A VIAGEM A BOGOTÁ

Ueba! S'imbora!!

Ueba! S'imbora!!

Eram 11 da manhã da quarta-feira, 17 de dezembro de 2008, quando subi num Boeing 737-800 da Varig, no aeroporto de Cumbica, com destino à Colômbia. Manhã cinzenta que se revelou mais que ensolarada, exuberante, assim que o avião ultrapassou o manto das nuvens. No encosto à minha frente não havia aquele monitor que nos situa geograficamente, mas a voz do comandante deu as diretrizes: “Senhores passageiros, bem vindos ao vôo 8698 da Varig com destino a Bogotá. Nosso trajeto será por Bauru, Cuiabá, Villavicencio e Bogotá. Tempo estimado de vôo 6 horas. Tenham todos uma boa viagem”. Tais palavras colocaram-me finalmente em sintonia com a situação: eu acabara de sentar-me numa poltrona da qual levantaria dentro de 6 horas para desembarcar noutro país, noutra cultura, noutro mundo. Na verdade, levantei-me antes disso para ir fazer xixi.

O aeroplano… não canso de admirar esse maravilha sonhada por Da Vinci e materializada por Santos Dumont (xô, usurpadores Wright). Trata-se de uma máquina que é quase o teletransportador de Jornada nas Estrelas. Você entra aqui e sai lá… apenas demora um pouquinho mais. Aliás é também uma máquina do tempo, na qual você pode magicamente ver o dia andando para trás, desde que voe para o oeste, como em Enquanto Isso.

Natureza e máquina!"

Natureza e máquina!

Nós rumávamos noroeste enquanto eu mentalizava cálculos… 4300 quilômetros em 6 horas significa que nossa velocidade é de pouco mais de 700 km/h. Se a hora tem 60 minutos, então estamos a quase 12 km/min, o que implica 200m por segundo. Concluí que a cada 5 segundos deixávamos 1 quilômetro para trás, impressão que foi melhor ilustrada quando pude ver a sombra negra do aparelho “voando” no chão. E por algum tempo estive a contar os segundos… 1… 2… 3… 4… um quilômetro… 1… 2… 3… 4… dois quilômetros… até que cansei da brincadeira e passei a ler a revista de bordo. Subindo para 30 mil pés, lá fora já não dava prá ver mais nada.

Hotelzinho legal!

Chiquitito, pero cumpridor!

galerias5

Galerias populares

Decorridas estas poucas horas, devidamente vacinado contra a febre amarela pousei no Aeropuerto Internacional El Dorado, na capital colombiana, onde era aguardado por uma senhora que ostentava uma plaqueta com meu nome. Com seu filho, que dirigia o Fiat e conhecera São Paulo, fui conduzido ao hotel que reservara no aprazível bairro de Chapinero Alto, não sem antes passar defronte à embaixada americana, que – como convinha – mais parecia um bunker gigantesco. Y entonces allí, en el coche mismo, empecé con ellos a utilizar mi castellano. Eso me gusta! Ueba! Ao cair da noite, já instalado e após uma ducha providencial, fui comprar um livro na movimentada Calle 53, próximo às Galerias. Por 25 pesos, adquiri “El Amor en los  Tiempos del Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, porque o enredo transcorre na cidade de Cartagena, próxima parada prevista em meu roteiro.  Porém, talvez pelo desconforto das 6 horas sentado sentia-me indisposto, assim jantei por ali um sanduiche um tanto estranho e deixei para explorar a cidade no sol da manhã seguinte.

Arepas chôcolo

Arepas chôcolo

Cordilheira

Cordilheira logo alí

Buseta

Buseta

Comércio de rua

Comércio de rua

E foi o que fiz logo ao acordar. Após um desayuno de tamales com arepas-chôcolo (amei a segunda, abominei o primeiro) sai prá bater pernas por uma das capitais sulamericanas que há tempos tinha ganas de conhecer. Não sei porque, sempre simpatizei com a Colômbia. E então tudo era novidade: a cidade aos pés da cordilheira, o frio que surpreendia, as busetas multicoloridas, o comércio popular de artigos regionais. Fui clicando tudo no meu Nokia N95 comprado no Shopping Morumbi especialmente para a ocasião, o que me permitiu registrar a aventura completa em fotos de 5 megapixels. O frio era realmente inesperado… havia pensado que por estar mais próxima à linha do Equador Bogotá seria mais quente do que São Paulo, esqueci-me porém de considerar a altitude… A 2640m, a capital colombiana está mais alta que a paulista respeitáveis 1880m, e isso obviamente reflete muito na temperatura.

Motoqueiro

Identifique-se!!

Taxi

Prá avião ver

Ali, dentre as particularidades que chamam a atenção, está o fato de todos os motociclistas serem obrigados a utilizar um jaleco com destaque para o número da placa, o que não é de muita valia quando por cima do número vestem uma mochila… Assim, por via das dúvidas, são obrigados a pintar o mesmo número também na traseira do capacete. Os táxis são amarelos e todos veículos utilitários têm o número da placa pintado não só nas laterais, como também no teto. Todas essas regras de trânsito são neuras compreensíveis para um país que convive há tanto tempo com ataques terroristas… Mas meu medo de ser seqüestrado não se concretizou.

Transmilenio

Metrô sobre pneus

estacao-t

Estação Transmilenio

Plaquinha esquisita...

Que meda!

Mais 1 buseta

Buseta é o que há!

Ao invés de metrô, a cidade conta com um sistema de ônibus vermelhos articulados (chamados Transmilenio) que a cortam de lado a lado com as estações de embarque localizadas sobre as ilhas das principais avenidas. Trata-se de um meio de transporte eficiente, embora já subdimensionado para os horários de pico. Foi num destes ônibus que vi uma placa curiosa…  e até ligeiramente assustadora!  Mas o que mais salta aos olhos do turista desavisado, como eu, são mesmo as busetas. São ônibus pequenos, desuniformes, pintados em cores escandalosas e na maioria das vezes decrépitos, que por módicos 1,20 pesos levam o passageiro por longas distancias. É funcional, barato e pitoresco.

Bogotá nublada

Bogotá nublada

Localizar-se não é um problema. O país conta com um sistema de nomenclatura de logradouros que torna tudo fácil: de norte a sul estão as “carreras”, que são as avenidas. E de leste a oeste correm as “calles”, ou ruas. E todas levam números – e não nomes (com poucas exceções). Assim, por exemplo, o endereço Carrera 13 #27-17, significa: Avenida 13, altura da rua 27, número 17. E qualquer um que conheça minimamente a cidade já terá uma boa idéia de onde isso fica, mesmo sem olhar no mapa… muito prático.

Monserrate, pertim do céu

Monserrate

Trenzinho

Trenzim

Atrás da igreja

Atrás da igreja

Tá, mas sem galinha...

Tá, mas sem galinha...

Alto pacas!

Alto pacas!

Bogotá, já chamada pelos antigos de “Santa Fé” e depois “Santa Fé de Bogotá”, situa-se num terreno plano que a leste (lá dizem “oriente”) tem a cordilheira por limite natural. Então um ponto de grande interesse turístico é Monserrate, uma igreja localizada bem alto no topo da montanha de onde se descortina a vista de toda a região metropolitana.  Chega-se por um simpático trenzinho que sobe uma encosta íngreme ou por um teleférico que no sábado em que lá estive só iria iniciar as atividades às 3 da tarde. Aliás neste dia pouco se podia ver da cidade, tal era a neblina que se instalara. De trás da igreja sai um corredor de tendas que vendem souvenires e comidas típicas. Aliás, as comidas são um capítulo à parte. O que se via eram galinhas amarelas fumegantes, miudos de aves aferventados, linguiças de aspecto suspeito e tantas outras iguarias que, sinceramente, mais me assustavam que atraíam. Mas suponho que os colombianos as adorem, porque estão por toda parte – assim como o som da Candela FM.

1º Mundo

1º Mundo também, tá?

Museu Nacional

Museu Nacional

Planetario Bogotá

Planetário Bogotá

Centro Histórico

Centro Histórico

 

Visitei os centros econômicos e constatei que ali também há algo de primeiro mundo. Fui ao Museu Nacional de Colômbia, muito interessante, ao planetário municipal, que considerei melhor que o de São Paulo, e à região das praças, en La Candelaria, o centro histórico, que para mim é a parte mais charmosa da cidade. Por falar em charme, impagáveis são os caminhões cuja carroceria foi transformada num salão de baile aberto, que desfilam pelas avenidas com a música a todo volume e lotados de turistas dançando, bebendo e babando lá em cima.

Joyeux Noël partout

Joyeux Noël partout

Frio desfocante...

Frio desfocante...

Fiesta!

Fiesta!

Eram dias que antecediam o natal e por isso à noite a metrópole brilhava em cores. Pela avenida principal, a Carrera 7, famílias passeavam lotando as calçadas e este espírito de festa avançava até altas horas. Num frio de rachar, eu andava até as pernas doerem. Então tomava uma buseta de volta à casa e ia ler a saga de Florentino Ariza em sua perseverante – antes, obstinada – espera pelo amor de Fermina Daza.

Terminal Rodoviário

Terminal Rodoviário

Chevy Spark

Chevy Spark

Pablito do pó

Pablito do pó

Tudo ia bem, mas ao quarto dia concluí que meu projeto original – de ficar na capital por 8 dias – estava superestimado. Assim, entre Bogotá e Cartagena incluí no roteiro Medellin, para conhecer a terra do finado e famigerado Pablo Escobar que, embora não fosse um vulcão, tantas toneladas de pó derramou sobre os Estados Unidos… Em São Paulo, havia reservado um carro e então fui à sede da locadora (Hertz) para retirar meu Chevrolet Spark. Qual não foi minha surpresa ao negarem a entrega do veículo alegando que o escritório brasileiro havia cometido um erro, pois em alta temporada eles não poderiam ceder um carro para ser deixado em outra cidade. Com a reserva na mão, fiquei muito puto e já ia chamando a polícia quando descobri que meu parco portunhol fica pior ainda quando estou nervoso. Percebí que iria perder horas preciosas com esse assunto de desfecho duvidoso e rasguei a reserva no balcão. Fui prá estação rodoviária, onde resolvi o problema comprando uma passagem para Medellín pelo glorioso Rapido Ochoa!

Usaquén

Usaquén

Ciclovia dominical

Ciclovia dominical

Passagem comprada… último dia na cidade, um domingo, fui conhecer a graciosa feira de artesanato de Usaquén, um bairro elegante ao norte. Com tempo de sobra, fui caminhando pela Carrera 7 e apreciando o fato de que a haviam transformado numa ciclovia muito bem-sucedida, com gente de todas as idades pedalando pela longa avenida. E já que estava tudo fechado, aproveitei para conhecer dois shopping centers (abertos, óbvio), o mais bacana e o mais visitado. O Shopping Center Hacienda Santa Barbara foi, como o nome sugere, construído a partir da casa grande de uma fazenda histórica e por isso mesmo é original e agradável. Já o Shopping Unicentro não apresenta muitas novidades e num domingo como aquele estava botando gente pelo ladrão. Quase entre tapas, almocei e caí fora. Mas reconheço que a comida e a cerveja Aguila estavam muito saborosas.

Na manhã da segunda-feira, tomei um táxi e apresentei-me às 8 na rodoviária. Há malas que vão para Belém… Foi ótimo não ter pego o carro, porque a estrada que liga as duas principais cidades do país é um desafio à sanidade de qualquer motorista. De Bogotá a Medellín são 10 horas por uma pista única tortuosa, serpenteando e sacolejando por entre as encostas dos Andes com tal violência que no banheiro do ônibus não havia meio de eu conseguir mijar. Por fim, tive de segurar-me com ambas as mãos e abandoná-lo (a ele…) à própria sorte, o que comprometeu totalmente a pontaria e transformou-o momentaneamente numa alucinada metralhadora giratória – que fez o estrago que as metralhadoras sempre fazem… Enquanto isso, o ônibus, em plena faixa contínua, temerariamente ultrapassava mais um dos 1000 caminhões que encontrou pela frente. Encomendei minh’alma ao Santíssimo!

Fogón Paisa

Fogón Paisa

Tem baurú?

Tem baurú?

A cada 500m...

A cada 500m...

 

 

É nóis na estrada!

É nóis na estrada!

Lá pela uma da tarde, o motorista parou no Fogón Paisa para que os passageiros enchessem o tanque. Muitos ônibus, muita gente, muita comida. Mas eu bravamente continuei em jejum, pelo medo de vomitar em meio a tantas curvas. De volta à poltrona, tinha pela frente ainda muita estrada e a música que tocava o tempo todo. Canções populares colombianas, que em outras circunstâncias eu até teria apreciado, mas ali – uma atrás da outra naquele volume, por 10 horas – era uma tortura para o cérebro e os ouvidos. Aliás, ouvir música altíssima parece ser uma mania nacional… O que compensava eram os pueblos pelos quais o busão passava, lugarejos que revelavam a verdadeira alma da Colômbia, com sua gente simples e arquitetura modesta. Ao longo do asfalto, em vários pontos, soldados entrincheirados detrás de sacos de areia empilhados. E muitos “lavaderos”, locais improvisados para a lavagem de caminhões. Era a minha querida América do Sul passando pela janela…

Ponte sobre o Magdalena

Ponte sobre o Magdalena

Digna de nota a travessia por sobre o majestoso Rio Magdalena, com suas águas barrentas. Um ponto da viagem que constrastava com o verde da paisagem circundante. Lembro-me de, ao atravessar a grande ponte pênsil, ter pensado: isso será bem reconhecível depois, no Google Earth. De fato, foi: La Dorada (5°28’11.50 N, 74°39’48.43 O).

Estrada, só no zig-zag...

Estrada, só no zig-zag...

Mas o titulo desta história é Viagem a Bogotá. E esta ponte, entre os departamentos de Cundinamarca e Caldas, é já meio do caminho para Medellín… por mudança de jurisdição este texto acaba aqui!

Hoje é hoje!

Hoje é hoje!

Anúncios

14 Comentários

Arquivado em Uncategorized

14 Respostas para “A VIAGEM A BOGOTÁ

  1. Beeeem melhor que Caracas, hein?

    Então quer dizer que em Bogotá há busetas fenomenais? Fala sério… eles chamam assim os microônibus? Quando fui para a Bolívia, eram minibuses.

    Abração!

  2. Andréa

    Ei, gostou do livro? Quero muito ler….

  3. ELIEZER POLEZI

    Gostei muito do seu blog. Espero utilizar muitas dicas que vc passou. Vou a Bogotá e Cartagena no próximo domingo e gostaria de algumas dicas de hoteis nestas duas cidade. Grato. Um abraço.
    Eliezer

  4. Terezinha

    Oi, adorei ler suas aventuras em Bogotá.
    Vou p/ Bogotá em Fev/2010, gostaria de indicações de hoteis acessiveis p/ um bolso de assalariada. Pretendo ir até Cartagena, qtas horas são de Bogotá até lá.

    Grata,
    Terezinha Balieiro

  5. Lais Castro

    Gostei de suas informações sobre Bogotá e Cartagena das Indias… estou pensando em viajar para lá, são dicas interessantes. Grata.

  6. Iraci Terezinha Vilas Boas

    Adorei as informações sobre Bogotá. Meu marido e eu pensávamos em ir a Medelin de onibus mas desistimos mediante sua aventura. Vamos de avião. Muito bom seus artigos!!!!!!

  7. Angela

    Bom te ler….beijossssss

  8. Humberto Siqueira

    Só faltou dizer os preços das passagens e das hospedagens. Valeu!

  9. Humberto Siqueira

    Viajarei a Bogotá em janeiro, saindo de Manaus. Alguém sabe dizer o preço das passagens de ônibus para Cali, Medellin e Cartagena? É mais compensador que a passagems de avião?

  10. Ildenice

    Amei as dicas!
    Viajo no próximo mês para Bogotá!
    Fiquei super informada com seu blog.
    Abraços

  11. Elza

    simplesmente maravilhoso.

  12. vera masacrenhas

    VOU A BOGOTA , MEDELLIN E CARTAGENA, gostaria de saber se de Medellin ate cartagena posso ir de onibus, ou vc recomenda avião.
    Na volta quero passar pelo Panama ficar uns 4 dias, será que devo ir de onibus ??? ouvi falar de um ferry.

  13. capitaomor

    Ol, Vera Como descrito a no post, fiz esta viagem de nibus. Desconheo-a por avio. De nibus longa e radical… mas sai bem mais barato. Boa viagem Elcio

    > Date: Wed, 29 Aug 2012 13:13:45 +0000 > To: capitao_mor@hotmail.com >

  14. Parabens…ri muito do seu relato, principalmente na parte que voce conta que ouve uma giratoria peniana ao tentar fazer xixi dentro do onibuskkkkkk voce escreve muito bem..parabens!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s