A VIAGEM A MEDELLÍN

Seguuuura, peão!

Seguuuura, peão!

Vista antioqueña

Vista antioqueña

Llegada a Medellin

Llegada a Medellin

… então, montados no bumba do Rapido Ochoa sacolejávamos pelo interior da Colômbia, tendo por destino Medellín, o coração econômico do país. Passando a ponte de La Dorada estávamos no departamento de Caldas, porém ainda retornaríamos ao de Cundinamarca e passaríamos pelo de Boyacá antes de finalmente entrarmos no de Antióquia. O trajeto sinuoso, decididamente, não era nada objetivo. Enquanto a noite caía, nossa condução seguia por cidades e lugarejos de aparência sofrida e nomes pitorescos, como Cocorná, El Santuario, Rionegro, Guarne, Bello e, por volta das 22 horas, avistei enfim as luzes da capital. A chegada a Medellin à noite, pela Nacional 60, é uma dessas impressões indeléveis. O pedaço da cidade que se descortina é nada menos que as imensas encostas da cordilheira tomadas por miríades de luzes dos bairros populares. É uma visão impressionante, um vale cujas laterais remetem à cena de algum outro planeta. Fiquei deveras tocado e, confesso, um tanto apreensivo – naquele momento Medellín pareceu-me um lugar miserável e ameaçador. Mas na verdade vi probreza, mas não miséria na Colômbia.

Terminal del Norte

Terminal del Norte

Rio Medellin

Rio Medellin

Hotel Poblado Campestre

Hotel Poblado Campestre

Por fim, o ônibus estacionou numa das plataformas do Terminal del Norte e pude desembarcar para mais uma etapa desta aventura. Num táxi, percorri a marginal do Rio Medellín, onde havia gigantescos luminosos natalicios. Atravessando quase toda a cidade, chegamos ao simpático hotel Poblado Campestre, onde me aguardava uma reserva, uma ducha tépida e uma cama aconchegante. Um dia inteiro constrito numa poltrona vibratória é coisa para treinamento de astronautas, não para turistas em busca de sossego. Mas sobrevivi e agora queria apenas caminhar pelas redondezas na captura de algo para por entre os dentes.

Metrô Medellín

Metrô Medellín

Vista do Metrô...

Vista do Metrô…

Povo!

Povo!

Estación Caribe

Estación Caribe

Manhã de sol em Medellín! Saio à procura do metrô para voltar ao terminal norte onde na noite anterior, na pressa de sumir dali, havia esquecido de comprar a passagem para a próxima etapa: Cartagena de Indias. Em época de alta temporada convém não deixar prá depois. O metrô, limpo e bonito, ajudou a mudar a primeira impressão que eu havia tido da cidade. Medellín é moderna, com todos os contrastes esperáveis de uma metrópole sul-americana. Indústria pujante convivendo com populações empobrecidas. Ruas lotadas e comércio prá todas as faixas sociais, desde refinados shopping centers a feiras informais de venda e troca de usados. E passavam as estações… a partir de Aguacatala vinham: Poblado, Industriales, Exposiciones, Alpujarra, San Antonio, Parque Berrío, Prado, Hospital, Universidad e, finalmente, Caribe – interligada à rodoviária.

SOS dinherooooooooo

SOS dinherooooooooo

Sí, sí, sí, yo quiero

Sí, sí, sí yo quiero

Entro num cajero automático para ordenhar meu cartão VISA e – surpresa – nada de pesos: “sem comunicação”. Vou a outro e “sem comunicação”. Busco o terceiro, o quarto e último… Socorro! Nada! Procuro um local onde possa fazer uma chamada telefônica ao Brasil para entender o que está acontecendo, mas nenhum dos dois postos telefônicos que havia faziam chamadas a cobrar. Minha única saída era voltar todo o caminho até o hotel (sem dinheiro, sem passagem e bastante encanado) para poder utilizar um telefone. Quando enfim consegui falar com alguém, soube que o problema era queda de sistema no Brasil. Putz! Deveria ser indenizado pelo stress e pela manhã perdida. Mas estamos em férias, mantenhamos a fleuma e, embora quase duros, saiamos sorridentes a perambular… Quanto à grana, mais tarde tentaremos novamente.

Onde tudo acontece!

Onde tudo acontece!

Quando mais tarde chegou, finalmente consegui sacar de um caixa automático a quantia necessária para a passagem e voltei à rodoviária. Desta vez, tudo deu certo – aliás, com grana, quase sempre dá! Comprei o bilhete, desta vez pelo Expreso Brasilia, e fui ao posto de atendimento ao turista solicitar un mapa de la ciudad, por favor. Fui muito bem recebido por um senhor, policial militar, que estava disposto a mostrar-me sobre o mapa todos os atrativos da cidade. Mas minha curiosidade, confesso, era mais mórbida… diante de tanta boa vontade, arrisquei a pergunta que não queria calar. Disse-lhe:

– Mira, señor, pienso que para uno de Medellín no le gustará contestar a esa pregunta… pero me gustaria saber en que punto de ese mapa fué muerto Pablo Escobar.

Para minha surpresa, ele não se aborreceu. Ao contrário, mostrou-me o local sobre o mapa (a nordeste da cidade) e ainda me contou que, numa ocasião, houvera conhecido pessoalmente o maior traficante da história das Américas.

– ¿Verdad?

Barato inda é forte...

Barato é caro…

– !Si, por supuesto! E então contou-me que certa tarde, há uns 18 anos, quando estava de serviço no Hotel Intercontinental, ao norte no bairro de Los Cerros, viu chegar o traficante com toda a sua guarda pretoriana, fortemente armada. Sem chance de defesa não reagiu, porque sabia que seria morto. O homem entrou, ficou o quanto quis, fez o que tinha de fazer e foi embora. Naquela época, segundo o policial, os chefes da droga comportavam-se ostensivamente como se fossem os donos da cidade, um estado de coisas que mudou, pois hoje o tráfico embora intenso é discreto.

Talleres en Caribe

Talleres en El Caribe

Fazemos qq negócio!

Fazemos qq negócio!

Te lembra algo, né?

Te lembra algo, né?

Plaza Botero

Plaza Botero

Retornei ao centro a pé, para aproveitar melhor a tarde. No primeiro bairro que atravessei, El Caribe, havia uma concentração inusitada de oficinas mecânicas. O bairro inteiro era uma manutenção só, inclusive de veículos pesados, o que deixava as ruas cheias de caminhões parados. Vindo pela Carrera 52, cheguei então à parte mais popular do centro, onde havia pelas calçadas uma grande feira de objetos usados. Muitas lojas de bicicletas, autopeças, ferragens e eletrodomésticos. Por fim, cheguei à Plaza Botero, com suas curiosas esculturas de simpáticas figuras obesas. Era o dia 23 de dezembro e havia uma multidão que entupia as ruas. Estava difícil caminhar. Melhor parar numa das muitas galerias prá tomar uma cerveja, desta vez a Polar, ao som da Estrella FM.

Policial? Soldado?

Policial? Soldado?

Início de uma aventura...

Início de uma aventura…

Na Colômbia, ao menos nas metrópoles em que estive, não passam dois minutos sem que se aviste um policial. Em Medellín havia um em cada estação de metrô, sempre próximo às catracas. Mas também estavam pelas ruas, circulando em motos (2 por moto), em carros. Os vigilantes privados utilizam cães. E o uniforme da polícia é em tudo semelhante ao do exército, o que os diferencia é o jaleco de um verde fluorescente utilizado pelos policiais por sobre a farda. Assim, muito bem protegido, na manhã do segundo dia tomei uma vez mais o metrô com destino à Estación Acevedo, ali há uma conexão com o teleférico que leva para o alto de uma das encostas, no bairro de Santo Domingo Savio.

Panoramica de Suramerica

Panoramica de Suramerica

Muy moderno!

Muy moderno!

O teleférico, chamado Metrocable, é um passeio imperdível. Tanto um quanto o outro, pois há dois na cidade. Em cabines para 8 pessoas que viajam suspensas a uma surpreendente altura do solo, passeia-se por sobre os telhados, os bares, as esquinas, as lajes e os folguedos infantis que se desenrolam no mundo abaixo. É algo feérico. Sobrevoa-se as casas e vê-se o que nelas acontece. Quando há um sobrado alto à frente, têm-se a impressão de que se vai bater contra a parede mas eis que se sobe cada vez mais, mais alto, até que se avista ao longe toda a cidade. Gostei tanto que decidi visitar naquele mesmo dia a outra linha, que vai em direção aos bairros da encosta norte.

Brinquedão!

Brinquedão!

Natal perto do céu

Natal perto do céu

E foi o que fiz à noite, na véspera do dia de natal do ano de 2008. Tomei o outro teleférico, na Estación San Javier com destino à Estación Aurora. Se pela manhã o primeiro já havia me impressionado, a viagem que fiz nesta noite subindo e descendo as montanhas escuras dos Andes, foi algo indescritível. Se o primeiro ia por sobre as casas, este sobrevoava a mata escura. E do ponto mais alto, acima de tudo mais o que acontecia naquela parte do mundo, pude ver as infinitas luzes de Medellín no vale abaixo e parecia inacreditável o que se descortinava. Pensei: só por estar aqui e presenciar isso já valeu o meu natal. Sozinho ali, sem champanhe ou panetone, eu estava muito feliz.

Noche Buena!

Noche Buena!

Mucha gente!

Mucha gente!

Media Noche!!!

Media Noche!!!

Voltei para as partes baixas e fui aonde o povo estava – as margens ricamente iluminadas do Rio Medellín. Havia um trabalho em luzes que impressionava pela grandiosidade. Nunca havia visto uma instalação luminosa daquele tamanho, tomando quase todo o rio. E já passava das onze e o povo estava em festa. Crianças, casais, anciãos – muitos policiais – e eu lá pelo meio, experimentando desta vez uma cerveja cujo nome não me lembro mas que era horrível, doce, parecia a mistura de cerveja com tubaina.

Após a meia-noite, finda a festa, decidi voltar para o hotel. Fui para a avenida marginal, mas quem conseguia parar um táxi? Passavam todos lotados, sem uma única exceçãozinha para me tirar daquele sufoco. Pensei na possibilidade de voltar a pé, mas era longe demais, eu já estava com as pernas muito cansadas e àquela hora… o bom-senso absolutamente não recomendava. Porém, sem alternativa, comecei a caminhar. E por muitíssima sorte, vi parar um táxi do qual desceu uma família. Corri e foi a salvação. Em poucos minutos estava no conforto do meu quarto de hotel, mas muita gente ali deve ter se dado mal…

Envigado

Envigado

Na manhã do dia 25, meu último dia inteiro na cidade, sai caminhando por trás do hotel e descobri um bairro muito elegante, com direito até mesmo a um enorme campo de golfe. Andei até cansar, como é de meu costume, mas desta vez não deu prá continuar. Até queria ir um poquinho mais… mas as pernas se recusaram e tive de sentar-me à beira da rua para decidir o que fazer. E minha decisão foi continuar o turismo mas agora motorizado. Assim, tomei a primeira buseta que passava e deixei-me levar. Fui parar em Envigado, a próxima cidade a leste. E foi muito legal, porque embora tão próxima Envigado é muito diferente de Medellín. Para começar é muito menor, parecendo até uma cidadezinha de interior. E o ônibus ultrapassou o centro e seguiu para os bairros do subúrbio. Ali havia muitas famílias cozinhando nas calçadas, festas para todo lado, e um clima de Natal em Paz! Gostei muito do passeio improvisado. Quando achei que já estava indo longe demais, desci, tomei um malte (bebida comum na Colômbia) num quiosque e peguei outra buseta de volta (eu adoro busetas).

Tudo de novo... Vai ser foda!

Tudo de novo??… Sim, vai ser foda!

Às onze da manhã do dia seguinte embarcava no já familiar Terminal Norte para mais um sacolejo de 12 longas horas, desta vez com destino a Cartagena de Indias. O ônibus era um pouquinho melhor do que o anterior, ao menos tinha cineminha – e foram nada menos que quatro longa-metragens do início ao final da viagem, com espaço para mais alguns durante as pausas entre um e outro. Ao meu lado sentou-se um rapaz que parecia disposto a entabular uma animada conversação. Mas havia um problema: eu não entendia patavina do que ele dizia. Falava rápido mas aquilo não era castelhano – era colombiano, o que é muito diferente. Fui obrigado a fechar a cara e responder com monossílabos, pois previ que iria ficar com dor de cabeça se fosse tentar decifrá-lo. Já estava de saco cheio de ter de dizer “como?” e “hã?” a cada frase que ele dizia.

Bem que estranhei...

Bem que estranhei…

Lá pelas tantas, quando voltava do banheiro para a minha poltrona, senti algo estranho ao sentar-me e imediatamente soube do que se tratava. Era uma baita pistola – e carregada, pois o garoto era um policial à paisana que na minha ausência havia debruçado sobre o meu banco vazio para conversar com o vizinho do outro lado do corredor e neste movimento deixara cair a arma, sem perceber. Com naturalidade, apresentei-a a ele e perguntei “¿És tuya?”. Ele não pode acreditar, pegou-a e pareceu muito envergonhado, pois aquilo não havia sido nada profissional. Pero… cosas que suceden.  Quem nunca perdeu uma pistola, não é mesmo?

NÃO recomendo!

NÃO recomendo!

Por fim, lá pela uma da manhã – sim, foram mais que doze horas – chegamos ao litoral. Desembarquei na rodoviária de Cartagena e tomei um táxi que me levou ao bairro de Bocagrande, na Carrera 3, hotel Bonavento Real – (in)felizmente o único muquifo de toda a viagem. Aliás, diante das acomodações decepcionantes (reservadas às cegas pela Internet), tive de encurtar um pouco minha estada numa das mais agradáveis cidades em que estive, pois àquela altura não havia como encontrar vaga em outro hotel, todos abarrotados.

Mas (again) estamos em férias, mantenhamos a fleuma e, embora muito putos, saiamos sorridentes a perambular… Afinal, Cartagena é muitíssimo legal.  Mas isso merece outra história.

Time flies!

Time flies!

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5 Comentários

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5 Respostas para “A VIAGEM A MEDELLÍN

  1. OIM QUERIA MUITO TE CONHECE
    POSSO??

  2. Érica

    Coitada das Busetas por aguentar esses turistas folgados….rsrs

  3. Oscar R

    Ola, sou nascido na colombia mas moro no brasil ha anos. adorei o seu relato. que bom que gostou das busteas colombianas, alegres musicais, festivas, natalinas, etc. Só achei que perdeu um tempo precioso em medellin tentando achar ao lugar onde morreu pablo escobar (mas respeito os teus gostos pelo macabro rsrs) Medellin é maravilhosa, e vc comprovou que não existe na America Latina lugar aonde enfeitem tanto a cidade para o Natal, ne? a Colombia e festa o ano todo, mas a época do natal é de mais.. né?

  4. Cidade tradicionalista de população agradável

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