Uau! Enfim o mar do Caribe! Quem sabe um dia ainda volto aqui no meu veleiro? Mas por enquanto só de poder conhecê-lo já está bom demais. Estamos no topo da América do Sul, numa das cidadezinhas mais charmosas do continente. Cartagena de Indias, patrimônio da humanidade, é uma aula de história e para conhecer seus capítulos basta ir ao Museu Naval, que foi a primeira fachada que avistei quando adentrei os muros da cidade velha. Mas àquela hora, sob o sol da manhã, queria mais – prá variar – era andar e andar por sobre os paralelepípedos centenários. Adoro isso! E a parte histórica, chamada de ciudad amurallada, é mesmo digna de uma exploração minuciosa.
Na cidade velha de Cartagena, pela primeira vez, vi calles que tem o comprimento apenas do quarteirão. Ou seja, a rua tem um nome e no quarteirão seguinte já tem outro, embora sendo a mesma rua. E todas tem nomes pitorescos: Calle de la Amargura, Calle del Porvenir, Calle de las Damas, Calle del Cuartel, Calle Tumbamuerto… Pelas calles, antigos sobrados com balcões no andar superior, muitos com jardineiras, enfeitam a paisagem, tomada de turistas. Fiz força para não parecer um deles, mas não houve jeito… Señor, ¿Cambio, dolares, coca? ¿De donde viene usted? Me ofereciam de tudo, e eu a todos respondia com um sorriso e… !No, gracias! Seguia caminhando por entre outros gringos e românticas charretes puxadas por cavalos devidamente enfraldados para não sujarem as ruas, em direção ao próximo assédio.
Neste primeiro dia andei pacas e achei tudo bem legal. São 11 kms de muros na cidade velha e para o leste, no alto de uma montanha, há uma fortificação (no século XVI os caras só pensavam nisso…), o Forte San Felipe de Barajas. Aproveitei a disposição e subi lá. Muito legal vivenciar assim de perto um pouco da realidade do passado. Havia guias revelando curiosidades para grupos de turistas, e de grupo em grupo ia eu, roubando uma informaçãozinha aqui, outra ali… Assim, aprendi que Cartagena foi a quarta cidade fundada pelos espanhóis nas Américas e que o San Felipe foi a maior edificação militar ibérica nestas terras. Era em Cartagena que a Espanha depositava e dali partia a maior parte da riqueza (ouro e pedras) descoberta, com destino a Europa. Sempre em frotas, para evitar o ataque dos piratas, que pululavam nestas águas. (Mas ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, mesmo naqueles tempos, não é verdade?).
Descendo do morro fui conhecer o Museu de la Inquisición, que mostra um pouco dos suplícios a que eram submetidos os inimigos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Mas é pouco mesmo, o museu deixa a desejar, sobretudo porque raras peças são originais, quase tudo é réplica. Apesar disso, tive uma tarde muito proveitosa, turística-histórica-esportiva – porque andar desse jeito não deixa de ser esporte pesado. Algo que me intrigou não só em Cartagena, mas em toda a Colômbia, é que os sanitários são pagos, mas nem por isso limpos. E falando em intriga, no país do café (… vá lá… um dos…), achar um cafezinho não é mole. Há uma rede de cafeterias, Juan Valdéz, que serve um bom café. Mas é a única com que me deparei e, ao menos dentro das muralhas de Cartagena, seus preços eram assaz salgados.
A cidade circunda uma grande baía. Há água literalmente por todos os lados e num destes cais estava ancorado o navio-símbolo da marinha colombiana, o veleiro Gloria, majestosamente decorado e aberto à visitação pública. Mas tão cheio de horários e regras que nunca dava certo visitá-lo. Contentei-me em admirá-lo de perto, uma nave que impõe respeito. E já caindo a noite, voltei para o hotel, em Bocagrande, e descobri que este é um bairro prá lá de agitado, com as calçadas tomadas de turistas – a maioria colombianos vindos de outras partes do país. Cartagena é deveras uma cidade alegre!
Estávamos próximos (uns 300 km) do Panamá. Algo que fui aprender ali é que não há ligação rodoviária entre a América do Sul e a Central. O que significa que a tão decantada Rodovia Panamericana é uma quimera. Na verdade entre a Colômbia e o Panamá o que há é uma floresta de uns 100 quilômetros, fechada e pantanosa, por enquanto instransponível por via asfaltada. Para entender melhor a situação geográfica da região, entrei num cyber café e estudei as fotos do Google Earth. E fotografei a tela para ter o mapa comigo no celular, porque ali não havia conexão TIM para acessar diretamente o Google Maps.
Na segunda manhã voltei à cidade murada porque ainda estava muito a fins de bater pernas por ali. E fui fuçando… descobri uma parte em que há um intenso comércio de barracas populares, vendendo de tudo um pouco. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de barracas de sapateiro que havia lá, uma ao lado da outra. Ainda bem, porque neste mesmo dia uma de minhas sandálias abriu o bico e tive de valer-me dos préstimos de um destes valorosos profissionais. O que achei que ia ser complicado o cara resolveu em cerca de dois minutos, pela astronômica quantia de 1 peso. Salve os sapateiros! E de pisante reformado, aproveitei para dar uma esticada ao aeroporto, onde pretendia antecipar minha passagem para Caracas. Era longe, mas foi legal porque a avenida era à beira-mar.
O aeroporto de Cartagena é pequeno, moderno e simpático. Não tive problemas com os trâmites burocráticos no guichê da Avianca e saí de lá com minha reserva antecipada para o dia seguinte. Mas ainda tinha tempo de sobra… Assim, na volta aproveitei para caminhar um pouco pelas areias caribenhas. Verdade seja dita, entretanto, as praias ali não são legais, estreitas, de areia escura, com prédios à vista… Mar adentro, nas ilhas, haverá coisa melhor. Mas não fui. Caminhei pelas águas do Atlântico e alegrou-me a idéia de que já entrei neste oceano por todos os lados da América do Sul, com exceção do extremo sul, en la Tierra del Fuego. Quem sabe na próxima? Voltei para a cidade murada onde, muito acima do Equador, o sol brilhava sobre as praças e as pessoas.
Ao entardecer, nos bares localizados sobre o largo muro, frente ao mar, bandas de músicas latinas abriram os trabalhos da noite. E o astral ia ficando cada vez melhor à medida em que o sol se punha. Agitos para todos os lados, gente linda – a mulher colombiana herdou o que há de melhor do sangue espanhol – e muita festa. Turistas, jovens, velhos, todos numa grande confraternização que em mim ressoava de maneira contagiante. Aquele caminho de pedras, aquele mar, a música, o poente… tudo contribuía para criar uma sensação de enlevamento que era assaz recompensadora. Considerei este o ponto alto de minha viagem. Após bebemorar o suficiente, saí dali agradecido.
E voltei pro hotel prá tomar uma ducha, com a intenção de esticar a festa, quem sabe indo a alguma boite mais tarde? E foi o que fiz. Lá pelas 23 saí e voltei para a cidade murada em busca de agito. Mas quem leu este blog até aqui já percebeu que de notívago eu não tenho nada. Queimo toda a energia sob o sol. E à noite eu sinto é sono! Tendo encontrado uma boite legal, música bombando, gente pulando e se agarrando, acabei ficando num canto, tomando uma ou duas cervejas, e concluindo que aquilo não era mesmo prá mim. Então desencanei e fui caminhar na praia, afinal, a noite estava linda.
No terceiro dia decidi conhecer o porto. Fui caminhando pela orla interna, que circunda a baía, e passei pela marina, onde havia muitas embarcações ancoradas. Sempre curto a companhia das embarcações… Mas quando cheguei próximo ao porto constatei que mesmo àquela hora do dia não era uma boa idéia perambular por ali. Como toda região portuária, aquela não inspirava confiança, e eu não havia logrado dissimular minha cara de turista… Então dei meia-volta, tomei uma buseta e voltei prá cidade, e quando ia descendo quase esqueço minha carteira sobre o banco. Fui avisado por um garoto, o que me poupou inimagináveis dores-de-cabeça futuras. Ficou no quase!
E na terceira noite fui para o lado oposto, para os confins de Bocagrande, onde constatei que se tratava de um bairro de classe média, com jardins, ciclovias e muita gente bem nutrida caminhando pelas calçadas. A Colômbia, para mim, foi uma grata surpresa. O tempo todo senti-me em casa e muito bem acolhido. Não presenciei nada que me desagradasse a ponto de não querer retornar. Os preços são acessíveis e viajar pelo país é estimulante. Ao quarto dia pela manhã, quando o avião subia vi abaixo, panoramicamente, Cartagena de Indias, a pequena jóia da Coroa espanhola – e agradeci de coração a felicidade de conhecê-la.



































bom saber a visão de quem vai a cartagena. queria saber mesmo… quero ir, algo me encanta. quis ver mais fotos do porto, mas… parece que ninguém quer fotografar porto!! enfim…
Olá, Carolina
Também eu quis ver mais do porto mas, como descrevo aí em cima, não achei que fosse seguro… Em geral, portos são zonas com alto índice de criminalidade, e o de Cartagena me passou exatamente esta impressão. Talvez esteja enganado, afinal não cheguei até lá para constatar… preferi não pagar para ver! Mas vá a Cartagena, é um passeio bem legal.
Obrigado pela visita
Olá.. fiquei encantada com seu depoimento sobre sua viagem a Cartagena..
Tenho imensa vontade de conhece-la, mas por se tratar da minha 1ª viagem internacional tenho um pouco de medo.
Vi algumas fotos da cidade, é encantadora, misteriosa, mística, uma cidade histórica. Realmente deve valer a pena conhecer!
Olá, Eloah
Sim, Cartagena é um destino turístico muito interessante – e não dos mais caros. É uma cidade histórica e charmosa. Recomendo! Bjão e obrigado pelo comentário
Olá, gostei muito dos seus comentários. Gostaria que me indicasse um hotel em Cartagena.
Grato.
Eliezer
Olá, Eliezer
Lamento não poder ajudá-lo muito, pois, como descrevi no blog, em Cartagena conheci apenas um hotel – que não presta…
Quanto aos demais, por na época estarem todos lotados, nem cheguei a procurá-los.
Mas trata-se de uma das principais cuidades turísticas da Colômbia e com grande oferta hoteleira. Com certeza vc não encontrará problemas em reservar um quarto num bom hotel.
O que posso aconselhá-lo é: Reserve com antecedêcia, porque nas temporadas a cidade lota de gente e não sobra nada… Cheque muito bem as fotos no site do hotel antes de fazer a reserva… Se der, fique próximo à cidade amurallada (não precisa ser dentro).
Feito isso, o resto é fácil
Obrigado por ter lido o blog. Volte sempre
Abração
Elcio
Oiiiiiii, adorei conhecer Cartagena através da sua descrição.
Estou indo em fev/10 passar minhas férias, na verdade vou a Bogotá e depois Cartagena.
Espero que seja tão interessante, qto o seu comentário.
Abraços!!
Terezinha Balieiro
Cartagena é realmente maravilhosa! Como é bom ver que cada pessoa que a visita retorna com boas recordações e histórias totalmente inéditas de algo que está ao alcance de todos, mais que ainda é explorado por poucos!
A sua história é bem parecida com a minha,tenho loucura para viajar o mundo,mas não tenho condisoes para isso.aproveita tudo que vc puder e seja feliz.bjs
Amei!!! EStou pensando em organizar uma viagem a Cartagena, lendo sobre a sua viagem, só me deu mais vontade. Muito legal!