Se Paris houvera sido sonho, Londres revelou-se duríssima realidade. Da noite ao dia, vi-me lançado numa vida atribulada, na qual no exíguo prazo de um ano troquei de emprego nada menos do que nove vezes e de endereço outras sete.
Mostrou-se um erro a decisão de termos, o Emerson e eu, deixado para trás nossos moldes de gesso e nosso ânimo em fazer flautinhas. Se os tivéssemos trazido poderíamos, talvez, ter repetido na Inglaterra a vida aventureira que tivéramos na França… mas, não atino exatamente o porquê, optamos por confiar na abundante oferta de sub-empregos que se sabia haver em Londres. Triste escolha…
As coisas já começaram a complicar naquele 4 de julho mal havia eu posto o pé na ilha: junto ao ônibus que nos trazia do porto aos guichês da Imigração, estacionou outro do qual desembarcou uma completa torcida brasileira, com camisa verde-amarela, boné e tudo o mais. Assim, quando chegou minha vez o oficial me perguntou “você está com eles?”.
Por um instante pensei “é por demais óbvio que não estou vestido como eles, portanto mentir agora não é conveniente” e respondi “Não”. Foi outro equívoco: o cara ficou ali me fuzilando de perguntas, enquanto o Emerson, que respondera “Sim”, aguardava apreensivo, já garantido do lado de dentro. Ao final, o policial concedeu-me trinta dias para ficar no país.
Um mês entretanto era muitíssimo melhor do que nada, já que por um triz não dera com a cara na porta e fora sido obrigado a volver, completamente desestruturado, para trás, quiçá no mesmo barco. Ao subirmos no ônibus que nos levaria ao centro da cidade passei a embevecer-me com as exuberantes paisagens à beira da estrada, gramados impecáveis de um verde inebriante.
Pensei “Caramba… foi por estes bosques que tanta história já aconteceu”, mas o que me veio à mente foi o Rei Arthur. E então chegamos à metrópole, a capital da Inglaterra, da Grã-Bretanha, do Commonwealth. A antiga capital do império em que o sol nunca se punha. Londres surpreendeu-me: suas casas eram de parede-meia e na calçada formavam uma imensa fachada única, predominantemente de tijolinhos grená. Londres era grená!
Os policiais, que andavam desarmados, usavam um inconfundível chapéu preto arredondado e os ônibus eram vermelhos e tinham dois andares – além de trafegarem na contra-mão! E por todo lado havia os punks… Carecia descolar com urgência onde se instalar, e conseguimos um quarto até aprazível no 66 da Queen’s Gardens, em Paddington, defronte a uma grande praça ajardinada.
Mas os solavancos persistiam: já no primeiro dia numa sanduicheria, enquanto num copo de isopor tomava uns goles de chocolate, fui abordado por dois policiais à paisana que exigiram ver meu passaporte. Por sorte eu o tinha ainda no bolso, mas senti que a vida ali não seria fácil.
Tendo recebido visto para um mês, urgia descobrir a maneira de prorrogar a permissão de permanência. Quem matou a charada foi um camarada que logo se tornou outro irmão, o Luiz (Luiz Alberto Marcatti Couto). Ele disse: “Inscreva-se na escola em que estou inscrito e peça ao seu pai que mande mensalmente dólares via banco. Comprove à imigração que os está recebendo e conseguirá novo visto. Depois, devolva-os pelo Correio”. Assim fiz e assim deu certo.
Imediatamente matriculei-me na Stanton School of English, que ficava no 28 da Hereford Road, em Westbourne Grove, e pedi socorro ao meu pai, no Brasil, que nunca me faltou, enviando-me cerca de US$ 300.00 iniciais. Aí comecei a estudar prá valer o inglês, cuja noção já tinha desde o Ginásio Duque de Caxias, em Santo André, mas que não passava dos dentes de jeito nenhum.
E foi na Stanton que conheci uma doce italianinha, sagaz e delicada, chamada Lia, e a convidei prá vir comer algo que eu mesmo prepararia… Assim iniciamos um romance, tão efêmero quanto saboroso. Quando então consegui meu 1º emprego: washing-up (lavador de louças) no restaurante de um hotel, em Paddington.
Trabalhava no basement (porão), defronte a duas enormes cubas de aço, onde freneticamente esfregava pilhas e pilhas de pratos brancos, bem como imensas caçarolas, travessas, frigideiras e quetais. O calor era insuportável e os cozinheiros, italianos, gritavam “Fai in fretta che andiamo a casa” (acelere, que vamos embora cedo).
Mas de cedo não havia nada: eu entrava às sete da noite e trabalhava qual uma mula até uma, duas da manhã. E quando todos já haviam saído, ainda me cabia lavar o chão da cozinha. Voltava à Queens Gardens de madrugada, já meio baqueado, onde me aguardava um frio banho de torneira, agachado na banheira, porque o chuveiro quente houvera pifado. E, cáspita, nem assim me ocorreu retomar as flautinhas…
Mas com produção consegui uma promoção, e no mesmo hotel virei garçon de breakfasts, uma mudança e tanto. Andava pelas mesas solicitamente inquirindo “Excuse me Mister, will you have English or Continental breakfast?” e cortesmente os servindo, até a manhã em que por acidente dei um banho de leite ( no bom sentido ) num pacato cidadão que imaginava iniciar bem seu dia.
Entrou o outono e parti para meu 2º emprego: o Luiz me arranjara para ser washing-up (again) do hotel em que ele era porteiro, o Prince of Wales, na De Vere Gardens, em Kensington, onde em breve vagaria um quarto no qual eu poderia morar.
Numa noite em que voltava de meu novo emprego ainda para Queens Gardens, onde morava, ao sair do Hyde Park deparei-me com uma bicicleta cor de vinho encostada na cerca. Chamou-me a atenção. Na noite seguinte ela ainda estava lá e eu, ao constatar que estava destravada, acreditei tratar-se de um presente celestial. Porque não era possível que aquele delicioso brinquedo tivesse ficado ali desprotegido por 24 horas sem que alguém o tivesse levado, não fosse uma intervenção divina. Se ainda estava ali, era minha. Saí pedalando minha dádiva pela calçada.
Foi então que mudei-me para o Prince of Wales, tendo o Emerson ido dividir uma casa com a Pascalle, na Moscow Road. Desci o Hyde Park com Lia a meu lado e do outro aquilo que seria a mudança: minha bicicleta carregada com minha mochila. Desde o início de setembro havia conseguido uma prorrogação do visto, para até janeiro de 84, e foi então já um pouco mais tranqüilo que desempenhei minhas funções de lavador de pratos noturno oficial do hotel, numa imensa cozinha industrial. Deram-me um quarto no porão, muito espaçoso, que logo tratei de mobiliar e decorar, surrupiando da sala de reuniões uma das toalhas de feltro verde para fazer um lindo painel de fotografias.
Ficou bem legal. Todos os queridos na parede, que também ostentava várias folhas de sulfite nas quais eu escrevia lições a decorar. Comprei uma pimenteira e meu primeiro violão, um folk, que tinha dificuldade de tocar porque as cordas eram muito duras. O quarto, que tinha até um lavatório, era para onde eu vinha pelas manhãs ao largar meu turno para, após uma tigela de cereais, dormir até de tarde.
A comida ali não era boa, muita batata, muita ervilha… e muita salsicha. Mas eu estava instalado e não poderia por aqueles dias querer nada mais que aquilo.
Nesse momento de mudanças, Lia insinuou que voltaria para a Itália e perguntou-me se eu preferiria que ficasse. Talvez por medo de amar ou de ser feliz, eu disse “adoraria que ficasse, mas assim como estamos hoje”. Era pouco para ela e tudo o que eu tinha a dar naquela hora. Com tristeza fui levá-la ao aeroporto e então ela partiu. Era um prenúncio da vida solitária que eu levaria.
Quando outubro chegou trouxe uma novidade: eu era convidado pelo gerente noturno a substituí-lo nas noites de sexta e sábado. Seria night manager chefiando uma equipe de 4 pessoas a tripular um antigo hotel de 500 quartos. Sem saber inglês, da pia para a gerência. Pode? Mas foi, e pelas madrugadas ficávamos eu, um italiano e dois espanhóis nos alternando em rondas enormes pelos andares e porões.
Foi nessa época que, a conselho que recebera do Emerson, comecei a ler Carlos Castañeda, em seu livro de estréia “The Teachings of Don Juan”. Gostei tanto que viria a ler os 8 volumes da obra completa. Castañeda e Don Juan fizeram-me companhia e de quebra ajudaram-me pacas com o idioma. Fora isso, minha cabeça nunca mais foi a mesma.
De duas noites na semana o trampo passou para seis, com uma folga de domingo para segunda. Lembro-me de uma madrugada em que estava patrulhando as partes altas, onde funcionava a maquinaria dos elevadores, quando no escuro divisei uma porta e quis saber onde dava. Aproximei-me e ao abri-la quase caio num profundo poço negro, cuja exposição súbita fez com que o vento, uivando, empurrasse minhas costas sugando-me para dentro. Agarrei-me aos batentes e poucas vezes na vida senti tanto horror.
Por esta época, meados de outubro, o Emerson voltou para o Brasil, após ter trabalhado em dois hotéis, como porteiro e garçon. E eu desempenhava cada vez com maior destreza meu cargo de chefia. Ainda escuro, chegavam os jornais e pude constatar os dois estilos que havia: os sóbrios, como The Times e os tablóides sensacionalistas, como The Sun. Me incomodava era não conseguir ler nenhum dos dois, porque enquanto um tinha um linguajar por demais escorreito, o outro abusava dos slangs (gírias), o que derrubava os incautos leitores estrangeiros.
Pela manhã, vinha buscá-los o verdadeiro night manager, meu chefe, um senhor baixo, barrigudo, vermelho e sorridente que, farejando o ar, sempre exclamava “Ah… another lovely English morning” (Ah… outra explêndida manhã inglesa).
Morar naquele porão era um caso à parte. Todo mundo morava lá… além dos brasileiros, os de Madagascar, os da Itália, os espanhóis, as espanholas… era uma deliciosa confusão. O Luiz era privilegiado porque o quarto dele tinha saída direta para a rua, o que o fazia viver cheio de amigos em trânsito.
Muitos rolos aconteciam. Lembro-me de uma garota que numa noite ficou tão bêbada que tive de despi-la sob uma ducha fria para fazê-la reagir. Depois, levei-a nua à cama e quando quis dar no pinote (ela era uma chata), comecei a ser agarrado. Foi uma decisão difícil, mas tive de sair de lá. Só na manhã seguinte tive a certeza de ter acertado, quando tivemos de nos encarar no breakfast…
Meu quarto muito me agradava. Preguei à porta um bloco com um lápis e ao chegar sempre encontrava algum recado. Eram meus bons amigos e boas amigas. Ali ouvia muito Neil Diamond e decidi trocar meu folk por um clássico, legítimo espanhol, Clarissa, que comprei do Fernando, um dos espanhóis que trabalhava comigo. Dessa vez, foi uma escolha acertada. E aproveitei o embalo pra inscrever-me nas aulas gratuitas de violão do Hammersmith College, onde aprendia “Morning Has Broken”, folclórica popularizada por Cat Stevens, e ia pela contra-mão com a minha bike.
No início de novembro chegaram a Londres, de Paris, meus amigos Tony e Márcia, que se haviam conhecido e casado em Roma. Foi mais ou menos quando o gerente geral do hotel deu pela falta do feltro verde e veio me inquirir. Neguei até a morte, o meu houvera sido ganho. Acho que ele não acreditou.
Não por isso, mas chegava ao fim minha estada no Prince of Wales: uma noite, durante meu turno na portaria, estourou uma briga na porta do hotel… Eu era o responsável e tive de ir lá tentar separar os hooligans alcoolizados. Na manhã seguinte a polícia me interrogava sobre os fatos e me intimava a depor. Fui mas, como trabalhava ilegalmente, perdi o anonimato, o emprego e com eles a acomodação. Foi assim que saí daquele hotel no último dia de dezembro de 1983, dez após o início do inverno. Não tinha para onde ir e fiquei baixo-astral pacas.
Mas ano novo vida nova… acabei logo arranjando meu 3º emprego noutro hotel que também dava acomodação. Fui trabalhar na lavanderia do Charles Dickens, em Lancaster Gate, e deram-me para morar um quarto num sótão em Warwick Avenue, dois quilômetros ao norte, para o qual me mudei com a ajuda do Tony.
No trabalho, enquanto dobrava infindáveis lençóis em parceria com Mohammed, meu colega marroquino, ouvia-o contar como houvera sido morto Felipe, o rapaz que ocupara aquele quarto antes de mim: os dois estavam juntos, caminhando à noite, quando foram atacados por um bando de skinheads… Mohammed conseguiu correr mas Felipe não, e foi linchado.
No alto daquele sótão, imaginando esta cena, eu trocava cifras com um português vizinho e me agarrava ao violão, concentrando-me em extrair “Cry Baby Cry”, do álbum dos Beatles que comprara. Ia para a cama no gélido inverno europeu e ainda escuro ao despertar, às 5 da manhã, era quase impossível sair de debaixo daquela grossa manta amarela para caminhar mais de dois mil passos até o trabalho. A neve gelava os pés e o vento cortava a alma. Mas os lençóis do Charles Dickens tinham de ser lavados, secados, passados, dobrados e ainda por cima despachados. Bem como as toalhas…
No dia 18 de janeiro fui de trem uma vez mais ao Home Office, em Croydon, 20 quilometros ao sul, e obtive nova prorrogação do visto, desta vez até 31 de março. Foi uma pequena viagem naqueles trens ingleses em que cada banco tem sua porta, e a composição inteira centenas delas. Na volta para comemorar afanei um dicionário de bolso inglês-inglês de uma livraria de Victoria Station. É que estações, viagens e dicionários sempre me atraíram…
Conheci gente que girava a Europa inteira em dois meses, com um EuRailPass, dormindo no trem à noite e visitando as cidades durante o dia. Um dos amigos que havia feito algo parecido era o Giovanni, natural do Embú das Artes, outro aventureiro figuraça que espero um dia rever.
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No início de fevereiro novamente perdi a casa ao perder o emprego. No sufoco, tive a sorte de conversar com o Luiz, que me fez uma oferta providencial, convidando-me a ir dividir o aluguel com ele do quarto onde morava, no terceiro andar do 17 da Inverness Terrace, em Bayswater, a 50 metros do Hyde Park.
Mudei-me, comprei a máquina fotográfica Chinon dele, reflex, lindona, e parti com o Tony prá uma viagem de carona a Glascow, na Escócia, seiscentos e cinqüenta quilômetros a noroeste. Mas nunca chegamos lá, porque a polícia não permitia que ficássemos nos acostamentos da estrada, sempre nos expulsando para as alças de acesso, onde o tráfego era desalentadoramente menor. Ainda assim, bravamente chegamos a Birmingham, duzentos quilômetros distante, e tivemos a oportunidade de conhecer algo do interior do país.
Voltando a Londres, tive a boa notícia, que me foi dada pelo Luiz, de que havia passado no exame do First Certificate com grau B. Era ótimo! Até pus um brinco na orelha. Estava mesmo precisando de um agrado, porque descobri que meu charme latino não fazia muito sucesso entre as punks, darks, gothics e os cambau inglesas.
Para completar, arranjei meu 4º emprego, novamente de breakfast waiter no St. James Hotel, entre Green Park e St. James Park, no centro da cidade. Londres era verde.
Uma loucura porque, no afã de juntar dinheiro, além do café da manhã eu também servia o jantar, o que implicava ir duas vezes ao dia ao posto de trabalho.
Novamente, foram tempos difíceis e eu me consolava às noites, após sair do turno, quando perambulava pelas ruas com meu walkie-man ouvindo “The Telegraph Road”, do Dire Straits; “Carpet Crawlers”, do Genesis; e “Don’t Leave Me Now”, do Supertramp. Além do “The Dark Side of the Moon“, do Pink Floyd, até gastar a fita.
No final de fevereiro passei a freqüentar o “Balança”, uma república de garotas brasileiras no 4 da Clanricarde Gardens, entre Queensway e Notting Hill Gate. Descoladas e divertidas: Sandra, Ana Tereza, Wanessa… Todas errantes ralantes, como eu.
E tive um breve caso com Norma.
Veio março e pouco antes do início da primavera troquei novamente de emprego, indo agora para o 5º, numa calçada da principal avenida do centro, a Oxford Street, vender sorvetes numa máquina. O trampo fora descolado pelo Luiz, que também era vendedor noutra máquina. Prá ser sincero, pouco eu sabia da inauguração de Itaipu ou dos milhões que em São Paulo clamavam pelas ruas por “Diretas já!“.
Através de Norma conheci Cláudia e com ela vim a ter um romance que perdurou por três países em um ano e meio, um na Europa e meio no Brasil. Com algum esforço, consegui nova prorrogação do visto, até 31 de julho, e mudei de emprego novamente.
O 6º: tornei-me garçon no De Olde Watling, um pub que servia refeições em plena City, o coração financeiro da Europa. Era um aconchegante e sóbrio sobrado numa esquina em que executivos e executivas buscavam nutrir-se ao almoço. Ali, após todos partirem, ouvindo “Girls Just Want to Have Fun“, da Cindy Lauper também eu almoçava e sempre tive a impressão de que a dona achava que eu comia demais… Foi outro flash work em minha vida londrina.
Unemployed again, looking for a job, the 7th, desta vez fui parar numa doceria do centro onde, nos bastidores, montava sanduíches a uma velocidade vertiginosa, mal dando tempo prá pensar. Pois os donos acharam que eu não era rápido o suficiente e acabei perdendo mais esse emprego. Não era mesmo para mim. Estando desempregado, aceitei o pedido do Luiz para que fosse por ele entregar uma mala em Middlesbrough, quatrocentos quilômetros ao norte. Ele custearia minha viagem de ônibus, o que me permitiu levar Cláudia.
Lá fomos muito bem tratados e aproveitamos para na volta, dado o fato de eu ser outro Beatlemaníaco, conhecer Liverpool, duzentos e cinqüenta quilômetros a sudeste. Visitamos o Cavern Club, Penny Lane, Strawberry Fields e o Museu dos Beatles. E estivemos também no centro e no porto de Liverpool, que me causou uma forte impressão.
Voltando a Londres, houve um trampo que de tão curto dele lembro-me apenas de um dia…. era auxiliar de cozinha num restaurante francês, e passei a tarde embutindo lingüiça com carne de lagosta temperada com ervas. Falando assim parece um sonho, mas esse sonho aconteceu, ao sul da cidade. Foi o 8º job…
Por fim arranjei o 9º emprego, novamente de washing up, novamente descolado pelo Luiz, no Café Pacífico, de culinária mexicana em Covent Gardens. Foi ali que conheci abacate salgado e passei a apreciar guacamole…
Por esses dias fomos, o Tony e eu, Tamisa abaixo visitar o Cutty Sark, um navio ancorado no seco, em Greenwich, sete quilômetros a sudeste. Enquanto o barco descia o rio, eu admirava extasiado os fundos escuros das fábricas que há dois séculos haviam realizado a revolução industrial. Navegar aquelas águas era mergulhar na História.
Sensação que só fez aumentar quando abordamos o Cutty Sark, um enorme veleiro que na segunda metade do século XIX fora uma das principais naus da Grã-Bretanha nos lucrativos comércios de chá com a China e de lã com a Austrália . Que sensação percorrer seus confinados aposentos!
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Era o início do fim de nossa aprazível convivência naquele simpático e festivo apartamento da Inverness. Em breve teríamos de entregá-lo e ir cada um pro seu lado, o Luiz deixando a Inglaterra pela Espanha e eu, no sufoco, aceitando o fraterno convite feito pelo Tony para ir morar com ele no apartamento que dividia com o Sérgio, no 6, St. Stephens Crescent, em Westbourne. Por esses dias ele já estava novamente solteiro…
Fui, mas minha estada não completou 20 dias, uma vez que fui convidado pelo Sérgio a desfazer o convite que me fora feito pelo Tony. Fui pro olho da rua e já ia me preocupando quando fui carinhosamente recolhido pela Bete e pela Margarete, que moravam juntas no 65 da nossa velha Inverness Terrace. Me disseram: “Nada disso. Você vem morar conosco e não se fala mais no assunto”. Uau! Obrigado forever.
Fiquei ali por uns dias, até que acabou meu trampo no Café Pacífico e preferi morar com a Cláudia onde ela morava, uma espécie de república de brasileiros em Gloucester, ao sul da cidade. No início do verão eu estava com 24 anos, desempregado e praticamente casado.
Sem muito o que fazer pelas tardes, decidi agradar Cláudia e reformar a pequena cozinha, que era um lixo. Desmontei-a inteira e surpreendi-me quando o dono da espelunca apareceu e me disse “Você vai ter de remontar isso direitinho, hein?”. O babaca não captou que minha intenção era justamente esta. E ao final, claro, ficou saborosamente charmosa.
Por essa época recebi do Brasil uma fita de meu amigo Carlinhos Kalunga, na qual me enviava uma linda composição, pedindo que a letrasse. Inspirado em meu namoro com Cláudia, que enfrentava tempos difíceis devido à minha natureza indomável, escrevi “Through the Clouds”, que expressa bem meu estado de espírito à época.
Em 25 de julho venceria meu último visto e foi então que tomei conhecimento da possibilidade de ir vender bebidas nas praias da Côte d’Azur, na Riviera Francesa. Sem muitas opções, interessei-me pelo assunto e soube que bastaria para isso conseguir um visto francês, atravessar a Mancha, tomar um TGV (Train a Grande Vitesse – ou trem de alta velocidade) e desembarcar no sul do país para me apresentar ao local de trabalho.
Tendo Cláudia partido para a Itália, onde iria se hospedar na casa de uma tia em Roma, batalhei o visto francês, juntei toda a grana que eu tinha, comprei a passagem do trem e no dia 27 saí da Inglaterra pelo porto de Newhaven.
Reentrando na França por Le Havre, tomei o TGV e atravessei-a de fora a fora, indo parar em Port Grimaud.
Lá chegando, recebi uma caixa de isopor cheias de cervejas e refrigerantes e fui precariamente instalado numa clareira no meio do mato, onde meu violão ficava pedindo pelo amor de Deus para ser roubado.
Até tentei levantar uma grana andando a praia de ponta a ponta, anunciando aos gritos: “de la bière, du coca”, mas logo percebi a fria em que me metera, porque não tinha mais nenhum puto no bolso… e não vendia nada.
Pensei em subir num trem sem o bilhete e ver no que dava… mas percebi que isso seria uma idiotice que só iria complicar ainda mais minha situação. E então nesse mesmo dia, por volta das 4 da tarde, voltei ao acampamento no meio do mato, arrumei minha mochila, tomei um banho demorado e, sem um tostão, caí na estrada de carona, de volta à Roma, de volta ao princípio. Uma ironia… trabalhar desse jeito e acabar zerado. Mas quem disse que a vida é fácil?
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Tioooo,
Ô eu aqui desvirginando os comentários (denovo) haha.
Adoro passar por aqui… sem falar que dou muita risada com teus comentários e imagens.
Vc é DUCA…
Bjokaa
Érikitaaaaa
Pô, Élcio, vc me fez voltar no tempo 30 anos e relembrar meus momentos em Londres, no final dos anos 70. Anos bons, às vezes sofridos, às vezes alegres, mas inesquecíveis, sem dúvida!
abração
hahahaha (nome e email obrigatório) é fhoda hahahaha, parece coisas de inglês …
obrigado por compartilhar os capítulos de e as entrelinhas, ao te conhecer mais me sinto mais teu amigo, abraço e continue a saga até chegar na Paulista de hj…
sensacional seu blog!!!! na verdade sua vida!!!!!!!!!!!
adorei!
Mais uma vez, embalada pelo texto irretocável, senti-me nas muitas histórias que viveu do outro lado do oceano. Espero a próxima… Bjão.
Élcio,
Deixe vc terminar suas memórias e entao vou ver se tenho cacife para lhe contratar como ghost writer. Parabéns pelo blog.
Abraços Pedro
Querido Élcio,
Mais uma vez degustei seu diário de bordo sem respirar. Muito, muito bom, mas pareceu-me que estava um tanto apressado quando escreveu ou queria se livrar da história mais rápido. Talvez o frio e as “roubadas” tenham deixado recordações pouco agradáveis na capital do império inglês.
Talvez se você parasse um pouco para falar mais das belas mulheres que você namorou, as lágrimas derramadas…
Mas uma coisa, em especial, chamou-me a atenção em uma das fotos: o sorriso da Antonieta estampado em sua carinha de menino de 20 anos.
Abraços,
Renato
Elcio, te adoro.
Carinhoso abraço e beijo de respeito na testa.
Parabéns, velho amigo, por nos envolver magicamente pelas suas deliciosas andanças…
Abraço.
Elcio,
Depois de Paris e toda a comemoração de vida na cidade luz, Londres foi um teste para a nossa alma latina. Os Anglo-saxões são mesmo carentes de sol. Mas são também interessantes, a seu jeito. O grande erro, realmente, foi desistir das flautinhas. Elas, que nos libertaram em Paris, poderiam ter-nos permitido desfrutar uma Londres menos cinza e mais interessante.
Mas, tudo vale a pena se a alma não é pequena, como já disse o poeta. E a sua alma é grande.
Mais uma vez parabéns por organizar, de maneira tão agradável, suas aventuras pelos quatro cantos do mundo.
Emerson
Que aventureiro. heim.. adorei principalmente em Londres.. será que voce não conheceu a Teresa .. minha irma .. que chegou em Londres em 1985 e la esta ate hoje ..
Gostaria de ouvir pessoalmente suas histórias de viagens..
Já estive em Londres em 2002 foi muito bom enontrei um cara que dei carona em Visconde de Maua.(RJ). que levou pra conhecer Londres .. de verdade..
quando estiver disponível me avise 11 – 91160857
me add no mensager
fadinhas2005@hotmail.com …
olá Elcio ( capitão mor )
ontem à noite postei um comentário sobre as travessias ( e travessuras ) suas e minhas.Não sei se foram postadas. Hoje, no escritório procurei novamente seu blog e dei uma rapida olhada, um olho no peixe e outro no gato. Há muita coisa para ser lida e compartilhada, e já puxando o saco, de fato há vida nos seus textos.Rapidamente vendo sobre cinema, sinto-me igual .Enfim, penso em ler suas coisas , lentamente , usufruindo as boas coisas que voce tem para dividir conosco, amigos eletronicos .
abraços
claudio
Elcião, mano véio, que beleza de história e que grande e corajosa aventura. Tudo isso enriquecido ainda mais com sua saborosa e irretocável literatura. Não é novidade que você escreve muito bem, mas acho que é sempre bom e necessario reconhecer essa sua capacidade de narrar conquistando quem quer que leia. Novamente, meus parabens. E não deixo de sentir um pequeno lamento pelo fato de não ter-mos nos encontrado na velha Europa. Um grande abraço.