

No topo da Torre Eiffel, num minúsculo bureau envidraçado, sentados em torno à mesa conversavam Eiffel e Edison, um caro convidado. Entre goles de absinto, alinhados em seus ternos circunspectos, comentavam os feitos de Santos Dumont… “um prodígio”, como insistia o americano.

Dumont du haut

Dumont du haut

Tsc tsc tsc...

Tsc tsc tsc...

Elegante, lá fora, também estava Dumont. No pulso ostentava o relógio de sua invenção, produzido por Cartier, enquanto subia a escada para o seu dirigível n° 9.  A nave, qual fiel animal, pacientemente flutuava, amarrada a um poste da Rue des Tuileries.  Em visita a Paris, solitário num café a cem passos dali, refletia Freud sobre as cartas que recebera de Jung, seu discípulo.  Balançava a cabeça em desaprovação.

Entra música: Bach – Jesus Alegria dos Homens

João Sebastião Bar

João Sebastião

Era um tempo em que os fatos da Europa refletiam-se na obra para cravo de Bach.  Graham Bell havia dado voz ao cidadão, com o telefone, ao passo que Marconi amplificava essa voz ao mundo com as ondas mágicas do rádio, recém-descobertas por Hertz.

darwolução

darwolução

Foi por essa época que Darwin afrontou os homens, expondo-lhes seu passado simiesco. E Marx rascunhava um sonho que moveria milhões… outros haveria que moveriam bilhões, como os de Ghandi e Luther King, mas isso ainda estava por vir.

.

Entra áudio de época: Primórdios do Jazz

Dos dois homens que lá nos céus baforavam seus charutos o mundo jamais se esqueceria.

... e sem soldas

... e sem soldas

Edison havia dado à luz o sol elétrico, em meio a tantas outras contribuições (ouça-se o fonógrafo), e Eiffel concebera e construíra aquela torre… do alto altíssimo da qual confabulavam.  Realizador como Ford, que numa esteira rolante criou a linha de montagem, proveu o mundo de rodas e de quem se diz haver dito:  “Meus veículos, podem comprá-los na cor que desejarem, desde que seja preto”.  Consta que o tempo nunca o demoveu da idéia.

cabeça, tronco & rodas

cabeça, tronco & rodas

V3

V3

Se Ford deu rodas à Terra Von Braun pavimentou-lhe o universo. Mas a imensidão que se descortinou aos olhos de Hubble já estivera na mente de Einsten.  Aliás, como previra Nostradamus.  E o engenho humano cresceu apoiado nos ombros de gigantes, nas palavras de Newton, ele também uma chave do futuro, como fora Leonardo, com suas musas preciosas e suas máquinas de guerra.  Na mesma Florença em que Michelangelo, esculpindo la Pietà, feria o mármore.

Pedra ?

Pedra ?

Volta música clássica: Mozart – Sinfonia No. 31 em Ré Maior, K297

Américàvista!

Américàvista!

Tudo isso se dava após Vespúcio (confiante nos segundos do cronômetro, grande invenção de Harrison) singrar mares e oceanos.  De seu nome nasceria a América.  Nas cortes européias, o tempo – andante mezzo forte – já era então de Mozart.

será que vem bomba?

será que vem bomba?

Tudo são números, dizia Pitágoras, pouco antes que  Aristóteles lançasse os fundamentos do milênio sombrio da Idade Média, que nos conduziu ao renascimento de Rafael, ao impressionismo de Van Gogh e ao modernismo de Andy Wharol, na Nova York de Woody Allen (e Bin Laden).

Sim, tudo!

Sim, tudo!

Se as últimas palavras de Buda foram “tudo é impermanente”, então talvez Confúcio estivesse certo quando disse:

Já era! (1)

Já era! (1)

“Há homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde”.  Que o diga o Dr. Barnard, que teve de viabilizar a troca dos corações estressados.  Quão estressado terá sido o coração de Napoleão, conquistando num dia o mundo para no outro ser largado à morte numa ilhota do Atlântico?  Sim, ilustríssimo Planck, o tempo, imenso, pode também ser deveras ínfimo.

Já era! (2)

Já era! (2)

Troca música: Louis Armstrong – What a Wonderful World

E o que dizer de Armstrong?

-    Louis Armstrong?, o grande Satchmo ?

...3 ...4

...3 ...4

-    Não.
-    Lance Armstrong, que derrotou o câncer pedalando?

prá esquentar

prá esquentar

-    Nem. Neil Armstrong, que pôs nossos pés na lua, nosso primeiro passo no espaço. Afinal, não é este post comemorativo dos 40 anos deste feito?…

quicotô fazendo aqui?

quicotô fazendo aqui?

Troca música: Pink Floyd – The Dark Side of The Moon

Pink & Floyd

Pink & Floyd

Sim, a lua decantada por Waters e Gilmour, num mundo inda não devassado pelo Google.  E pensar que foram necessários mil anos, depois de Eratóstenes calcular o volume da Terra, para se descobrir que sua densidade média é de 5,2 g cm3. (a da Terra, não a de Eratóstenes, bem entendido)  Francamente!…

Mas afinal tudo é óbvio, como bem nos provou Colombo com seu ovo, antes de dar nome à Colômbia.  Melhor inda será o que jaz no porvir.

'xá comigo!

'xá comigo!

maio 20, 2009

TRIBUTO A SIMONAL

Dinheiro bem empregado

Dinheiro bem empregado

Imperdível !

Imperdível !

Claudio Manoel

Claudio Manoel

Em cartaz nos cinemas de São Paulo está um documentário, da lavra do “Casseta & Planeta” Claudio Manoel, que resgata a história de um dos ícones da Música Popular Brasileira, Wilson Simonal de Castro.

Não só por considerá-lo um primoroso levantamento que abrange parte dos anos que vivi, mas por ter-me emocionado inúmeras vezes ao assisti-lo, quero deixar aqui minhas considerações.

O Bronco

O Bronco

Já de cara agradou por trazer-me de volta o sorriso do grande Ronald Golias, aplaudindo enquanto Simonal cantava, a seu lado no palco.  Quando criança, quanto não ri das hilariantes tiradas que Golias sempre tinha, em seu nonsense delicioso.  Mas ali falava-se de Wilson Simonal, o cabo do Exército que vindo das bases do povo alcançou o ápice do sucesso a que um artista pode almejar.  Sequer sabia que Simonal fora tão grande.

Chico Anísio

Chico Anísio

Nelson Motta

Nelson Motta

Toda sua vida, sua carreira, ascenção e queda, são descritas por brasileiros da mais alta estatura, como Chico Anísio, Nelson Motta, Pelé, Ziraldo, pessoas que ao longo da vida aprendi a respeitar.  E ainda outros, não menos simpáticos, como Jaguar, Miele, Paulo Moura e Tony Tornado, unânimes em afirmar que Wilson Simonal foi injustamente execrado pela mídia e por seus pares, a classe artística nacional.

Pelé

Pelé

Ziraldo

Ziraldo

Simonal foi o protagonista de uma vida de tragédia.  Tendo conhecido a fama, a opulência, o reconhecimento e a glória, acabou em desprezo, doença e morte – ao que tudo indica provocada pela mágoa. Pelo álcool sim, mas este destilado na tristeza de ver voltar-se contra ele um país que o houvera amado e aclamado.

Miele

Miele

Tony Tornado

Tony Tornado

Num momento maior da obra, os documentaristas trazem à tela o pivô do declínio do artista, o contador que supostamente o houvera roubado, dando início à sucessão de equívocos que culminariam com sua ruína.  Para meu espanto, seu depoimento é absolutamente revelador quanto ao que com ele se passou nos porões da ditadura e o envolvimento de Simonal no episódio.
Jaguar

Jaguar

Paulo Moura

Paulo Moura

Talvez por ser contemporâneo desta história, talvez por vê-la contada de forma tão magistral, fiquei consternado com a sina do intérprete de “Meu Limão, Meu Limoeiro”.  Doeu-me vê-lo, ao final, esquálido e à beira da falência apresentando-se em atuações minúsculas, que nem de longe lembravam o fausto de seu passado. Ou quase aos prantos no programa Hebe Camargo desafiando quem apresentasse provas de que ele tivesse deveras denunciado alguém.

“Wilson Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei” é o retrato doloroso de um drama humano como poucos, que envolve num mesmo crisol a arte, a política, a injustiça, o olvido e a morte.

Jair Rodrigues

Jair Rodrigues

Por fim, comoveu-me uma das derradeiras cenas em que num recorte de jornal sob o título “Artistas ignoram o enterro de Simonal” vê-se a foto de Jair Rodrigues, ao velar seu caixão baixando à sepultura…  nem todos o abandonaram.

Descendo a rua da ladeira, só quem viu pode contar…

100% documentário

100% documentário

Não perca!  Assista ao trailer.

Vá!  Saiba onde ver.

maio 9, 2009

TRAVESSIA E MEDO

Capitão Mor versão mar

Capitão Mor versão mar

Porque soou-me pedante (e também pela métrica), não intitulei este post “Travessia e Coragem”… mas teria sido mais apropriado. Afinal, ele trata de travessias e da superação do medo, portanto a coragem.

Tens a manha?

11 hs direto... Tens a manha?

Há nesta Terra (prá não dizer fora dela…) tantas coisas que admiro. Algumas entretanto estão além da admiração, atingindo as raias do espanto. No que concerne à mente humana, o que dizer dos gênios e dos savants, pessoas dotadas de extraordinárias capacidades para realizar feitos que até Deus duvida? Ou, trazendo para a esfera das habilidades físicas, como não se assombrar diante da capacidade de um Ironman?

O Triatlo Ironman (homem de ferro), surgiu no Hawai e consiste numa disputa tríplice composta por 4 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e – ufa! – 42 quilômetros de corrida. O atual recorde (escrevo em 2009) foi estabelecido em 1996 pelo belga Luc Van Lierde, cujo tempo foi de 8 horas, 4 minutos e 8 segundos. E sem paradas!

Luc Van Lierde, the Superman

Luc Van Lierde, the Superman

A meu ver, trata-se de um estranho extremo extraordinário, ou coisa parecida. Como é possível que um homem possa nadar 4 quilometros (fácil?), pedalar 180 (putz… de repente complicou) e na hora de tombar morto ainda dar uma corridinha de 1 maratona (socorro!)?. É de fato um mistério, que se torna ainda mais presente quando por vezes sequer consigo correr direto os 6 quilometros da trilha grande do Ibirapuera…

Essa rampa já mata um...

Essa rampa já mata um...

São seres excepcionais. Mas nem precisa ser um Ironman (or Ironwoman, for that matter) para merecer minha admiração. No Triatlo Clássico, basta nadar 1,5 km, pedalar 40 kms e correr 10 kms prá completar a prova. É coisa demais! No que me diz respeito, creio que o máximo com que poderia sonhar (em participar, não vencer – e muitíssimo menos quebrar algum recorde) seria o Triatlo Sprint: 750 metros de natação, 20 kms de bicicleta e 5 kms de corrida. Mesmo assim, teria de treinar muito ainda.

Igor de Souza

Igor de Souza

Então melhor concentrar-se em apenas uma modalidade. No meu caso, a natação. Mas também aí, surgem as feras que nos deixam falando sozinhos. E nem me refiro à velocidade (dos Phelps e Cielos da vida), apenas à resistência. Prá ficar entre os brasileiros, admiro muito o tricampeão mundial de águas abertas Igor de Souza, o 3° homem a fazer (em 1997) ida e volta na travessia do Canal da Mancha, mas o único que voltou mais rápido do que foi, tendo concluído em 9 hs 31 min a ida e em 9 hs 02 min a volta.

Vou alí e já volto...

Vou alí e já volto...

Martin Strel

Martin Strel

Uma travessia dupla, non stop, portanto. Mas nem precisava… travessias simples também são feitos dignos de nota: como a realizada em 2007 pelo esloveno Martin Strel que, tendo caído n´água no Perú foi nadando pelo Rio Amazonas, ao longo de 65 dias, até chegar a Belém, 5.265 quilômetros depois. Aos 52 anos, Strel nadou entre piranhas e outros perigos e, ainda que seu ritmo tenha caído quase à metade no final, na maior parte da aventura percorreu cerca de 90 quilômetros por dia. Tudo bem que foi rio abaixo, mas… é mole?

Repetitivo, mas gostoso!

Repetitivo, mas gostoso!

Lembro-me que em 1987, quando iniciei como repórter do telejornalismo da TV Record, tive a oportunidade de cobrir uma edição da travessia Ilhabela – São Sebastião, acompanhando (embarcado, bem entendido) o líder da prova, que mantinha boa distância do segundo colocado. Ao final, já na praia e com água até os joelhos corri até o vencedor, um garoto de uns 17 anos, para colher suas primeiras palavras, que foram: “Não é prá qualquer um!”. E eram, se bem me lembro, apenas uns 3… 4 kms.

Mas cada pessoa tem seus próprios limites e é dentro deles que deve estabelecer seus desafios. Eu, que não sou triatleta, nem biatleta, nem atleta e nem porra nenhuma além de um empresário que fica o dia inteiro sentado, esquentando a cabeça diante de um computador, decidi investir na travessia de águas abertas, porém mais modestas. E é o que tenho feito.

Eu, em 1968

Eu, em 1968

Onde tudo começou.

Onde tudo começou.

Meu interesse pela natação começou nos idos de 1968, quando meu pai nos comprou um título de sócio-proprietário do Clube Atlético Aramaçan, de Santo André. Ali havia uma piscina bem pequena, onde aos 9 anos dei meus primeiros mergulhos. Ocorre que a menos de 50 metros daquela estava a piscina olímpica do Estádio Municipal Pedro Dell’Antonia… Naquela época havia um acordo entre o clube e a prefeitura, um portão aberto e nós tinhamos acesso livre àquela vastidão de água, que sob os trampolins chegava à assustadora profundidade de 5 metros.

Ali nadei muito, tudo bem erradamente (se é que o vocábulo existe) – como convinha a um pirralho que nunca havia tido lições de natação. Sinceramente, não sei como não me afoguei por aqueles dias. Essa foi minha brava e solitária iniciação.

Eu, em 1975

Eu, em 1975

Mas o desejo de aventurar umas braçadas além da relativa segurança das piscinas só veio mesmo aos 16 anos, numa tarde de 1975, quando caminhava numa praia cuja localização já não me lembro, do litoral norte de São Paulo. Eu estava perambulando pela areia quando acabei travando contato com uma turma de 4 amigos, todos mais ou menos da minha idade. Fomos caminhando juntos, dando risadas, até que surgiu um obstáculo: a praia acabava e só recomeçava uns 100 metros adiante, com um braço de mar entre as duas margens. Os caras nem se despediram… um deles olhou prá trás e disse “vamos nessa?” a resposta foi “tchibum”, “tchibum” e “tchibum”. Fiquei ali parado, que nem um tetraplégico, vendo os quatro se afastarem. Concluí que havia algo de errado naquilo… eu tinha de um dia vir a nadar daquele jeito também.

1 milha náutica

1 milha náutica

Doutra feita, muitos anos depois, já adulto, vi outra cena que me deixou sacaneado: estava eu com amigos tomando sol nas areias da Barra do Sahy quando vejo um cara fazendo aquecimento à beira d´água. Ele girava os braços prá frente e prá trás, curvava o corpo até tocar o solo e rotacionava o tronco, prá esquerda e prá direita… Curioso, fiquei olhando prá ver no que aquilo iria dar. Pois o cidadão mergulhou e saiu nadando, sozinho, em direção às ilhas. Fiquei de cara! Era muita coragem alguém sair daquele jeito, em direção ao mar aberto, tendo à frente absolutamente nada até poder atingir terra firme outra vez já perto do horizonte. Aquilo só fez aumentar minha revolta pessoal por não ter a coragem necessária. Hoje, graças ao inacreditável Google Earth, sei que ele nadou exatos 1700 metros até atingir o canto da ilha. Na ocasião pareceu-me uma loucura. Na verdade, ainda agora me parece… não mais pela distância (que hoje está ao meu alcance), mas pelo fato de perfazê-la só. Loucura? Coragem? Ambas?

Grito ou não grito ??

Grito ou não grito ??

E entre estes vários episódios, perdi a conta das vezes em que me vi em apuros a 50m da praia… Sempre a mesma história: Entrava no mar para nadar “só até ali” e na volta tinha a nítida sensação de não estar fazendo progressos em direção à areia. Imediatamente, sobrevinha o medo beirando o pânico. Da última vez que isto aconteceu, em 2006 em Itamambuca, fiquei a uma braçada de gritar por socorro. Uma dúvida estranha apossou-se de mim: enquanto me apavorava achando que o mar estava me arrastando pra dentro, por pura vergonha relutava em pedir ajuda. Eu pensava: “grito? não… se eu gritar vou criar o caos. Vou tentar mais umas braçadas na diagonal”. Por muita sorte, eu estava certo e saí vivo. Mas muito puto por ter me metido pela enésima vez na medésima roubada.

Mundo à parte

Mundo à parte

Voltando ao passado: Certa feita um amigo, Renato, me disse “Você já mergulhou com snorkel?”. E eu perguntei “Pra que?”, ao que ele respondeu “Pra ficar vendo os peixinhos… é o maior barato”. Gostei. Comprei não só a idéia como também nadadeiras, snorkel e cinturão de lastro. Isso foi em 1991, em Parati. Nesse mesmo ano, comecei a levar o aprendizado a sério e matriculei-me como aluno do curso de natação da academia Aquasport, da Vila Madalena, próxima de onde eu morava. Foi ali que tive a revelação de que realmente adorava nadar. Ao final de cada aula eu tinha a grata constatação de que havia de fato aprendido alguma técnica nova, aperfeiçoado algum procedimento ou ganho força extra n’alguma musculatura específica. Quero dizer que era tangível o meu progresso, dava para senti-lo dia a dia, nítida e muito prazerosamente.

Eu, em 1994

Eu, em 1994

No final de 1994, convidado para trabalhar na EPTV, mudei-me para Ribeirão Preto e imediatamente tratei de achar uma academia para continuar o aprendizado. Fui parar na Esporte & Cia, no bairro dos Campos Elíseos, a única que conheci até hoje cujas paredes da piscina projetavam-se para fora do chão. Era um tancão, porém muito honesto e de dimensões semi-olímpicas. Nunca havia ninguém na água naquele horário da noite e eu ficava ali absorto, indo e voltando… indo e voltando… sempre nadando crawl.

35m a 40km

35m a 40km

Logo alí, a um tirinho de arpão

Logo alí, a um tirinho de arpão

Em 1995, ao fazer uma reportagem sobre a abertura de um curso de mergulho que teria lugar na piscina olímpica do Centro Universitário Moura Lacerda, fui convidado pelo instrutor, o grande TC, a participar gratuitamente. Uma bolsa de estudos, portanto. Desnecessário dizer que agarrei com ambas as mãos aquela oportunidade de, literalmente, aprofundar meus conhecimentos aquáticos. E por vários domingos consecutivos passei as tardes aprendendo as técnicas do mergulho autônomo (com garrafas). Até que numa bela manhã, fomos de lancha para o “batismo” na Laje de Santos, a 40km do continente, onde pude descer à profundidade de 35m e constatar que mergulhar é de fato uma das melhores coisas a se fazer durante esta breve passagem pelo planeta.

Olímpica do Moura Lacerda

Olímpica do Moura Lacerda

Depois disso voltei ainda várias vezes à piscina do Moura Lacerda quando, nas tardes de domingo, o TC estava ali com seu grupo de alunos. Enquanto eles aprendiam mergulho, eu treinava natação. O local era fantástico: uma piscina olímpica no alto de um morro e cercada de árvores. E foi nela que bati meu recorde de distância de nado contínuo (que permanece até hoje…): 5.200 metros. Quase nada, mas que me tomou umas 3 horas.

Prá ir foi fácil...

Prá ir foi fácil...

Embevecido com a novidade do mergulho, fosse autônomo ou livre (apenas com snorkel, sem garrafas), quase ia me metendo em fria… um dia, em 1998, novamente na Barra do Sahy, munido de snorkel e nadadeiras fui beirando as pedras ao final da praia, contemplando os peixes e as formações rochosas no chão do mar, no máximo uns 3 metros abaixo. Nadei e nadei, só curtindo aquele visual. De repente, notei que os peixinhos haviam crescido… do nada, haviam se tornado peixões. Imediatamente, percebi também que o chão havia sumido e, vendo as formações rochosas enormes abaixo, senti-me como que sobrevoando os arranha-céus de uma megalópole. Algo estava errado.

Marzim virô marzão!

Marzim virô marzão!

Levantei a cabeça para ver onde estava e assustei-me com o que vi: eu havia nadado uns 500m, até onde as pedras fazem a curva e estava já de cara para o mar aberto. O problema é que a enorme rocha que descia a montanha era absolutamente lisa, não tendo ali a mínima chance de encontrar um ponto onde se agarrar, caso fosse necessário. Pensei “que cazzo eu tô fazendo sozinho aqui?”. E imediatamente comecei a voltar. Mas no caminho tive o azar de ter água entrando no snorkel e batendo diretamente no pulmão. Aquilo foi o fim… consegui agarrar-me numas rochas que sobressaíam à flor d’água e me ralei todo. Mas consegui ficar ali o tempo suficiente para tossir e recuperar o fôlego. Não houvesse aquelas pedras, acho que teria entrado em pânico, com consequências… digamos… imprevisíveis.

Eu, em 1998

Eu, em 1998

O velho estádio, hoje reformado

O velho estádio, hoje reformado

Tendo concluído meu ciclo de vida em Ribeirão Preto (2 anos), voltei para o aconchego da casa paterna, em Santo André, para recuperar as energias (e as finanças…). Então, sempre em 1998, fui treinar no mesmo Estádio Pedro Dell’Antonia da minha infância, desta vez, porém, na piscina coberta semi-olímpica, onde treinava a equipe de natação da cidade. Foi muito complicado, porque os caras nadavam demais… Eu era sempre o último a chegar nos “tiros” de 50 e 100 metros. E, ao contrário dos demais, que ao chegar ficavam parados me esperando, quando eu chegava já tinha de sair novamente sem qualquer pausa para descanso. Fiz o que pude, porém não era para mim. Mudei para outra academia da cidade.

Mas após isso, concluí que meus problemas de rinite deviam-se ao cloro das piscinas e resolvi dar um tempo com a natação. Foi uma péssima idéia que me afastou por quase 10 anos das águas que tanto bem me fizeram. Após esse período (e 2 cirurgias no nariz), percebi que a rinite persistia com ou sem cloro (ou cirurgia) – e que com essa enorme pausa eu havia apenas perdido tempo e fôlego.

Capitão Mor

Capitão Mor

Água por água, em 2000, resolvi fazer um curso de vela na represa de Guarapiranga. Concluídos os breves estudos teóricos, embarquei num veleiro (um laser) e não consegui fazê-lo sair do lugar. Então decidi alugar um daqueles barcos por 3 meses, para aperfeiçoar os conhecimentos, e foi aí que entendi como é que a banda tocava. Quando captei o princípio da vela, sumi pelos recônditos da represa e, ao longo daquelas 12 semanas, explorei-a sozinho de cabo a rabo. Não sem virar o barco uma centena de vezes, que o laser é extremamente arisco. Virava tanto que acabei ficando safo na arte de antecipar-me ao mergulho: quando percebia que a virada era iminente, saltava para a bolina que já surgia na lateral, com o peso do corpo puxava o barco de volta e imediatamente saltava de novo para dentro. Vivia roxo de hematomas, mas evitei assim muitos caldos desnecessários.

Brinquedão!

Brinquedão!

Nunca, durante estas emborcadas, senti um pingo de medo que fosse – com exceção do dia em que o colete que vestia pareceu enroscar-se nos cabos que estavam sob o barco virado. Foi só um susto, mas teria sido irônico morrer afogado por culpa do único acessório que estava ali exatamente para salvaguardar minha vida. O fato é que estas viradas me deram maior confiança em minha capacidade de sobreviver na água. Ainda assim tinha medo de travessias de longos trechos… sabia nadar, mas não sabia o que esperar de minha reação emocional quando me visse lá no meio, sem barco e longe de qualquer margem. Vivia com a idéia de pedir a algum amigo que me acompanhasse embarcado enquanto eu nadava, mas nunca cheguei a pô-la em prática.

Foi, mas não voltou.

Foi, mas não voltou.

Jamais pude esquecer a cena que vi num domingo de 1988, quando com meu amigo Emersão presenciei a morte de um nadador no lago do Parque Ecológico do Tietê. Estávamos os dois sentados à beira d´água quando o cara entrou para atravessá-lo, uma distância besta de uns 200 metros, se tanto. Na ida foi tudo bem, mas na metade da volta ele começou a se debater, o que nos chamou a atenção. Pude ouvir o som distante de sua voz que nos chegava rente à flor d’água gritando “eu vou morrer!”. Ele tinha amigos na margem que hesitavam em nadar em seu auxílio. Ele afundou uma, duas vezes e depois sumiu de vez. Então dois de seus amigos saltaram n’água para ir até onde ele estava, mas sabíamos que era tarde demais. Foi a única vez que vi alguém morrer.

Aqui se faz o aquecimento...

Aqui se faz o aquecimento...

Por estas e outras, em 2003, voltei a nadar em academia, desta vez na Oficina de Saúde, de meu amigo Mario Colombo, novamente na Vila Madalena… mas, por alguma razão, parei de novo. Só retomei a prática em 2008, quando me inscrevi na ACM da Praça Roosevelt. No princípio ia lá e ficava nadando sozinho, cerca de 1500m por noite. Mas aquilo era maçante e me incomodava imensamente aquele pessoal conversando dentro da água, nas cabeceiras, impedindo-me de fazer as viradas. Achava o cúmulo, porque piscina é prá nadar e não conversar – e reclamei com a diretoria. Diante da resposta de que “isso é assim mesmo, não há o que possamos fazer porque eles também são pagantes”, desisti de continuar ali e, outra vez, abandonei as raias.

Achei o que eu queria...

Achei o que eu queria...

Essa situação só mudou meses depois, quando recebi em casa um exemplar da revista da ACM no qual havia uma reportagem sobre as travessias de águas abertas coordenadas pelo instrutor Bruno. Quando li aquilo, meus olhos brilharam, ao mesmo tempo em que senti um calafrio percorrer a espinha. Ali estava a chance de eu demonstrar a mim mesmo que, sim, eu podia atravessar a nado uma represa ou coisa parecida. Era uma obsessão! Criei coragem e entrei em contato.

Bruno

Bruno

O Bruno é um garoto de uns 22 anos, formado em Educação Física com especialização em esportes aquáticos, a quem devo muito por ter-me insuflado a coragem suficiente para as primeiras aventuras em águas grandes… Ele se dispôs a acompanhar-me em quantas travessias fossem necessárias até que eu tivesse os culhões de nadar sozinho. E eis que chegou a oportunidade… Iria haver uma travessia no Guarujá e eu poderia escolher entre as três opções de prova: de 500, 1000 e 1500m. Claro que escolhi a menor – e mesmo assim com um baita cagaço. Quinhentos metros na água é distância suficiente prá se morrer umas 490 vezes. A prova estava marcada para o dia 24 de maio, mas foi adiada devido às más condições do mar… brrrrrr

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1ª TRAVESSIA (marítima – 500m) – Guarujá SP
(23°59′8.71″S; 46°12′48.90″O) – Praia da Enseada
5ª etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 08.06.08 – Manhã nublada de outono

Praia da Enseada - Guarujá

Praia da Enseada - Guarujá

Tchurma da ACM

Tchurma da ACM

E a primeira travessia foi, até hoje, a mais dura que enfrentei. Prá ser exato, a largada da primeira travessia. Era junho de 2008, estávamos na praia da Enseada, no Guarujá e havia uma multidão de gente em trajes de banho, todos prontos para largar quando soasse a buzina de suas respectivas baterias. O Bruno e eu levávamos no pulso uma fita da mesma cor, indicando que se tratava de uma travessia acompanhada. Eu estava nervoso e o mar, como um cão, parecia sentir isso – estava agitado, com ondas grandes vindo em direção à praia. No último momento, outra novata juntou-se a nós, contra a vontade do instrutor – que não teve tempo de dizer não.

Tipo assim...

Tipo assim... dai prá pior!

Soou a buzina. Todos correram em direção à água. Eu corri também, mas o mar estava jogando com força prá fora. Tratei de mergulhar. O Bruno gritava “vai bem por baixo da onda”. Eu saía de uma onda e, ainda ofegante, tinha de encarar outra, todavia maior. Estava descoordenado, meu coração aos pulos, nada dando certo. Comecei a sentir muito medo, pensei “como vou entrar neste mar com o coração acelerado desse jeito? Eu vou é morrer aí dentro”. E gritei ao Bruno: “Cara, eu não vou. Vou começar por uma represa…” E ele, que conhecia meu nado, dizia, “Vamos lá, Elcio, você consegue!”. Não dava tempo de pensar. Já sem ter pé, lá vinha outra onda me afogando. Eu estava tão apavorado que não me dei conta de que entre uma reclamação e outra havia progredido o suficiente para passar a arrebentação.

2 Iniciantes e 1 instrutor

2 Iniciantes e 1 instrutor

Então olhei à frente e o que vi contrastava totalmente do que via há um segundo… diante de mim o mar se abria plácido, calmo, lindo como um lago convidativo. Percebi que havia uma clara divisão ali, e que eu havia vencido a pior parte. Ainda aturdido, estava praticamente parado, só boiando e nadando “cachorrinho”. Olhei para a bóia, que estava lá dentro, a uns 150m, e criei coragem: saí em crawl em direção ao alto-mar. Neste momento, como que por mágica, meu coração mudou de marcha e, de descompassado que estava, passou ao “regime de natação” : compassadíssimos tum-tum, tum-tum, tum-tum… Surpreendi-me, nunca havia sentido algo assim. Aquilo, mais o grito do Bruno de “É isso aí, Elcio, agora é só ir nadando” foram suficientes para me convencer de que eu tinha uma chance de sair daquela vivo. Fui… arrastando pela asa o meu relutante anjo-da-guarda.

Putz... melhor sair nadando...

Putz... melhor sair nadando...

Virei a primeira bóia à direita e esta foi minha primeira vitória! Empolgado, continuei em direção à segunda. Mas quando a ia contornando ouvi a voz do Bruno dizendo: “Elcio, espera aí”. Parei, virei prá trás e entendi que ele estava querendo que ficássemos próximos para esperar a outra nadadora que também estava sob os seus cuidados. Enquanto esperávamos ele disse: “Quando chegar lá no jacaré, pare de nadar e apenas estenda os braços”. Ao que respondi “OK!” Então, ali parado com tempo de sobra e sossegadão, olhei em direção à praia. Gelei! Estava longe pacas… A realidade (e a precariedade) da situação desabou sobre mim como um tsunami. Assustado, desobedecendo as ordens do instrutor, saí nadando direto em direção às flâmulas da chegada. Em poucos minutos, atingi a “zona do jacaré” a que ele se referira… Foi uma sensação única: senti-me despencando por uma onda que devia ter a altura de um sobrado ou coisa parecida, o fim nunca chegava… uma delícia! Enfim, areia… são, salvo, ofegante e realizado. Ganhei até um troféuzinho, que não esperava, pela participação. Embora tenha sido na água, foi um batismo de fogo!

Trofeuzinho sabor trofeuzão

Trofeuzinho sabor trofeuzão

Fiquei em 12° lugar entre 13 competidores na minha categoria. Mas nunca uma penúltima colocação teve tanto sabor de vitória, contra o medo e a morte. Então, dessa 1ª travessia no Guarujá, à qual fui em companhia do meu amigo Geléia (que enquanto nadávamos ficou apreciando tudo embarcado num caiaque emprestado, que transportamos no bagageiro do meu carro), tirei 3 lições:

- Num mar que não esteja decididamente revolto, o difícil é a arrebentação. Passada a faixa de turbulência, a realidade é outra e muito agradável. Portanto, cabeça fria e objetividade nos movimentos até chegar aldilá das ondas, furando-as bem por baixo.

- A menos que já se esteja dominando a visão das longas distâncias, não se deve parar. A distância até a margem pode assustar e alterar o equilíbrio emocional, afetando o nado e todo o resto. Mas isso se supera logo, com mais uma ou duas experiências já se ganha alguma autoconfiança…

- Quando voltando do mar, na zona de arrebentação, ao invés de nadar melhor jacarezar em paz, numa boa. Sobretudo se o mar estiver grande… a sensação é ótima!

Vários tipos de fumaça...

Vários tipos de fumaça...

A partir daí passei a sentir prazer em comparecer aos 3 treinos semanais na piscina da ACM. O fato de ter travessias agendadas à frente é um excelente estímulo para o que de outra forma poderia tornar-se um tanto maçante, ainda que com instrutores as aulas tenham ficado bem mais variadas do que quando eu ia lá nadar sozinho. Agora há desafios: além dos 4 estilos, exigem-se “tiros” de 25, 50, 100, 200 e até de 400m que são verdadeiras torturas, porque a velocidade não é meu forte. Aliás, depois de fazer mau uso pulmonar durante tanto tempo (não fumo mais nada), hoje tenho alguma dificuldade com o fole e acabo sendo o café-com-leite da raia, chegando sempre atrás de todo mundo. Mas como bem disse minha amiga Marta: “estamos pagando pelas loucuras que fizemos”. E é a pura verdade e tá tudo certo, afinal “não dá prá atravessar a vida sem cicatrizes” (essa é minha).

Álcool e água não se misturam

Álcool e água são imiscíveis

Mas de fato nenhuma droga combina com natação… lembro-me de uma história real que me foi contada por um amigo: ele morava em São Vicente, defronte ao mar, e quase todos os dias fazia a travessia até a Ilha Porchat, ida-e-volta, num total de 2.600 metros. Um belo dia, tendo tomado umas com os amigos, lançou-se na água como de hábito e, no meio do trajeto de ida, começou a sentir vertigens e chegou a ver a morte rondando… traumatizado, nunca mais voltou a nadar em águas abertas. Álcool é literalmente uma droga!

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2ª TRAVESSIA (marítima – 500m) – Santos SP
(23°59′09.90″S; 46°18′35.14″O) – Canal 6
6ª etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 29.06.08 – Manhã ensolarada de inverno
Canal 6 - Santos

Canal 6 - Santos

Sai da frente, grandão

Sai da frente, grandão

Bem, se a primeira deu certo… não vejo porque esta não daria. Então partamos para nossa segunda travessia de 500m, ainda acompanhado pelo nosso mentor Bruno. Fui para a baixada sozinho, bem cedo, tentando precariamente manter o equilíbrio entre chegar a tempo e não ser (mais uma vez) vítima da indústria de multas que assola a região (não consegui…). Um dia bonito e enfim estamos num canto da praia de Santos que já se aproxima pacas da rota dos grandes navios. Eles são sempre uma visão magnânima! Apenas uma fieira de bóias amarelas nos separava.

É nóis...

É nóis...

Na areia, muita gente, pessoas vindas de várias academias. Tem homem, tem mulher, adulto, criança, aleijados que apóiam-se em muletas até a hora de cair n’água. Travessias realizadas próximas da capital costumam atrair um bom público. Tudo certo, já com o chip preso ao calção, aguardo ansiosamente pela buzina da largada, um som que sempre me deixa nervoso porque indica que é hora de sair em desabalada carreira, dando braçadas queném um fugitivo de Alcatraz. Uoooooooooooooóóóóóoó!! chap-chap, chap-chap, chap-chap… Ainda deu tempo de ouvir o Bruno gritando “Beleza, Elcio, as braçadas tão fortes!” E não ouvi mais nada. Só tinha em mente chegar àquela bóia que estava posicionada uns 150m à minha frente. O Bruno vinha na retaguarda, tranquilo apesar de já ter feito uma travessia de 1000m naquela manhã (prá estas coisas, ter 20 e poucos anos ajuda pacas…).

Ufa... deu certo de novo

Ufa... deu certo de novo

Enfim atingi a primeira bóia e a circundei à esquerda, sem problemas. No arranque para a segunda bóia, que estava a uns 200m, consegui até ultrapassar alguém. Fiquei me achando! Atinjo a segunda bóia, circundo-a pela esquerda e parto decidido em direção à chegada, na praia quando… cóf-cóf, cóf-cóf puta-que-o-pariu, bateu água no pulmão. Imediatamente paro de nadar crawl e entro no modo “cachorrinho”, que é sempre a minha primeira defesa reflexa em emergências na água. O erro foi de iniciante, porque o mar tem marolas… além disso, a necessidade de olhar para frente em busca do rumo enquanto aspirando o ar pela boca expõe o nadador a uma situação de risco. Eu não sabia nada disso, vacilei e agora estava ali, toss… cof-cof cof-cof …indo em pleno oceano.

Só alegria!

Só alegria!

Com água salgada no pulmão a mais de 100 metros da praia, eu não estava exatamente tranquilo. Não dava prá nadar crawl, porque o pulmão queimava… Então disse prá acalmar o Bruno, que havia parado e dava sinais de nervosismo: “Não estou apavorado, eu chego lá só que vou nadando de peito”. Ele não só discordou como ficou botando pilha “Nada disso! Vamos lá, Elcio. Não dá prá ficar parado aqui. Vamos embora!”. Nisso já vinha chegando o barco do resgate, com um papinho meigo do tipo “E aí meurmão, vai ou não vai?”. Pressionado daquele jeito, já derivando para as bóias que arranhavam por estarem cheias de cracas, meti a cabeça na água e comecei a nadar crawl, mas a queimação no pulmão era insuportável. Simplesmente, eu não havia tido tempo de tossir o suficiente. Parei, tossi mais um pouco e voltei a nadar. Cheguei na praia com os pulmões em brasa. Ainda que na 11ª posição entre 12 nadadores na categoria, concluí o trecho! E em se tratando de água é isso o que importa.

Tô começando a gostar...

Tô começando a gostar...

Então, dessa 2a. travessia em Santos, tirei 2 lições:

- Não importa onde esteja nadando, nunca se pode deixar a água bater no pulmão. No mar, devido às marolas, é uma situação ainda mais delicada… Por vezes a água entra na boca, às vezes até desce pelo esôfago. Tudo bem. Mas na traquéia é totalmente proibido, por razões óbvias. Assim, toda atenção é pouca na hora de respirar. E o cuidado deve ser ainda maior na hora de olhar para frente para checar o rumo.

- Se a água entrar no pulmão, é preciso parar, flutuar e tossir o que for necessário, sem se desesperar. Isso é bem mais fácil de escrever do que fazer… Se for para entrar em pânico, é preferível lançar mão do último recurso: a posição que considero a mais segura dentro da água (embora nunca a tenha testado numa situação de emergência) – boiar de costas.

Adoro Bertioga

Adoro a balsa e Bertioga

Peguei minha Parati parceirona e caí na estrada em direção à balsa de Bertioga, sonhando em lá celebrar a vida com um peixe e uma cerveja. Das 3 travessias que se seguiram, não participei de nenhuma. Não porque não quisesse, mas por adversidades… A próxima foi:

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1ª TRAVESSIA FRUSTRADA (marítima – 500m) – Bertioga SP
(23°51′02.72″S; 46°08′01.01″O) – Praia do Forte
7ª etapa etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 17.08.2008 – manhã ensolarada de inverno
Praia do Forte, Bertioga

Praia do Forte, Bertioga

Era inverno mas não fazia frio. Havia sol e a praia estava lotada de banhistas e nadadores aguardando para lançar-se à água… No entanto, a comissão organizadora hesitava. Havia muita correnteza e eles temiam pela integridade dos participantes, porque na organização de uma travessia é preferível que todos os que partiram voltem… Haviam liberado uma bateria de 500m, o tempo passava e nada de liberarem as saídas das demais. A barra estava pesada para os que iriam nadar 500m, considerados (não sem razão) inexperientes.

Pria do Forte

Praia do Forte

De repente uma mãe começa a chorar na praia, porque dois de seus filhos não haviam retornado da prova. Isso causou muita comoção e várias pessoas empenharam-se nas buscas, inclusive 3 dos instrutores da ACM que partiram a nado. A situação permaneceu tensa por um bom tempo, até que chegaram os rapazes sãos e salvos, nadando. De fato, eles haviam sido arrastados pela força do mar e acabaram resgatados por um dos barcos de apoio, que os tirou dali e os devolveu à prova num ponto mais seguro à frente (não que isso seja válido para a contagem de pontos). Aí quem se deu mal foram os 3 instrutores, o Bruno inclusive, que acabaram caindo na correnteza do canal. Tiveram de lutar para voltar, aplicando todas as técnicas e forças à disposição… Deu certo, mas o fato demonstrou que a brincadeira é séria.

Mais tarde, após infinitas elucubrações, o comitê organizador decidiu cancelar as provas de 500m e soltar apenas as de 1000m e 3000m, compostas por nadadores teoricamente mais experientes. Fiquei naquela praia das 08:30 às 13:00 aguardando a decisão. No fim não participei, mas meu nome consta da lista. E como ficou valendo apenas a ordem alfabética, ainda conquistei um honroso 6° lugar dentre 14 participantes da categoria, hehe.

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2ª TRAVESSIA FRUSTRADA (marítima – 500m) – Bertioga SP
(23°49′19.81″S; 46°02′44.63″O) – Canto do Indaiá
8ª etapa etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 14.09.2008 – manhã chuvosa e congelante de inverno
Canto de Indaiá, Bertioga

Canto de Indaiá, Bertioga

Por estes dias, não era prá ser mesmo. Tendo descido a serra em vão na travessia passada, esperava melhor sorte desta vez. Sobretudo porque o tempo não estava nada convidativo e tive de fazer força para me convencer a ir… chuva e frio, em pleno inverno. No inverno as travessias são somente no mar, porque as águas doces costumam ficar geladas demais.

Canto do Indaiá

Canto do Indaiá

Como ninguém se animou a ir comigo, fui só. Lá chegando, ao Canto do Indaiá, no extremo norte da praia da enseada de Bertioga, preparei-me para o que viria: calção, touca, óculos e… mais nada. Fazia frio, muito frio. Chovia e ventava. Meu instrutor não iria participar porque estava numa maratona aquática em Buenos Aires, mas eu não só estava disposto a nadar sozinho como aguardava ansioso pela liberação da minha bateria. Queria cair na água logo e acabar com aquele sofrimento, porém estava claro que isso ainda iria demorar… Congelado, não deu prá suportar aquela roubada: de sunguinha numa situação em que deveria estar de camiseta, camisa, blusa e impermeável. Devolvi o chip na mesa da organização e o rapaz perguntou “Não vai nadar?”, ao que respondi “Vim aqui prá me divertir, não prá sofrer”. E como ainda dava tempo, subi a serra para almoçar no aconchego da companhia dos meus velhos.

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3ª TRAVESSIA FRUSTRADA (represa – 500m) – Alumínio SP
(não sei o ponto exato onde foi) – Represa de Itupararanga
9ª etapa etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 19.10.2008 – não sei que tempo fazia, mas já era primavera
Represa de Itupararanga, Alumínio

Represa de Itupararanga, Alumínio

Nessa eu não fui porque tava podrão, acho que com um resfriado brabo, se bem me lembro… Ficou prá próxima!

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3ª TRAVESSIA (represa – 500m) – São Roque SP
(23°37′02.84″S; 47°13′34.74″O) – São Roque Iate Clube
10ª etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 09.11.08 – Manhã ensolarada de primavera
Iate Clube - Ibiúna

Iate Clube - São Roque

Represa é mais fácil

Represa é mais fácil

Domingão, ainda com o galo cantando eu saio de casa prá buscar o brother Geléia, meu parceirão das aventuras aquáticas, que iria me fazer companhia em mais esta empreitada. Fomos prá represa de Itupararanga, entrando por São Roque. O local, o São Roque Iate Clube, era simpático e a represa estava convidativa. Era a primeira vez que eu iria cair na água sozinho, então assim que cheguei já dei umas braçadas para fazer as pazes com os elementos… Tudo certo com exceção de haver esquecido o filtro solar… Havia barracas vendendo calções e camisetas, mas não filtros solares. O resultado foi o esperado: queimaduras e desconforto.

Saudável e bronzeado

Saradão e bronzeadaço

Então a prova começou, atirei-me n’água e percebi que enquanto eu estava a 10 metros da margem havia uns carinhas que estavam já a uns 100… não dá prá pensar nem em acompanhar, quem dirá competir. Tem gente que nada muito. Aí minha preocupação passou a ser não ser o último… então dei umas olhadas de rabo de olho prá me certificar de que havia atrás gente ainda mais lerda do que eu. Foi um estímulo. Mas enquanto a prova evoluía, até alcancei e ultrapassei alguns que haviam largado na frente. Legal, porque eu me sinto o Mark Spitz nessas horas… É ridículo, mas uma sensação gostosa. E a prova transcorreu absolutamente uneventful até a chegada. Fiquei feliz e dela tirei duas lições:

- Dá prá fazer uma travessia lisinha, sem novidades. Nem sempre tem de ter algum enrosco…

- Não dá prá esquecer o filtro solar.

Dos 12 que partiram na minha categoria, só 9 chegaram à minha frente. Peguei o 10° lugar. Para um domingo cuja opção era ficar no sofá vendo o Discovery, tá bom prá cacete!

Não é uma graça?

Não é uma graça?

Rio Quiririm

Rio Quiririm

Aí chegou o fim do ano e graças à hospitalidade dos meus amigos Emersão e Edsão, proprietários da deliciosa Pousada Canto de Itamambuca, fui pra praia do Poruba descansar da visão dos edifícios. Ali, numa bela tarde de dezembro, fui para o Rio Quiririm preparar-me um pouco, ao menos psicologicamente, para a próxima travessia. Então naquela paz da Mata Atlântica, subi nadando o rio e aproveitei para entender de vez algo que já fazia de forma um tanto desordenada: a frequencia com que olho prá frente em busca do rumo.

Fiz vários estudos enquanto nadava e descobri que para mim o ideal é uma olhada frontal para cada 3 braçadas. Em travessias, utiliza-se o bloqueio 2:1, o que significa que se tira a cabeça da água para respirar a cada braçada do mesmo braço, no meu caso o direito. Portanto a cada 3 braçadas do braço direito, aproveito o momento em que a mão está fazendo apoio na água para olhar rapidamente à frente antes de virar a cabeça para o lado em busca de ar. Para mim, dá certo para manter-me no rumo sem me cansar.

Raia de estudos

Raia de estudos

Fui até depois da curva e voltei, até porque já era tarde em breve chegariam as muriçocas. Depois vi no Google Earth que a distância percorrida foi de exatos 1000m, por coincidência. Isso me deu uma certa tranquilidade para enfrentar minha primeira travessia fluvial, ainda de 500m.

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4ª TRAVESSIA (fluvial – 500m) – Iguape SP
(24°42′35.15″S; 47°32′32.34″O) – Ponte do Mar Pequeno
1ª Ecotravessia de Iguape
Domingo, 01.02.09 – Manhã ensolarada de verão
Mar Pequeno - Iguape

Mar Pequeno - Iguape

Iguape - Ilha Comprida

Iguape - Ilha Comprida

Geléia, meu brother

Geléia, meu brother

Uma vez mais, mano Geléia foi dar uma força e passar um domingo diferente. Eu não conhecia o caminho para Iguape e nem a cidade. Achei tudo muito bonito, a começar pela BR-116, no trecho da Régis Bittencourt que começa passando o Embú das Artes. Desta vez o organizador era outro, e as metragens eram diferentes. Havia provas de 500m e 1500m. Como Iguape é longe da capital, havia pouca gente, não mais do que umas 40 pessoas. A travessia seria bem debaixo da Ponte do Mar Pequeno, onde o rio tem exatos 500 metros de largura.

Foi daqui prá lá...

Foi daqui prá lá...

A correnteza estava forte pacas. O Bruno disse “nem tente nadar direto, tem de ir na diagonal”. Então peguei um ponto de referência já bem a montante do rio, na outra margem… a torre de uma igreja. E quando soou a largada saí que nem um boi bravo, lutando contra a água. Tinha mesmo de nadar na diagonal, com o corpo na diagonal, o que desperdiça muita energia. Além disso, a braçada encontra água que já está correndo no mesmo sentido da mão, o que diminui o apoio e… desperdiça mais energia. A conclusão disso tudo é que quando estava bem no meio do rio senti que a água estava me vencendo. Fiquei ofegante, perdi o ritmo e um segundo depois me encontrei parado, boiando, nadando cachorrinho… é automático nessas horas. Estava tranquilo, enquanto recuperava o fôlego olhei para frente para avaliar a distância faltante… de fato, ainda estava na metade do trajeto. Quando já estava decidido a retomar as braçadas (porque parado não dá prá ficar) o barco dos bombeiros aproximou-se e um deles gritou “E aí, garoto, tá tudo bem ?” Nem respondi. Grato pelo “garoto”, meti a cabeça na água e saí rasgando em direção à chegada.

Caraca, parece cola...

Caraca, parece cola...

Queném caranguejo

Queném caranguejo

Não foi muito fácil não, mas cheguei ao ponto em que afundei na lama até os joelhos. Exausto, apoiei também os braços e afundei até os cotovelos. Quase fico preso naquela gosma que me sugava, na frente de toda a platéia que estava em cima da margem do rio. Fui fazendo um baita esforço prá sair daquela situação e enfim consegui. Teve um camarada que não atendeu às advertências de nadar em diagonal e foi parar bem mais prá baixo, prá lá da ponte, tendo sido resgatado pelos bombeiros. Desse mico me livrei.

Êee.. s'imbora tomar uma!

Êee.. s'imbora tomar uma!

Essa não foi fácil...

Essa não foi fácil...

Dessa travessia aprendi uma lição importantíssima:

- Não se pode estressar o pulmão. É necessário imprimir um ritmo, sobretudo na saída, com o qual o sistema cardio-respiratório se sinta confortável. Caso contrário é certeza de ter de parar para recuperar o fôlego o que, embora nada crítico, nunca é o ideal.

100 km/h ! e sem radar...

100 km/h ! e sem radar...

Banho doce na torneira de um posto de gasolina e dali atravessamos a ponte prá ir almoçar em Cananéia, via Ilha Comprida, o que foi mais uma aventura. Vai-se com o carro pela areia, a mais de 100km/h, sabendo que se o cálculo da maré estiver errado e o mar subir… adeus carro, porque não há por onde sair.

... só não pode parar!

... só não pode vacilar!

Mas não foi desta vez e logo estávamos curtindo um peixinho num restaurante a beira-rio em Cananéia. Esses domingos de travessia costumam ser muito legais.

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5ª TRAVESSIA (fluvial – 2000m) – Peruíbe SP
(24°22′48.63″S; 47°02′21.89″O) – Rio Guaraú
4ª etapa do Circuito de Maratonas Aquáticas da Costa da Mata Atlântica
Sábado, 07.03.09 – Manhã ensolarada de verão
Rio Guaraú - Peruíbe

Rio Guaraú - Peruíbe

Chegamos, vamos prá + 1!

Chegamos, vamos prá + 1!

Após 4 travessias de 500 metros, estava na hora de ousar. E a próxima seria de 2000m. Eu, que me perguntava quando iria reunir a coragem necessária pra encarar uma de 1000m, de repente estava me inscrevendo para uma de 2000m! O que me inspirou a fazer isso foi o fato de que o nado seria fluvial, rio abaixo… Então, pensei, sempre haverá uma margem por perto se eu cansar ou coisa parecida. E fui com a cara e a coragem

Entradas e bandeiras

Entradas e bandeiras

A Travessia foi no Rio Guaraú, que fica no bairro de mesmo nome, alguns quilômetros prá lá do centro de Peruíbe, do outro lado de uma serrinha. A concentração foi num clube e dali saímos todos caminhando por cerca de meia-hora, mato adentro, até atingir o ponto do rio no qual seria dada a largada. Dali até o clube, rio abaixo, seriam 2000m. O lugar era inóspito, mata fechada mesmo. Para encarar o nado nesta nova distância, precavi-me comprando um saquinho de carboidrato em gel, então aproveitei para tomá-lo enquanto caminhava. O astral estava ótimo, durante a caminhada todo mundo ia fazendo piadas.

De 500m prá 2000m sem escala

De 500m prá 2000m sem escala

A água estava excelente. Aproveitei para tomar um bom gole, para diluir no estômago o gel, que é grosso que nem mel. Também era uma forma de fazer as pazes com os elementos… Dada a largada, comecei a nadar entre socos e pontapés, pois havia muita gente. Aos poucos, os corpos foram se distanciando e pude saborear uma das travessias mais gostosas que já fiz. O rio ia se desdobrando em curvas e a paisagem era linda. A correnteza era mansa, quase imperceptível e tudo estava ajudando.

Ôba, falta pouco!

Ôba, falta pouco!

Após uma das curvas, lá pela terceira ou quarta, a visão do mar se descortinou ao longe e para lá eu fui. Não tive dificuldade alguma em vencer os 2000m e achei tudo delicioso. A única coisa que não fiz foi acelerar… fiquei em 176º lugar, de 184 participantes, na classificação geral masculina. Mas quem tá com pressa?

Essa foi longa, mas tranquila!

Essa foi longa, mas tranquila!

Medalha... medalha... medalha!

Medalha... medalha... medalha! :P

Desta travessia também tirei lições, desta vez duas:

- Usar as pernas é muito importante para auxiliar na impulsão do corpo à frente. (Parece óbvio, mas é fácil errar) E para que ele seja eficiente é necessário manter a coluna à flor d’água, sem deixar o quadril afundar. Portanto, “empinar a rabeta” pode ser uma posição um tanto forçada, mas ajuda a natação.

- Em um portal de chegada, é necessário bater a mão em cima para definir o momento exato da passagem. Sob pena de desclassificação. (Ali por ignorância não bati, mas também ninguém estava muito preocupado com isso…)

Voltei prá São Paulo curtindo meu CD do Wim Mertens e com a sensação de missão cumprida.

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6ª TRAVESSIA (represa – 1500m) – São Paulo SP
(23°41′33.53″S; 46°43′05.81″O) – Represa de Guarapiranga
2ª Travessia Aquática Guarapiranga
Domingo, 22.03.09 – Manhã ensolarada de outono
Guarapiranga - São Paulo

Guarapiranga - São Paulo

Vamos tirar essa roupa, povo!

Vamos tirar essa roupa, povo!

Agora, pela primeira vez, a travessia seria bem perto. Fui na grata companhia de minha amiga Cláudia, que por essa época até andou alimentando idéias natatórias… O local era a ADC Eletropaulo e estava cheio de policiais, porque o evento contaria com a presença do prefeito, o que eu desconhecia. Na hora de visualizar o trajeto, sempre a mesma confusão: antes de cada travessia, um barco faz o que é chamado de “Congresso Técnico”, ou seja, ele percorre o trajeto que os nadadores deverão percorrer. Mas, por incrível que pareça, isso nunca é simples e sempre deixa margem a muitas dúvidas. Enfim, estávamos todos dentro da água aguardando a largada. Tendo acabado de tomar meu carboidrato em gel, desta vez não tive coragem de dar um gole na Guarapiranga… seria como sorver esgoto.

Saudável, ms insalubre...

Saudável, mas insalubre...

Buzina e vamos! A partida foi rápida e eu acompanhei. Logo percebi que naquele ritmo iria estressar o pulmão e ofegar. Já mais experiente, apenas afrouxei um pouco a marcha enquanto acalmava os brônquios com sutis mudanças na respiração. Deu certo, o mal estar que se avizinhava passou e deu lugar a uma sensação de “satisfação pulmonar”. Ou seja, tudo como tinha de ser. Mas a primeira bóia não chegava nunca… com muita gente à minha frente eu mal podia vê-la. Quando se está nadando, os olhos ficam num ponto-de-vista muito baixo, rente à água, e isso dificulta pacas localizar pontos à frente. No mar, que tem “depressões” às vezes fica impossível. Mas ali bastava tentar novamente na próxima braçada para visualizar a bóia, que por fim atingi, deixando-a pela esquerda.

Se a medalha já tava bom...

Se medalha já tava bom...

Na estilingada para a segunda bóia, sentindo-me bem para isso, pela primeira vez até arrisquei apertar um pouco o ritmo. Não tive problemas. Deixei a segunda bóia também pela esquerda e me mandei em direção à chegada. Nos metros finais, fiquei pau a pau com outro nadador, acelerei tudo e acho até que poderia vencê-lo por um braço não fosse um organizador que estava de pé à minha frente, o que me obrigou a ceder a vez para o adversário. Tudo bem, ainda assim fiquei com o terceiro lugar em minha categoria (não sei de quantos) e pela primeira vez ganhei, além da medalha de participação, um troféu! Ueba, quem diria? Com o tempo de 35:07.10 conquistei o 164° lugar, de 235 participantes, na classificação geral. Eu estava feliz e fomos comemorar num restaurante na Raposo Tavares, com direito a sobremesa no Embú das Artes que, aos domingos, recomendo. Como disse, os dias de travessia costumam ser sempre muito legais.

...imagina o troféu!

...imagina troféu!

Desta feita, 3 lições:

- A visão da bóia (ou de algum ponto de referência em terra) é fundamental para manter-me mais calmo. Nadar por nadar, sem ver para onde estou indo ou ter como avaliar o progresso, causa-me uma ansiedade desnecessária. Melhor conseguir ver a bóia a cada intervalo de 3 braçadas.

- Se o pulmão chegar a se incomodar pelo ritmo forte, dá perfeitamente para desacelerá-lo sem ter de parar de nadar. Basta perceber a tempo.

- Depois de estabelecido um ritmo confortável, dá até pra apertar um pouco. O que não se pode (no meu caso) é já sair acelerado… é preciso antes “amaciar” o pulmão.

Desta travessia, difícil mesmo foi só lavar o calção… devo tê-lo lavado umas 5 vezes e sempre saía água escura.

No momento em que escrevo, 00:41hs da sexta-feira, dia 30.04.09, relaxo do treino que tive há pouco e preparo-me para minha primeira travessia longa em água salgada. Serão 1800m em Bertioga no domingo próximo, na mesma praia onde há 7 meses quase congelei e, confesso, água salgada, com suas ondas e imensidões, me dá medo. Depois eu conto no que deu… se sobreviver, é claro.

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7ª TRAVESSIA (marítima – 1800m) – Bertioga SP
(23°49′19.81″S; 46°02′44.63″O) – Canto do Indaiá
6ª etapa do Circuito de Maratonas Aquáticas da Costa da Mata Atlântica
Domingo, 03.05.09 – Manhã ensolarada de outono
Canto do Indaiá - Bertioga

Canto do Indaiá - Bertioga

Ueba… Sobrevivi! Na sexta-feira, saindo do trabalho e ouvindo o rádio do carro o locutor conversava com o “homem-do-tempo:

- E então, como está o litoral prá esse fim-de-semana?
- O tempo virando e o mar tá bravo, com ondas de 2 a 3 metros…
- Ah… então você, que é metido a surfista, melhor não se arriscar dessa vez.
- Nem, melhor ficar longe!

.

Então beleza, se nem surfista tá se animando… grande estímulo. Uma dorzinha no ombro direito (mal-cicatrizado após um longínquo tombo de moto) e uma tosse persistente também não ajudavam muito. Mas nem tudo são flores, e eu tinha de terminar esse post aqui no blog. Não dava prá fugir da raia, assim, em público. Então vamos e lá veremos…

Domingão, acordo às 7. Ninguém prá descer comigo. No problem, fui só. Cheguei atrasado e quase perco a largada. Dia esplêndido, tempo quente. Olhei pro mar… calmo como uma represa. Ê maravilha, ainda bem que a meteorologia vive pisando na bola. Isso me animou muito e entrei na água prá ambientar o corpo e fazer as pazes com os elementos.

Será que vai ??

Será que vai ??

Olhei prá primeira bóia, ela estava a uns 700m lá dentro. Deveríamos contorná-la à direita e nadar uns outros 400m até a segunda e dali voltar prá praia. Pensei: zuzu zen! Estava confiante num recurso que havia adotado para o caso de necessidade extrema: havia amarrado, com um cabo de 1 metro, um apito no calção. Sim, um apito desses de fazer priiiiiiiiiiiiiiii. Calculei que se tudo o mais desse errado e eu tivesse de chamar o bote de resgate, tudo seria mais eficaz e discreto se apitasse, ao invés de ficar berrando “socorro”!

Em caso de "SOCOOOORRO!!!"

Em caso de "SOCOOOORRO!!!"

Dada a largada, saí procurando não forçar muito, prá manter a respiração sob controle. O início de uma travessia, para mim, é sempre algo um tanto estranho… uma sensação de “mas que merda eu estou fazendo aqui?”. No entanto, passa logo… Dá-lhe energia que a bóia tá longe, usemos também as pernas.

Prá frente é que se nada!

Prá frente é que se nada!

E aí ocorreu o único incidente da prova… lá pelos 400 metros, a touca começou a sair. Tinha de parar para ajeitá-la e isso implicaria interromper aquele ritmo que já havia estabelecido. Isso não é bom, mas não havia jeito, senão ela iria cair e com ela os óculos.

Então parei para arrumá-la e, parado flutuando, olhei prá bóia… Não prestou! Ao ver-me na água longe de tudo, o coração acelerou, o pulmão descompassou e comecei a sentir aquela sensação de pânico que tanto me assustou no passado. Mas desta vez, eu tinha um trunfo: não estava ali à toa e sabia disso. Pensei: “calma, você está preparado e é só retomar o ritmo da respiração que tudo irá voltar aos eixos”. Mas percebi que a respiração não melhoraria enquanto eu ficasse ali boiando… ficou claro que ela só iria entrar nos trilhos quando eu voltasse a nadar. Então, ainda ofegante, meti a cabeça na água e mandando leve comecei a controlar o pulmão. Deu certo. Em pouquíssimas braçadas havia recuperado o ritmo e a confiança. Serviu para constatar que, mesmo à essa altura do campeonato, ainda tenho muito chão antes de dominar o medo da água.

Só ir ali, virar e voltar.

Só ir ali, virar e voltar.

Aí prossegui tomando todo o cuidado para não deixar água entrar na boca numa marola qualquer. A cada respirada à direita, a visão do meu braço subindo ao céu contra o sol e espalhando água, embora muitíssimo fotogênica trazia uma certa apreensão: lembrava-me o tempo todo onde eu estava… passei a não prestar mais atenção nisso. E aos poucos o mar começou a crescer… Já perto da primeira bóia, sentia nitidamente os “tapas” prá cima e prá baixo que as ondulações davam. A clara sensação era de que ali já era água aberta e então, finalmente, alcancei a primeira bóia.

Não parei para admirá-la, circundei-a e mandei bala prá segunda… Fui ultrapassado por duas pessoas, que cruzaram em diagonal à minha frente. Maior trânsito em pleno Atlântico. Entre uma bóia e outra o mar estava decididamente grande, com muita variação de nível, mas sem ondas ou marolas hostis. Chegando à segunda bóia pensei “Agora ninguém me segura”, embora ainda estivesse longe pacas da segurança da areia…

Olhei prá praia prá tentar localizar o portal de chegada (que é uma bóia amarela imensa, escrito CHEGADA em vermelho), mas contra aquele sol não consegui ver nada. Saí seguindo a direção do cara que estava à minha frente, que deveria estar cego também e fazendo a mesma coisa. Disse prá mim mesmo o óbvio: “o jeito é tocar em direção à praia e chegando mais perto vai dar prá ver prá onde devo ir”. No meio do caminho de volta, um rapaz num caiaque apontou com o remo que eu deveria ir mais para a esquerda. Ele vestia uma camiseta camuflada, do exército, e concluí que fosse da turma de resgate. Parei de nadar, olhei prá praia e disse “Não consigo enxergar a chegada, cadê ela?”

- Tá ali, tá vendo?
- Não! Muito sol. Tá tudo da mesma cor.
- Tá vendo aquela antena, vai nadando em direção a ela.
- OK, obrigado.
- Eu vou ficar aqui, navegando ao seu lado.
- (estranhando) Sou o último?
- Não, tem mais uns 10 atrás de você.
- Valeu!
.
E fui, tendo por companhia um caiaque a menos de um metro de distância. Pensei “Pô, se fosse sempre assim…”.  Até que comecei a divisar o amarelo da bóia de chegada. É sempre muito bom saber prá onde se está indo, sobretudo na água. Em mais alguns minutos já estava a menos de 100 metros. O rapaz aproximou-se novamente e disse “agora falta pouco”. Não respondi, fiz apenas um “positivo” com a mão e continuei acelerando, prá diminuir alguns segundos no resultado final.
.. foi um desafio !

.. foi um desafio !

Cáspita, dessa vez...

Cáspita, dessa vez...

E então cheguei! Muito feliz por ter vencido – com uma forcinha de São Pedro – mais este, que considerei o maior desafio nas minhas travessias até aqui.

Por continuar vivo...

Por continuar vivo...

Corri prá (Uêba!) receber minha medalha, que veio dentro do saco plástico no qual são distribuídas frutas e água aos competidores. Nas travessias promovidas pelo Circuito da Mata Atlântica essa prática é comum. Beleza… medalha com bananas, algo que considero de extremo mau-gosto – o gesto, não as bananas!  De 180 participantes do masculino, conquistei o 171° lugar.  Uau… quase que eu não chego eheh…

E daí tirei três lições:

- Quando tiver de arrumar touca ou óculos, não vou olhar onde estou. Se for a touca, arrumo debaixo da água mesmo. Se forem os óculos, arrumo-os de olhos fechados. E isso forçando o movimento de pernas, tentando manter a respiração ativa, mesmo parado. Não vale a pena assustar-se e deixar o ritmo todo degringolar…

- Se por qualquer razão o ritmo do pulmão descambar e for necessário parar, não adianta esperar que ele vá se normalizar ali parado. A parada serve apenas para dar um tempinho… mas a respiração só se organiza mesmo é voltando a nadar.

- Não dá prá esquecer de levar uma bermuda, para o caso de ao final da travessia estar fazendo um dia lindo, radiante, alegre, quente e magnífico como estava aquela manhã de domingo no litoral norte de São Paulo.

Fui comprar uma ducha doce num boteco da praia e comemorar almoçando em Bertioga, um local que me é muito familiar e querido.

CONCLUSÃO: Então a conclusão, até aqui, é que tenho feito progressos mas talvez algum medo da água permaneça. No entanto, pelo bem da minha saúde acho que não dá prá parar mais de nadar e, consequentemente, de fazer travessias. A meta agora é fazer uma de 3000m no mar. Prá quem já fez de 2000m não é um objetivo tão distante. Enquanto isso, vou acumulando trofeuzinhos e medalhinhas sobre a minha mesa… faz bem pro ego.

Eu me amo! :)

Eu me amo! :)

De qualquer forma, hoje quando vejo um lago, uma represa, já sinto vontade de entrar – com a certeza de que conseguirei atravessar ainda que nadando só. Vamos nos aperfeiçoando e, quem sabe, um dia ainda piro de vez: depois de velho, decido fazer como o Paulo Maia e atravessar a Mancha?

Espero que este texto sirva um dia prá ajudar algum(a) maluco(a)… e caso você tenha a mesma obsessão que eu e tantos outros pelas travessias em águas abertas e queira informar-se um pouco mais, tente, dentre outras, a ACM.

E muitos bons ventos!

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Ufa! Esse deu trabalho!

Ufa! Esse deu trabalho!

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abril 5, 2009

A VIAGEM A TÓKIO

Campai! Fui...

Campai! Fui...

Há coisas na vida que nos acontecem da forma mais inusitada. Minha viagem ao Japão foi uma delas, portanto… senta que lá vem história:

Super grande-angular

Super grande-angular

Nos primórdios do ano da Graça de 2006, pelas conveniências implícitas em ir-se comprar algo na fonte, acabei embarcando numa viagem a Tókio, em busca de uma objetiva grande-angular Canon HJ114.7B IASE. Havia um parceiro envolvido na aquisição e partiu dele a sugestão: “Se demora 15 dias o despacho de Tókio a Nova Iorque e outros 7 de Nova Iorque a São Paulo, por que você não vai buscá-la diretamente em Tókio?” Tendo naturalmente apreciado a idéia, lancei-me na pesquisa de algum agente no Japão que pudesse viabilizar o negócio. Com a ajuda do bom e (já naquela época) velho Google, localizei na capital japonesa uma empresa locadora de equipamentos, como a minha, Nova Engs, que talvez pudesse ajudar: a Besco. E entrei em contato.

Durma com esse barulho...

Durma com esse barulho...

Por artes da tecnologia contemporânea, do lado de lá do mundo fui atendido por um colega muito solícito, Seiji, que se dispôs a conseguir o equipamento junto ao fabricante e deixá-lo à minha disposição nas dependências da empresa dele. Para tanto, bastaria que eu depositasse no Brasil o equivalente ao valor do bem, na época cerca de US$ 30,000. Evidentemente, era uma transação de risco… Mas parti do princípio que em se tratando de uma empresa estabelecida, que havia sido procurada por mim (e não tendo sido eu procurado por ela), era grande também a chance de estarmos todos entre gente honesta. Aliado a isto, a troca de e-mails com Seiji convencia-me de tratar-se de uma pessoa confiável. O único ponto negativo era que, por falta de fontes de escrita japonesa instaladas em meu computador, seus e-mails chegavam com a seguinte notação: “????”. Confesso que isso me deixava com a pulga atrás da orelha… mas tive de ser frio nesta hora, aceitar o fato como irrelevante e decidi-me por realizar a ousada operação comercial.

só 374.744 km2

só 374.744 km2

 

Ufa!

Ufa!

E então começaram os trâmites: para a renovação do passaporte (o 4º), para o depósito internacional, para a obtenção do visto japonês e para a compra do bilhete aéreo – esta última a única parte fácil de ser realizada. Tanto para o depósito quanto para o visto foi necessária a apresentação de inúmeros documentos cujo conseguimento envolvia obstáculos e deu um trabalhão! Sendo o Japão uma das maiores economias do mundo e ocupando um arquipélago cujo território é infinitamente menor do que o do primeiro colocado (EUA, por enquanto), há um cuidado extraordinário das autoridades para evitar a imigração ilegal, o que significa que na prática conseguir o visto para visitá-lo costuma ser mais difícil do que obter o visto para os EUA.

Mas com os inestimáveis préstimos de minha amiga Rosana, que à época trabalhava numa agência de viagens, Renase, com o socorro de minha amiga Sandra, da Zanti Contabilidade (que me conseguiu cópias de antigos Impostos de Renda de uma minha ex-empresa) e com a confiança de minha amiga Fernanda (que apesar de meu passado concedeu-me uma carta de apresentação de sua empresa, a Vinil), tudo foi resolvido e eis que… Uebaaaa!!! …eu tinha à mão o necessário para ir ver de perto a terra do Sol Nascente.

Nunca se sabe...

Nunca se sabe...

Daí, ao preparar-me para partir, só havia mais uma coisa a fazer… uma providência que tomo antes de qualquer viagem para um local cujo idioma desconheço: estudar na internet os termos para uma comunicação básica. Coisas como “sim”, “não”, “por favor”, “obrigado” e por aí vai… Não só por serem absolutamente necessários para um mínimo de interação com os hospedeiros mas também porque sempre tive muito tesão em aprender línguas. E então estudei sobretudo a pronúncia destas palavras, já que não tinha a mínima intenção de aprofundar-me em sua complicadíssima grafia… Fiz uma lista e guardei-a no bolso para qualquer emergência. 

Prá cima é que se anda...

Prá cima é que se anda...

Obrigado!

Muito Obrigado!

Às 21:10 da 4a. feira, dia 17 de maio, tendo sido levado a Cumbica pela busão do Airport Service, munido da máquina fotográfica que me houvera sido emprestada pela minha querida amiga Claudinha (que ainda na volta foi buscar-me), eu deixava para trás (ou para baixo) o asfalto da pista de decolagem do aeroporto, em Guarulhos, a bordo de um Boeing da norte-americana Continental Airlines. Assim, graças às mulheres tudo finalmente dava certo e  após quase meio século realizava-se um velho sonho deste aventureiro errante…! E foram cerca de 10 horas de vôo, por sobre a instigante América Central, até que chegássemos às 06:10 ao aeroporto de Newark, em Nova Iorque, primeira e única escala de nosso périplo, de onde partiria novo vôo com destino ao Japão, logo mais às 11:00 da manhã. Ao chegar, minha primeiríssima providência foi dirigir-me a um caixa automático para angariar os fundos necessários para um sanduíche… E quando o vi, frente a frente, confesso que gelei: pela primeira vez ocorreu-me que talvez eu tivesse confiado demais na praticidade de um cartão de crédito internacional. Pensei: “Caraca, se essa porra não funcionar, tô na roça legal!”. Funcionou!

Devidamente nutrido e com horas de espera pela frente, fui à porta de saída do saguão para dar uma olhada nos Estados Unidos…
Só opulência...

Só opulência...

É impressionante: o Tio Sam esbanja opulência já à primeira vista. Encostando para deixar e recolher passageiros… só carrões. Nada de automóvel pequeno, quase sem exceção todos os veículos que chegavam e partiam eram bombados, majestosos, superdimensionados aos meus olhos sul-americanos. Fiquei com despeito e voltei para dentro do terminal. Clareando o dia, liguei para meu amigo Tony, que há anos possui em Long Island um restaurante, o Maxxel’s, e um bistrô, PastaVino, e que nos idos de 1982 era meu colega de quarto numa pensão em Roma.

Elcio, Tony & Rodolpho - Roma 82

Elcio, Tony & Rodolpho - Roma 82

Disse-lhe que estávamos próximos embora não fosse possível encontrarmo-nos. Ele prometeu vir ver-me ali alguns dias mais tarde, quando eu fizesse a escala da viagem de volta. E então fui andar de trem dentro do aeroporto. Sim, porque em Newark há um trem que liga os diversos terminais a uma estação externa de trem de linha.

2,5km de trilhos

Putz! 2,5km de trilhos

Uma coisa inacreditável. Da janela do vagão, pude ver o páteo de estacionamento do que parecia ser uma empresa transportadora… uma vez mais, fiquei perplexo: uma infinidade de caminhões enormes idênticos à espera sei lá do que… talvez do início do horário comercial. Tudo era três vezes maior do que estou habituado a ver e considero o normal. Por fim, às 11:10 chegou a hora de minha partida e acabou aquela longa e humilhante demonstração de superioridade.

Quenem um'ave d'arribação

Quenem um'ave d'arribação

Desta segunda parte da viagem – uma estirada de 14 horas – não há muito o que contar, exceto que ao meu lado sentaram-se duas lindas japonesinhas que não falavam porra nenhuma de nada que não fosse japonês. E que acompanhei avidamente o progresso do vôo através da tela do monitor instalado no encosto da poltrona à minha frente. Era mágico estar rumando noroeste a partir de Nova Iorque. Eu iria sobrevoar o Alasca, o Mar de Bering, tirar uma fininha da península de Kamchatka, na Rússia e, finalmente, aterrissar em solo japonês por volta das 13:50 do dia seguinte. Nunca dantes houvera eu estado por estas bandas… Lá pelas tantas, numa vez em que me levantei e fui até a sala das aeromoças, na traseira do avião, olhei pela janela e não acreditei: a Alasca, abaixo, era simplesmente deslumbrante com o jogo de sombras entre o Sol e a branquidão desolada de suas estepes.

E a Rússia vendeu...

E a Rússia vendeu isso...

Por fim, às 13:50 da 5a. feira os pneus do avião tocaram o solo japonês. Eu estava radiante de alegria, tinha de extravasar aquilo com alguém. Olhei para as japonesinhas que não paravam de tagarelar e, muito empolgado, apontando para fora da janela, disse-lhes: Nihon! (Japão, em japonês). Elas me olharam com uma cara de “que babaca” e continuraram tagarelando. Como a simples visão da pista já era por si muitíssimo mais interessante que seus dois rostinhos bonitos, fiquei ali absorto com o nariz grudado no vidro da janela. Lá fora, o Aeroporto Internacional de Narita.

Caraaaaca!!! Nihon!

Caraaaaca!!! Nihon!

Na hora de passar pelo guichê da imigração, sempre rola alguma preocupação. Mas nada aconteceu e poucos minutos depois – agora sim! – eu já me instalava na poltrona da frente do ônibus que iria nos levar pelos 70 quilômetros que nos separavam do hotel em Tókio.

Tudo maravilha, não fosse um senhor japonês, morador do Hawai, que queria a todo custo conversar. Só que para isso eu tinha de virar a cabeça, deixando de olhar pela janela, e isto estava fora de cogitação. Ocorre que tenho em mim um elemento – talvez atávico, sei lá – de inquietação em relação a conhecer o mundo. No passado, incomodava-me imensamente nunca ter estado em cidades como Londres, Paris, Santiago, Buenos Aires, Nova Iorque… Essa compulsão me fez rodar meio planeta. E quando finalmente, após tanto aguardo, estava conseguindo ver o Japão, este cidadão queria que eu olhasse prá fuça dele a fim de me contar que sempre vinha ali e que bla bla bla… Fechei a cara, não tive escolha, e passei a curtir sem culpa e deslumbrado a visão dos campos de arroz que margeavam o asfalto.

Caraaaaca!!! Nihon! II

Caraaaaca!!! Nihon! II

Shinagawa Prince

Shinagawa Prince

E então chegamos ao Shinagawa Prince Hotel, um edifício imponente num bairro movimentado ao sul da metrópole. Feito o check-in, dirigi-me aos meus aposentos e não pude deixar de notar a falta do 13º andar na botoeira do elevador. Como do lado de fora não havia notado a ausência de nenhum andar na estrutura do prédio, concluí tratar-se da velha superstição quanto ao malfadado número 13 que, para minha surpresa, havia dado a volta ao mundo.

Aqui também???

Aqui também essa frescura???

Ao descer do elevador, percebi que os caras ali devem gerar muita grana, porque o corredor era interminável…

Tudo é muito...

Tudo é muito...

Entrando no quarto, ficou-me claro o conceito japonês de hospedagem: pouco espaço, porém com tecnologia e conforto. O local era estreito, sobrando apenas um corredor ao lado da cama. A janela não abria, mas tudo era muito limpo e agradável.

Prá que mais?

Prá que mais?

Vista da janela

Vista da janela

Defronte ao hotel

Defronte ao hotel

O banheiro é que era um caso à parte: parecia um WC de avião, minúsculo, todo de plástico e totalmente funcional. E o vaso sanitário estava mais para um robô sanitário… ele aquecia o assento, percebia quando alguém se sentava, acionava pequenas descargas de quando em quando e ainda lavava a bunda do usuário que assim o quisesse. Um espanto. Só faltava falar (se é que não falava… sei lá… ao menos comigo, não puxou assunto).

Instruções para cagar...

Instruções para cagar...

Então, após circundar meia Terra concedi-me um pequeno e merecido descanso, findo o qual, já tendo escurecido, saí para jantar e bater pernas pelas redondezas.

Pelas ruas próximas ao hotel, andei procurando por algum restaurante em que pudesse experimentar iguarias nipônicas.
Japonês no Japão é diferente

Japonês no Japão é diferente

E encontrei um pequeno, bem tradicional com fachada de madeira, meia-cortininha na porta e tudo mais. Mal entrei, e já ouvi a frase com que todo chegante é recebido num estabelecimento comercial japonês: “Sumimasen!“, que significa, neste caso, algo como “Obrigado”. Prá não complicar, apenas sorri e sentei-me à mesa. Como não ia mesmo adiantar nada consultar o cardápio, olhei em volta e escolhi o prato cuja aparência mais me agradou e apontei-o à senhora que veio me atender. E comecei a arriscar o japonês, pedindo-lhe “Biro” (cerveja). Ela entendeu e retirou-se. Quando a comida chegou… bem… basta dizer que era muito esquisita e não gostei. Saí dalí com vontade de encarar uma macarronada… Fui dormir, com o relógio biológico de ponta-cabeça.

Eruchio San

Eruchio San

Mas com ou sem jet-lag, eis que amanheceu o meu primeiro dia inteiro no Japão! Após o café, saí para ir à Besco tratar de negócios. Havia impresso um mapa que estava no site deles, mas era todo escrito em japonês. Parei um taxi e entreguei o mapa ao motorista. Ele leu, virou, revirou e saiu dirigindo. Foi para uma parte de Tókio onde as ruas são muito estreitas, em algumas o carro nem conseguia entrar. De quando em quando, ele parava, descia e ia mostrar o mapa às pessoas do local.
De TX em TK

De TX em TK

Nessa hora senti medo… cheguei a acreditar que havia feito uma imensa besteira. Lá estava eu num bairro apertado procurando por uma firma numa rua que nem motorista de taxi encontrava, e que estava com muito do nosso dinheiro… Foram momentos de pura tensão.

Mas eis que tudo se acertou. Localizamos o prédio e da janela do terceiro andar já Seiji me acenava as boas-vindas.
Seiji (dir.) & sócio

Seiji (dir.) & sócio

Era 6a. feira, mas tudo estava um tanto deserto por alí, inclusive a empresa deles. Só havia ele e seu sócio, que me aguardavam tão temerosos quanto eu, já que o depósito ainda não havia caído na conta deles – e eles já haviam comprado o equipamento. Pedi para ver a lente, eles a mostraram e me pediram para ver o comprovante do depósito, que era em português. Xerocaram-no, mas tudo estava bem. Tranquilizei-os, garantindo que o dinheiro cairia até a segunda-feira.

Besco I

Besco I

E então, todos mais calmos e confiantes, combinamos que eu voltaria ali na segunda para levar a lente. Fotografei as dependências da empresa, porque a achei muito bem equipada embora fosse pequena (como tantas coisas dos japoneses).

Besco II

Besco II

E aí então, com as obrigações em dia, pude enfim entregar-me ao prazer pelo qual mais ansiava, o de perder-me pelas ruas de Tókio.

Três coisas chamaram-me a atenção: a primeira é que Tókio é de longe a metrópole mais densa em que já estive.
Densacidade I

Densacidade I

Densacidade II

Densacidade III

Densacidade III

Densacidade II

Densacidade IV

Densacidade IV

Densacidade V

Densacidade V

Ao olhar em volta, vi ao mesmo tempo uma autopista passando por sobre a cidade, uma linha de torres de alta tensão, um canal com barcos e tudo, muuuitas passarelas de pedestres, trens, um navio no porto e aviões sobreavoano. Ufa! Dá prá assustar. É muita coisa em pouco espaço. A segunda é que mesmo sendo uma metrópole cosmopolita, não há ocidentais em Tóquio (se há, não estão visíves…).

Putz! Só japonês...

Cáspita! Só tem japonês...

Prá onde quer que eu olhasse, só via japonês – e me sentia um ET em meio a eles. E a outra é que não havia meio de achar na rua uma lixeira prá jogar fora o papel da bala. Surpresa: não tem! Até entender que se tratava de uma demonstração de cultura e civilidade, fiquei tão puto que joguei o papel no chão. Mas foi só essa vez… depois entendi o recado e passei a guardar o lixo no bolso, até encontrar uma lixeira em recinto fechado. E me toquei o quão nojentas são lixeiras públicas. Nessas horas vejo como, mesmo tendo vivido por 3 longos anos na Europa e rodado um monte poraí, ainda sou tupiniquim (embora os tupiniquins deveras talvez sejam bem mais civilizados do que eu).

Na rua não!

Na rua não!

Estudando minha anotações e o manual que carregava comigo, percebi que em japonês muitas palavras, por incrível que pareça, são chupadas de linguas ocidentais, sobretudo o inglês: paspooto (de passport), orendi (de orange), uain (de wine), naifu (de knife), beddo (de bed), torancu (de trunk)… mas também do francês: toire (de toilette), … Quem esperaria por isso? Tempos depois, no Brasil, ao comentar este fato com um amigo nissei, perguntei-lhe “Koba, como é possível o idioma japonês usar tantas palavras do inglês depois de os EUA terem atirado 2 bombas atômicas sobre o Japão?”. Ao que ele respondeu: “Pois é… tinha de jogar mais uma!”. 

Dá pá krê?

Dá pá krê?

Na hora de comer, para evitar surpresas optei por algo menos radical e achei uma rede de fast-food japonês, chamada Yoshinoya, da qual fiquei freguês durante todo o restante da minha estada.

 

O que deu prá ver...

Só o que deu prá ver...

O sábado amanheceu muito chuvoso, mas eu queria de qualquer jeito ir até o mar. O mar, a praia… sei lá… algum lugar de onde desse prá ver o mar, afinal estamos à beira mar.

Ma che mare che nada!

Ma che mare che nada!

E fui andando em direção a onde pensei poder encontrar algo… Ma che mare che nada! Só consegui chegar até uma espécie de porto ou coisa parecida, cheio de containeres e congêneres. O fato é que Tókio construiu muitas ilhas artificiais para aumentar sua supefície, mas tá tudo tomado por alguma atividade industrial.

Ali, portanto… nada de areia. No entanto, o passeio valeu pela vista que tive da grande baía e da grande ponte que emolduram a cidade. E esta foi outra coisa que me surpreendeu: há muita água em Tókio… baía, canais, barcos e navios prá todo lado. Tókio é uma espécie de Veneza do Oriente.
Veneza d'Oriente II

Veneza d'Oriente II

Veneza d'Oriente I

Veneza d'Oriente I

Veneza d'Oriente III

Veneza d'Oriente III

Então saí para conhecer as instalações daquela espécie de porto e, ao caminhar, pude absorver um pouco da realidade daquele canto do mundo: Nesta cidade os carros são pequenos e os arranha-céus são enormes.
Selva de vidro

Selva de vidro

Kilometrópole

Kilometrópole

Beliche

Beliche

Bem arejado...

Bem arejado...

Para poupar espaço, em algumas garagens domésticas, empilha-se um carro sobre o outro e em alguns postos de serviço bombas de combustível pendem do teto para não ocupar o chão. No meio da tarde, deparei-me com a molecada treinando basebol.

Esporte nacional

Esporte nacional

E mais à noite descansei as pernas no apertado conforto de meu quarto de hotel.

 

Sem comentários

Vida dura!

Domingão larguei o regime que estoicamente vinha mantendo e caí no chocolate japonês. Custava só 100 yens e era uma delícia. Prá mim, dietas duram até a primeira viagem, aí desestrutura tudo…

Fui passear de metrô, mas tive alguma dificuldade na estação, nas máquinas que vendem bilhetes, porque não é todo mundo que fala inglês e então às vezes fica difícil esclarecer alguma dúvida. Mas acabei embarcando e fui ao primeiro vagão, olhar o maquinista pela janelinha. Bem, se não cheguei a ver nenhum dos famosos “empurradores de luva branca”, ao menos vi um cara operando a máquina usando luvas brancas! Show de bola!

Metrô I

Limpim!

Metrô II

Virginal...

Metrô IV

À prova de suicídio

Metrô III

Anti-stress

No vagão, durante a viagem é possível consultar o roteiro nas TVs instaladas sobre as portas. Entre outras coisas, elas dizem o quanto o trem já andou naquela linha, o quanto falta andar e de qual lado vão-se abrir as portas na próxima parada. Ali, outra demonstração do aperto que é a cidade: os fundos dos edifícios ficam debruçados quase dentro dos trilhos. Uma visão surpreendemente realista desta viagem de metrô pode ser vista nesta simulação da própria Yamanote Line, na qual me encontrava.

Metrô V

Tokyo Tube

Neste domingo estava acontecendo num centro de exposições ao norte, chamado Tokyo Big Sight, a Design Festa.

Já sabia disso desde o Brasil, pela internet, e resolvi visitá-la. Fiz todas as conexões, inclusive trocando metrôs de rodas por metrôs de pneus, e cheguei a um edificio de arquitetura impressionante.
Trilhos do Metrô

Trilhos (?) do Metrô

Tokyo Big Sight

Tokyo Big Sight

Tudo muito vistoso e espaçoso. Bom gosto mesmo, num local privilegiado com uma linda vista da cidade. Mas lá dentro, a tão decantada feira de design, que se dizia a maior da Ásia, não passava de uma grande feira hippie, com artesanato e tudo. No Brasil já vi melhores na Praça da República. Assim, decidi voltar à cidade, mas em grande estilo: já que estava ao lado da baía, por que não voltar de barco? E foi o que fiz.

'xa a vida me levar...

'xa a vida me levar...

Domingo & roda gigante

Domingo & roda gigante

Excelente passeio, que recomendo a quem quer que vá até lá. Da água, a capital do Japão fica ainda mais fotogênica, com destaque para a imensa roda gigante que à época estava montada perto do grande e vistoso edifício dos estúdios da Fuji TV.

NHK TV... inconfundível!

Fuji TV... inconfundível!

Ginza

Ginza

Descendo do barco voltei a caminhar e fui parar em Ginza, famoso distrito de Tókio, pólo de moda e luxo, um dos mais caros preços por metro quadrado do planeta (cerca de US$22,000/m2). Lindas lojas das mais renomadas (e conhecidas, já que tá tudo globalizado…) grifes e outras menos famosas mas muito ricas e interessantes. Foi numa delas que vi uma guitarra sem cordas.
Já viu uma destas?

Já viu uma destas?

O “acordoamento” onde se toca era fixo e nos trastes havia botões, mucho loco! Tava tão contente que resolvi tomar um cafezinho… péssima idéia. Foi a primeira e (espero) última vez na vida que eu, um brasileiro, deixei o equivalente a R$ 20,00 por um caffè espresso. Foi alí que tive mais uma demonstração do alto nível de civilidade do povo japonês: os caras, ao fumar, ficam parados ao lado de cinzeiros estrategicamente colocados nas calçadas, para que nenhuma bituca acabe abandonada pelo meio-fio.

No no no, seu porto!

No no no, you brazilian pig!

Não é o máximo da urbanidade? Ou talvez o máximo da urbanidade seja outra cena: que tal o executivo e sua secretária de pás e vassouras nas mãos varrendo a rua defronte à empresa?

Que tal na sua rua?

Que tal na sua rua?

Neste dia fiquei considerando a possibilidade de tomar um Shinkansen (trem-bala) e ir conhecer algum’outra parte do Japão… quem sabe Hiroshima, ao sul?

Metrô & Shinkansen

Metrô & Shinkansen

Poncovô?

Poncovô?

 

Mas pensei melhor, constatei que os 6 dias que iria permanecer em Tókio já eram insuficientes para conhecer bem uma metrópole daquelas e concluí que se fosse viajar (Hiroshima dista uns 800 km da capital) iria acabar não conhecendo direito nenhuma coisa nem outra. Decidi não ir e desencanei do assunto. Ao meio da tarde, acabei chegando muito por acaso a Chiyoda Ward, um enorme parque bem no centro de Tókio. Fiquei doido para conhecê-lo mas, após um longo dia de aventuras, minhas pernas olharam prá mim e disseram: “Nananinanão, nem pensar…” Tentei argumentar que tratava-se de um local delicioso, que se poderia ir devagarzinho… mas elas foram intransigentes e irredutíveis. Emburrado, desisti e tomei o metrô prá voltar pro hotel. A partir daí comecei a ter problemas com elas durante minha estada na cidade.

Parque I

Parque I

Parque II

Parque III

Parque III

Parque II

Parque IV

Parque IV

Shinjuku I I

Shinjuku I

À noite deste dia, já descansado, piquei a mula para Shinjuku – onde as fachadas de neon criam uma sensação feérica de ter-se chegado a uma típica cidade de outro planeta, se é que isso existe.
Shinjuku III

Shinjuku II

É impressionante o show de luzes, cores e capitalismo. Tudo é marca de algo. Tudo pisca, tudo é over! Só não foi melhor porque muita coisa (uns 95%…) não consegui ler. Curti tanto o visual que decidi voltar ali posteriormente. Nesta noite conheci uma das mais divulgadas imagens da Terra, e adorei.

Shinjuku II

Shinjuku III

Tsukiji III

Saaaai da frente!!!

Segundona, ainda meio no bode do jet-lag, decidi acordar bem cedo e ir conhecer o mercado de peixes de Tsukiji, sobre o qual muito havia lido. Uau!! Que lugar imperdível! Logo de cara, o visitante depara-se com um trânsito enlouquecedor de uns carrinhos motorizados que só existem lá. É carrinho zunindo prá cá, carrinho zunindo prá lá, tornando a aventura até um tanto arriscada. Pelo chão, carcaças enormes de atum sendo manipuladas e levadas para corte em máquinas de serra de fita, que estão prá todo lado…

Tsukiji I

No anzol?

Eu nem sabia que o atum é um peixe gigantesco, que chega a pesar mais de 600kg (atum-azul). O mercado é muito grande, lotado, cheio de vida (menos as dos peixes) e um ponto turístico procuradíssimo. Num dos esconderijos que descobri, cada animalzinho esquisito que chega vivo é mantido numa caixa com água do mar, de forma que nesta parte do mercado o que há é um verdadeiro zoológico de criaturas marinhas, as mais inacreditáveis que se possa imaginar, como costumam ser os seres do abismo.

Tsukiji IV

Micro zôo

Tsukiji II

Não perca!

Após curtir muito as curiosidades de Tsukiji, resolvi comer algo numa das barracas que margeiam o mercado. Aí começa a dificuldade… não havia como comunicar-se porque alí ou se falava (e lia) japonês ou nada feito. Como todos estavam tomando a mesma sopa com tempurá, bastou-me apontar para a cuia de um dos comensais para que o balconista se tocasse do que eu queria. Serviu-me a sopa com um tempurá, que estava delicioso e que acabou rapidinho. Pensei “quero mais um tempurá”, mas aí continua a dificuldade… poderia apontar novamente, mas resolvi por em prática o japonês que havia aprendido no computador e arrisquei somar 3 expressões: Mais + tempurá + por favor… e ver no que dava. Criei coragem e falei em alto e bom japonês: Motto tempurá okudasai! Para minha imensa surpresa e alegria, o balconista nem titubeou. Gritou “Hai!” e botou mais um tempurá na minha cuia. Uaaaaaaaauuu!!!! Falei japonês, foi emocionante! Adorei a experiência tanto que, tempos após, entrei na comunidade “Eu quero aprender a falar japonês“, do Orkut. 

Sugoi!

Sugoi!

À tarde, trabalho: voltei à Besco para concluir o negócio e buscar o equipamento. Tudo certo, a grana havia caído na conta e a objetiva estava disponível para retirada. É gozado como as coisas podem funcionar tão bem mesmo numa negociação feita de lado a lado do mundo, bastando para isso que seja tocada por gente honesta. Às vezes, negociando com o vizinho dá tudo errado… Mas com a lente devidamente guardada no cofre do hotel, voltei para as ruas. Em Tókio uma coisa que chama a atenção é o modelito predominante: terno escuro para os caras e tailleur para as mulheres.
Saída da peãozada...

Saída da peãozada...

Life's short!

Life's short!

Fim de expediente, quando o povo sai dos escritórios, é um desfile interminável de gente vestida igual.

Essas pegaram leve...

Essas pegaram leve...

Isso, no entanto, em contraste com a juventude ostentando os panos mais trash (ou seria punk, ou junk sei lá…) que já vi. No Japão a garotada é radical no visual. Mas neste dia ainda era começo da tarde e decidi visitar o Museu Nacional de Ciência e Natureza de Tókio, o qual achei muito duca! Coleções intermináveis de espécimes de insetos, uma coletânea de mamíferos empalhados (incluindo os grandes africanos) que parecia ser completa, fósseis pré-históricos… enfim, tudo o que se pode esperar de um excelente museu de ciências.

História Natural

História Natural

Spielbergossauro

Spielbergossauro

Só tava dificil conviver com a dor nas pernas… mas meu programa ao acordar era caminhar e caminhar, o dia todo. E à noite, após um bom banho e um lauto jantar, eu optava por… caminhar só mais um pouquinho. Eu adoro isso, minhas pernas é que tem suas restrições, sobretudo quando exigidas assim, de supetão… Não me lembro o que fiz nesta noite, mas na manhã seguinte, terça-feira, quis conhecer aquele cruzamento que vive lotado de pedestres por sobre as faixas, inclusive diagonais.
Shibuya I

Shibuya III

Shibuya II

Shibuya I

Shibuya III

Shibuya II

Ele fica em Shibuya e é mais um detalhe pitoresco do trânsito de Tókio, em parte incompreensível com seus carros na contra-mão e sua sinalização em japonês. Não bastasse, ainda por cima eles dirigem todos com os olhos meio fechados, não sei como os caras conseguem.

Alugar um carro... Aqui?

Alugar um carro... Aqui?

Tem certeza?

Tem certeza?

De Shibuya, embarquei no metrô para ir conhecer o Museu Nacional de Ciência Emergente, conhecido por Miraikan, que, como era de se esperar na capital do Japão, é algo invejável.

Miraikan III

Miraikan II

Miraikan I

Miraikan I

Miraikan II

Miraikan III

Muitíssimas coisas interessantes prá se ver, e a criançada prá todo lado. Todo mundo com a touquinha igual… uns com as amarelas e outros com as azuizinhas… todos aprendendo ciências desde os 3, 4 anos. Os mais velhos, já adolescentes, podiam ser vistos em laboratórios de física, dentro do museu, em aulas de robótica. Comecei a entender porque os caras mandam bem, seja nas indústrias de lá seja nos vestibulares daqui.

 

Tudo aprendendinho II

... ou pivetão, tudo aprendendinho!

Tudo aprendendinho I

Pivetinho...

Saindo do museu, fui para Ueno, um tradicional bairro ao norte. Andando por alí deparei-me com inúmeras bancas de rua que vendiam celulares a preço de banana. Em meio a um parque, vi um templo com telhados pontudos, e percebi que fora esta edificação e duas mulheres de quimono… não vi nada de “japonês” em Toquio.

Ueno I

Ueno II

Ueno II

Ueno I

Voltei para o centro e desci na Tokyo Station, interligada a um shopping center onde há salas de jogos eletrônicos. Elas estão por toda parte, mas aqui vi uma que me chamou a atenção: numa espécie de TV enorme na parede, podia-se acompanhar a simulação de um derby, tudo muito realista e o povo participando, apostando e se divertindo eletronicamente. Todo mundo jogando, só dava eu olhando e tirando fotos…

Mas a aposta é de verdade...

Mas a aposta é de verdade...

Voltando à rua, fui novamente a Chiyoda Ward, disposto a alugar uma das bicicletas que havia visto para locação da primeira vez em que lá estive. Estava decidido a conhecer aquele grande parque super atraente. Mas, lá chegando… surpresa… não havia locação de bicicletas às 3as. feiras. PQP! Não sei se foi uma alucinação ou se ouvi mesmo minhas pernas imediatamente dizerem “nananinanão, andando nem pensar…”.

Chiyoda Ward I

Chiyoda Ward I

Chiyoda Ward II

Chiyoda Ward II

E então, puto e resignado, desisti de conhecê-lo. Não sem atentar para um senhor, um mendigo, que dormia sentado por ali. E pude constatar que em Tókio até os mendigos são organizados.

Chiyoda Ward III

Olha isso...

Fui para o hotel descansar, porque tinha planos de, à noite, conhecer Roppongi Hills, literalmente o ponto alto da cidade.

 

Roppongi I

Roppongi I

 

Roppongi II

Roppongi II

E foi o que fiz. Lá pelas 20:00, chegava eu aos pés da grande torre de 54 andares que se debruça por sobre a metrópole e do alto da qual se tem uma visão panorâmica de Tókio e adjacências.

Roppongi III

Roppongi III

À noite, a vista é maravilhosa. Fiquei lá fazendo fotos e curtindo o privilégio de estar ali realizando um velho sonho, numa reviravolta do destino que absolutamente não estava programada. Estas magnânimas visões noturnas sempre mexem com o meu emocional. Que bom! A noite estava explêndida, convidando para se voltar a Shinjuku, o bairro das fachadas de neon e onde tudo rola…

Roppongi IV

Roppongi IV

S’imbora! Em Shinjuku só a vista já anima: luzes, gente, carros, sons, gente, cores, luzes… eita mundão velho e sem porteira.

Gostei tanto que voltei!

Gostei tanto que voltei!

Caminhando, fui abordado por um destes caras que tentam arrastar o turista prá zona. Era um rapaz escuro, de compleição franzina, porém muito educado o que fez com que eu lhe desse atenção. Eu não tinha intenção alguma de ir parar no puteiro, mas conversar com alguém após tanto tempo caminhando sozinho vinha bem a calhar. Não me recordo seu nome, mas quando lhe perguntei de onde era, disse-me “da Etiópia”, ao que, nem sei porque, emendei: “Eritréia?”. Quando disse isso, acho que abri as portas da sua simpatia. Sim, ele era da Eritréia e não podia acreditar que eu pudesse saber o nome da terra dele.  Na verdade, a Eritréia é um país independente (da Etiópia) desde 1993, mas suponho que ele suponha seja, por alguma razão, melhor apresentar-se como etíope.
E eu tava ainda mais longe...

E eu ind'além...

Tornamo-nos amigos e fui caminhando com ele, enquanto me explicava que fazia aquele bico prá pagar os estudos. Quando me dei conta, estava às portas do lupanar (sim, porque apesar da amizade ele não perdeu a oportunidade de tentar ganhar um troco às minhas custas). Então sorri e disse-lhe “Olha, não sou seu freguês-alvo… não estou a fim desse tipo de diversão”. E ele compreendeu e me desejou um bom passeio. Saí dalí enriquecido por ter conhecido uma tão curiosa figura humana… um africano em Tókio!

Rola de tudo...

Rola de tudo...

Mas havia outros… logo em seguida um outro negão abordou-me oferecendo a mesma mercadoria. Eu lhe disse algo como: “rapaz, se eu tiver de sair com alguma mulher terá de ser com alguma que se engrace comigo e me dê bola”. E ele respondeu algo como “pode ir tirando o cavalinho da chuva, que aqui você não vai conseguir isso”. Então deixemos as puras e a putas prá lá e continuemos sozinhos, que a noite tá boa. E parei num bar agitado prá tomar uma cerveja Sapporo. Voltei pro hotel altas horas, caminhando só prá variar, e me deparei com mais uma esquisitice: uma espécie de clube onde as pessoas, separadas em baias, ficam rebatendo com tacos de basebol bolas que lhes são arremessadas por máquinas.
Esporte solitário...

Esporte solitário...

...com o taco na mão!

...com o taco na mão!

E também foi nessa noite que vi estacionada uma motocicletazinha lindinha, com capota, que se tornou um dos meus sonhos de consumo.

Quero uma dessas !!

Quero uma dessas !!

Quarta-feira, manhã do último dia completo que passarei no Japão. Quero conhecer muito ainda, mas as pernas já entregaram os pontos. Sinto muita dor apenas em começar a caminhada, o resto do dia é pura forçação de barra, inclusive com alguma preocupação de estar lesando alguma coisa, com tamanha overdose repentina… Ainda assim, parado não dá prá ficar: fui conhecer o Museu de Ciência Marítima, instalado às margens da baía num edifício enorme em forma de navio.

Navio a ver navios.

Navio a ver navios

Prá viajar no tempo e no espaço...

Prá viajar no tempo e no espaço...

Na ponte do navio de concreto

Ponte do navio de concreto

Ao lado, aberto à visitação, estava ancorado um navio real, o Sôya Maru, no qual por 1000 yens você podia conhecer um quebra-gelo de verdade, que na década de 30 circundava o globo pelas gélidas águas da Antártida. Passei o dia entre navios e a visão de outras embarcações que transitavam pela baía de Tókio.

À noite, prá descansar, subi no bar do hotel para fuçar no computador e tentar contatar alguém no Brasil através do Orkut. Mas o desgraçado tinha várias teclas em japonês e era uma dificuldade operá-lo. Ainda assim, consegui contato com o outro lado do mundo e troquei idéias com alguns amigos que estavam online.
Shopping & Estação Shinagawa

Shopping & Estação Shinagawa

Então saí para jantar numa espécie de shopping interligado à estação de Trem/Metrô que há defronte ao hotel. Entrei num barzinho bem japonês, lotado de gente, com mesas minúsculas. Pedi um yakisoba e compartilhei a mesa com várias pessoas, todas alí apertadas. Pois numa situação dessas, um dos comensais dava-se ao prazer de chupar seu macarrão fazendo o máximo de barulho possível. Devia ser cultural, porque o japa não se avexava… levava o hashi à boca e… sssssshhhhhhhhhhhhhh sssssshhhhhhhhhhhhh. Sei lá… é difícil conviver com diferenças culturais. Me deu vontade de dizer: “O animal, vê se te manca!”. Mas achei melhor calar… em Roma, faça como os romanos. Suponho que em Tókio deva-se fazer como os tokianos.

Na quinta-feira, dia 25.05.06, logo cedo embarco no ônibus que me levará de volta a Narita. No caminho tento fazer algumas fotos, mas sou impedido pelos muros de contenção acústica que margeiam a estrada. Embarco agora em outro avião da Continental que me levará de volta a Nova Iorque.

Sons vedados, visão idem

Sons vedados, visão idem

Lá vamos nós...

Lá vamos nós...

Outras 14 horas. Ali chegando, ligo novamente ao meu amigo Tony, que em 40 minutos consegue chegar driblando o trânsito, vindo de Long Island. E é sempre muito bom rever um velho parceiro de aventuras, afinal foi na companhia dele que em fevereiro de 82 embarcava eu numa aventura muito maior, com destino a uma vida na Europa sem prazo para acabar. Mas isso já é outra história…

É um mundo pequeno!

É um mundo pequeno!

Sayonara Nihon e muito obrigado por tudo. Adorei conhecê-lo e espero um dia poder voltar. Neste dia, prometo, hei de sair de Toquio, já que vi a capital mas não o país… não se pode ter tudo. Aliás, sequer se concretizou meu desejo de que o retorno aéreo fosse via Frankfurt, o que me proporcionaria uma volta ao globo. Ainda não foi dessa vez…

dia lá, noite aqui

dia lá, noite aqui

 

março 17, 2009

CINEMA E EMOÇÕES

Meigo e triste

Meigo e triste

Na rua em que moro há nove salas de cinema. Acabo de chegar de uma delas, onde assisti a um drama de extrema delicadeza: “O Visitante”, que aborda a questão das imigrações ilegais nos Estados Unidos e do amor na terceira idade.

Assombra-me o quão profundamente tocado saio de uma sessão de cinema. Não me refiro aqui a qualquer filme, mas a Cinema. Por um tempo após subirem os créditos ainda me sinto enlevado, envolto num’aura de sentimentos fugidios, fugidos de algum lugar que costuma ter as portas trancadas, dentro de mim.

Caminho calado, buscando explorar ao máximo cada segundo daquele êxtase fugaz, que sei se dissipará ao som das primeiras buzinas, à luz dos primeiros faróis, à força das primeiras inquietações.

Mas enquanto perdura revela-me horizontes ocultos de mim mesmo, relembra-me sensações há muito esquecidas, desperta-me desejos grandiosos e por vezes até enche-me de uma esperança inesperada.

Vitória pela recusa

Vitória pela recusa

Vitória pela tenacidade

Vitória pela tenacidade

Jamais vou esquecer o que senti ao final de “Gandhi”. Até aquele momento eu não sabia que a força de um homem pode deter um império, e esta revelação ampliou os meus limites. Ou quando as luzes se acenderam após “Um Sonho de Liberdade”, fazendo-me ver algo óbvio, mas que não via: a perseverança pode ser a chave do sucesso. “Mar Adentro” fez-me reconhecer o quão afortunado eu era de poder ter meu corpo em movimento. E todas essas emoções chegam numa inundação, tomando os espaços do pensamento e só aos poucos vão-se esvaindo no nevoeiro da percepção habitual. Não há como retê-las.

Vitória pela sublimação

Vitória pela sublimação

Trata-se de atingir um outro nível de cognição, um patamar superior, quase um toque noutra realidade, ainda que com os mesmos pés no mesmo chão. É como drogar-se apenas de emoção e por um curto tempo eu não sou o sólito eu.

Mas não são só os grandes filmes que tem este poder. Não se trata de tamanho, mas de sensibilidade. Pequenas produções que traduzem grandes dramas humanos também fazem-me rir, temer, chorar e questionar. Sobretudo, fazem-me sentir coisas que não sinto no passar dos dias. Que não sinto quase nunca, ainda que todas estejam lá… sepultas em algum ponto indefinível do meu ser.

Às vezes é uma recordação da infância, noutras o afã de melhorar o mundo, ou uma paixão arrebatadora, ou ainda uma alegria que invade a alma… como se fosse um vendaval que revolve as folhas do chão e depois passa, devolvendo-as ao solo. Mas se é grande a obra, é grande o sentimento. E não importa tratar-se de realidade ou ficção, o que vale é o que ela demonstra, o que provoca, o que deixa em mim.

Raros, tais momentos me são caros. Sinto-os ao máximo e com intenso carinho e respeito, porque me fazem lembrar que sou muito maior do que costumo ser. Por alguns minutos, fica claro que há muito mais do que consigo ver. Que por estar vivo tenho muito mais do que acredito ter.

Para mim o cinema é o portal de uma outra dimensão que, longe de ser irreal, está sempre ao lado, mas sempre oculta por algum véu que não nos é dado levantar a qualquer hora. Louvados sejam os Lumière e os bons diretores, que por vezes fazem vibrar minhas fundações e me lançam cara a cara com o infinito do meu eu.

Palco e platéia

Palco e platéia

janeiro 29, 2009

A VIAGEM A CARACAS

Logo de cara...

Logo de cara...

Sãos e salvos!

Sãos e salvos!

Terça-feira! Após um vôo curto proveniente de Cartagena, sobrevoávamos o litoral da Venezuela. Rente ao mar já se via o aeroporto e eu ansiava por pousar. Pousamos. Uêba, estamos num novo país. Chegando ao hall, quem nos aguardava? Sim, ele, sorridente e de braços abertos prá quem quisesse ver (e era impossível ignorar), ao lado da frase “Venezuela ha cambiado y ha cambiado para siempre”, ou coisa parecida. Hugo Chávez foi o primeiro venezuelano a nos recepcionar nesta terra. Fiquei comovido!

Llegando a Caracas

Llegando a Caracas

Hola, hermanos!

Hola, hermanos!

Quando no guichê da imigração o policial me perguntou em qual hotel iria ficar, respondi-lhe a verdade: “Todavia no lo sé. Lo voy a elegir quando llegar a la ciudad”. Ele pareceu não gostar muito da resposta, achei que o caldo iria entornar, mas foi condescendente. Disse: “Quando usted venga de nuevo en Venezuela, hay que tener lista la reserva en un hotel”. Ao que aliviado, respondi. “Por supuesto, señor! Muchas gracias” e, após carimbar a entrada no passaporte, saí dali para o saguão aberto do aeroporto de Maiquetía.

Bolivares fuertes (mesmo!)

Bolivares fuertes (mesmo!)

Taxis oficiais...

Taxis oficiais...

E já começaram meus problemas em Caracas. Fui tentar tirar algum bolívar de algum dos cajeros do aeroporto e… nada! Havia sete, não consegui em nenhum. Pensei, putz, fudeu! Sem a reserva de algum hotel, não tenho como sair do aeroporto assim… sem um puto no bolso. Mas lembrei que ao deixar o Brasil havia enfiado numa das repartições da carteira os reais que me restavam: R$ 200,00. Foi o que salvou. Fui a uma casa de câmbio ali mesmo e troquei-os por míseros Bs 140,00. Já comecei a tomar prejuízo antes mesmo de pisar na rua… Com a ajuda de um dedicado funcionário do serviço de recepção ao turista, consegui reservar por telefone um quarto no Hotel Altamira, distante dali uns 15 quilômetros. Tudo bem então? Nem tanto… o táxi “oficial” para chegar lá custaria Bs 170,00. Como fazer? Tomei um táxi “não-oficial” (lá tem disso), dos que têm a má-fama de espoliar estrangeiros incautos, e paguei Bs 130,00 até o centro. Apesar do risco, deu certo e ainda sobrou algum, mas foi caro.

Hotel Altamira

Hotel Altamira

Já estava encanado de tanto ouvir, na Colômbia, dizerem que Caracas é perigosa. Era uma boca só! Então na viagem do aeroporto até a cidade, aproveitei para inquirir o motorista, que era um magrelo calado. Para me reconfortar, ele disse que por questão de segurança nunca aceitava viagens para o centro à noite. Que beleza, legal! Havia lido na internet, num fórum sobre viagens, que o melhor de Caracas é a hora de ir embora… fiquei me perguntando… será? Ao ser deixado defronte o hotel, por via das dúvidas olhei para todos os lados antes de descer do carro. E instalei-me enfim no glorioso Hotel Altamira, no bairro de Altamira, onde por la mañana no hay desayuno. Estava preocupado sobre como meu VISA iria se comportar na manhã seguinte, e como eu iria conseguir comer algo aquela noite sem grana e sem crédito. O jeito era sair e tentar alguma idéia. Entrei no primeiro restaurante que vi e tomei o cuidado de explicar ao maître que só poderia ordenar o pedido se, antes, o cartão passasse na maquineta, porque não teria como pagar de outra maneira. Para minha surpresa, passou. E esta foi a primeira vez na vida em que paguei por um jantar antes de havê-lo jantado. Mas tive de comer 1/4 de frango com cerveja…  não exatamente minha refeição ideal.

Pollo a la cerveza

Pollo a la cerveza

by Burle Marx

by Burle Marx

Outro sulamericano

Outro sulamericano

Todo parque é bom!

Todo parque é bom!

Na manhã seguinte consegui o que queria: me entendi com as máquinas venezuelanas que, diferentemente das brasileiras, pedem para que sejam introduzidos os dois primeiros ou os dois últimos números da cédula de identidade. Como a minha termina num dígito isolado do número principal por um hífen, estava errando ao incluí-lo. Bem, aprendi e resolvi o problema de uma vez por todas. Ufa! Senti saudades dos velhos Traveller-Cheques. Enfim, listos para explotar la ciudad. E saí andando em direção ao leste pela principal avenida de Chacao, a Avenida Francisco Miranda.

O que incomodava era ter de olhar para trás a toda hora… Exagero, mas tava difícil relaxar, depois de tantos avisos. Após um café da manhã no Mc Donald’s (onipresente), acabei chegando num parque que parecia atraente, entrei. Qual não foi minha surpresa ao ler numa placa que havia sido projetado por Burle Marx (1909-1994), erroneamente identificado como o projetista de Brasília. Na verdade, ele foi o paisagista. Aquilo era uma razão a mais para conhecê-lo e então cai prá dentro, onde vi macacos (presos em ilhas) e esquilos (soltos nas árvores). Eram cerca de 11:30 da manhã, tudo estava muito legal quando os guardas vieram informar que o local iria fechar. Era o dia 31 de dezembro e a cidade preparava-se para o grande evento da noite… meio contrariado, porque ali estava gostoso, saí!

Rumo a Petare

Rumo a Petare

Petare I

Petare I

Petare II

Petare II

De volta à avenida peguei a primeira buseta que passou, com destino a um bairro chamado Petare. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que que é aquilo?? Nunca vi tanta gente por metro quadrado. Talvez nem na Índia haja tanto alvoroço. Na rua, as pessoas disputavam o espaço com os ônibus, os carros e as motocicletas, uma fumaça desgraçada. Entre gritos, buzinas e aceleradores o barulho era insano. Eu desviava de um pára-choques aqui, um pára-lamas ali… Não dava prá andar sem se bater à esquerda e à direita, havia uma moto atrás de mim. Uma coisa de louco. Na dúvida, tirei a carteira do bolso de trás e passei-a para o bolso da frente, estava com a idéia fixa de que era uma cidade insegura. Na verdade, e verdade seja dita, nada aconteceu durante todo o tempo em que estive na Venezuela. Mas tratei de sair logo dali, caindo prá dentro da estação do metrô mais próxima. E foi assim que conheci o metrô de Caracas, um sistema moderno embora os trens não passem esta impressão. Voltei pras áreas mais centrais da cidade, descendo na estação Plaza Venezuela, e voltando a pé pelo boulevard formado sobre a Avenida Abraham Lincoln.

Ufa! Fui...

Ufa! Fui...

Venceram as brancas

Venceram as brancas

Ali era agitado também, porém de forma civilizada. Trata-se de uma rua de comércio, mas há também lazer, como mesas fixas com tabuleiros de xadrez onde disputam-se partidas animadíssimas. Fiquei pasmo em ver a velocidade com que jogam, alternando toques no relógio, estapeando-o a cada dois segundos. Sendo hora do almoço, aproveitei para conhecer mais uma marca de cerveja, cujo nome não me lembro. E voltei caminhando a Altamira passando por Sabana Grande e Chacalito. Chegando ao hotel, enquanto descansava, mergulhei novamente nas vidas de Florentino Ariza e Fermina Daza, que a esta altura já era uma viúva inconsolável. Ou quase… Lendo, recostado no travesseiro, logo peguei no son…

QG

QG

Sabana Grande

Sabana Grande

À noite, sai para despedir-me de 2008, um ano que me foi muito promissor e pelo que lhe sou grato. Fui à praça entre as Avenidas San Juan Bosco e Luiz Roche, em Chacao (10°29′47.44″N 66°50′56.10″O), que era perto e estava apinhada de gente. Ali uma banda tocava músicas venezuelanas muito legais, que levantavam a galera. Lembrou-me de dois dos meus ícones artísticos, os grupos de música andina Tarancón e Raíces de América. Duas coisas me chamaram a atenção: a primeira o fato de que as famílias traziam de casa provisões para fazer piqueniques em mesas plásticas improvisadas. Torta da vovó, salgadinhos, Coca litro, toalhinha… Uma cena inusitada para quem não esperava algo assim… E a segunda, a fixação que este povo tem em fogos de artifício. Abriu-se uma clareira na rua e ali formou-se uma verdadeira chuva de restos de rojões que espoucavam colorida e tresloucadamente nos céus sobre nossas cabeças. Olhar para cima era temerário. Alguns falhavam e vinham detonar aos nossos pés. Nunca vi tamanha artilharia tão perto das pessoas. Achei aquilo um despropósito, mas tudo era festa e creio que o estrangeiro aqui era o único ser destoante no pedaço. Assim, esperei pela passagem do ano bebemorando com uma latinha nas mãos e fui embora dormir. Era o ano da graça de 2009, o ano em que eu completarei meio século sobre o planeta. Cáspita!

Bueníssima onda!

Bueníssima onda!

Reveillon com pic-nic

Reveillon com pic-nic

Zona de guerra

Zona de guerra

Esse foi fudido!

Esse foi fudido!

Na Venezuela há Bolivar (1783-1830) em tudo. Do aeroporto internacional Simón Bolivar em Maiquetía, vizinha à capital, aos valorizados bolívares que se gasta no cotidiano, passando pelo nome oficial do país: República Bolivariana da Venezuela, que chama a atenção nas capas dos passaportes. O grande libertador nasceu em Caracas e o país não perde uma oportunidade de prestar-lhe uma homenagem. Mas o homem foi grande mesmo, tendo sido presidente da Gran Colômbia, nação formada pelas colonias liberadas, e presidente ainda do Peru e da Bolívia, além de ter contribuído decisivamente para a independência das atuais Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Panamá. Um herói de verdade! Ou alguém aí conhece mais alguém que já tenha sido presidente de três países?

Na rua ou no congresso... só ratos!

Na rua ou no congresso... só ratos!

Já Cháves, cujo palácio vi de longe, tem investido mucha plata na vizinhança. São petrodólares prá Argentina, prá Bolívia, prá Cuba… e Caracas suja prá caraca! Fiquei me perguntando porque ele não arruma a casa dele antes de investir na dos outros. Falando em grana, ô terrinha cara! Além de um Real comprar somente 0,7 Bolívar, um prato de comida que em São Paulo custaria, digamos, R$ 20,00 em Caracas sai por uns Bs 25,00. Ou seja, um “realista” brasileiro perde duplamente. Ainda assim, teria tido prazer em gastar até mais para o desayuno no dia 1° mas, como eu temia, tudo estava fechado. Resolvi a situação num carrinho de perro-caliente! E esta foi a primeira refeição do ano. À tarde, o comércio começou aos poucos a abrir. Então o almoço pode ser um Mc Donald’s mas, surpresa, não havia carne. Como assim?? Um Mac Donald’s sem Big Mac ??? Si, señor. Hoy tenemos solamente productos de pollo. Porra, só mesmo na chavisticamente americanófoba Venezuela…

Santo Obama, rogai por nós!

Santo Obama, rogai por nós!

Los Cocos

Los Cocos

Los locos

Los locos

E sendo feriado decidi ir conhecer a praia (não que eu precisasse de um feriado para isso, estando em férias). Após informar-me, tomei o metrô e desci na estação Gatonegro, de onde saem as busetas para as localidades litorâneas. O trajeto não é longo… talvez uns 30 minutos até o mar. E chegando lá fui me deixando levar até onde me desse na telha de descer do ônibus. E isso aconteceu na praia de Los Cocos. Andei até onde o povo estava e estava tudo lotado. Sobre a areia, ao invés de guarda-sóis, havia longas cabanas de sapé onde as famílias se amontoavam, digo, abrigavam do sol do verão. Voltando pela avenida que margeia o mar, fui visitando várias praias e constatando que todas estavam entupidas de gente. Eram praias sem vegetação e para mim não muito atraentes. Foi então que tomei uma decisão: como ainda me restava uma semana de férias, decidi passa-la numa praia “de verdade”, no meu país. E para isso deveria antecipar minha reserva de volta.

El Capitolio

El Capitolio

Foi o que fiz na sexta-feira, dia 2, no escritório da Varig, remarcando minha passagem já para o dia seguinte à noite. Saindo dali, resolvi perambular pelo centro de Caracas, descendo do metrô na estação Capitolio. Andei a esmo

Centro Caracas

Centro Caracas

Se não está abandonado, parece!

Se não está abandonado, parece!

quase o dia inteiro, conhecendo uma parte muito bonita da arquitetura da capital, bem como alguns edifícios enormes que mais pareciam abandonados. O pior é que não eram… Foi nestas andanças que vi, ao longe sobre um morro, a sede do governo. Não estava a fins de ir até lá, então aproveitei para descansar as pernas pegando um cineminha. Assisti a Macuro – La Fuerza de un Pueblo, uma grata surpresa vinda do moderno cinema venezuelano. E já com a noite caindo topei com um grande shopping center em meu caminho de volta ao hotel. Aproveitei para jantar ali, em meio a uma multidão de gente, sobretudo jovens, que pareciam ter eleito aquele lugar como seu point.

Pico da galera

Pico da galera

Hacia el zoo

Hacia el zoo

No sábado, meu último dia em Caracas, tomei o metrô em El Silencio para ir passear no Jardim Zoológico. Estava lotado mas era fraquinho, com pouca diversidade de animais, alguns repetidos (só de caimans havia uns 4 tipos). E os indefectíveis piqueniques… famílias com comida por todos os lados… de longe, o animal mais numeroso era o humano. Passei ali a manhã e voltei pra cidade onde as nuvens pesadas, que estiveram sobre os cerros ao norte durante toda a minha estada, permaneciam inalteradas ameaçando chuva, que nunca vinha.

Só fico aqui até às 21:45

Só fico aqui até às 21:45

Ao final da tarde tomei um táxi para o aeroporto, onde fiquei matando hora por bastante tempo. Fui conhecer a ala nacional, que fica longe da internacional e me pareceu grande demais pruma nação tão pequena. À noite embarquei de volta à terra que me viu nascer e deixei para trás o que pude ver da Venezuela. Parti com a impressão de ter sido injusto para com o país, tendo conhecido somente a capital. Só por saber que é na Venezuela que se encontra a maior cachoeira do mundo estou seguro de que há muitas maravilhas interior adentro. Com relação à minha realidade, contudo, acabei por concordar com o bloguista anônimo que escrevera “o melhor de Caracas é a hora de ir embora”… Sorry, hermanos, soy sincero!

Time can bend your knees!

Time can bend your knees!

janeiro 27, 2009

A VIAGEM A CARTAGENA

Ao Caribe imenso...

Ao Caribe imenso...

Ciudad amurallada

Ciudad amurallada

De vuelta al pasado

De vuelta al pasado

Uau! Enfim o mar do Caribe! Quem sabe um dia ainda volto aqui no meu veleiro? Mas por enquanto só de poder conhecê-lo já está bom demais. Estamos no topo da América do Sul, numa das cidadezinhas mais charmosas do continente. Cartagena de Indias, patrimônio da humanidade, é uma aula de história e para conhecer seus capítulos basta ir ao Museu Naval, que foi a primeira fachada que avistei quando adentrei os muros da cidade velha. Mas àquela hora, sob o sol da manhã, queria mais – prá variar – era andar e andar por sobre os paralelepípedos centenários. Adoro isso! E a parte histórica, chamada de ciudad amurallada, é mesmo digna de uma exploração minuciosa.

Vale 1 quarteirão...

Vale 1 quarteirão...

Avidaté parece uma festa

Avidaté parece uma festa

¿Gafas chinas, señor?

¿Gafas chinas, señor?

Vaticano, filial 908

Vaticano, filial 9999

Na cidade velha de Cartagena, pela primeira vez, vi calles que tem o comprimento apenas do quarteirão. Ou seja, a rua tem um nome e no quarteirão seguinte já tem outro, embora sendo a mesma rua. E todas tem nomes pitorescos: Calle de la Amargura, Calle del Porvenir, Calle de las Damas, Calle del Cuartel, Calle Tumbamuerto… Pelas calles, antigos sobrados com balcões no andar superior, muitos com jardineiras, enfeitam a paisagem, tomada de turistas. Fiz força para não parecer um deles, mas não houve jeito… Señor, ¿Cambio, dolares, coca? ¿De donde viene usted? Me ofereciam de tudo, e eu a todos respondia com um sorriso e… !No, gracias! Seguia caminhando por entre outros gringos e românticas charretes puxadas por cavalos devidamente enfraldados para não sujarem as ruas, em direção ao próximo assédio.

Dei a volta...

Dei a volta...

Forte San Felipe de Barajas

San Felipe de Barajas

shhh... BUM!

shhh... BUM!

Pau nos invasores!

Pau nos invasores!

Rota de fuga

Rota de fuga

Neste primeiro dia andei pacas e achei tudo bem legal. São 11 kms de muros na cidade velha e para o leste, no alto de uma montanha, há uma fortificação (no séxulo XVI os caras só pensavam nisso…), o Forte San Felipe de Barajas. Aproveitei a disposição e subi lá. Muito legal vivenciar assim de perto um pouco da realidade do passado. Havia guias revelando curiosidades para grupos de turistas, e de grupo em grupo ia eu, roubando uma informaçãozinha aqui, outra ali… Assim, aprendi que Cartagena foi a quarta cidade fundada pelos espanhóis nas Américas e que o San Felipe foi a maior edificação militar ibérica nestas terras. Era em Cartagena que a Espanha depositava e dali partia a maior parte da riqueza (ouro e pedras) descoberta, com destino a Europa. Sempre em frotas, para evitar o ataque dos piratas, que pululavam nestas águas. (Mas ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, mesmo naqueles tempos, não é verdade?).

Fruta fresca!

Fruta fresca!

Calçada das guloseimas

Calçada das guloseimas

Parque de Bolivar

Parque de Bolivar

Tudo fake!

Tudo fake!

Descendo do morro fui conhecer o Museu de la Inquisición, que mostra um pouco dos suplícios a que eram submetidos os inimigos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Mas é pouco mesmo, o museu deixa a desejar, sobretudo porque raras peças são originais, quase tudo é réplica. Apesar disso, tive uma tarde muito proveitosa, turística-histórica-esportiva – porque andar desse jeito não deixa de ser esporte pesado. Algo que me intrigou não só em Cartagena, mas em toda a Colômbia, é que os sanitários são pagos, mas nem por isso limpos. E falando em intriga, no país do café (… vá lá… um dos…), achar um cafezinho não é mole. Há uma rede de cafeterias, Juan Valdéz, que serve um bom café. Mas é a única com que me deparei e, ao menos dentro das muralhas de Cartagena, seus preços eram assaz salgados.

El Glória, à esq.

El Glória, à esq.

Bocagrande noche!

Bocagrande noche!

A cidade circunda uma grande baía. Há água literalmente por todos os lados e num destes cais estava ancorado o navio-símbolo da marinha colombiana, o veleiro Gloria, majestosamente decorado e aberto à visitação pública. Mas tão cheio de horários e regras que nunca dava certo visitá-lo. Contentei-me em admirá-lo de perto, uma nave que impõe respeito. E já caindo a noite, voltei para o hotel, em Bocagrande, e descobri que este é um bairro prá lá de agitado, com as calçadas tomadas de turistas – a maioria colombianos vindos de outras partes do país. Cartagena é deveras uma cidade alegre!

Tecnologia!

Tecnologia!

Estávamos próximos (uns 300 km) do Panamá. Algo que fui aprender ali é que não há ligação rodoviária entre a América do Sul e a Central. O que significa que a tão decantada Rodovia Panamericana é uma quimera. Na verdade entre a Colômbia e o Panamá o que há é uma floresta de uns 100 quilômetros, fechada e pantanosa, por enquanto instransponível por via asfaltada. Para entender melhor a situação geográfica da região, entrei num cyber café e estudei as fotos do Google Earth. E fotografei a tela para ter o mapa comigo no celular, porque ali não havia conexão TIM para acessar diretamente o Google Maps.

Beira-mar

Beira-mar

O mar e o tempo

O mar e o tempo

nenhuma Brastemp...

nenhuma Brastemp...

Na segunda manhã voltei à cidade murada porque ainda estava muito a fins de bater pernas por ali. E fui fuçando… descobri uma parte em que há um intenso comércio de barracas populares, vendendo de tudo um pouco. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de barracas de sapateiro que havia lá, uma ao lado da outra. Ainda bem, porque neste mesmo dia uma de minhas sandálias abriu o bico e tive de valer-me dos préstimos de um destes valorosos profissionais. O que achei que ia ser complicado o cara resolveu em cerca de dois minutos, pela astronômica quantia de 1 peso. Salve os sapateiros! E de pisante reformado, aproveitei para dar uma esticada ao aeroporto, onde pretendia antecipar minha passagem para Caracas. Era longe, mas foi legal porque a avenida era à beira-mar.

Aquecendo as turbinas

Aquecendo as turbinas

Melhor que nada...

Melhor que nada...

O aeroporto de Cartagena é pequeno, moderno e simpático. Não tive problemas com os trâmites burocráticos no guichê da Avianca e saí de lá com minha reserva antecipada para o dia seguinte. Mas ainda tinha tempo de sobra… Assim, na volta aproveitei para caminhar um pouco pelas areias caribenhas. Verdade seja dita, entretanto, as praias ali não são legais, estreitas, de areia escura, com prédios à vista… Mar adentro, nas ilhas, haverá coisa melhor. Mas não fui. Caminhei pelas águas do Atlântico e alegrou-me a idéia de que já entrei neste oceano por todos os lados da América do Sul, com exceção do extremo sul, en la Tierra del Fuego. Quem sabe na próxima? Voltei para a cidade murada onde, muito acima do Equador, o sol brilhava sobre as praças e as pessoas.

Som ao vento!

Som ao vento!

Hoy todo és fiesta

Hoy todo és fiesta

Haga amor, no la guerra

Haga el amor, no la guerra

En el tiempo que pasa

En el tiempo que pasa

Ao entardecer, nos bares localizados sobre o largo muro, frente ao mar, bandas de músicas latinas abriram os trabalhos da noite. E o astral ia ficando cada vez melhor à medida em que o sol se punha. Agitos para todos os lados, gente linda – a mulher colombiana herdou o que há de melhor do sangue espanhol – e muita festa. Turistas, jovens, velhos, todos numa grande confraternização que em mim ressoava de maneira contagiante. Aquele caminho de pedras, aquele mar, a música, o poente… tudo contribuía para criar uma sensação de enlevamento que era assaz recompensadora. Considerei este o ponto alto de minha viagem. Após bebemorar o suficiente, saí dali agradecido.

Tudo de bom

Tudo de bom

E voltei pro hotel prá tomar uma ducha, com a intenção de esticar a festa, quem sabe indo a alguma boite mais tarde? E foi o que fiz. Lá pelas 23 saí e voltei para a cidade murada em busca de agito. Mas quem leu este blog até aqui já percebeu que de notívago eu não tenho nada. Queimo toda a energia sob o sol. E à noite eu sinto é sono! Tendo encontrado uma boite legal, música bombando, gente pulando e se agarrando, acabei ficando num canto, tomando uma ou duas cervejas, e concluindo que aquilo não era mesmo prá mim. Então desencanei e fui caminhar na praia, afinal, a noite estava linda.

Ao longe, o porto

Ao longe, o porto

Meu futuro ancoradouro

Meu futuro ancoradouro

Busetinha caliente

Busetinha caliente

No terceiro dia decidi conhecer o porto. Fui caminhando pela orla interna, que circunda a baía, e passei pela marina, onde havia muitas embarcações ancoradas. Sempre curto a companhia das embarcações… Mas quando cheguei próximo ao porto constatei que mesmo àquela hora do dia não era uma boa idéia perambular por ali. Como toda região portuária, aquela não inspirava confiança, e eu não havia logrado dissimular minha cara de turista… Então dei meia-volta, tomei uma buseta e voltei prá cidade, e quando ia descendo quase esqueço minha carteira sobre o banco. Fui avisado por um garoto, o que me poupou inimagináveis dores-de-cabeça futuras. Ficou no quase!

Ciudad Amurallada, desde Bocagrande

Ciudad Amurallada, desde Bocagrande

Cabeça nas nuvens

Cabeça nas nuvens

E na terceira noite fui para o lado oposto, para os confins de Bocagrande, onde constatei que se tratava de um bairro de classe média, com jardins, ciclovias e muita gente bem nutrida caminhando pelas calçadas. A Colômbia, para mim, foi uma grata surpresa. O tempo todo senti-me em casa e muito bem acolhido. Não presenciei nada que me desagradasse a ponto de não querer retornar. Os preços são acessíveis e viajar pelo país é estimulante. Ao quarto dia pela manhã, quando o avião subia vi abaixo, panoramicamente, Cartagena de Indias, a pequena jóia da Coroa espanhola – e agradeci de coração a felicidade de conhecê-la.

Shorter of breath, closer to death

Shorter of breath, closer to death

janeiro 24, 2009

A VIAGEM A MEDELLÍN

Seguuuura, peão!

Seguuuura, peão!

Vista antioqueña

Vista antioqueña

Llegada a Medellin

Llegada a Medellin

… então, montados no bumba do Rapido Ochoa sacolejávamos pelo interior da Colômbia, tendo por destino Medellín, o coração econômico do país. Passando a ponte de La Dorada estávamos no departamento de Caldas, porém ainda retornaríamos ao de Cundinamarca e passaríamos pelo de Boyacá antes de finalmente entrarmos no de Antióquia. O trajeto sinuoso, decididamente, não era nada objetivo. Enquanto a noite caía, nossa condução seguia por cidades e lugarejos de aparência sofrida e nomes pitorescos, como Cocorná, El Santuario, Rionegro, Guarne, Bello e, por volta das 22 horas, avistei enfim as luzes da capital. A chegada a Medellin à noite, pela Nacional 60, é uma dessas impressões indeléveis. O pedaço da cidade que se descortina é nada menos que as imensas encostas da cordilheira tomadas por miríades de luzes dos bairros populares. É uma visão impressionante, um vale cujas laterais remetem à cena de algum outro planeta. Fiquei deveras tocado e, confesso, um tanto apreensivo – naquele momento Medellín pareceu-me um lugar miserável e ameaçador. Mas na verdade vi probreza, mas não miséria na Colômbia.

Terminal del Norte

Terminal del Norte

Rio Medellin

Rio Medellin

Hotel Poblado Campestre

Hotel Poblado Campestre

Por fim, o ônibus estacionou numa das plataformas do Terminal del Norte e pude desembarcar para mais uma etapa desta aventura. Num táxi, percorri a marginal do Rio Medellín, onde havia gigantescos luminosos natalicios. Atravessando quase toda a cidade, chegamos ao simpático hotel Poblado Campestre, onde me aguardava uma reserva, uma ducha tépida e uma cama aconchegante. Um dia inteiro constrito numa poltrona vibratória é coisa para treinamento de astronautas, não para turistas em busca de sossego. Mas sobrevivi e agora queria apenas caminhar pelas redondezas em busca de algo para por entre os dentes.

Metrô Medellín

Metrô Medellín

Vista do Metrô...

Vista do Metrô...

Povo!

Povo!

Estación Caribe

Estación Caribe

Manhã de sol em Medellín! Saio em busca do metrô para voltar ao terminal norte onde na noite anterior, na pressa de sumir dali, havia esquecido de comprar a passagem para a próxima etapa: Cartagena de Indias. Em época de alta temporada convém não deixar prá depois. O metrô, limpo e bonito, ajudou a mudar a primeira impressão que eu havia tido da cidade. Medellín é moderna, com todos os contrastes esperáveis de uma metrópole sul-americana. Indústria pujante convivendo com populações empobrecidas. Ruas lotadas e comércio prá todas as faixas sociais, desde refinados shopping centers a feiras informais de venda e troca de usados. E passavam as estações… a partir de Aguacatala vinham: Poblado, Industriales, Exposiciones, Alpujarra, San Antonio, Parque Berrío, Prado, Hospital, Universidad e, finalmente, Caribe – interligada à rodoviária.

SOS dinherooooooooo

SOS dinherooooooooo

Sí, sí, sí, yo quiero

Sí, sí, sí yo quiero

Entro num cajero automático para ordenhar meu cartão VISA e – surpresa – nada de pesos: “sem comunicação”. Vou a outro e “sem comunicação”. Busco o terceiro, o quarto e último… Socorro! Nada! Procuro um local onde possa fazer uma chamada telefônica ao Brasil para entender o que está acontecendo, mas nenhum dos dois postos telefônicos que havia faziam chamadas a cobrar. Minha única saída era voltar todo o caminho até o hotel (sem dinheiro, sem passagem e bastante encanado) para poder utilizar um telefone. Quando enfim consegui falar com alguém, soube que o problema era queda de sistema no Brasil. Putz! Deveria ser indenizado pelo stress e pela manhã perdida. Mas estamos em férias, mantenhamos a fleuma e, embora quase duros, saiamos sorridentes a perambular… Quanto à grana, mais tarde tentaremos novamente.

Onde tudo acontece!

Onde tudo acontece!

Quando mais tarde chegou, finalmente consegui sacar de um caixa automático a quantia necessária para a passagem e voltei à rodoviária. Desta vez, tudo deu certo – aliás, com grana, quase sempre dá! Comprei o bilhete, desta vez pelo Expreso Brasilia, e fui ao posto de atendimento ao turista solicitar un mapa de la ciudad, por favor. Fui muito bem recebido por um senhor, policial militar, que estava disposto a mostrar-me sobre o mapa todos os atrativos da cidade. Mas minha curiosidade, confesso, era mais mórbida… diante de tanta boa vontade, arrisquei a pergunta que não queria calar. Disse-lhe:

- Mira, señor, pienso que para uno de Medellín no le gustará contestar a esa pregunta… pero me gustaria saber en que punto de ese mapa fué muerto Pablo Escobar.

Para minha surpresa, ele não se aborreceu. Ao contrário, mostrou-me o local sobre o mapa (a nordeste da cidade) e ainda me contou que, numa ocasião, houvera conhecido pessoalmente o maior traficante da história das Américas.

- ¿Verdad?

Barato inda é forte...

Barato é caro...

- !Si, por supuesto! E então contou-me que certa tarde, há uns 18 anos, quando estava de serviço no Hotel Intercontinental, ao norte no bairro de Los Cerros, viu chegar o traficante com toda a sua guarda pretoriana, fortemente armada. Sem chance de defesa não reagiu, porque sabia que seria morto. O homem entrou, ficou o quanto quis, fez o que tinha de fazer e foi embora. Naquela época, segundo o policial, os chefes da droga comportavam-se ostensivamente como se fossem os donos da cidade, um estado de coisas que mudou, pois hoje o tráfico embora intenso é discreto.

Talleres en Caribe

Talleres en El Caribe

Fazemos qq negócio!

Fazemos qq negócio!

Te lembra algo, né?

Te lembra algo, né?

Plaza Botero

Plaza Botero

Retornei ao centro a pé, para aproveitar melhor a tarde. No primeiro bairro que atravessei, El Caribe, havia uma concentração inusitada de oficinas mecânicas. O bairro inteiro era uma manutenção só, inclusive de veículos pesados, o que deixava as ruas cheias de caminhões parados. Vindo pela Carrera 52, cheguei então à parte mais popular do centro, onde havia pelas calçadas uma grande feira de objetos usados. Muitas lojas de bicicletas, autopeças, ferragens e eletrodomésticos. Por fim, cheguei à Plaza Botero, com suas curiosas esculturas de simpáticas figuras obesas. Era o dia 23 de dezembro e havia uma multidão que entupia as ruas. Estava difícil caminhar. Melhor parar numa das muitas galerias prá tomar uma cerveja, desta vez a Polar, ao som da Estrella FM.

Policial? Soldado?

Policial? Soldado?

Início de uma aventura...

Início de uma aventura...

Na Colômbia, ao menos nas metrópoles em que estive, não passa dois minutos sem que se aviste um policial. Em Medellín havia um em cada estação de metrô, sempre próximo às catracas. Mas também estavam pelas ruas, circulando em motos (2 por moto), em carros. Os vigilantes privados utilizam cães. E o uniforme da polícia é em tudo semelhante ao do exército, o que os diferencia é o jaleco de um verde fluorescente utilizado pelos policiais por sobre a farda. Assim, muito bem protegido, na manhã do segundo dia tomei uma vez mais o metrô com destino à Estación Acevedo, ali há uma conexão com o teleférico que leva para o alto de uma das encostas, no bairro de Santo Domingo Savio.

Panoramica de Suramerica

Panoramica de Suramerica

Muy moderno!

Muy moderno!

O teleférico, chamado Metrocable, é um passeio imperdível. Tanto um quanto o outro, pois há dois na cidade. Em cabines para 8 pessoas que viajam suspensas a uma surpreendente altura do solo, passeia-se por sobre os telhados, os bares, as esquinas, as lajes e os folguedos infantis que se desenrolam no mundo abaixo. É algo feérico. Sobrevoa-se as casas e vê-se o que nelas acontece. Quando há um sobrado alto à frente, têm-se a impressão de que se vai bater contra a parede mas eis que se sobe cada vez mais, mais alto, até que se avista ao longe toda a cidade. Gostei tanto que decidi visitar naquele mesmo dia a outra linha, que vai em direção aos bairros da encosta norte.

Brinquedão!

Brinquedão!

Natal perto do céu

Natal perto do céu

E foi o que fiz à noite, na véspera do dia de natal do ano de 2008. Tomei o outro teleférico, na Estación San Javier com destino à Estación Aurora. Se pela manhã o primeiro já havia me impressionado, a viagem que fiz nesta noite subindo e descendo as montanhas escuras dos Andes, foi algo indescritível. Se o primeiro ia por sobre as casas, este sobrevoava a mata escura. E do ponto mais alto, acima de tudo mais o que acontecia naquela parte do mundo, pude ver as infinitas luzes de Medellín no vale abaixo e parecia inacreditável o que se descortinava. Pensei: só por estar aqui e presenciar isso já valeu o meu natal. Sozinho ali, sem champanhe ou panetone, eu estava muito feliz.

Noche Buena!

Noche Buena!

Mucha gente!

Mucha gente!

Media Noche!!!

Media Noche!!!

Voltei para as partes baixas e fui aonde o povo estava – as margens ricamente iluminadas do Rio Medellín. Havia um trabalho em luzes que impressionava pela grandiosidade. Nunca havia visto uma instalação luminosa daquele tamanho, tomando quase todo o rio. E já passava das onze e o povo estava em festa. Crianças, casais, anciãos – muitos policiais – e eu lá pelo meio, experimentando desta vez uma cerveja cujo nome não me lembro mas que era horrível, doce, parecia a mistura de cerveja com tubaina.

Após a meia-noite, finda a festa, decidi voltar para o hotel. Fui para a avenida marginal, mas quem conseguia parar um táxi? Passavam todos lotados, sem uma única exceçãozinha para me tirar daquele sufoco. Pensei na possibilidade de voltar a pé, mas era longe demais, eu já estava com as pernas muito cansadas e àquela hora… o bom-senso absolutamente não recomendava. Porém, sem alternativa, comecei a caminhar. E por muitíssima sorte, vi parar um táxi do qual desceu uma família. Corri e foi a salvação. Em poucos minutos estava no conforto do meu quarto de hotel, mas muita gente ali deve ter se dado mal…

Envigado

Envigado

Na manhã do dia 25, meu último dia inteiro na cidade, sai caminhando por trás do hotel e descobri um bairro muito elegante, com direito até mesmo a um enorme campo de golfe. Andei até cansar, como é de meu costume, mas desta vez não deu prá continuar. Até queria ir um poquinho mais… mas as pernas se recusaram e tive de sentar-me à beira da rua para decidir o que fazer. E minha decisão foi continuar o turismo mas agora motorizado. Assim, tomei a primeira buseta que passava e deixei-me levar. Fui parar em Envigado, a próxima cidade a leste. E foi muito legal, porque embora tão próxima Envigado é muito diferente de Medellín. Para começar é muito menor, parecendo até uma cidadezinha de interior. E o ônibus ultrapassou o centro e seguiu para os bairros do subúrbio. Ali havia muitas famílias cozinhando nas calçadas, festas para todo lado, e um clima de Natal em Paz! Gostei muito do passeio improvisado. Quando achei que já estava indo longe demais, desci, tomei um malte (bebida comum na Colômbia) num quiosque e peguei outra buseta de volta (eu adoro busetas).

Tudo de novo... Vai ser foda!

Tudo de novo??... Sim, vai ser foda!

Às onze da manhã do dia seguinte embarcava no já familiar Terminal Norte para mais um sacolejo de 12 longas horas, desta vez com destino a Cartagena de Indias. O ônibus era um pouquinho melhor do que o anterior, ao menos tinha cineminha – e foram nada menos que quatro longa-metragens do início ao final da viagem, com espaço para mais alguns durante as pausas entre um e outro. Ao meu lado sentou-se um rapaz que parecia disposto a entabular uma animada conversação. Mas havia um problema: eu não entendia patavina do que ele dizia. Falava rápido mas aquilo não era castelhano – era colombiano, o que é muito diferente. Fui obrigado a fechar a cara e responder com monossílabos, pois previ que iria ficar com dor de cabeça se fosse tentar decifrá-lo. Já estava de saco cheio de ter de dizer “como?” e “hã?” a cada frase que ele dizia.

Bem que estranhei...

Bem que estranhei...

Lá pelas tantas, quando voltava do banheiro para a minha poltrona, senti algo estranho ao sentar-me e imediatamente soube do que se tratava. Era uma baita pistola – e carregada, pois o garoto era um policial à paisana que na minha ausência havia debruçado sobre o meu banco vazio para conversar com o vizinho do outro lado do corredor e neste movimento deixara cair a arma, sem perceber. Com naturalidade, apresentei-a a ele e perguntei “¿És tuya?”. Ele não pode acreditar, pegou-a e pareceu muito envergonhado, pois aquilo não havia sido nada profissional. Pero… cosas que suceden.  Quem nunca perdeu uma pistola, não é mesmo?

NÃO recomendo!

NÃO recomendo!

Por fim, lá pela uma da manhã – sim, foram mais que doze horas – chegamos ao litoral. Desembarquei na rodoviária de Cartagena e tomei um táxi que me levou ao bairro de Bocagrande, na Carrera 3, hotel Bonavento Real – (in)felizmente o único muquifo de toda a viagem. Aliás, diante das acomodações decepcionantes (reservadas às cegas pela Internet), tive de encurtar um pouco minha estada numa das mais agradáveis cidades em que estive, pois àquela altura não havia como encontrar vaga em outro hotel, todos abarrotados.

Mas (again) estamos em férias, mantenhamos a fleuma e, embora muito putos, saiamos sorridentes a perambular… Afinal, Cartagena é muitíssimo legal.  Mas isso merece outra história.

Time flies!

Time flies!

janeiro 22, 2009

A VIAGEM A BOGOTÁ

Ueba! S'imbora!!

Ueba! S'imbora!!

Eram 11 da manhã da quarta-feira, 17 de dezembro de 2008, quando subi num Boeing 737-800 da Varig, no aeroporto de Cumbica, com destino à Colômbia. Manhã cinzenta que se revelou mais que ensolarada, exuberante, assim que o avião ultrapassou o manto das nuvens. No encosto à minha frente não havia aquele monitor que nos situa geograficamente, mas a voz do comandante deu as diretrizes: “Senhores passageiros, bem vindos ao vôo 8698 da Varig com destino a Bogotá. Nosso trajeto será por Bauru, Cuiabá, Villavicencio e Bogotá. Tempo estimado de vôo 6 horas. Tenham todos uma boa viagem”. Tais palavras colocaram-me finalmente em sintonia com a situação: eu acabara de sentar-me numa poltrona da qual levantaria dentro de 6 horas para desembarcar noutro país, noutra cultura, noutro mundo. Na verdade, levantei-me antes disso para ir fazer xixi.

O aeroplano… não canso de admirar esse maravilha sonhada por Da Vinci e materializada por Santos Dumont (xô, usurpadores Wright). Trata-se de uma máquina que é quase o teletransportador de Jornada nas Estrelas. Você entra aqui e sai lá… apenas demora um pouquinho mais. Aliás é também uma máquina do tempo, na qual você pode magicamente ver o dia andando para trás, desde que voe para o oeste, como em Enquanto Isso.

Natureza e máquina!"

Natureza e máquina!

Nós rumávamos noroeste enquanto eu mentalizava cálculos… 4300 quilômetros em 6 horas significa que nossa velocidade é de pouco mais de 700 km/h. Se a hora tem 60 minutos, então estamos a quase 12 km/min, o que implica 200m por segundo. Concluí que a cada 5 segundos deixávamos 1 quilômetro para trás, impressão que foi melhor ilustrada quando pude ver a sombra negra do aparelho “voando” no chão. E por algum tempo estive a contar os segundos… 1… 2… 3… 4… um quilômetro… 1… 2… 3… 4… dois quilômetros… até que cansei da brincadeira e passei a ler a revista de bordo. Subindo para 30 mil pés, lá fora já não dava prá ver mais nada.

Hotelzinho legal!

Chiquitito, pero cumpridor!

galerias5

Galerias populares

Decorridas estas poucas horas, devidamente vacinado contra a febre amarela pousei no Aeropuerto Internacional El Dorado, na capital colombiana, onde era aguardado por uma senhora que ostentava uma plaqueta com meu nome. Com seu filho, que dirigia o Fiat e conhecera São Paulo, fui conduzido ao hotel que reservara no aprazível bairro de Chapinero Alto, não sem antes passar defronte à embaixada americana, que – como convinha – mais parecia um bunker gigantesco. Y entonces allí, en el coche mismo, empecé con ellos a utilizar mi castellano. Eso me gusta! Ueba! Ao cair da noite, já instalado e após uma ducha providencial, fui comprar um livro na movimentada Calle 53, próximo às Galerias. Por 25 pesos, adquiri “El Amor en los  Tiempos del Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, porque o enredo transcorre na cidade de Cartagena, próxima parada prevista em meu roteiro.  Porém, talvez pelo desconforto das 6 horas sentado sentia-me indisposto, assim jantei por ali um sanduiche um tanto estranho e deixei para explorar a cidade no sol da manhã seguinte.

Arepas chôcolo

Arepas chôcolo

Cordilheira

Cordilheira logo alí

Buseta

Buseta

Comércio de rua

Comércio de rua

E foi o que fiz logo ao acordar. Após um desayuno de tamales com arepas-chôcolo (amei a segunda, abominei o primeiro) sai prá bater pernas por uma das capitais sulamericanas que há tempos tinha ganas de conhecer. Não sei porque, sempre simpatizei com a Colômbia. E então tudo era novidade: a cidade aos pés da cordilheira, o frio que surpreendia, as busetas multicoloridas, o comércio popular de artigos regionais. Fui clicando tudo no meu Nokia N95 comprado no Shopping Morumbi especialmente para a ocasião, o que me permitiu registrar a aventura completa em fotos de 5 megapixels. O frio era realmente inesperado… havia pensado que por estar mais próxima à linha do Equador Bogotá seria mais quente do que São Paulo, esqueci-me porém de considerar a altitude… A 2640m, a capital colombiana está mais alta que a paulista respeitáveis 1880m, e isso obviamente reflete muito na temperatura.

Motoqueiro

Identifique-se!!

Taxi

Prá avião ver

Ali, dentre as particularidades que chamam a atenção, está o fato de todos os motociclistas serem obrigados a utilizar um jaleco com destaque para o número da placa, o que não é de muita valia quando por cima do número vestem uma mochila… Assim, por via das dúvidas, são obrigados a pintar o mesmo número também na traseira do capacete. Os táxis são amarelos e todos veículos utilitários têm o número da placa pintado não só nas laterais, como também no teto. Todas essas regras de trânsito são neuras compreensíveis para um país que convive há tanto tempo com ataques terroristas… Mas meu medo de ser seqüestrado não se concretizou.

Transmilenio

Metrô sobre pneus

estacao-t

Estação Transmilenio

Plaquinha esquisita...

Que meda!

Mais 1 buseta

Buseta é o que há!

Ao invés de metrô, a cidade conta com um sistema de ônibus vermelhos articulados (chamados Transmilenio) que a cortam de lado a lado com as estações de embarque localizadas sobre as ilhas das principais avenidas. Trata-se de um meio de transporte eficiente, embora já subdimensionado para os horários de pico. Foi num destes ônibus que vi uma placa curiosa…  e até ligeiramente assustadora!  Mas o que mais salta aos olhos do turista desavisado, como eu, são mesmo as busetas. São ônibus pequenos, desuniformes, pintados em cores escandalosas e na maioria das vezes decrépitos, que por módicos 1,20 pesos levam o passageiro por longas distancias. É funcional, barato e pitoresco.

Bogotá nublada

Bogotá nublada

Localizar-se não é um problema. O país conta com um sistema de nomenclatura de logradouros que torna tudo fácil: de norte a sul estão as “carreras”, que são as avenidas. E de leste a oeste correm as “calles”, ou ruas. E todas levam números – e não nomes (com poucas exceções). Assim, por exemplo, o endereço Carrera 13 #27-17, significa: Avenida 13, altura da rua 27, número 17. E qualquer um que conheça minimamente a cidade já terá uma boa idéia de onde isso fica, mesmo sem olhar no mapa… muito prático.

Monserrate, pertim do céu

Monserrate

Trenzinho

Trenzim

Atrás da igreja

Atrás da igreja

Tá, mas sem galinha...

Tá, mas sem galinha...

Alto pacas!

Alto pacas!

Bogotá, já chamada pelos antigos de “Santa Fé” e depois “Santa Fé de Bogotá”, situa-se num terreno plano que a leste (lá dizem “oriente”) tem a cordilheira por limite natural. Então um ponto de grande interesse turístico é Monserrate, uma igreja localizada bem alto no topo da montanha de onde se descortina a vista de toda a região metropolitana.  Chega-se por um simpático trenzinho que sobe uma encosta íngreme ou por um teleférico que no sábado em que lá estive só iria iniciar as atividades às 3 da tarde. Aliás neste dia pouco se podia ver da cidade, tal era a neblina que se instalara. De trás da igreja sai um corredor de tendas que vendem souvenires e comidas típica. Aliás, as comidas são um capítulo à parte. O que se via eram galinhas amarelas fumegantes, miudos de aves aferventados, linguiças de aspecto suspeito e tantas outras iguarias que, sinceramente, mais me assustavam que atraíam. Mas suponho que os colombianos as adorem, porque estão por toda parte – assim como o som da Candela FM.

1º Mundo

1º Mundo também, tá?

Museu Nacional

Museu Nacional

Planetario Bogotá

Planetário Bogotá

Centro Histórico

Centro Histórico

Visitei os centros econômicos e constatei que ali também há algo de primeiro mundo. Fui ao Museu Nacional de Colômbia, muito interessante, ao planetário municipal, que considerei melhor que o de São Paulo, e à região das praças, en La Candelaria, o centro histórico, que para mim é a parte mais charmosa da cidade. Por falar em charme, impagáveis são os caminhões cuja carroceria foi transformada num salão de baile aberto, que desfilam pelas avenidas com a música a todo volume e lotados de turistas dançando, bebendo e babando lá em cima.

Joyeux Noël partout

Joyeux Noël partout

Frio desfocante...

Frio desfocante...

Fiesta!

Fiesta!

Eram dias que antecediam o natal e por isso à noite a metrópole brilhava em cores. Pela avenida principal, a Carrera 7, famílias passeavam lotando as calçadas e este espírito de festa avançava até altas horas. Num frio de rachar, eu andava até as pernas doerem. Então tomava uma buseta de volta à casa e ia ler a saga de Florentino Ariza em sua perseverante – antes, obstinada – espera pelo amor de Fermina Daza.

Terminal Rodoviário

Terminal Rodoviário

Chevy Spark

Chevy Spark

Pablito do pó

Pablito do pó

Tudo ia bem, mas ao quarto dia concluí que meu projeto original – de ficar na capital por 8 dias – estava superestimado. Assim, entre Bogotá e Cartagena incluí no roteiro Medellin, para conhecer a terra do finado e famigerado Pablo Escobar que, embora não fosse um vulcão, tantas toneladas de pó derramou sobre os Estados Unidos… Em São Paulo, havia reservado um carro e então fui à sede da locadora (Hertz) para retirar meu Chevrolet Spark. Qual não foi minha surpresa ao negarem a entrega do veículo alegando que o escritório brasileiro havia cometido um erro, pois em alta temporada eles não poderiam ceder um carro para ser deixado em outra cidade. Com a reserva na mão, fiquei muito puto e já ia chamando a polícia quando descobri que meu parco portunhol fica pior ainda quando estou nervoso. Percebí que iria perder horas preciosas com esse assunto de desfecho duvidoso e rasguei a reserva no balcão. Fui prá estação rodoviária, onde resolvi o problema comprando uma passagem para Medellín pelo glorioso Rapido Ochoa!

Usaquén

Usaquén

Ciclovia dominical

Ciclovia dominical

Passagem comprada… último dia na cidade, um domingo, fui conhecer a graciosa feira de artesanato de Usaquén, um bairro elegante ao norte. Com tempo de sobra, fui caminhando pela Carrera 7 e apreciando o fato de que a haviam transformado numa ciclovia muito bem-sucedida, com gente de todas as idades pedalando pela longa avenida. E já que estava tudo fechado, aproveitei para conhecer dois shopping centers (abertos, óbvio), o mais bacana e o mais visitado. O Shopping Center Hacienda Santa Barbara foi, como o nome sugere, construído a partir da casa grande de uma fazenda histórica e por isso mesmo é original e agradável. Já o Shopping Unicentro não apresenta muitas novidades e num domingo como aquele estava botando gente pelo ladrão. Quase entre tapas, almocei e caí fora. Mas reconheço que a comida e a cerveja Aguila estavam muito saborosas.

Na manhã da segunda-feira, tomei um táxi e apresentei-me às 8 na rodoviária. Há malas que vão para Belém… Foi ótimo não ter pego o carro, porque a estrada que liga as duas principais cidades do país é um desafio à sanidade de qualquer motorista. De Bogotá a Medellín são 10 horas por uma pista única tortuosa, serpenteando e sacolejando por entre as encostas dos Andes com tal violência que no banheiro do ônibus não havia meio de eu conseguir mijar. Por fim, tive de segurar-me com ambas as mãos e abandoná-lo (a ele…) à própria sorte, o que comprometeu totalmente a pontaria e transformou-o momentaneamente numa alucinada metralhadora giratória – que fez o estrago que as metralhadoras sempre fazem… Enquanto isso, o ônibus, em plena faixa contínua, temerariamente ultrapassava mais um dos 1000 caminhões que encontrou pela frente. Encomendei minh’alma ao Santíssimo!

Fogón Paisa

Fogón Paisa

Tem baurú?

Tem baurú?

A cada 500m...

A cada 500m...

É nóis na estrada!

É nóis na estrada!

Lá pela uma da tarde, o motorista parou no Fogón Paisa para que os passageiros enchessem o tanque. Muitos ônibus, muita gente, muita comida. Mas eu bravamente continuei em jejum, pelo medo de vomitar em meio a tantas curvas. De volta à poltrona, tinha pela frente ainda muita estrada e a música que tocava o tempo todo. Canções populares colombianas, que em outras circunstâncias eu até teria apreciado, mas ali – uma atrás da outra naquele volume, por 10 horas – era uma tortura para o cérebro e os ouvidos. Aliás, ouvir música altíssima parece ser uma mania nacional… O que compensava eram os pueblos pelos quais o busão passava, lugarejos que revelavam a verdadeira alma da Colômbia, com sua gente simples e arquitetura modesta. Ao longo do asfalto, em vários pontos, soldados entrincheirados detrás de sacos de areia empilhados. E muitos “lavaderos”, locais improvisados para a lavagem de caminhões. Era a minha querida América do Sul passando pela janela…

Ponte sobre o Magdalena

Ponte sobre o Magdalena

Digna de nota a travessia por sobre o majestoso Rio Magdalena, com suas águas barrentas. Um ponto da viagem que constrastava com o verde da paisagem circundante. Lembro-me de, ao atravessar a grande ponte pênsil, ter pensado: isso será bem reconhecível depois, no Google Earth. De fato, foi: La Dorada (5°28′11.50 N, 74°39′48.43 O).

Estrada, só no zig-zag...

Estrada, só no zig-zag...

Mas o titulo desta história é Viagem a Bogotá. E esta ponte, entre os departamentos de Cundinamarca e Caldas, é já meio do caminho para Medellín… por mudança de jurisdição este texto acaba aqui!

Hoje é hoje!

Hoje é hoje!

janeiro 19, 2009

TERMO DE ABERTURA

Eu mes

Eu mes!

Ora, bloguemos, pois!  E por que não?

Bem… na verdade consigo, sim, imaginar alguns motivos para NÃO blogar, senão vejamos:

1) Trata-se de um modismo e eu ando avesso a modismos
2) Acabarei por revelar que estou mal-informado. E sendo um jornalista… pega mal!
3) Não dá mais prá escrever em português sem voltar prá escola
4) Nada de importante tenho a dizer. Será mais um blog medíocre

Procurando, vou achar não 5 mas 5000 motivos para NÃO fazê-lo!

Idéias ao Cosmo

Idéias ao Cosmo

Por outro lado (sempre há outro lado) considero que o que tenho a dizer (quando acordado quase sempre tenho algo a dizer…  às vezes até dormindo, mas é bem mais raro…) pode, sim, vir a ser muito útil. Senão prá mais alguém ao menos prá mim mesmo. Afinal, trata-se de uma excelente terapia ocupacional que, de quebra, lança idéias no cosmo. Alguma há de prestar, cáspita! Fora isso, convenhamos, blogar… se é um modismo, veio para ficar.

Sou fã da frase que diz “Quem quer fazer encontra um meio, quem não quer – uma desculpa”. Pois… !

Vem cá, minha filha...

Vem cá, minha filha...

Então estamos aqui, desnudando-nos em público, de forma a não deixar velado qualquer recôndito de nossa alma sôfrega. Ou quase nenhum, já que até Cristo haverá tido lá seus segredinhos.  (Aliás, dizem que uma tarde, sozinho com Maria Madalena… bem… mas isso é outra história…)

Falando na primeira pessoa do plural, encontramos um pouco mais de coragem do que se disséssemos “estou aqui desnudando-me em público…”, forma todavia ainda mais nua. De qualquer maneira, melhor falar na primeira do plural do que na terceira do singular, como faz o Pelé ( …é que ele gosta assim, entende? ).

ET, o outro...

ET, o outro...

Este blog é divagante, um livre exercício de expressão. Um receptáculo onde anelo lançar fatos, feitos, fotos, ficções, e fixações. Dele não espero nada, exceto que sirva de plataforma para lançar-me ao infinito e à posteridade. Com sorte, se nenhum testa di cazzo deletá-lo do servidor, ouso supor que perdurará por eras após minha partida. E quem sabe um dia será ainda decifrado por algum ET invasor.

Mas não assumo compromissos, sequer com a realidade. Mesmo porque depois de ler a obra completa de Castañeda passei a encarar a realidade como algo muito relativo. Até pegar o jeito, meus textos tenderão a ser bem egocêntricos, sobre babados meus… mas quem sabe ampliá-los-ei às crônicas comportamentais e do dia-a-dia, que isso sim sempre achei bem legal.

Portanto, dedos à obra e sendo lusófonos escrevamos no único português que (por enquanto) conhecemos, aquele arcaico, utilizado no Brasil até 31 de dezembro de 2008. Quando um dia tiver saco, hei de parar para entender as modificações que à minha revelia foram feitas em nossa lingua-mãe (ou será linguamãe, ou lingüa-mãe… não… o trema caiu. Putz, bota saco nisso). Mas agora estou com preguiça!

Eita, sodade...

Eita, sodade...

O certo é que digito com mais rapidez e mucho másss tesão no português que aprendi na cartilha “Caminho Suave”, e que utilizo até hoje.  O idioma, não a cartilha.

E aqui vai nossa primeira prestação de serviços:
Os interessados em entender as novidades, cliquem: Nova Ortografia

Meia-noite, por hoje basta. Hora de alternar eletrodomésticos e lançar-me ao ócio improdutivo e delicioso da TV a cabo. Com controle remoto!! Boa noite Terra!

Uahhhh... soninho!

Uahhhh... soninho!

janeiro 1, 2009

BE WELCOME!