Há coisas na vida que nos acontecem da forma mais inusitada. Minha viagem ao Japão foi uma delas, portanto… senta que lá vem história:
Nos primórdios do ano da Graça de 2006, pelas conveniências implícitas em ir-se comprar algo na fonte, acabei embarcando numa viagem a Tókio, em busca de uma objetiva grande-angular Canon HJ114.7B IASE. Havia um parceiro envolvido na aquisição e partiu dele a sugestão: “Se demora 15 dias o despacho de Tókio a Nova Iorque e outros 7 de Nova Iorque a São Paulo, por que você não vai buscá-la diretamente em Tókio?” Tendo naturalmente apreciado a idéia, lancei-me na pesquisa de algum agente no Japão que pudesse viabilizar o negócio. Com a ajuda do bom e (já naquela época) velho Google, localizei na capital japonesa uma empresa locadora de equipamentos, como a minha, Nova Engs, que talvez pudesse ajudar: a Besco. E entrei em contato.
Por artes da tecnologia contemporânea, do lado de lá do mundo fui atendido por um colega muito solícito, Seiji, que se dispôs a conseguir o equipamento junto ao fabricante e deixá-lo à minha disposição nas dependências da empresa dele. Para tanto, bastaria que eu depositasse no Brasil o equivalente ao valor do bem, na época cerca de US$ 30,000. Evidentemente, era uma transação de risco… Mas parti do princípio que em se tratando de uma empresa estabelecida, que havia sido procurada por mim (e não tendo sido eu procurado por ela), era grande também a chance de estarmos todos entre gente honesta. Aliado a isto, a troca de e-mails com Seiji convencia-me de tratar-se de uma pessoa confiável. O único ponto negativo era que, por falta de fontes de escrita japonesa instaladas em meu computador, seus e-mails chegavam com a seguinte notação: “????”. Confesso que isso me deixava com a pulga atrás da orelha… mas tive de ser frio nesta hora, aceitar o fato como irrelevante e decidi-me por realizar a ousada operação comercial.
E então começaram os trâmites: para a renovação do passaporte (o 4º), para o depósito internacional, para a obtenção do visto japonês e para a compra do bilhete aéreo – esta última a única parte fácil de ser realizada. Tanto para o depósito quanto para o visto foi necessária a apresentação de inúmeros documentos cujo conseguimento envolvia obstáculos e deu um trabalhão! Sendo o Japão uma das maiores economias do mundo e ocupando um arquipélago cujo território é infinitamente menor do que o do primeiro colocado (EUA, por enquanto), há um cuidado extraordinário das autoridades para evitar a imigração ilegal, o que significa que na prática conseguir o visto para visitá-lo costuma ser mais difícil do que obter o visto para os EUA.
Mas com os inestimáveis préstimos de minha amiga Rosana, que à época trabalhava numa agência de viagens, Renase, com o socorro de minha amiga Sandra, da Zanti Contabilidade (que me conseguiu cópias de antigos Impostos de Renda de uma minha ex-empresa) e com a confiança de minha amiga Fernanda (que apesar de meu passado concedeu-me uma carta de apresentação de sua empresa, a Vinil), tudo foi resolvido e eis que… Uebaaaa!!! …eu tinha à mão o necessário para ir ver de perto a terra do Sol Nascente.
Às 21:10 da 4a. feira, dia 17 de maio, tendo sido levado a Cumbica pela busão do Airport Service, munido da máquina fotográfica que me houvera sido emprestada pela minha querida amiga Claudinha (que ainda na volta foi buscar-me), eu deixava para trás (ou para baixo) o asfalto da pista de decolagem do aeroporto, em Guarulhos, a bordo de um Boeing da norte-americana Continental Airlines. Assim, graças às mulheres tudo finalmente dava certo e após quase meio século realizava-se um velho sonho deste aventureiro errante…! E foram cerca de 10 horas de vôo, por sobre a instigante América Central, até que chegássemos às 06:10 ao aeroporto de Newark, em Nova Iorque, primeira e única escala de nosso périplo, de onde partiria novo vôo com destino ao Japão, logo mais às 11:00 da manhã. Ao chegar, minha primeiríssima providência foi dirigir-me a um caixa automático para angariar os fundos necessários para um sanduíche… E quando o vi, frente a frente, confesso que gelei: pela primeira vez ocorreu-me que talvez eu tivesse confiado demais na praticidade de um cartão de crédito internacional. Pensei: “Caraca, se essa porra não funcionar, tô na roça legal!”. Funcionou!
É impressionante: o Tio Sam esbanja opulência já à primeira vista. Encostando para deixar e recolher passageiros… só carrões. Nada de automóvel pequeno, quase sem exceção todos os veículos que chegavam e partiam eram bombados, majestosos, superdimensionados aos meus olhos sul-americanos. Fiquei com despeito e voltei para dentro do terminal. Clareando o dia, liguei para meu amigo Tony, que há anos possui em Long Island um restaurante, o Maxxel’s, e um bistrô, PastaVino, e que nos idos de 1982 era meu colega de quarto numa pensão em Roma.
Disse-lhe que estávamos próximos embora não fosse possível encontrarmo-nos. Ele prometeu vir ver-me ali alguns dias mais tarde, quando eu fizesse a escala da viagem de volta. E então fui andar de trem dentro do aeroporto. Sim, porque em Newark há um trem que liga os diversos terminais a uma estação externa de trem de linha.
Uma coisa inacreditável. Da janela do vagão, pude ver o páteo de estacionamento do que parecia ser uma empresa transportadora… uma vez mais, fiquei perplexo: uma infinidade de caminhões enormes idênticos à espera sei lá do que… talvez do início do horário comercial. Tudo era três vezes maior do que estou habituado a ver e considero o normal. Por fim, às 11:10 chegou a hora de minha partida e acabou aquela longa e humilhante demonstração de superioridade.
Desta segunda parte da viagem – uma estirada de 14 horas – não há muito o que contar, exceto que ao meu lado sentaram-se duas lindas japonesinhas que não falavam porra nenhuma de nada que não fosse japonês. E que acompanhei avidamente o progresso do vôo através da tela do monitor instalado no encosto da poltrona à minha frente. Era mágico estar rumando noroeste a partir de Nova Iorque. Eu iria sobrevoar o Alasca, o Mar de Bering, tirar uma fininha da península de Kamchatka, na Rússia e, finalmente, aterrissar em solo japonês por volta das 13:50 do dia seguinte. Nunca dantes houvera eu estado por estas bandas… Lá pelas tantas, numa vez em que me levantei e fui até a sala das aeromoças, na traseira do avião, olhei pela janela e não acreditei: a Alasca, abaixo, era simplesmente deslumbrante com o jogo de sombras entre o Sol e a branquidão desolada de suas estepes.
Por fim, às 13:50 da 5a. feira os pneus do avião tocaram o solo japonês. Eu estava radiante de alegria, tinha de extravasar aquilo com alguém. Olhei para as japonesinhas que não paravam de tagarelar e, muito empolgado, apontando para fora da janela, disse-lhes: Nihon! (Japão, em japonês). Elas me olharam com uma cara de “que babaca” e continuraram tagarelando. Como a simples visão da pista já era por si muitíssimo mais interessante que seus dois rostinhos bonitos, fiquei ali absorto com o nariz grudado no vidro da janela. Lá fora, o Aeroporto Internacional de Narita.
Tudo maravilha, não fosse um senhor japonês, morador do Hawai, que queria a todo custo conversar. Só que para isso eu tinha de virar a cabeça, deixando de olhar pela janela, e isto estava fora de cogitação. Ocorre que tenho em mim um elemento – talvez atávico, sei lá – de inquietação em relação a conhecer o mundo. No passado, incomodava-me imensamente nunca ter estado em cidades como Londres, Paris, Santiago, Buenos Aires, Nova Iorque… Essa compulsão me fez rodar meio planeta. E quando finalmente, após tanto aguardo, estava conseguindo ver o Japão, este cidadão queria que eu olhasse prá fuça dele a fim de me contar que sempre vinha ali e que bla bla bla… Fechei a cara, não tive escolha, e passei a curtir sem culpa e deslumbrado a visão dos campos de arroz que margeavam o asfalto.
E então chegamos ao Shinagawa Prince Hotel, um edifício imponente num bairro movimentado ao sul da metrópole. Feito o check-in, dirigi-me aos meus aposentos e não pude deixar de notar a falta do 13º andar na botoeira do elevador. Como do lado de fora não havia notado a ausência de nenhum andar na estrutura do prédio, concluí tratar-se da velha superstição quanto ao malfadado número 13 que, para minha surpresa, havia dado a volta ao mundo.
Ao descer do elevador, percebi que os caras ali devem gerar muita grana, porque o corredor era interminável…
Entrando no quarto, ficou-me claro o conceito japonês de hospedagem: pouco espaço, porém com tecnologia e conforto. O local era estreito, sobrando apenas um corredor ao lado da cama. A janela não abria, mas tudo era muito limpo e agradável.
O banheiro é que era um caso à parte: parecia um WC de avião, minúsculo, todo de plástico e totalmente funcional. E o vaso sanitário estava mais para um robô sanitário… ele aquecia o assento, percebia quando alguém se sentava, acionava pequenas descargas de quando em quando e ainda lavava a bunda do usuário que assim o quisesse. Um espanto. Só faltava falar (se é que não falava… sei lá… ao menos comigo, não puxou assunto).
Então, após circundar meia Terra concedi-me um pequeno e merecido descanso, findo o qual, já tendo escurecido, saí para jantar e bater pernas pelas redondezas.
E encontrei um pequeno, bem tradicional com fachada de madeira, meia-cortininha na porta e tudo mais. Mal entrei, e já ouvi a frase com que todo chegante é recebido num estabelecimento comercial japonês: “Sumimasen!“, que significa, neste caso, algo como “Obrigado”. Prá não complicar, apenas sorri e sentei-me à mesa. Como não ia mesmo adiantar nada consultar o cardápio, olhei em volta e escolhi o prato cuja aparência mais me agradou e apontei-o à senhora que veio me atender. E comecei a arriscar o japonês, pedindo-lhe “Biro” (cerveja). Ela entendeu e retirou-se. Quando a comida chegou… bem… basta dizer que era muito esquisita e não gostei. Saí dalí com vontade de encarar uma macarronada… Fui dormir, com o relógio biológico de ponta-cabeça.
Nessa hora senti medo… cheguei a acreditar que havia feito uma imensa besteira. Lá estava eu num bairro apertado procurando por uma firma numa rua que nem motorista de taxi encontrava, e que estava com muito do nosso dinheiro… Foram momentos de pura tensão.
Era 6a. feira, mas tudo estava um tanto deserto por alí, inclusive a empresa deles. Só havia ele e seu sócio, que me aguardavam tão temerosos quanto eu, já que o depósito ainda não havia caído na conta deles – e eles já haviam comprado o equipamento. Pedi para ver a lente, eles a mostraram e me pediram para ver o comprovante do depósito, que era em português. Xerocaram-no, mas tudo estava bem. Tranquilizei-os, garantindo que o dinheiro cairia até a segunda-feira.
E então, todos mais calmos e confiantes, combinamos que eu voltaria ali na segunda para levar a lente. Fotografei as dependências da empresa, porque a achei muito bem equipada embora fosse pequena (como tantas coisas dos japoneses).
E aí então, com as obrigações em dia, pude enfim entregar-me ao prazer pelo qual mais ansiava, o de perder-me pelas ruas de Tókio.
Ao olhar em volta, vi ao mesmo tempo uma autopista passando por sobre a cidade, uma linha de torres de alta tensão, um canal com barcos e tudo, muuuitas passarelas de pedestres, trens, um navio no porto e aviões sobreavoano. Ufa! Dá prá assustar. É muita coisa em pouco espaço. A segunda é que mesmo sendo uma metrópole cosmopolita, não há ocidentais em Tóquio (se há, não estão visíves…).
Prá onde quer que eu olhasse, só via japonês – e me sentia um ET em meio a eles. E a outra é que não havia meio de achar na rua uma lixeira prá jogar fora o papel da bala. Surpresa: não tem! Até entender que se tratava de uma demonstração de cultura e civilidade, fiquei tão puto que joguei o papel no chão. Mas foi só essa vez… depois entendi o recado e passei a guardar o lixo no bolso, até encontrar uma lixeira em recinto fechado. E me toquei o quão nojentas são lixeiras públicas. Nessas horas vejo como, mesmo tendo vivido por 3 longos anos na Europa e rodado um monte poraí, ainda sou tupiniquim (embora os tupiniquins deveras talvez sejam bem mais civilizados do que eu).
Na hora de comer, para evitar surpresas optei por algo menos radical e achei uma rede de fast-food japonês, chamada Yoshinoya, da qual fiquei freguês durante todo o restante da minha estada.
O sábado amanheceu muito chuvoso, mas eu queria de qualquer jeito ir até o mar. O mar, a praia… sei lá… algum lugar de onde desse prá ver o mar, afinal estamos à beira mar.
E fui andando em direção a onde pensei poder encontrar algo… Ma che mare che nada! Só consegui chegar até uma espécie de porto ou coisa parecida, cheio de containeres e congêneres. O fato é que Tókio construiu muitas ilhas artificiais para aumentar sua supefície, mas tá tudo tomado por alguma atividade industrial.
Para poupar espaço, em algumas garagens domésticas, empilha-se um carro sobre o outro e em alguns postos de serviço bombas de combustível pendem do teto para não ocupar o chão. No meio da tarde, deparei-me com a molecada treinando basebol.
E mais à noite descansei as pernas no apertado conforto de meu quarto de hotel.
Fui passear de metrô, mas tive alguma dificuldade na estação, nas máquinas que vendem bilhetes, porque não é todo mundo que fala inglês e então às vezes fica difícil esclarecer alguma dúvida. Mas acabei embarcando e fui ao primeiro vagão, olhar o maquinista pela janelinha. Bem, se não cheguei a ver nenhum dos famosos “empurradores de luva branca”, ao menos vi um cara operando a máquina usando luvas brancas! Show de bola!
No vagão, durante a viagem é possível consultar o roteiro nas TVs instaladas sobre as portas. Entre outras coisas, elas dizem o quanto o trem já andou naquela linha, o quanto falta andar e de qual lado vão-se abrir as portas na próxima parada. Ali, outra demonstração do aperto que é a cidade: os fundos dos edifícios ficam debruçados quase dentro dos trilhos. Uma visão surpreendemente realista desta viagem de metrô pode ser vista nesta simulação da própria Yamanote Line, na qual me encontrava.
Neste domingo estava acontecendo num centro de exposições ao norte, chamado Tokyo Big Sight, a Design Festa.
Tudo muito vistoso e espaçoso. Bom gosto mesmo, num local privilegiado com uma linda vista da cidade. Mas lá dentro, a tão decantada feira de design, que se dizia a maior da Ásia, não passava de uma grande feira hippie, com artesanato e tudo. No Brasil já vi melhores na Praça da República. Assim, decidi voltar à cidade, mas em grande estilo: já que estava ao lado da baía, por que não voltar de barco? E foi o que fiz.
Excelente passeio, que recomendo a quem quer que vá até lá. Da água, a capital do Japão fica ainda mais fotogênica, com destaque para a imensa roda gigante que à época estava montada perto do grande e vistoso edifício dos estúdios da Fuji TV.
O “acordoamento” onde se toca era fixo e nos trastes havia botões, mucho loco! Tava tão contente que resolvi tomar um cafezinho… péssima idéia. Foi a primeira e (espero) última vez na vida que eu, um brasileiro, deixei o equivalente a R$ 20,00 por um caffè espresso. Foi alí que tive mais uma demonstração do alto nível de civilidade do povo japonês: os caras, ao fumar, ficam parados ao lado de cinzeiros estrategicamente colocados nas calçadas, para que nenhuma bituca acabe abandonada pelo meio-fio.
Não é o máximo da urbanidade? Ou talvez o máximo da urbanidade seja outra cena: que tal o executivo e sua secretária de pás e vassouras nas mãos varrendo a rua defronte à empresa?
Neste dia fiquei considerando a possibilidade de tomar um Shinkansen (trem-bala) e ir conhecer algum’outra parte do Japão… quem sabe Hiroshima, ao sul?
Mas pensei melhor, constatei que os 6 dias que iria permanecer em Tókio já eram insuficientes para conhecer bem uma metrópole daquelas e concluí que se fosse viajar (Hiroshima dista uns 800 km da capital) iria acabar não conhecendo direito nenhuma coisa nem outra. Decidi não ir e desencanei do assunto. Ao meio da tarde, acabei chegando muito por acaso a Chiyoda Ward, um enorme parque bem no centro de Tókio. Fiquei doido para conhecê-lo mas, após um longo dia de aventuras, minhas pernas olharam prá mim e disseram: “Nananinanão, nem pensar…” Tentei argumentar que tratava-se de um local delicioso, que se poderia ir devagarzinho… mas elas foram intransigentes e irredutíveis. Emburrado, desisti e tomei o metrô prá voltar pro hotel. A partir daí comecei a ter problemas com elas durante minha estada na cidade.
É impressionante o show de luzes, cores e capitalismo. Tudo é marca de algo. Tudo pisca, tudo é over! Só não foi melhor porque muita coisa (uns 95%…) não consegui ler. Curti tanto o visual que decidi voltar ali posteriormente. Nesta noite conheci uma das mais divulgadas imagens da Terra, e adorei.
Segundona, ainda meio no bode do jet-lag, decidi acordar bem cedo e ir conhecer o mercado de peixes de Tsukiji, sobre o qual muito havia lido. Uau!! Que lugar imperdível! Logo de cara, o visitante depara-se com um trânsito enlouquecedor de uns carrinhos motorizados que só existem lá. É carrinho zunindo prá cá, carrinho zunindo prá lá, tornando a aventura até um tanto arriscada. Pelo chão, carcaças enormes de atum sendo manipuladas e levadas para corte em máquinas de serra de fita, que estão prá todo lado…
Eu nem sabia que o atum é um peixe gigantesco, que chega a pesar mais de 600kg (atum-azul). O mercado é muito grande, lotado, cheio de vida (menos as dos peixes) e um ponto turístico procuradíssimo. Num dos esconderijos que descobri, cada animalzinho esquisito que chega vivo é mantido numa caixa com água do mar, de forma que nesta parte do mercado o que há é um verdadeiro zoológico de criaturas marinhas, as mais inacreditáveis que se possa imaginar, como costumam ser os seres do abismo.
Fim de expediente, quando o povo sai dos escritórios, é um desfile interminável de gente vestida igual.
Isso, no entanto, em contraste com a juventude ostentando os panos mais trash (ou seria punk, ou junk sei lá…) que já vi. No Japão a garotada é radical no visual. Mas neste dia ainda era começo da tarde e decidi visitar o Museu Nacional de Ciência e Natureza de Tókio, o qual achei muito duca! Coleções intermináveis de espécimes de insetos, uma coletânea de mamíferos empalhados (incluindo os grandes africanos) que parecia ser completa, fósseis pré-históricos… enfim, tudo o que se pode esperar de um excelente museu de ciências.
Ele fica em Shibuya e é mais um detalhe pitoresco do trânsito de Tókio, em parte incompreensível com seus carros na contra-mão e sua sinalização em japonês. Não bastasse, ainda por cima eles dirigem todos com os olhos meio fechados, não sei como os caras conseguem.
De Shibuya, embarquei no metrô para ir conhecer o Museu Nacional de Ciência Emergente, conhecido por Miraikan, que, como era de se esperar na capital do Japão, é algo invejável.
Muitíssimas coisas interessantes prá se ver, e a criançada prá todo lado. Todo mundo com a touquinha igual… uns com as amarelas e outros com as azuizinhas… todos aprendendo ciências desde os 3, 4 anos. Os mais velhos, já adolescentes, podiam ser vistos em laboratórios de física, dentro do museu, em aulas de robótica. Comecei a entender porque os caras mandam bem, seja nas indústrias de lá seja nos vestibulares daqui.
Saindo do museu, fui para Ueno, um tradicional bairro ao norte. Andando por alí deparei-me com inúmeras bancas de rua que vendiam celulares a preço de banana. Em meio a um parque, vi um templo com telhados pontudos, e percebi que fora esta edificação e duas mulheres de quimono… não vi nada de “japonês” em Toquio.
Voltei para o centro e desci na Tokyo Station, interligada a um shopping center onde há salas de jogos eletrônicos. Elas estão por toda parte, mas aqui vi uma que me chamou a atenção: numa espécie de TV enorme na parede, podia-se acompanhar a simulação de um derby, tudo muito realista e o povo participando, apostando e se divertindo eletronicamente. Todo mundo jogando, só dava eu olhando e tirando fotos…
Voltando à rua, fui novamente a Chiyoda Ward, disposto a alugar uma das bicicletas que havia visto para locação da primeira vez em que lá estive. Estava decidido a conhecer aquele grande parque super atraente. Mas, lá chegando… surpresa… não havia locação de bicicletas às 3as. feiras. PQP! Não sei se foi uma alucinação ou se ouvi mesmo minhas pernas imediatamente dizerem “nananinanão, andando nem pensar…”.
E então, puto e resignado, desisti de conhecê-lo. Não sem atentar para um senhor, um mendigo, que dormia sentado por ali. E pude constatar que em Tókio até os mendigos são organizados.
Fui para o hotel descansar, porque tinha planos de, à noite, conhecer Roppongi Hills, literalmente o ponto alto da cidade.
E foi o que fiz. Lá pelas 20:00, chegava eu aos pés da grande torre de 54 andares que se debruça por sobre a metrópole e do alto da qual se tem uma visão panorâmica de Tókio e adjacências.
À noite, a vista é maravilhosa. Fiquei lá fazendo fotos e curtindo o privilégio de estar ali realizando um velho sonho, numa reviravolta do destino que absolutamente não estava programada. Estas magnânimas visões noturnas sempre mexem com o meu emocional. Que bom! A noite estava explêndida, convidando para se voltar a Shinjuku, o bairro das fachadas de neon e onde tudo rola…
S’imbora! Em Shinjuku só a vista já anima: luzes, gente, carros, sons, gente, cores, luzes… eita mundão velho e sem porteira.
Tornamo-nos amigos e fui caminhando com ele, enquanto me explicava que fazia aquele bico prá pagar os estudos. Quando me dei conta, estava às portas do lupanar (sim, porque apesar da amizade ele não perdeu a oportunidade de tentar ganhar um troco às minhas custas). Então sorri e disse-lhe “Olha, não sou seu freguês-alvo… não estou a fim desse tipo de diversão”. E ele compreendeu e me desejou um bom passeio. Saí dalí enriquecido por ter conhecido uma tão curiosa figura humana… um africano em Tókio!
E também foi nessa noite que vi estacionada uma motocicletazinha lindinha, com capota, que se tornou um dos meus sonhos de consumo.
Quarta-feira, manhã do último dia completo que passarei no Japão. Quero conhecer muito ainda, mas as pernas já entregaram os pontos. Sinto muita dor apenas em começar a caminhada, o resto do dia é pura forçação de barra, inclusive com alguma preocupação de estar lesando alguma coisa, com tamanha overdose repentina… Ainda assim, parado não dá prá ficar: fui conhecer o Museu de Ciência Marítima, instalado às margens da baía num edifício enorme em forma de navio.
Ao lado, aberto à visitação, estava ancorado um navio real, o Sôya Maru, no qual por 1000 yens você podia conhecer um quebra-gelo de verdade, que na década de 30 circundava o globo pelas gélidas águas da Antártida. Passei o dia entre navios e a visão de outras embarcações que transitavam pela baía de Tókio.
Então saí para jantar numa espécie de shopping interligado à estação de Trem/Metrô que há defronte ao hotel. Entrei num barzinho bem japonês, lotado de gente, com mesas minúsculas. Pedi um yakisoba e compartilhei a mesa com várias pessoas, todas alí apertadas. Pois numa situação dessas, um dos comensais dava-se ao prazer de chupar seu macarrão fazendo o máximo de barulho possível. Devia ser cultural, porque o japa não se avexava… levava o hashi à boca e… sssssshhhhhhhhhhhhhh sssssshhhhhhhhhhhhh. Sei lá… é difícil conviver com diferenças culturais. Me deu vontade de dizer: “O animal, vê se te manca!”. Mas achei melhor calar… em Roma, faça como os romanos. Suponho que em Tókio deva-se fazer como os tokianos.
Na quinta-feira, dia 25.05.06, logo cedo embarco no ônibus que me levará de volta a Narita. No caminho tento fazer algumas fotos, mas sou impedido pelos muros de contenção acústica que margeiam a estrada. Embarco agora em outro avião da Continental que me levará de volta a Nova Iorque.
Outras 14 horas. Ali chegando, ligo novamente ao meu amigo Tony, que em 40 minutos consegue chegar driblando o trânsito, vindo de Long Island. E é sempre muito bom rever um velho parceiro de aventuras, afinal foi na companhia dele que em fevereiro de 82 embarcava eu numa aventura muito maior, com destino a uma vida na Europa sem prazo para acabar. Mas isso já é outra história…
Sayonara Nihon e muito obrigado por tudo. Adorei conhecê-lo e espero um dia poder voltar. Neste dia, prometo, hei de sair de Toquio, já que vi a capital mas não o país… não se pode ter tudo. Aliás, sequer se concretizou meu desejo de que o retorno aéreo fosse via Frankfurt, o que me proporcionaria uma volta ao globo. Ainda não foi dessa vez…


















































































































Gostei, vou voltar….
Adorei….vou voltar sempre…
bjos
Putz, quando eu for ao Nihon irei seguir seu roteiro. O máximo! Abraço.