Sempre tive compulsão em conhecer a Europa… ainda moleque, bem antes de entender que aquelas fotos atraentes de lugares deslumbrantes eram a Europa, eu já tinha compulsão em conhecer a Europa. Sei lá… talvez porque parte de mim venha de lá… só pode ser isso prá explicar esse desejo manifesto tão cedo em minha vida. Os Thenorios vêm da Espanha. E meus bisavós maternos, italianos da região do Veneto, conheceram-se no navio que os trazia ao Brasil e aqui se casaram, uma linda história de amor do século XIX. Devo ter molho de macarrão no sangue.
Assim que em meados dos idos de 1981 decidi vender meu Chevettão 1974 (o Dito Preto), juntar as merrecas que havia ganho do IBGE como recenseador de um censo (o populacional, em 80) e supervisor de outro (o econômico, em 81), trancar o curso de jornalismo da Metodista de São Bernardo do Campo no final do terceiro ano e partir pr’além mar.
Antes, porém, tinha de partir para os preparativos… dentre eles tirar meu 1º passaporte (UAU!) e trocar, com meu querido amigo Pedrinho (que viria a falecer em 2006, vítima de um acidente) uma jaqueta de couro que não esquentava muito por um casaco com gola de pele que segurava mais a onda… Ele iria curtir melhor sua Suzuki 180 e eu o frio do inverno na terra dos nossos antepassados comuns, a Espanha.
Chamei os amigos lá em casa prá um bota-fora e já no dia seguinte via meus pais acenarem-me adeus enquanto se afastavam, na calçada do Aeroporto de Congonhas. Senti um aperto no peito, um nó na garganta e por um momento questionei estar fazendo a coisa certa… mas como é prá frente que se anda, engoli em seco e embarquei no ônibus que me levaria a 101 quilometros dali, ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas, de onde partiria o Boeing da (hoje extinta) LAP – Líneas Aéreas Paraguayas, o mais barato que consegui para voar ao velho mundo.
E eis que aos 22 anos ali estava eu, sentado num avião pela primeira vez e já com destino a uma vida noutro continente. Éramos todos aerovirgens, eu e os dois amigos que viajavam comigo, o Toni (Carmelo Antonio Sappupo) e o Sérgio (Luiz Sérgio Santório).
Decolamos! Sendo as linhas aéreas do Paraguai, a primeira escala foi, logicamente, em… Assunção, onde mais? Sim, porque avião tem dessas coisas… você quer ir pra um lado mas primeiro vai centenas de milhas pro outro – e isso parece normal. Pouco tempo de vôo no final da tarde para percorrer 1100 quilometros e aterrissávamos em Assunção, no Aeropuerto Internacional Presidente Stroessner (por aqueles dias, ainda amargávamos ditaduras em quase toda a América do Sul). Viajando a oeste, chegamos lá mais cedo do que partimos daqui, o sol ainda brilhava um forte laranja-avermelhado, o que tornava a parede de vidro do aeroporto muito quente. Um ocaso memorável brindando minha primeira incursão num país estrangeiro.
Aguardando a partida do próximo vôo, preso no saguão, imaginava como seria a capital, por detrás daqueles outdoors que via ao longe. Deveríamos reembarcar em 1 hora, não daria tempo de sair do aeroporto. E no entanto ali ficamos por nada menos do que 8 intermináveis horas, enquanto no pátio os mecânicos esforçavam-se por consertar o aparelho, que apresentara defeito numa das turbinas… Lá pelas tantas, já de noite, quando imaginávamos que nos levariam para algum hotel no centro, chega a notícia de que o avião estava consertado, podíamos embarcar e voar tranquilos pelos 9100 quilômetros que nos separavam de nosso destino, o Aeropuerto Internacional de Barajas, em Madrid, com uma breve escala para reabastecimento no Recife. Tranqüilos ???
Voamos! Doze horas depois, mal as rodas tocaram o solo da Espanha e já um batalhão de bombeiros movimentava-se para cercar o avião… eram caminhões vermelhos com canhões de espuma, homens em trajes prateados de amianto e a turbina “consertada” ameaçando incendiar-se. Lembro-me da aeromoça insistindo para que eu me sentasse, mas por nada eu deixaria de fotografar aquela cena, registrando o quão perto havíamos passado de aterrissar (ou espatifarmo-nos) no breu da noite nas águas gélidas do Atlântico norte.
Por fim, abriram-se as portas da aeronave… de súbito, um frio polar invadiu a cabine dos passageiros. Vestindo uma camiseta, eu não estava preparado nem física nem psicologicamente para um choque daqueles… a Espanha era muito mais glacial do que eu estava esperando.
Saindo do aeroporto, tomamos um ônibus que nos levaria por 17 quilometros até o centro da cidade. E então entrei em êxtase… com que prazer indescritível meus olhos absorviam as cenas que se descortinavam naquele fevereiro: ruas, praças, fachadas, pessoas e esquinas iam-se revelando umas após as outras. Um cenário de inverno como nunca houvera visto… tudo muito diferente, muito lindo, inacreditável. Era um daqueles raros momentos em que se tem a sensação de se estar realizando um sonho. Eu estava na Europa!
Desembarcamos na Plaza Mayor e imediatamente uma senhora nos abordou, oferecendo-nos hospedagem em sua pousada. Não tendo porque recusar, aceitamos e fomos parar na Calle de Fuencarral, uma perpendicular da principal avenida, a Gran Via. Instalamo-nos às pressas e num momento já nos entregávamos àquilo a que todos ansiavam: bater pernas por Madrid, andar a esmo numa capital européia, entorpecendo os sentidos de frio, arte e história. E também do exótico cheiro de tabaco negro, que impregnava o ar gelado da grande cidade, surpreendendo-nos e contribuindo para criar aquela atmosfera de enlevamento. Madrid era perfumada, cheirava bem.
Na primeira noite, ainda não satisfeitos de caminhar, fomos parar numa casa de bingo e decidimos apostar. Qual não foi nossa alegria quando saiu o número que esperávamos e batemos a cartela. Numa algazarra, todos gritamos eufóricos – só para sermos repreendidos por dezenas de olhares frios e silenciosos… compreendemos que nosso arroubo colonial não era bem-vindo naquele austero estabelecimento da antiga metrópole. Repartimos as parcas pesetas ganhas e, em alvoroço, voltamos às luzes das ruas. Fodam-se eles, éramos moleques do Brasil.
No dia seguinte, na hora do almoço, descolamos um comedor (restaurante) singelo e pedimos o prato que, por ser barato, nos sustentaria ao longo de toda a nossa estada na cidade: tortillas con judias blancas y lentejas (omelete e batatas com feijão branco e lentilhas). Sempre acompanhadas de pan y una taza de viño, para entrar no clima… Madrid me deslumbrava… as mulheres eram lindas e os nomes das estações do Metrô tinham algo de feérico: Sainz de Baranda, Moncloa, Cuatro Caminos, Callao e por aí vai…
Tanto que uma tarde resolvi ir até o fim de uma das linhas (terminal Canillejas) e voltar caminhando ao centro, uma excelente oportunidade de viver a cidade. No caminho passei defronte à Plaza de Toros de Las Ventas, que estava fechada, e por ali aproveitei para comprar um livro em espanhol (Noche, tradução de Noite, do brasileiro Érico Veríssimo) que, apesar de ser baixo astral pacas, me ajudou muito nos primeiros passos com o idioma.
Mas a preocupação com dinheiro falava alto… havia levado muito poucas reservas e precisava dar um jeito de ganhar a vida, mesmo clandestino, mesmo transitório… assim, meio no desespero, numa das noites em que estive na cidade fui ao Mercado de Chamartín, ver se conseguia algo como ajudante de caminhoneiro. O número de caminhões – todos pitorescamente muito decorados – era grande e, com certeza, encontraria algumas caixas para descarregar… mas logo descobri que não seria tão simples arranjar dinheiro. Continuei desempregado.
Ainda nos primeiros dias, demos a sorte de conhecer um paulistano que nos introduziu no seu grupo de amigos, composto por brasileiros(as) e espanhóis(las). Isso foi ótimo, porque nos colocou em contato diretamente com a vida real da cidade, e numa das noites fomos levados para conhecer um Tablao Flamenco, onde casais trajados no mais fino estilo andaluz encantavam a todos com suas enérgicas danças sensuais.
Por estes dias estava sendo realizada num parque denominado Casa de Campo, no oeste da cidade, uma Feira Internacional. Íamos lá quase que diariamente para nos encontrar com nosso grupo de amigos, e foi lá que vi pela primeira vez – com grande assombro – um ônibus de turismo de dois andares. Que show de tecnologia para um garoto tupiniquim.
Também fomos levados noutra noite a uma festa muito elegante (já não me lembro o que se comemorava), num edifício suntuoso do centro da cidade, onde conheci uma garota vinda da cidade de Molina de Segura, próxima a Murcia, chamada Marita, com quem vim a ter meu primeiro caso em idioma estrangeiro. Isso era muito legal. Mas nem tudo são flores e com seis dias de Madrid meus dois companheiros de viagem decidiram que já era hora de partir para Roma, nosso destino programado.
Parece que o Toni havia perdido uma nota de US$ 100,00 e por isso tinha pressa de chegar à Itália, onde contava com parentes e conhecidos. Para mim, ainda era cedo demais para deixar aquela cidade de sonhos. Disse-lhes que fossem e aproximei-me de outros dois brasileiros que havia conhecido no avião, um deles por nome Gainor e o outro, Flávio. Eles pretendiam viajar a Londres, mas deveriam ficar ainda um tempo na capital da Espanha. Achei que poderia pegar uma carona na estadia, porque ficar sozinho de vez… era muita barra pesada.
E mais 6 dias se passaram. Porém numa manhã, quando num supermercado já estava com uma caixa de sapateiro (sim, vendia-se isso) na mão para comprá-la, disposto a ganhar a vida engraxando sapatos, meus novos amigos me deram a notícia de que haviam decidido antecipar sua partida para a Inglaterra. Lamentavam mas, eles também, iriam me deixar. Então não tive escolha: não havia condição de arcar sozinho com o aluguel do quarto de hospedaria e, confesso, senti medo de encarar a vida ali sem qualquer apoio. Doze dias procurando emprego sem sucesso haviam me ensinado que o desemprego era grande e que o buraco era mais embaixo…
E assim tomei a decisão de partir também. Iria a Roma, juntar-me aos meus dois parceiros originais, porque em três a gente se vira melhor… E iria de carona. Foi uma decisão que resultou numa viagem de 2 mil quilometros, que me proporcionaria vários dias de aventuras deliciosas pelas estradas do sul da Europa. Na última noite, hospedei-me num hotelzinho próximo ao centro, tendo a companhia de Marita, e dormi até o meio-dia, quando fomos acordados pelo dono da espelunca batendo à porta, gritando “brasileño, te quedas o te marchas?”. Me marché, não sem uma ponta de tristeza por deixar para trás tantos lugares deliciosos e tantas boas companhias.
Tomei o metrô no centro de Madrid e desembarquei numa estação já nos arrabaldes da cidade, à beira da rodovia que leva à Catalunha, a Autovia del Nordeste. A viagem que se seguiria é até hoje um capítulo à parte em minha vida, talvez por haver representado o que para mim era na época a expressão máxima da aventura e da liberdade: cortar vilarejos, cidades, países em companhia de desconhecidos, falando línguas estrangeiras e saboreando cada metro do caminho como se fosse “Stairway to Heaven”.
A primeira carona foi com um grupo de ciganos que viajavam numa Kombi. Eles eram muito alegres e se interessaram pela minha história, fazendo várias perguntas sobre de onde eu vinha e para onde ia. Mas o passeio foi curto. De significativo, lembro-me apenas de termos passado ao lado de uma base aérea que, não sei ao certo o porque, pareceu-me ser norte-americana. Na Espanha? Será ??
Em seguida, alguns quilômetros após, desembarquei do festivo utilitário e logo consegui a segunda carona, com um senhor de meia-idade muito agradável e solícito. O carro avançava pela estrada e foi então que vi a neve pela primeira vez. Que emoção! Que espetáculo! Os flocos brancos caindo do céu, vindo de encontro ao pára-brisa, de onde eram expulsos pelo limpador. Até então eu só os havia visto limparem água…. Eu estava mesmerizado… Até que chegamos a um ponto da estrada onde à esquerda saía um asfalto secundário. Ele me disse: “Bien, yo me voy por acá. Tenga usted um buen viaje”. Ao que lhe agradeci e desci… para descobrir que estava só em meio a um acostamento vazio com a temperatura senão abaixo, beirando o zero grau.
Mas estava prevenido: tinha na mochila as peças de roupa necessárias para dar suporte à vida… Logo à margem da estrada havia uma casa de pedra, vazia, fui para trás dela e pacientemente despi-me e revesti-me a rigor: a começar pelas ceroulas longas, indo até luvas, meias duplas e gorro. Que sensação de proteção e alegria. Agora sim, estava paramentado para voltar ao acostamento e retomar minha jornada de caronista em pleno inverno.
Seriam mais algumas centenas de quilometros até meu primeiro destino: Villanueva y la Geltru, uma cidade cerca de 45 quilometros ao sul de Barcelona, onde morava (e mora) um grande amigo de infância, o Bayarri, que na verdade era amigo de meus irmãos mais velhos. Saltitei um pouco para esquentar, mas logo peguei mais uma carona e a certo ponto me lembro de haver visto da estrada, à esquerda, a imponente fachada da catedral de Zaragoza. Tive vontade de ir até lá, mas não era o caso… não se pode ter tudo.
Cheguei em Villanueva já de noite, talvez por voltaidas 20 horas. Dirigi-me a um hotelzinho porque não queria chegar na casa de meu amigo estando escuro… Na recepção, a TV sintonizava o seriado Dallas e eu pensei “Cacete, aqui também? Então é isso que é globalização?” Instalei-me, sai para dar umas voltas pelo local e voltei para dormir.
No outro dia, após o almoço, dirigi-me à casa do Bayarri e como ninguém atendia à campainha fiquei ali à porta, aguardando. Após coisa de uma hora, chegou a sua esposa, Carmen, que eu não conhecia. Apresentei-me como amigo de longa data de seu esposo mas ela, por receio, pediu que eu retornasse ao final da tarde, quando ele já estaria em casa. Tudo bem, dirigi-me ao cais do porto, para matar o tempo. Ali pescadores chegavam do mar com suas embarcações lotadas de pescado. Um deles gritou para o outro “Gel” e foi assim que aprendi como se diz “gelo” em catalão. À tarde, voltei à casa de meu amigo e o esperei chegar. Fiquei feliz por ele ter se lembrado de meu nome assim que me viu. Eu estava com 22 anos e havíamos nos visto pela última vez quando eu tinha 7…
O dia seguinte passei em companhia do Bayarri, que me levou para conhecer vilarejos muito interessantes no coração da Catalunha. Ele temia por minha segurança nessa vida de caronista e insistiu para que eu ficasse por lá mesmo, mas absolutamente não era o caso. Então meu amigo me deu um par de pincéis atômicos, um preto e um rosa fosforescente, para que quando na estrada eu pudesse pintar cartazes, o que facilitaria a minha viagem. No outro dia, o quarto desde que saíra de Madrid, parti lá pelas 17:00hs com destino a Perpignan, do outro lado da fronteira.
Mas ainda não seria neste dia que chegaria à França… tendo saído tarde, logo escureceu. Desta vez a carona veio na forma de um jovem casal que se comunicava comigo em castelhano e entre eles em catalão. Sentei-me no banco de trás e fui respondendo às perguntas da garota, que fazia o possível para ser simpática. Por esta hora, o sol já se havia posto e ela me perguntou “¿donde vas a pasar la noche?”, ao que respondi “por la carretera”.
Então os vi confabulando e imaginei que ela o estava consultando sobre a possibilidade de me dar abrigo n’algum lugar para onde estavam indo… Ele assentiu e me levaram para uma bela casa de campo, n’algum ponto entre Girona e Figueres, de onde sairíamos logo após prá uma balada numa discoteca inacreditável: uma caverna no meio do mato lotada de gente. Eles se divertiam, mas eu, muito cansado, encostei numa poltrona e babei. Só acordei altas horas, com eles me chamando prá ir prá casa, onde passei a noite numa cama confortável e de onde saí na manhã seguinte para seguir viagem. Como é legal conhecer gente legal.
Novo dia, de volta à estrada… logo consegui carona com um casal de turistas canadenses que me deixou na fronteira com a França. Então a atravessei no carro de um cara que me lembro chamar-se Giorgio, que me levou até antes de Perpignan. E estava em território francês. Ueba! Sozinho na estrada, no meio do mato, saquei meus 2 pincéis, minha faixa de papel branco que havia levado e nela escrevi “S’IL VOUS PLAÎT” em garrafais letras rosas com contornos pretos. Funcionou… rapidinho já estava num Citroën 2CV, daqueles antigos, ganhando mais umas milhazinhas… o difícil era (não) conversar em francês…
De carona em carona, fui atravessando o sul da França. Lembro-me de uma imagem nesta mesma ocasião que me marcou: já estava bem escuro e numa encosta a estrada descia num serpentear de faróis muito amarelos, iguais aos “Cibié” que havia no Brasil. Naquela época, na França, eles eram obrigatórios. Era um longo risco dourado no breu da noite, uma visão assaz romântica.
Então dei sorte: peguei carona com um cara que ia atravessar praticamente de fora a fora o sul do país. Ele dirigia um VW Scirocco e não falava inglês. Como eu não falava francês, passamos a noite inteira lado a lado basicamente mudos… o papo se resumia a:
- Coffee?
- Yes, thanks.
- Ok
E parávamos em plena madrugada prá um café num posto qualquer. Mas ele me levou por toda a Cote d’Azur e adiantou pacas a minha viagem.
A última carona que peguei na França foi num caminhão muito moderno. Era legal viajar lá em cima e ver as soberbas paisagens do Mediterrâneo à direita. Fomos até à fronteira com a Itália, onde chegamos por volta das 5 da manhã. E então com algum esforço consegui entender que o caminhoneiro estava me dizendo que iria esperar a fronteira abrir, uma hora mais tarde. Agradeci e entrei na Itália a pé. Fui parar na estação de trem de Ventimiglia, onde deitei num banco e dormi.
Não deu prá dormir muito… já às 7 o guarda veio me acordar, sorrindo e dizendo “Freddo, he?”. Pensei: “Alfredo?? Que porra esse cara tá dizendo?” Só muito depois fui entender que ele dissera “Frio, hein?”. Tomei um café por ali mesmo, troquei uns dólares e saí para retomar o asfalto. Foi então que vi que naquele ponto a estrada entrava por um túnel. Imaginei que do outro lado, longe da vista dos policiais da estação, ficaria mais à vontade para pedir carona.
Péssima idéia… o túnel era interminável e eu fiquei naquela de não saber se voltava ou prosseguia. Mas como é prá frente que se anda… Mal saí do outro lado e percebi a merda que fizera: vi-me em um enorme viaduto altíssimo, sem saída prá lugar nenhum e numa situação ruim prá cacete. Nem deu tempo de lamentar, já encostava uma viatura azul e branca da “Polizia Stradale” (polícia rodoviária) com 2 policiais, um deles muito puto.
Desceram e ele disse, aos berros:
- Ma dove vai?
- A Roma
- Ma vai a Roma a piedi ???
Achei graça, mas a situação não era nada engraçada. O desgraçado engrossou: sacou o talão de multas e me multou em 10 mil liras (tudo o que eu havia acabado de trocar, na estação) exigindo o pagamento ali mesmo. Surpreendi-me… nunca havia visto no Brasil um pedestre ser multado… Mas não tive escolha e paguei, ficando duro já na minha primeira manhã na Itália, tendo me sobrado apenas um recibo na mão. O policial ainda disse:
- A Bordighera, scendi!
E eu não entendi porra nenhuma, mas gravei a frase. Muito depois compreendi que ele dissera “Quando chegar em Bordighera, desça (do viaduto)!”. Entendendo ou não, foi exatamente o que eu fiz assim que deu. E esse foi meu primeiro contato com a surpreendente Autostrada del Sole.
E desci quase rolando pela montanha até a cidade de Bordighera. É engraçado… quando você muda de país, imediatamente muda tudo: o dinheiro, o idioma, as pessoas, a polícia… até acostumar demora. Mas há males que vem para bem! O fato de estar sem um puto fez com que eu conhecesse pessoas ainda mais generosas. Lembro-me de um cara que me deu carona e me deixou na porta de uma modesta e charmosa trattoria à beira da estrada. Ele conhecia o dono e me disse para almoçar (com direito a vinho), pendurando a conta na conta dele. Saí daquele restaurante com uma sensação de alegria da qual me recordo com saudades. Parece que é mais fácil ficar alegre quando se é mais jovem…
E seguiram-se as caronas: lembro-me de um viado que quis me dar dinheiro prá transar com ele (caramba… mesmo completamente duro, resisti) e de outra nevasca que caiu pelo caminho. Depois abriu o sol e invadi uma fazenda para roubar uma mixirica, ou bergamota, já que ela era italiana. Por fim, uma das caronas me deixou, já escuro, dentro do porto de Gênova. Sei lá o que o cara tinha de fazer lá, mas desci do carro em meio a barris e contêineres, numa circunstância precária e um tanto perigosa. Tratei de sair logo dali e fui pro Albergue da Juventude, onde desabei num beliche para acordar na manhã do sétimo dia desde que deixara Madrid.
Neste dia, após mais algumas caronas, que totalizaram 25, cheguei finalmente a Roma ao anoitecer. A última delas foi com um jovem casal que tentava me ensinar advérbios em italiano… “Il bicchiere è pieno o il bicchiere è vuoto”, me dizia o rapaz. Entendi: “copo, cheio e vazio”. Aos poucos, já ia aprendendo a falar a lingua de Dante… Era a terça-feira, dia 16.02.82, e começava minha vida italiana.












































































































































































































































































































































































