MINHA VIDA EM ROMA – 1 / 2

La città eterna

La città eterna

Morei em Roma por duas vezes: a primeira por 8 meses, de fevereiro a outubro de 1982, e a segunda por mais 4 meses, de outubro de 1984 a janeiro de 1985.

20 séculos vos contemplam!

20 séculos vos contemplam!

…Naquela terça-feira à noite, chegando pela primeira vez à capital da Itália liguei de um telefone público para os meus amigos (não, ainda não havia celular) e os fui descobrir jantando num restaurante próximo ao Coliseu, ou Colosseo. Já fiquei extasiado…

Via Savóia

Via Savóia

Juntei-me a eles e assim me instalei na pensão em que estavam hospedados: a gloriosa Pensione Silvestri, na Via Savóia, próxima à Piazza Fiume e à Villa Borghese, de propriedade de uma austera senhora de nome Enza e zelada por outra simpática senhora chamada Veglia, nome que eu achava muito engraçado.

Pensione Silvestri

Pensione Silvestri

Elcio & Tony

Elcio & Tony

C'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro?...

C'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro?...

E ali estávamos… finalmente instalados em plena Europa. E prontos para o que desse e viesse. E o que tinha de vir, o mais rápido possível, era alguma forma de trabalho que garantisse a subsistência, antes que os parcos caraminguás trazidos do Brasil se esvaíssem pelo esgoto romano, literalmente. O Toni, que levava alguns dias de vantagem na cidade e por isso já sabia algumas palavras, me ensinou a frase mágica, que deveria abrir-me as portas do dinheiro: “c’è lavoro?” (tem trabalho?). E a partir de então saí batendo de bar em bar pelas ruas de Roma repetindo estóica e incansavelmente o mantra…

Ops...  foto errada.

Ops... foto errada.

Mas nada… os dias se passavam e a ficha ia caindo: não seria moleza encontrar um trabalho. Enquanto isso, comíamos todos na mensa (restaurante universitário) da faculdade, que ficava ao lado do Cimitero Monumentale di Campo Verano. A comida era boa, mas o local era sinistro: pela manhã, a rua amanhecia lotada de seringas e camisinhas, delatando que nas madrugadas por ali rolava um bundalelê pesado… muito consumo de heroína já naqueles tempos.

Sex, Drugs & Rockn'roll

Sex, Drugs & Rockn'roll

dia de azar...

dia de azar...

O problema era chegar para comer e encontrar a mensa fechada, devido a mais um dos incontáveis scioperi (greves) que os funcionários faziam. Vira e mexe acontecia, mas mesmo isso servia para me fazer admirar o primeiro mundo: nesses dias ninguém ficava sem comer, já que à porta da mensa era distribuído um kit alimentar, composto de um pacotaço de batatas fritas, um queijinho Philadelphia, um pão e uma lata de refresco.

mata fome...

mata fome...

A Europa diante dos olhos

A Europa diante dos olhos

Ainda não acreditando no que estava me acontecendo, em certas tardes, ia à Stazione Termini, a central de Roma, só prá ver os trens que dali partiam para vários destinos na Europa. E ficava minutos infindáveis com a cabeça erguida, só vendo o placar rotativo mostrar aquele monte de nomes de cidades: Nápoles, Paris, Lugano, Bologna, Munique… Para mim, havia algo de mágico naquele som: flap- flap- flap- flap- flap…

Instiuto Dante Alighieri

Instituto Dante Alighieri

Difícil mesmo era fazer-se entender… após os 12 dias que havia passado na Espanha esforçando-me por falar espanhol, não conseguia dizer sequer uma palavra em italiano… Quando tentava arriscar um “Io” (pronúncia: ío), saía “Yo” (pronúncia: djô). Minha mente, até então virgem para línguas, havia travado no espanhol…

Il mio vecchio libro

Il mio vecchio libro

Então parti prá me matricular num curso de Italiano per gli Stranieri, no colégio Dante Alighieri, perto da Via del Corso. Nossa professoressa, uma simpaticíssima velhinha, alternava aulas de gramática e conversação. Isso muito me ajudou a pegar o italiano no tranco…

E foi ali que conheci Christine, uma linda alemãzinha de Stuttgart que, como eu, estava na capital italiana mais perdida do que cego em tiroteio. Passamos a nos consolar mutuamente…

Christine

Christine

Próxima a Roma, ao alcance do metrô, fica a praia de Óstia, onde o nudismo era permitido. O Rodolfo, uma das amizades brasileiras que logo fiz por ali, me convidou: “Vamos lá, cara? Vamos ver mulher pelada!” Eu gostei da impudica sugestão e fomos. Mas lá chegando, quem diz que um tinha coragem de ficar pelado na frente do outro? E lá andaram os dois caipiras de sunga prá cima e prá baixo…

Cáspita! Liberou geral...

Cáspita! Liberou geral...

Foi só meses depois que, na companhia de outro amigo, outra cabeça, o astral mudou e criei coragem para juntar-me aos peladões e pela primeira vez sentir o sol bater em partes inusitadas… sensação deveras sui generis. E nesse dia tive um choque cultural: vi uma garota deitada de bruços, as pernas abertas, e dali saindo um fio de O.B., produto que eu mal conhecia. Nossa! Era liberalidade demais prá minha cabecinha…

...oh! então é assim?

oh! então é assim?

Ciao, come stai?...

Ciao, come stai?...

Mas depois disso, infelizmente, pouco voltávamos à Óstia porque ali o assédio partia muito mais dos incontáveis finocchi (homossexuais masculinos) do que da mulherada… era uma barra um tanto pesada, tanto que foi lá que Pasolini acabou assassinado por um michê…

Viajante...

Viajante...

Celestial.

Celestial.

Já estávamos em março e nada de trampo. Morávamos os 3 no mesmo quarto de pensão e com isso tive acesso às fitas cassete do Toni, rapaz de fino gosto musical. Foi assim que tomei contato com os maravilhosos “The Concerts in China”, de Jean-Michel Jarre e “Eye in the Sky”, de Alan Parsons Project, que acabaram se tornando a trilha sonora de minha vida naquelas latitudes. De minha parte, contribuí com o não menos maravilhoso “Raíces de America vol. II”, do Raíces de America, os quais amo até hoje…

El cantar tiene sentido!

El cantar tiene sentido!

Que moleque resistiria?

Que moleque resistiria?

Enquanto não pintava emprego, a vida transcorria pacata na Pensione Silvestri… o Sérgio foi embora prá Bélgica e a gente se divertia espiando a mulherada tomar banho, pelo buraco da fechadura do banheiro comum, no corredor … Tinha uma que era o xodó de todos, uma loira gostosa que pouco espaço dava à molecada… lembro-me de um dia em especial, no qual a vi sair do banheiro enrolada na toalha e entrar em seu quarto.

Sujou !

Sujou !

Pé ante pé, fui olhar pela fechadura e – UAU! – deu prá ver tudo… ela estava visível de corpo inteiro, mirando-se no espelho da penteadeira. Concentradíssimo, abri os braços e apoiei as mãos nos batentes da porta. Quando forcei o tronco para frente para aproximar o olho do buraco, minhas costas estalaram – CLAC ! Naquele silencio, foi como uma bomba atômica: ela se virou imediatamente e eu, em dois pulos, entrava pela porta do banheiro. Mas ela abriu a do quarto a tempo de ver que era eu. Deve ter gostado, porque nunca fez ou disse nada a respeito… Aprendi: as traições sempre vem pelas costas.

Internet de 1982

Internet de 1982

Por esta época, anterior ao advento do e-mail, eu recebia uma enxurrada de cartas vindas do Brasil. Quase todo dia havia uma e eu, criteriosamente, respondia a todas. Parecia que todo mundo havia sentido a minha partida. Isso fazia muito bem ao ego de um garotão perdido no mundo… Muitos me parabenizavam e diziam que gostariam de poder fazer o que eu estava fazendo. Uma missiva que me marcou veio na forma de fita gravada, pela Tonheta, minha mãe, na qual ela se orgulhava do “filho corajoso” que tinha. Aquilo foi decisivo prá me insuflar deveras a coragem a que ela se referia. E todos eram unânimes em querer saber como era a vida ultramarina…

Má idéia!

Má idéia!

Bem, era curiosa, diferente… prá se ter uma idéia, uma tarde aconteceu de eu estar no quarto da pensão, fazendo nada, quando o Toni chegou com uma lata de Coca-Cola. Dei um gole e, como estava muito quente, decidi descer do jeito que estava – sem camisa – para comprar outra lata na venda da esquina. Quando lá cheguei, as duas senhoras que atendiam o balcão quase enfartaram ao me ver seminú… Prá piorar, enquanto ainda tentava entender o que estava acontecendo, o filho de uma delas apareceu vindo de não sei onde, dizendo “Ma che succede?” (o que está acontecendo?). Ao que uma delas respondeu algo como “Nada, o senhor aqui já estava de saída” , livrando assim a minha cara. Ao sair à rua para voltar à pensão, senti-me o mais nú dos mortais… parecia que todos me repreendiam com o olhar. E nesse dia senti o gosto do que a diferença cultural é capaz de fazer…

Olha prá lá!

Olha prá lá!

Enfim... barista!

Enfim... barista!

Após muito batalho, finalmente consegui uma vaga de barista na cantina da Facoltà La Sapienza, na esquina da imponente Via Nomentana com Via Carlo Fea. Era muito legal ficar fazendo e servindo cappucinos, lattes macchiatos, tès al limone e por aí ia… Outro choque cultural foi fazer laranjadas com uma laranja que por dentro não era amarela, mas cor de vinho tinto. Laranjada cor de beterraba, incrível. Foi ali que conheci Maria, uma estudante de letras, meu segundo caso na Itália… a vida era leve e ilustrada, por essa época…

Tavas duvidando, né?

Tavas duvidando, né?

Adilson Barros

Adilson Barros

Já era abril e numa tarde em que estava sentado no gramado da Villa Borghese, perto de casa, gravando uma fita para os meus pais, fui abordado por um brasileiro que ao passar me ouviu falando em português. Era Adilson Barros, um ator (A Marvada Carne), que acabou se tornando nosso amigo naqueles dias. Trouxe-o à pensão e o apresentei aos meus camaradas. Fizemos muitas caminhadas juntos… lembro-me de um domingo em que estávamos os dois na pitoresca Feira de Portaportese, examinando uniformes de guerra usados (vários deles furados de bala), quando o Adilson viu passar Ruth Escobar. Ele a conhecia e a trouxe para confabular por um momento. Infelizmente, Adilson viria a morrer de AIDS em novembro de 1997.

Foro Romano

Foro Romano

Colosseo

Colosseo

Trinità dei Monti

Trinità dei Monti

Fontana di Trevi

Fontana di Trevi

Capela Sistina

Capela Sistina

E Roma ia nos surpreendendo… com seus pontos turísticos… os milênios desfilando diante de nossos olhos: Foro Romano, Colosseo, Trinità dei Monti, Fontana di Trevi, Capela Sistina na Basílica de São Pedro… muita história em cada esquina, cada viela… era tudo encantador. E tanto passado em meio a manifestações de modernidade como, por exemplo, o ônibus sem cobrador: comprava-se o bilhete n’algum estabelecimento comercial da rua e depois bastava inutilizá-lo na maquineta dentro do ônibus. Nem sempre fazíamos esta parte… e uma vez tivemos de sair correndo do veículo quando um fiscal entrou…  sujeitávamo-nos ao que fosse necessário para economizar qualquer merreca.

Autobus romano

Autobus romano, em 82

Era por aí...

Era por aí...

No Vaticano, sob uma das colunatas da Praça de São Pedro, havia um telefone público que estava quebrado… com ele era possível fazer ligações gratuitas para a América do Sul, que maravilha! Mas pouco durou nossa alegria: em 2 de abril começou a Guerra das Malvinas e daí em diante o aparelho ficava constantemente congestionado de argentinos, que com avidez buscavam notícias de casa… Pra ser sincero, lembro-me vagamente de ter visto o Papa, que na época era João Paulo II, em sua sacada. Mas isso para mim não significava grande coisa.

Era o outro, mas dá na mesma

Era o outro, mas dá na mesma

Pequena notável

Pequena notável

Foi também em maio que o Toni inventou de irmos à Suíça procurar emprego nas vendimias, ou colheitas de uva, que se aproximavam. Pegamos o trem na Termini e rasgamos pro norte, indo parar em Berna, a capital. Lá chegados eu não podia crer que existisse um lugar tão lindo, tão bem cuidado, tão…tão… perfeitinho. Tudo era impecável, tudo era moderníssimo… os bondes articulados, as máquinas de comprar bilhetes que calculavam a tarifa e davam troco, as floreiras nas fachadas, as fontes, as estátuas pintadas uma a uma, as bandeiras do país por todo os lados. A Suiça era deslumbrante. Ao menos prá se ver, aquilo sim era primeiro mundo.

Colírio

Colírio

Casa de bonecas

Casa de bonecas

Classe A

Classe A

De Berna seguimos para Zurique, que era tão exuberante quanto… lembro-me do sol resplandecendo quando o relógio marcava quase 9 da noite!…lembro-me das lindas garotas praticando topless às margens do lago Zürich… lembro-me do Toni insistindo para comprarmos dos famosos chocolates suíços… lembro-me do Albergue da Juventude que tinha até secador de cabelos no banheiro e lembro-me do Rio Limmat correndo por entre edificações de uma arquitetura de sonhos. Parece que o índice de suicídios lá é alto, mas para mim a Suíça seria inesquecível.

Eu & Rio Limmat

Eu & Rio Limmat

9h... noite alta !

9h... noite alta !

Zürich bahnhof

Zürich bahnhof

Sigamos!

Sigamos!

Antes de voltar à Itália, pretendíamos ir a Genebra, e então saímos de Zurique em autostop… mas pegamos carona com um estudante, que insistiu para que ficássemos por uma noite hospedados na casa dele, onde vivia com a esposa, em Freiburg, capital do cantão de mesmo nome. E lá fomos, saborear a realidade de um lar suíço, onde havia um quadro branco cheio de mensagens deixadas por viajores de antanho. Desistimos de Genebra, até porque nosso contato lá sumiu no mundo e não atendia o telefone… (depois de tudo o que havíamos feito por ele em Roma, filho-da-puta!).

Giuseppe

Giuseppe

Voltando a Roma, ainda em maio o Adilson me arranjou um emprego muito legal: de radioator na RAI – Radiotelevizione Italiana. Eu era o protagonista de uma série intitulada “Garibaldi – o Herói de Dois Mundos”, produzida pela RAI para difundir a cultura italiana nos países de lingua portuguesa. Ali conheci várias pessoas interessantes e foi um bico que reforçou meu caixa até os últimos dias da minha estada na cidade.

Bão e barato!

Bão e barato!

Falando em cultura, algo que me fascinava era o fato de que havia um cineclube próximo à nossa pensão, cujo ingresso era quase gratuito, o pequeno e glorioso Cine Tibur. Eu não acreditava que cinema pudesse custar tão barato e ia lá umas três noites por semana. E estranhava muito eles interromperem a sessão na metade do filme para, com as luzes acesas, venderem pipoca, refrescos e demais guloseimas dentro da sala de projeções.

O bar do corredor

O bar do corredor

Tudo ia bem quando, lá pro fim de maio, aconteceu de eu quebrar uma peça de vidro do balcão refrigerado da cantina onde trabalhava. Foi um acidente, mas o dono queria descontar do salário. Emputecido, me demiti. Imediatamente fui reaproveitado noutro bar, mais exatamente dois bares contíguos: o piano bar e o bar do corredor do Grand Hotel Ritz. Chegava lá às 17:00 para abrir o suntuoso Black Horse Piano Bar e quando dava 19:00 ia para o bar do corredor, onde ficava sozinho servindo sobretudo cafés.

Oba! Achei o cartão...

Oba! Achei o cartão...

Vecchio dizionario

Vecchio dizionario

Foi ali que numa tarde, quando tinha livros e dicionários de italiano abertos sobre o balcão, conheci uma garota norte-americana, de Peoria, Illinois, chamada Jane, muito interessante e interessada… naquela noite fui prá pensão mais tarde, mas nos deu um trabalhão achar um local que nos proporcionasse alguma privacidade, que acabou sendo uma espécie de bosque ermo, que se atingia através do buraco de um muro quebrado… é… não dispúnhamos de drive-in nem motel.

Fazemos qualquer negócio

Fazemos qualquer negócio

Gostava mesmo era do piano bar, onde logo ao chegar, ali sozinho, já começava a degustar os finos licores que a casa oferecia: Amaretto del’Orso, Drambuie, Sambuca Romana, Tia Maria, Liquore Strega, um mais delicioso que o outro. N’alguns dias até dava uma exageradinha e ficava meio ubriaco… adorava ouvir a linda vinheta de encerramento (às 19:00hs !!) da Radio Montecarlo que, se bem me lembro, simpaticamente dizia: “Ciao, a domani… sicuramente sarai con noi!… Ci sentiremo, per stare ancora insieme a te!.. Per ora chiudiamo… la Radio Montecarlo!”

Tom, piano & saudades

Tom, piano & saudades

Naquele piano bar também havia uma figura curiosa: o pianista, que era um senhor beirando os 60 anos e que adorava bossa-nova. Como eu era brasileiro… vira e mexe ele me chamava, tocava em seu piano de cauda preto as notas de alguma canção de Tom Jobim, cantava-a com um baita sotaque e me perguntava: come ti pare? Sta bene cosi? Eu, que de ritmo entendia muito menos do que ele, ria e respondia: ma si, certo, bravissimo! Ao final do expediente, lá pela meia-noite, voltava a pé o longo caminho até a pensão. Confesso que neste trajeto uma vez ou outra cheguei a chorar de saudades da minha casa no Brasil e dos meus familiares e amigos queridos… mas me consolava lembrando que estava ali por livre e espontânea vontade e que, afinal, tudo ia bem.

Sangue, areia & Hollywood

Sangue, areia & Hollywood

E eis que chegou o mês de junho, e com ele o verão. Foi então que conheci uma das exuberâncias da Europa que mais marcaram minha memória: durante todos os meses de verão, era exibida a céu aberto no imponente Circo Massimo uma série de 5 longa metragens por noite. A loucura começava por volta das 20:00 e só terminava ao raiar do dia. Aquilo era uma manifestação de arte e cultura que jamais imaginara, simplesmente me assombrava. Era legal demais ir lá, naquele recinto milenar que no passado fora palco de tanta atrocidade prá… ver filmes.

Arena da derrota

Arena da derrota

Espetáculo por espetáculo, em julho daquele ano foi instalado na Piazza del Popolo um imenso telão (outra novidade para mim) para que o próprio (il popolo) pudesse assistir às finais da Copa do Mundo. Com que emoção dirigimo-nos, nós um bando de brasileiros, para lá a fim de ver e celebrar (discretamente, prá não tomar porrada) a segura vitória da célebre Canarinho sobre o time da casa, a gloriosa Azzurra, já que precisávamos apenas empatar… Qual! o que vimos foi o povo romano gritando e gemendo de satisfação por roubar dos reis do futebol a possibilidade de caneco naquele mundial. Contrafeitos, mas não querendo perder a festa, seguimos a multidão, após o final da partida, numa estridente marcha até a Via Veneto, onde as festividades se estenderam até sei lá que horas… fui prá casa.

3x2: Paolo Rossi, o algoz

3x2: Paolo Rossi, o algoz

Emersão

Emersão

Enquanto isso, eu seguia trabalhando na RAI, dando voz à saga de Giuseppe Garibaldi. Foi lá que conheci a Valéria, brasileira que há anos morava em Roma e que, por sua vez, me apresentou o Emerson (Emerson Tomáz de Lima, hoje sócio-proprietário da Pousada Canto de Itamambuca), parceirão com quem viria a viver muitas aventuras futuras Europa afora. Conhecemo-nos no Fonclea, uma balada que fazia sucesso à época. O Emerson era descolado: após viver várias peripécias prá ganhar algum, na ocasião sobrevivia à custa da venda de spillette (bottons) na Piazza Navona, onde, aliás, situava-se a Embaixada do Brasil.

Piazza Navona

Piazza Navona

Dapertutto!

Dapertutto!

Foi ali que uma vez o Toni e eu decidimos conhecer a novidade da refeição por quilo… fiz um prato tão gigantesco que ao voltar para a mesa, equilibrando no topo a metade de uma berinjela, fui duramente admoestado pelo garçon, que esbravejou: “Ma è cosi che mangi a casa tua?”. Não era… pode ser que eu houvesse exagerado um tantinho. Então para evitar problemas (e porque era uma delícia), comíamos muita pizza rústica (ou pizza a taglio), que eram pizzas feitas em grandes formas retangulares e vendidas a peso em estabelecimentos à beira da calçada.

Em julho, os Rolling Stones se apresentaram em Nápoles. O Toni foi prá lá com o Emerson para um show que prometia ser indelével… e foi mesmo: ao pular de um muro ele caiu de mau jeito e quebrou a perna. Nada bom para quem vivia como nós… sem grana e sem amparo social. Mas “with a little help from his friends” as coisas se ajeitaram e a vida seguiu seu curso…

Pedras rolantes & ...

Pedras rolantes & ...

... gesso paralisante!

... gesso paralisante!

Enfim, algo do sul...

Enfim, algo do sul...

Então fui convidado por outro amigo brasileiro, o Lourenço, a ir com ele a Bari, onde iria visitar sua avó e tias que lá moravam. Aceitei, pois era a minha chance de conhecer um pouco o sul da Itália. E fomos. Uma vez lá fui muito bem tratado… tão bem que houve um problema: no almoço familiar que naquele domingo era em minha homenagem, o prato principal foi cérebro de carneiro… Miolos! E eu não posso sentir nem o cheiro de miúdos que passo mal… Não tive como contornar a situação a não ser dizendo a verdade, mas o clima ficou pesado. A avó dele não entendia como era possível eu rejeitar a iguaria. Foi bem constrangedor, mas não dava para fazer nada além de sorrir e elogiar os demais pratos servidos… Hoje, quando às vezes assisto ao “À Prova de Tudo” no Discovery Channel e vejo Bears Grylls comer qualquer coisa, de vermes a carniças… só posso invejá-lo.

Puxa...  que legal...

Puxa... que legal...

Mas em Bari houve outro fato pitoresco: ainda no trem de ida, estava eu tomando um ar no amplo espaço que fica no fundo do vagão quando interessei-me por um sinalizador preso à porta. Era um baita rojão de emergência e estava ali, dando sopa… Eu era cleptomaníaco nos meus tempos de Europa. Não tive dúvida: achei-o legal e o subtraí às “Ferrovie dello Stato”. Ficou na minha mochila durante toda a minha estada em Bari. No domingo à tarde, o dia em que estava indo embora (sozinho, pois o Lourenço iria ficar lá), quando me vi numa rua deserta resolvi meter fogo no bicho, só prá ver como era…

Idéia idiota...

Idéia idiota...

Não prestou: quando a mecha acendeu, o artefato começou a lançar um enorme jorro de fogo cor-de-rosa, fazendo um barulho ensurdecedor que parecia querer atrair a atenção de toda a cidade. Se me vissem com aquilo, estaria roubado – porque estava na cara que roubado era ele. Fiquei desesperado, sem ter como apagá-lo… e aquele escândalo parecia ter sido projetado para durar… Então, por muita sorte, vi um monte de areia e foi o que me salvou: enterrei-o num golpe e saí correndo, com medo que explodisse ou que aparecesse alguém. Foi o que hoje chamaria de uma idéia de jerico, mas não tenho do que me envergonhar… eram dias difíceis eheheh.

Por entre as azeitonas

Por entre as azeitonas

E fui voltando sozinho, de carona, subindo a costa leste italiana, rente ao Mar Adriático, com destino a Pescara, 300 quilometros ao norte, onde pretendia tomar um trem para Roma. Na ida havia conhecido umas garotas, da cidade de San Severo, e uma delas me convidara a ir lá e me dado o número de seu telefone. Então, fui. Mas dei com os burros n’água, porque lá chegando descobri que ela nunca estava em casa. Acho que se arrependeu e me evitou… Segui viagem por entre os olivais e acabei em Pescara, onde passei o dia perambulando e esperando a hora de embarcar no trem, que através da madrugada me levaria adormecido à capital, rasgando a Italia ao meio no sentido leste-oeste.

La lupa romana

La lupa romana

Eu & Rodolfo no "Regno"

Eu & Rodolfo no "Regno"

Quando cheguei à cidade de Rômulo e Remo as coisas melhoraram. Arranjei um emprego de garçon num restaurante muito legal, “Nel Regno di Re Ferdinando”, de culinária napolitana e onde já trabalhava o Rodolfo. Entrava às 17:00 e ia até o último cliente, o que às vezes podia ser bem tarde… Mas era supimpa. A comida era deliciosa, a fartura imensa e eu comia que nem um porco, sempre que tinha a oportunidade.

Nunca tinha visto...

Nunca tinha visto...

Que sensação abrir aquelas latas atum, contendo uma única posta com diâmetro de 30 centímetros por uns 10 de altura. Uau… Comia e bebia (gaseosa, uma espécie de soda) tanto que uma noite, quando sorvia mais uma garrafa aos borbotões para combater o calor insano, a dona do restaurante, Marilina, me viu e exclamou: “Ma che troppa pancia hai!” (mas que barriga enorme você tem!). Olhei prá baixo e… daquele dia em diante a vida nunca mais seria a mesma. Eu tinha só 22…

Via dei Banchi Nuovi, 8

Via dei Banchi Nuovi, 8

O restaurante ficava na Via dei Banchi Nuovi, uma viela próxima a Trastevere, o bairro boêmio de Roma, e era freqüentado pela elite da capital. Lá iam de artistas a senadores. Lembro-me de ter servido Monica Vitti. O trabalho era estafante, nas noites de casa cheia não se parava um minuto sequer, mas até que era divertido. Uma tarde, quando me preparava para ir trabalhar, o Toni chegou em casa com um baseado… dei um tapa (tá bom…talvez mais de um…) e fiquei tão doido que não conseguia mais sair. Me bateu medo de morrer atropelado. Naquele dia não sei o que cheguei mais: atrasado ou alucinado.

Ana Maria Kulcsár

Ana Maria Kulcsár

Já entrara setembro e, numa sequencia de folgas no restaurante, fomos, o Toni e eu, fazer turismo na Hungria, onde pretendíamos contatar a avó de uma ex-namorada minha, a Ana Maria (que faleceria num acidente de moto em 1997) e que morava em Komáron, no norte do pais. Pegamos o trem na Stazione Termini e fizemos escala em Zagreb, na então Iugoslávia (hoje Croácia), onde dormimos na estação aguardando a partida do outro trem, na manhã seguinte.

Zagreb lotada...

Zagreb lotada...

...de trens

...de trens emparelhados

Mas quando clareou o dia e nos dirigimos para a plataforma, surpresa: havia nada menos do que 7 trens emparelhados e nós não sabíamos qual se destinava a Budapeste. Loucura total, a hora passando e nós tentando obter informações dos guardas que não falavam italiano, nem inglês, nem porra nenhuma que não fosse a lingua deles. Por um triz não perdemos a condução, que saiu pontualmente às 07:00 da matina. Hungria, aqui vamos nós!

O Lago Balaton

O Lago Balaton

Era ainda plena época da “Cortina de Ferro” e na fronteira pudemos constatar um pouco da ternura com que os policiais húngaros tratavam os chegantes. Prá pedir o passaporte, o cara veio dando joelhada e só faltou sacar a arma. Por sorte (e juízo) nossos vistos estavam em dia. No caminho até a capital, do trem pudemos ver o longo e lindo lago Balaton, com muita gente divertindo-se às suas margens.

Keleti Pu: terminal e cama

Keleti Pu: terminal e cama

E enfim chegamos à Keleti Pu, a imponente estação central de Budapeste. Imediatamente saímos em busca de um hotel, uma pensão, um alojamento qualquer e… nada! Alta temporada, tudo lotado! Na Hungria só se conseguia acomodação naquele tempo dirigindo-se a uma central de reservas… não adiantava ir diretamente aos estabelecimentos… Desespero! Estávamos cansados, famintos, doidos prá encostar as mochilas, tomar um banho e passear pela cidade, mas… nada disso. Ficamos perambulando, carregando peso prá lá e prá cá.

Toni & mala

Toni & mala

O Danúbio & eu

O Danúbio & eu

Nesse dia, mesmo estropiados, deu prá conhecer um pouco da realidade de uma capital que vivia sob o jugo soviético. Tudo era cinza, sem propagandas, sem cores, sem nada daquilo que estávamos habituados a ver sob o capitalismo… Entramos num supermercado e nas prateleiras havia um tipo de cada coisa: um tipo de sardinha e só, um tipo de detergente e só… Entramos numa doceria e para beber havia uma jarra de água sobre o balcão. Era tudo simples demais, até para um brasileiro (em 2001, 19 anos depois, voltei lá e tudo estava mudado: o capitalismo e suas cores já haviam dominado a paisagem).

Pandemia

Pandemia

Naquele dia veio a noite e nos ajeitamos como pudemos no chão duro da estação, por colchão uns pedaços de papelão. Pela manhã estávamos cansados, estressados e desiludidos… lutávamos por permanecer íntegros… até que o Toni desistiu e disse que estava voltando pra Roma.  Não consegui demovê-lo.  Pensei em permanecer e tentar ir por conta própria até a casa da vovó, mas se até ali já havia sido difícil em dois, que dirá sozinho… lamentando, resignei-me em voltar com ele.

Back to the road!

Back to the road!

Toni, em 82

Toni, em 82

Na volta, topamos no trem com um maluco que vinha pela ferrovia transiberiana desde Pequim com destino a Roma, uma viagem que corta a Mongólia e a Rússia de fora a fora, estendendo-se por mais de 9 mil quilômetros. Isso é que é aventureiro. No fim, fiquei com uma certa inveja do Toni (que hoje é um respeitável pai de família em Nova Iorque e dono dos restaurantes Maxxel’s e PastaVino), que pegou uma menina no trem de ida e outra no trem de volta. Nos idos de 1982 o ragazzo mandava bem…

Mudança de ares...

Mudança de ares...

Por fim, decidi aceitar um convite que o Emerson me houvera feito meses antes, de ir tentar a vida em Paris. Perguntei-lhe se o convite ainda estava de pé, ele disse que sim mas que não havia mais como me esperar porque já estava de partida. Então combinamos que ele partiria na frente e nos encontraríamos em Lugano, na Suíça, onde ele tinha amigos e de onde seguiríamos juntos. A idéia era que se ele não estivesse me esperando na estação quando eu chegasse, deveríamos ambos ir ali todas as manhãs, às 10:00 em ponto, até que coincidisse de nos encontrarmos.

Roma - Lugano

Roma - Lugano

Sempre avanti...

Sempre avanti...

E foi assim que parti sozinho de Roma, num dia de outubro, início de outono, com destino a novas aventuras no hemisfério norte. Mas quando cheguei a Lugano e não vi o Emerson na estação fiquei mal… apesar do combinado, o emocional falou mais alto e me vi sozinho no meio de uma roubada… para criar coragem, ali mesmo escrevi uma carta para o meu amigo Leonardo, no Brasil, postei-a e fui para o centro da cidade, onde havia uma feira, festa, algo assim. E foi então que fui “achado” pelo Emerson e pela Cristina, sua amiga, enquanto comia um lanche, sentado num banco em plena rua. Ufa, que alívio!  Como às vezes é reconfortante ver gente conhecida!

Oba! era dia de festa...

Oba! era dia de festa...

Rifugio nella montagna

Rifugio nella montagna

E em Lugano nossas novas aventuras já começaram… ao cair da noite conhecemos duas garotas, ambas suíças, que se engraçaram conosco e nos levaram para a casa de uma delas, que era uma espécie de chalé, no alto de um morro, onde havia muitas castanheiras. Tudo absolutamente charmoso. Ao passarmos pela porta da sala, que estava aberta, ela nos apresentou aos seus pais, que assistiam à TV e não pareciam nem aí que a filha e a amiga estivessem levando aos aposentos superiores dois terceiro-mundistas desconhecidos. Eu ficava maravilhado com estas demonstrações de modernidade. E lá ficamos até alta madrugada, quando o Emerson veio me chamar para partirmos, que nosso trem para Stuttgart sairia logo mais ao alvorecer. Fazia frio, estava bom demais ali… acho que nunca na vida saí de algum lugar tão contrariado.

Prá Paris, via Alemanha

Prá Paris, via Alemanha

Alemanha sempre moderna

Alemanha sempre moderna

E assim seguimos para Stuttgart, minha primeira visita à Alemanha. Lá chegando, tratamos de comer uma salsicha com cerveja, para entrar no clima local, e procurar pela Christine, minha ex-namorada dos tempos de Dante Alighieri, em Roma. Conseguimos que um transeunte alemão fizesse a ligação telefônica, mas não deu certo e não pudemos encontrá-la. Fiquei triste, mas por aqueles dias a tristeza durava pouco… De Stuttgart lembro-me bem do Metrô, que impressionava por conter na mesma linha trens com várias destinações. E também lembro de ter visto muitas fábricas, nos trechos fora dos túneis.

Scwharzenegger incompreensível...

Scwharzenegger incompreensível...

À tarde, prá descansar entramos num kino (cinema), no qual assistimos a “Conan – O Bárbaro”. Mas como o filme era em alemão, não deu prá entender patavina. À noite retomamos a ferrovia… s’imbora prá Paris.

Da Cidade Eterna para a Cidade Luz

Da Cidade Eterna para a Cidade Luz

E fomos! Mas aí… aí já é outra história… das melhores, por sinal.

Saudosamente...

Saudosamente...

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11 Comentários

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11 Respostas para “MINHA VIDA EM ROMA – 1 / 2

  1. Cláudia

    Já estou esperando o próximo episódio:-) Bjo.

  2. Show seu relato de viagem. Essa experiência precisa ser transformada em livro. A gente começa a ler e não quer parar mais. Diante do computador não é a mesma coisa que uma brochura.
    Estou esperando o resto da viagem.
    Abs.

  3. Élcio; sua narrativa é fabulosa. Eu adorei.
    De toda essa aventura, resta confirmado que todo homem tem um universo dentro de sí. Basta praticá-lo!
    Estou no aguardo do “Volume 2”.
    Um abração de quem sempre se orgulhou em ser seu amigo. mello –

  4. Lucila

    Muiiiito legal, eu disse que leria aos poucos mas não deu, comecei e não consegui parar, parabéns pelas loucuras vividas. Bjsss.

  5. Andréa Lopes

    Lendo, relendo e curtindo muito as fotos.

    Bj

  6. Ge Cardoso

    To de partida junto com vocês pra Paris, em meia hora viagei junto com você e olha que ja ouvi vários trechos dessa sua aventura, mas nada melhor do que ler… obrigado por proporcionar momentos bons de leitura simples e bem transcritas….
    Abraço…

  7. vitorio

    Olá, concluí o pedaço da Italia.
    Tenho lido e relido tb como a Andréa.
    A historia de sua vida dá uma biografia.
    Impressionante.
    Bjs.

  8. roberto adedo

    Fiquei contente sobre o Adilson Barros. Servi o Exército com ele em 1966 em Sorocaba. Ja faziamos alguns ensaios de teatro quando estavamos de plantão. Só que naquela epoca ele era o famoso “kibe”. Um grande amigo que eu nunca mais revi. Que Deus o tenha.
    Abraço e boa noite
    Roberto Adedo

  9. maria rita duque penedo

    Continua muito bom ,dá pra ser um livro .

  10. Pingback: Pousada Twin esta localizada em Ubatuba na Praia de Itamamcuca | Pousada em Itamambuca

  11. Oi Élcio,
    A Ana Maria Kúlcsar foi minha amiga de Colégio, uma tristeza o que aconteceu… Eu era muito amiga da irmã dela, a Magda, pois estávamos na mesma classe. Sempre frequentava a casa delas, na Rua Natal, por conta dos trabalhos de escola.
    Para vc ver, mais conhecidos em comum…como dizem “o mundo é um pires!”.
    abç,
    Magali

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