MINHA VIDA NA EUROPA


Velho Mundo

Velho Mundo

Sempre tive compulsão em conhecer a Europa… ainda moleque, bem antes de entender que aquelas fotos atraentes de lugares deslumbrantes eram a Europa, eu já tinha compulsão em conhecer a Europa. Sei lá… talvez porque parte de mim venha de lá… só pode ser isso prá explicar esse desejo manifesto tão cedo em minha vida. Os Thenorios vêm da Espanha.  E meus bisavós maternos, italianos da região do Veneto, conheceram-se no navio que os trazia ao Brasil e aqui se casaram, uma linda história de amor do século XIX. Devo ter molho de macarrão no sangue.

Dito Preto

Eu & o Dito

Assim que em meados dos idos de 1981 decidi vender meu Chevettão 1974 (o Dito Preto), juntar as merrecas que havia ganho do IBGE como recenseador de um censo (o populacional, em 80) e supervisor de outro (o econômico, em 81), trancar o curso de jornalismo da Metodista de São Bernardo do Campo no final do terceiro ano e partir pr’além mar.

Agora vai... !

Agora vai... !

Pedro Dominguez Sanchez

Pedro Sanchez Dominguez

Antes, porém, tinha de partir para os preparativos… dentre eles tirar meu 1º passaporte (UAU!) e trocar, com meu querido amigo Pedrinho (que viria a falecer em 2006, vítima de um acidente) uma jaqueta de couro que não esquentava muito por um casaco com gola de pele que segurava mais a onda… Ele iria curtir melhor sua Suzuki 180 e eu o frio do inverno na terra dos nossos antepassados comuns, a Espanha.

Jorge, Jens, Ira, Elcio, Fiva, Leão & Pepo

Jorge, Jens, Ira, Elcio, Silvia, Leão & Pepo

Tonheta & Delcy, em 82

Tonheta & Delcy, em 82

Chamei os amigos lá em casa prá um bota-fora e já no dia seguinte via meus pais acenarem-me adeus enquanto se afastavam, na calçada do Aeroporto de Congonhas. Senti um aperto no peito, um nó na garganta e por um momento questionei estar fazendo a coisa certa… mas como é prá frente que se anda, engoli em seco e embarquei no ônibus que me levaria a 101 quilometros dali, ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas, de onde partiria o Boeing da (hoje extinta) LAP – Líneas Aéreas Paraguayas, o mais barato que consegui para voar ao velho mundo.

Congonhas: último adeus!

Congonhas: último adeus!

Viracopos: meu 1º avião

Viracopos: meu 1º avião

E eis que aos 22 anos ali estava eu, sentado num avião pela primeira vez e já com destino a uma vida noutro continente. Éramos todos aerovirgens, eu e os dois amigos que viajavam comigo, o Toni (Carmelo Antonio Sappupo) e o Sérgio (Luiz Sérgio Santório).

Bye Bye Brazil

Bye Bye Brazil

Decolamos! Sendo as linhas aéreas do Paraguai, a primeira escala foi, logicamente, em… Assunção, onde mais? Sim, porque avião tem dessas coisas… você quer ir pra um lado mas primeiro vai centenas de milhas pro outro – e isso parece normal. Pouco tempo de vôo no final da tarde para percorrer 1100 quilometros e aterrissávamos em Assunção, no Aeropuerto Internacional Presidente Stroessner (por aqueles dias, ainda amargávamos ditaduras em quase toda a América do Sul). Viajando a oeste, chegamos lá mais cedo do que partimos daqui, o sol ainda brilhava um forte laranja-avermelhado, o que tornava a parede de vidro do aeroporto muito quente. Um ocaso memorável brindando minha primeira incursão num país estrangeiro.

No encalço do sol

No encalço do sol

Vista de Assunção...

Vista de Assunção...

Aguardando a partida do próximo vôo, preso no saguão, imaginava como seria a capital, por detrás daqueles outdoors que via ao longe. Deveríamos reembarcar em 1 hora, não daria tempo de sair do aeroporto. E no entanto ali ficamos por nada menos do que 8 intermináveis horas, enquanto no pátio os mecânicos esforçavam-se por consertar o aparelho, que apresentara defeito numa das turbinas… Lá pelas tantas, já de noite, quando imaginávamos que nos levariam para algum hotel no centro, chega a notícia de que o avião estava consertado, podíamos embarcar e voar tranquilos pelos 9100 quilômetros que nos separavam de nosso destino, o Aeropuerto Internacional de Barajas, em Madrid, com uma breve escala para reabastecimento no Recife. Tranqüilos ???

Salve-se quem puder!

Salve-se quem puder!

Voamos! Doze horas depois, mal as rodas tocaram o solo da Espanha e já um batalhão de bombeiros movimentava-se para cercar o avião… eram caminhões vermelhos com canhões de espuma, homens em trajes prateados de amianto e a turbina “consertada” ameaçando incendiar-se. Lembro-me da aeromoça insistindo para que eu me sentasse, mas por nada eu deixaria de fotografar aquela cena, registrando o quão perto havíamos passado de aterrissar (ou espatifarmo-nos) no breu da noite nas águas gélidas do Atlântico norte.

Bombeiro ou astronauta?

Bombeiro ou astronauta?

Por fim, abriram-se as portas da aeronave… de súbito, um frio polar invadiu a cabine dos passageiros. Vestindo uma camiseta, eu não estava preparado nem física nem psicologicamente para um choque daqueles… a Espanha era muito mais glacial do que eu estava esperando.

Madrid encantadora

Madrid encantadora

Saindo do aeroporto, tomamos um ônibus que nos levaria por 17 quilometros até o centro da cidade. E então entrei em êxtase… com que prazer indescritível meus olhos absorviam as cenas que se descortinavam naquele fevereiro: ruas, praças, fachadas, pessoas e esquinas iam-se revelando umas após as outras. Um cenário de inverno como nunca houvera visto… tudo muito diferente, muito lindo, inacreditável. Era um daqueles raros momentos em que se tem a sensação de se estar realizando um sonho. Eu estava na Europa!

Madrid exuberante

Madrid exuberante

Calle de Fuencarral

Calle de Fuencarral

Desembarcamos na Plaza Mayor e imediatamente uma senhora nos abordou, oferecendo-nos hospedagem em sua pousada. Não tendo porque recusar, aceitamos e fomos parar na Calle de Fuencarral, uma perpendicular da principal avenida, a Gran Via. Instalamo-nos às pressas e num momento já nos entregávamos àquilo a que todos ansiavam: bater pernas por Madrid, andar a esmo numa capital européia, entorpecendo os sentidos de frio, arte e história. E também do exótico cheiro de tabaco negro, que impregnava o ar gelado da grande cidade, surpreendendo-nos e contribuindo para criar aquela atmosfera de enlevamento. Madrid era perfumada, cheirava bem.

GANHAAAAAAMOS!!!

GANHAAAAAAMOS!!!

Na primeira noite, ainda não satisfeitos de caminhar, fomos parar numa casa de bingo e decidimos apostar. Qual não foi nossa alegria quando saiu o número que esperávamos e batemos a cartela. Numa algazarra, todos gritamos eufóricos – só para sermos repreendidos por dezenas de olhares frios e silenciosos… compreendemos que nosso arroubo colonial não era bem-vindo naquele austero estabelecimento da antiga metrópole. Repartimos as parcas pesetas ganhas e, em alvoroço, voltamos às luzes das ruas. Fodam-se eles, éramos moleques do Brasil.

Gran Via noche

Gran Via noche

No dia seguinte, na hora do almoço, descolamos um comedor (restaurante) singelo e pedimos o prato que, por ser barato, nos sustentaria ao longo de toda a nossa estada na cidade: tortillas con judias blancas y lentejas (omelete e batatas com feijão branco e lentilhas). Sempre acompanhadas de pan y una taza de viño, para entrar no clima… Madrid me deslumbrava… as mulheres eram lindas e os nomes das estações do Metrô tinham algo de feérico: Sainz de Baranda, Moncloa, Cuatro Caminos, Callao e por aí vai…

Os nomes já eram uma viagem

Os nomes já eram uma viagem

Plaza de Toros las Ventas

Plaza de Toros las Ventas

Tanto que uma tarde resolvi ir até o fim de uma das linhas (terminal Canillejas) e voltar caminhando ao centro, uma excelente oportunidade de viver a cidade. No caminho passei defronte à Plaza de Toros de Las Ventas, que estava fechada, e por ali aproveitei para comprar um livro em espanhol (Noche, tradução de Noite, do brasileiro Érico Veríssimo) que, apesar de ser baixo astral pacas, me ajudou muito nos primeiros passos com o idioma.

Suicida !

Suicida !

Vale tudo...

Vale tudo...

Mas a preocupação com dinheiro falava alto… havia levado muito poucas reservas e precisava dar um jeito de ganhar a vida, mesmo clandestino, mesmo transitório… assim, meio no desespero, numa das noites em que estive na cidade fui ao Mercado de Chamartín, ver se conseguia algo como ajudante de caminhoneiro. O número de caminhões – todos pitorescamente muito decorados – era grande e, com certeza, encontraria algumas caixas para descarregar… mas logo descobri que não seria tão simples arranjar dinheiro. Continuei desempregado.

La sangre iberica

La sangre iberica

Ainda nos primeiros dias, demos a sorte de conhecer um paulistano que nos introduziu no seu grupo de amigos, composto por brasileiros(as) e espanhóis(las). Isso foi ótimo, porque nos colocou em contato diretamente com a vida real da cidade, e numa das noites fomos levados para conhecer um Tablao Flamenco, onde casais trajados no mais fino estilo andaluz encantavam a todos com suas enérgicas danças sensuais.

Uau !!!

Uau !!!

Por estes dias estava sendo realizada num parque denominado Casa de Campo, no oeste da cidade, uma Feira Internacional. Íamos lá quase que diariamente para nos encontrar com nosso grupo de amigos, e foi lá que vi pela primeira vez – com grande assombro – um ônibus de turismo de dois andares. Que show de tecnologia para um garoto tupiniquim.

Marita

Marita

Também fomos levados noutra noite a uma festa muito elegante (já não me lembro o que se comemorava), num edifício suntuoso do centro da cidade, onde conheci uma garota vinda da cidade de Molina de Segura, próxima a Murcia, chamada Marita, com quem vim a ter meu primeiro caso em idioma estrangeiro. Isso era muito legal. Mas nem tudo são flores e com seis dias de Madrid meus dois companheiros de viagem decidiram que já era hora de partir para Roma, nosso destino programado.

No more...

No more...

Parece que o Toni havia perdido uma nota de US$ 100,00 e por isso tinha pressa de chegar à Itália, onde contava com parentes e conhecidos. Para mim, ainda era cedo demais para deixar aquela cidade de sonhos. Disse-lhes que fossem e aproximei-me de outros dois brasileiros que havia conhecido no avião, um deles por nome Gainor e o outro, Flávio. Eles pretendiam viajar a Londres, mas deveriam ficar ainda um tempo na capital da Espanha. Achei que poderia pegar uma carona na estadia, porque ficar sozinho de vez… era muita barra pesada.

Los gauchos y yo

Los gauchos y yo

E mais 6 dias se passaram. Porém numa manhã, quando num supermercado já estava com uma caixa de sapateiro (sim, vendia-se isso) na mão para comprá-la, disposto a ganhar a vida engraxando sapatos, meus novos amigos me deram a notícia de que haviam decidido antecipar sua partida para a Inglaterra. Lamentavam mas, eles também, iriam me deixar. Então não tive escolha: não havia condição de arcar sozinho com o aluguel do quarto de hospedaria e, confesso, senti medo de encarar a vida ali sem qualquer apoio. Doze dias procurando emprego sem sucesso haviam me ensinado que o desemprego era grande e que o buraco era mais embaixo…

Hmmmm... fudeu!

Hmmmm... fudeu!

E assim tomei a decisão de partir também. Iria a Roma, juntar-me aos meus dois parceiros originais, porque em três a gente se vira melhor… E iria de carona. Foi uma decisão que resultou numa viagem de 2 mil quilometros, que me proporcionaria vários dias de aventuras deliciosas pelas estradas do sul da Europa. Na última noite, hospedei-me num hotelzinho próximo ao centro, tendo a companhia de Marita, e dormi até o meio-dia, quando fomos acordados pelo dono da espelunca batendo à porta, gritando “brasileño, te quedas o te marchas?”. Me marché, não sem uma ponta de tristeza por deixar para trás tantos lugares deliciosos e tantas boas companhias.

Adiós Madrid !

Adiós Madrid !

Tomei o metrô no centro de Madrid e desembarquei numa estação já nos arrabaldes da cidade, à beira da rodovia que leva à Catalunha, a Autovia del Nordeste. A viagem que se seguiria é até hoje um capítulo à parte em minha vida, talvez por haver representado o que para mim era na época a expressão máxima da aventura e da liberdade: cortar vilarejos, cidades, países em companhia de desconhecidos, falando línguas estrangeiras e saboreando cada metro do caminho como se fosse “Stairway to Heaven”.

Gipsy Kings...

Gipsy Kings...

A primeira carona foi com um grupo de ciganos que viajavam numa Kombi. Eles eram muito alegres e se interessaram pela minha história, fazendo várias perguntas sobre de onde eu vinha e para onde ia. Mas o passeio foi curto. De significativo, lembro-me apenas de termos passado ao lado de uma base aérea que, não sei ao certo o porque, pareceu-me ser norte-americana. Na Espanha? Será ??

Só novidades ...

Só novidades ...

Em seguida, alguns quilômetros após, desembarquei do festivo utilitário e logo consegui a segunda carona, com um senhor de meia-idade muito agradável e solícito. O carro avançava pela estrada e foi então que vi a neve pela primeira vez. Que emoção! Que espetáculo! Os flocos brancos caindo do céu, vindo de encontro ao pára-brisa, de onde eram expulsos pelo limpador. Até então eu só os havia visto limparem água…. Eu estava mesmerizado… Até que chegamos a um ponto da estrada onde à esquerda saía um asfalto secundário. Ele me disse: “Bien, yo me voy por acá. Tenga usted um buen viaje”. Ao que lhe agradeci e desci… para descobrir que estava só em meio a um acostamento vazio com a temperatura senão abaixo, beirando o zero grau.

Brrrrrrrrr...!

Brrrrrrrrr...!

Mas estava prevenido: tinha na mochila as peças de roupa necessárias para dar suporte à vida… Logo à margem da estrada havia uma casa de pedra, vazia, fui para trás dela e pacientemente despi-me e revesti-me a rigor: a começar pelas ceroulas longas, indo até luvas, meias duplas e gorro. Que sensação de proteção e alegria. Agora sim, estava paramentado para voltar ao acostamento e retomar minha jornada de caronista em pleno inverno.

1º trecho: 580 km

1º trecho: 580 km

Seriam mais algumas centenas de quilometros até meu primeiro destino: Villanueva y la Geltru, uma cidade cerca de 45 quilometros ao sul de Barcelona, onde morava (e mora) um grande amigo de infância, o Bayarri, que na verdade era amigo de meus irmãos mais velhos. Saltitei um pouco para esquentar, mas logo peguei mais uma carona e a certo ponto me lembro de haver visto da estrada, à esquerda, a imponente fachada da catedral de Zaragoza. Tive vontade de ir até lá, mas não era o caso… não se pode ter tudo.

Nuestra Señora del Pilar, Zaragoza

Nuestra Señora del Pilar, Zaragoza

Caraca, que grude!

Caraca, que grude!

Cheguei em Villanueva já de noite, talvez por voltaidas 20 horas. Dirigi-me a um hotelzinho porque não queria chegar na casa de meu amigo estando escuro… Na recepção, a TV sintonizava o seriado Dallas e eu pensei “Cacete, aqui também? Então é isso que é globalização?” Instalei-me, sai para dar umas voltas pelo local e voltei para dormir.

Llegada del pescado

Llegada del pescado

No outro dia, após o almoço, dirigi-me à casa do Bayarri e como ninguém atendia à campainha fiquei ali à porta, aguardando. Após coisa de uma hora, chegou a sua esposa, Carmen, que eu não conhecia. Apresentei-me como amigo de longa data de seu esposo mas ela, por receio, pediu que eu retornasse ao final da tarde, quando ele já estaria em casa. Tudo bem, dirigi-me ao cais do porto, para matar o tempo. Ali pescadores chegavam do mar com suas embarcações lotadas de pescado. Um deles gritou para o outro “Gel” e foi assim que aprendi como se diz “gelo” em catalão. À tarde, voltei à casa de meu amigo e o esperei chegar. Fiquei feliz por ele ter se lembrado de meu nome assim que me viu. Eu estava com 22 anos e havíamos nos visto pela última vez quando eu tinha 7…

Bayarri

Bayarri

Aldeia catalã

Aldeia catalã

O dia seguinte passei em companhia do Bayarri, que me levou para conhecer vilarejos muito interessantes no coração da Catalunha. Ele temia por minha segurança nessa vida de caronista e insistiu para que eu ficasse por lá mesmo, mas absolutamente não era o caso. Então meu amigo me deu um par de pincéis atômicos, um preto e um rosa fosforescente, para que quando na estrada eu pudesse pintar cartazes, o que facilitaria a minha viagem. No outro dia, o quarto desde que saíra de Madrid, parti lá pelas 17:00hs com destino a Perpignan, do outro lado da fronteira.

2º trecho: 180 km

2º trecho: 180 km

Mas ainda não seria neste dia que chegaria à França… tendo saído tarde, logo escureceu. Desta vez a carona veio na forma de um jovem casal que se comunicava comigo em castelhano e entre eles em catalão. Sentei-me no banco de trás e fui respondendo às perguntas da garota, que fazia o possível para ser simpática. Por esta hora, o sol já se havia posto e ela me perguntou “¿donde vas a pasar la noche?”, ao que respondi “por la carretera”.

Muy loco!

Muy loco!

Então os vi confabulando e imaginei que ela o estava consultando sobre a possibilidade de me dar abrigo n’algum lugar para onde estavam indo… Ele assentiu e me levaram para uma bela casa de campo, n’algum ponto entre Girona e Figueres, de onde sairíamos logo após prá uma balada numa discoteca inacreditável: uma caverna no meio do mato lotada de gente. Eles se divertiam, mas eu, muito cansado, encostei numa poltrona e babei. Só acordei altas horas, com eles me chamando prá ir prá casa, onde passei a noite numa cama confortável e de onde saí na manhã seguinte para seguir viagem. Como é legal conhecer gente legal.

Vive la France!

Vive la France!

Novo dia, de volta à estrada… logo consegui carona com um casal de turistas canadenses que me deixou na fronteira com a França. Então a atravessei no carro de um cara que me lembro chamar-se Giorgio, que me levou até antes de Perpignan. E estava em território francês. Ueba! Sozinho na estrada, no meio do mato, saquei meus 2 pincéis, minha faixa de papel branco que havia levado e nela escrevi “S’IL VOUS PLAÎT” em garrafais letras rosas com contornos pretos. Funcionou… rapidinho já estava num Citroën 2CV, daqueles antigos, ganhando mais umas milhazinhas… o difícil era (não) conversar em francês…

grato ao velho "Sapo"

grato ao velho "Sapo"

Curiosidades...

Curiosidades...

De carona em carona, fui atravessando o sul da França. Lembro-me de uma imagem nesta mesma ocasião que me marcou: já estava bem escuro e numa encosta a estrada descia num serpentear de faróis muito amarelos, iguais aos “Cibié” que havia no Brasil. Naquela época, na França, eles eram obrigatórios. Era um longo risco dourado no breu da noite, uma visão assaz romântica.

3º trecho: 600 km

3º trecho: 600 km

Maldição de Babel

Maldição de Babel

Então dei sorte: peguei carona com um cara que ia atravessar praticamente de fora a fora o sul do país. Ele dirigia um VW Scirocco e não falava inglês. Como eu não falava francês, passamos a noite inteira lado a lado basicamente mudos… o papo se resumia a:
– Coffee?
– Yes, thanks.
– Ok
E parávamos em plena madrugada prá um café num posto qualquer. Mas ele me levou por toda a Cote d’Azur e adiantou pacas a minha viagem.

Nice

Nice

A última carona que peguei na França foi num caminhão muito moderno. Era legal viajar lá em cima e ver as soberbas paisagens do Mediterrâneo à direita. Fomos até à fronteira com a Itália, onde chegamos por volta das 5 da manhã. E então com algum esforço consegui entender que o caminhoneiro estava me dizendo que iria esperar a fronteira abrir, uma hora mais tarde. Agradeci e entrei na Itália a pé. Fui parar na estação de trem de Ventimiglia, onde deitei num banco e dormi.

La terra dei nonni

La terra dei nonni

Ventimiglia

Ventimiglia

Não deu prá dormir muito… já às 7 o guarda veio me acordar, sorrindo e dizendo “Freddo, he?”. Pensei: “Alfredo?? Que porra esse cara tá dizendo?” Só muito depois fui entender que ele dissera “Frio, hein?”. Tomei um café por ali mesmo, troquei uns dólares e saí para retomar o asfalto. Foi então que vi que naquele ponto a estrada entrava por um túnel. Imaginei que do outro lado, longe da vista dos policiais da estação, ficaria mais à vontade para pedir carona.

Esse era já o finzinho...

Esse era já o finzinho...

Péssima idéia… o túnel era interminável e eu fiquei naquela de não saber se voltava ou prosseguia. Mas como é prá frente que se anda… Mal saí do outro lado e percebi a merda que fizera: vi-me em um enorme viaduto altíssimo, sem saída prá lugar nenhum e numa situação ruim prá cacete. Nem deu tempo de lamentar, já encostava uma viatura azul e branca da “Polizia Stradale” (polícia rodoviária) com 2 policiais, um deles muito puto.

₤ 10.000 !!!

₤ 10.000 !!!

Desceram e ele disse, aos berros:
– Ma dove vai?
– A Roma
– Ma vai a Roma a piedi ???
Achei graça, mas a situação não era nada engraçada. O desgraçado engrossou: sacou o talão de multas e me multou em 10 mil liras (tudo o que eu havia acabado de trocar, na estação) exigindo o pagamento ali mesmo. Surpreendi-me… nunca havia visto no Brasil um pedestre ser multado… Mas não tive escolha e paguei, ficando duro já na minha primeira manhã na Itália, tendo me sobrado apenas um recibo na mão. O policial ainda disse:
– A Bordighera, scendi!

...descer daí não foi fácil...

...descer daí não foi fácil...

E eu não entendi porra nenhuma, mas gravei a frase. Muito depois compreendi que ele dissera “Quando chegar em Bordighera, desça (do viaduto)!”. Entendendo ou não, foi exatamente o que eu fiz assim que deu. E esse foi meu primeiro contato com a surpreendente Autostrada del Sole.

...degli amici...

...degli amici...

E desci quase rolando pela montanha até a cidade de Bordighera. É engraçado… quando você muda de país, imediatamente muda tudo: o dinheiro, o idioma, as pessoas, a polícia… até acostumar demora. Mas há males que vem para bem! O fato de estar sem um puto fez com que eu conhecesse pessoas ainda mais generosas. Lembro-me de um cara que me deu carona e me deixou na porta de uma modesta e charmosa trattoria à beira da estrada. Ele conhecia o dono e me disse para almoçar (com direito a vinho), pendurando a conta na conta dele. Saí daquele restaurante com uma sensação de alegria da qual me recordo com saudades. Parece que é mais fácil ficar alegre quando se é mais jovem…

S'imbora!

S'imbora!

Assaz soturno...

Deveras soturno...

E seguiram-se as caronas: lembro-me de um viado que quis me dar dinheiro prá transar com ele (caramba… mesmo completamente duro, resisti) e de outra nevasca que caiu pelo caminho. Depois abriu o sol e invadi uma fazenda para roubar uma mixirica, ou bergamota, já que ela era italiana. Por fim, uma das caronas me deixou, já escuro, dentro do porto de Gênova. Sei lá o que o cara tinha de fazer lá, mas desci do carro em meio a barris e contêineres, numa circunstância precária e um tanto perigosa. Tratei de sair logo dali e fui pro Albergue da Juventude, onde desabei num beliche para acordar na manhã do sétimo dia desde que deixara Madrid.

4º trecho: 670 km

4º trecho: 670 km

Neste dia, após mais algumas caronas, que totalizaram 25, cheguei finalmente a Roma ao anoitecer. A última delas foi com um jovem casal que tentava me ensinar advérbios em italiano… “Il bicchiere è pieno o il bicchiere è vuoto”, me dizia o rapaz.  Entendi: “copo, cheio e vazio”. Aos poucos, já ia aprendendo a falar a lingua de Dante… Era a terça-feira, dia 16.02.82, e começava minha vida italiana.

Evviva l'avventura! ;)

Evviva l'avventura 😉

Mais de 28 anos após...

Mais de 28 anos após...

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19 Comentários

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19 Respostas para “MINHA VIDA NA EUROPA

  1. Cláudia

    Mais uma história DELICIOSA… Bjo.

  2. Belíssimo! Embevecedor…
    Não li todos (os posts) pra economizar prazer.
    Abração.

  3. Angela

    sua vida na Europa….tudo de bom!!!
    beijos

  4. Andréa Lopes

    Estou aqui me perguntando pq aos 22 anos não vendi meu fusca e embarquei numa viagem destas??
    Não é pra qualquer um, não…..tudo muito ousado pra época…
    “Como é legal conhecer gente legal”. Se inclua nisto.

    Gde Beijo

  5. Cauê

    Tá muito bom ler sobre sua viagem! O texto tá tão bom que parece que a gente tá lá se aventurando no frio junto com você! Ia ser legal um KML no post para vermos sua rota no Google Earth.

    Beijão!

  6. Sandrinha

    Estou adorando te ler!!
    Elcio, voce escreve muito bem!Parece que estou viajando junto!! Voce consegue expressar com tanta naturalidade as tuas impressões, que dá essa sensação de estar junto… Estou gostando muito!!
    Bjs,

    PS: Vamos a Roma!! Rsrsrs…

  7. Ge Cardoso

    Po Elcião, sou suspeito em falar, mas se tivesse lido sobre esta sua aventura a uns 20 anos atrás estaria fazendo o mesmo, apesar de ser épocas diferentes…. mas vou continuar lendo e se algum dia virar livro recomendarei a vários jovens. Meu filho ja esta lendo…
    Abraço
    Brother cinquentinha….

  8. Lucilene

    Fascinante!!!
    Não me contive e comecei a ler e não parava mais….ameiii.
    Me lembro de uma tarde, estavamos conversando a beira da piscina
    aqui em casa, quando voce me disse com um brilho delicioso no olhar,
    que gostaria de pegar uma mochila e conhecer o mundo, sair por aí sem
    destino, voce ainda trabalhava na TV.
    nem me dei conta dos anos que passaram …….rsrsrs…
    parabens por ter conquistado tudo isso!
    parabens pelos seus sonhos!
    beijosssss…

  9. maria rita duque penedo

    aDOREI,TUDO FALADO COM A ALMA SEM FRESCURAS E COM TODA A SINCERIDADE. pARABENS PELA CORAGEM ,EMBORA COMO VEÇE MESMO DISSE, NA JUVENTUDE TUDO É AVENTURA ,E A ESPERANÇA ESTA SEMPRE, ALI PRESENTE EM NOSSOS PENSAMENTOS.

  10. Obrigado Maria Rita. Mas como li recentemente: “no início a juventude é um presente, depois… uma conquista”. Achei isso muito profundo e decidi reconquistar a minha. Não tendo ainda, aos 51, queimado toda a lenha da aventura, vou pegar uma bicicleta e sair pelo mundo: http://www.rodaslivres.com.br bj Elcio

  11. Magali Martins

    Olá Elcio, li parte da sua grande aventura juvenil e senti uma inveja da sua coragem de fazer aquela viagem, naquela idade, naquela época. Eu não te conheço, mas ao que tudo indica conheço um dos amigos que viajou contigo. Coincidências da vida, ele falou comigo um dia antes dessa viagem e despediu-se dizendo que iria para a Itália. Éramos amigos da escola primaria e depois nos reencontramos na adolescência, pouco antes dele sair do Brasil. Sou sua colega de profissão: comunicação. Tenho uma editora em Santo André. Vou tentar contato contigo pelo Facebook, assim descobriremos se temos msm um amigo em comum. Li tb sobre a sua recente aventura sobre duas rodas. Continuo te invejando!…Abc

  12. Ola Magali
    Sera o Tony ou o Sergio… No momento estou em Carapeguá, Paraguai, e o meu FB eh Elcio Thenorio.
    To te esperando la.
    bj
    Elcio

  13. Oi Elcio, deixei msg no seu FB…mas, lendo mais seu blog e vendo fotos, estou certa agora de que é msm a pessoa que eu pensava. Refiro-me ao seu companheiro de viagem Tony. Nem sei se ele lembra de mim…afinal são mais de 30 anos!…”anyway”…já está valendo para te conhecer, um andreense, como eu, que perambula pelo mundo!…fico orgulhora e continuo acompanhando as suas pedaladas. Força! e “roda na estrada!”…bj, Magali

  14. Olá, Magali
    O Tony é um grande irmäo… ele vive em Nova Iorque já há uns 25 anos. Tinha 2 restaurantes lá e recentemente vendeu um. Também ficou viúvo, uma verdadeira pena porque a mulher dele era gente finíssima. Gostaria de tê-lo mais perto…
    Mande-lhe um olá, ele irá curtir: carmelo@pastavinobistro.com

    bjáo
    Elcio

  15. Magali Martins

    Elcio, que pena pela morte da esposa dele…aqui em Sto. André cheguei a conhecer a tia, prima e irmão dele. Vou entrar em contato com ele sim. Valeu a dica.

    E vc, já publicou um livro da suas jornadas? Se ainda nao, pense nisso!
    Vamos mantendo contato.

    Gde abc!
    Magali

  16. Olá Élcio,
    Enviei msg para o Carmelo (Tony), mas não recebi retorno. Pode ter entrado como spam. Por outro lado, esse e-mail que vc me deu não seria do Restaurante que ele vendeu? Tem algum outro e-mail dele?
    Te aguardo.
    abç,
    Magali

  17. Olá, Magali
    Não… o email é esse mesmo porque o restaurante que ele vendeu não foi o Pasta & Vino, mas o Maxxel’s.
    O que posso fazer é te passar o número de telefone dele que tenho aqui:
    002115163590914

    Boa sorte
    Elcio

  18. Oi Elcio,
    Li uma notícia que o Pasta & Vino havia sido vendido pelo Tony…mas, tudo bem, vc já ajudou bastante, vamos deixar para a sorte.
    Vc poderia me dar um e-mail de contato seu?
    abç,
    Magali

  19. Enzo M. Ballarini

    Muito legal, Élcio, depois vou ler mais, mas tá difícil de parar!

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