Arquivo do mês: março 2009

CINEMA E EMOÇÕES

Meigo e triste

Meigo e triste

Na rua em que moro há nove salas de cinema. Acabo de chegar de uma delas, onde assisti a um drama de extrema delicadeza: “O Visitante”, que aborda a questão das imigrações ilegais nos Estados Unidos e do amor na terceira idade.

Assombra-me o quão profundamente tocado saio de uma sessão de cinema. Não me refiro aqui a qualquer filme, mas a Cinema. Por um tempo após subirem os créditos ainda me sinto enlevado, envolto num’aura de sentimentos fugidios, fugidos de algum lugar que costuma ter as portas trancadas, dentro de mim.

Caminho calado, buscando explorar ao máximo cada segundo daquele êxtase fugaz, que sei se dissipará ao som das primeiras buzinas, à luz dos primeiros faróis, à força das primeiras inquietações.

Mas enquanto perdura revela-me horizontes ocultos de mim mesmo, relembra-me sensações há muito esquecidas, desperta-me desejos grandiosos e por vezes até enche-me de uma esperança inesperada.

Vitória pela recusa

Vitória pela recusa

Vitória pela tenacidade

Vitória pela tenacidade

Jamais vou esquecer o que senti ao final de “Gandhi”. Até aquele momento eu não sabia que a força de um homem pode deter um império, e esta revelação ampliou os meus limites. Ou quando as luzes se acenderam após “Um Sonho de Liberdade”, fazendo-me ver algo óbvio, mas que não via: a perseverança pode ser a chave do sucesso. “Mar Adentro” fez-me reconhecer o quão afortunado eu era de poder ter meu corpo em movimento. E todas essas emoções chegam numa inundação, tomando os espaços do pensamento e só aos poucos vão-se esvaindo no nevoeiro da percepção habitual. Não há como retê-las.

Vitória pela sublimação

Vitória pela sublimação

Trata-se de atingir um outro nível de cognição, um patamar superior, quase um toque noutra realidade, ainda que com os mesmos pés no mesmo chão. É como drogar-se apenas de emoção e por um curto tempo eu não sou o sólito eu.

Mas não são só os grandes filmes que tem este poder. Não se trata de tamanho, mas de sensibilidade. Pequenas produções que traduzem grandes dramas humanos também fazem-me rir, temer, chorar e questionar. Sobretudo, fazem-me sentir coisas que não sinto no passar dos dias. Que não sinto quase nunca, ainda que todas estejam lá… sepultas em algum ponto indefinível do meu ser.

Às vezes é uma recordação da infância, noutras o afã de melhorar o mundo, ou uma paixão arrebatadora, ou ainda uma alegria que invade a alma… como se fosse um vendaval que revolve as folhas do chão e depois passa, devolvendo-as ao solo. Mas se é grande a obra, é grande o sentimento. E não importa tratar-se de realidade ou ficção, o que vale é o que ela demonstra, o que provoca, o que deixa em mim.

Raros, tais momentos me são caros. Sinto-os ao máximo e com intenso carinho e respeito, porque me fazem lembrar que sou muito maior do que costumo ser. Por alguns minutos, fica claro que há muito mais do que consigo ver. Que por estar vivo tenho muito mais do que acredito ter.

Para mim o cinema é o portal de uma outra dimensão que, longe de ser irreal, está sempre ao lado, mas sempre oculta por algum véu que não nos é dado levantar a qualquer hora. Louvados sejam os Lumière e os bons diretores, que por vezes fazem vibrar minhas fundações e me lançam cara a cara com o infinito do meu eu.

Palco e platéia

Palco e platéia

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