Arquivo do mês: novembro 2012

METACONTO

Enfim, a tempestade amainara!  Pois já não era sem tempo… havia quase dez minutos que ele pacientemente aguardava, de pé sob o toldo do mercado. Não se poderia dizer que fosse propriamente a estiagem, mas só gotículas esparsas instavam ainda em cair.  Animou-se a deixar o abrigo e ganhar a calçada, confiando no arrimo que vinha da velha bengala, com cabo de osso e cara de cão, centenária relíquia oriunda do Vêneto e que fora do avô.

Portanto encetou o retorno à casa e cruzou a rua, vencendo a enxurrada que corria sarjeta abaixo. Molhou os pés. O corpo já desajudava e por isso era essencial não arriscar-se no momento errado. O que, sim, ainda lhe inflamava as emoções era o cérebro.  Este, com tudo o que já passara, era todavia uma surpreendente usina de idéias. E enquanto avançava a passos lentos, vergado sob o peso das compras, concebia o conto que tencionava escrever.

Quando finalmente chegou à casa era já tarde alta. Calçou os chinelos secos, aviou na cozinha um café a coar, sentou-se à escrivaninha de imbuia e, trocando os óculos, pôs-se a elucubrar. Sentia compulsão por fazê-lo. Tinha vaga ideia acerca do que redigiria… um jovial personagem masculino, uma estória curta e sóbria… mas naquele momento nada ainda estava claro.  Confiava em seu instinto, estava com noventa e três anos e as décadas de lavor com as letras o haviam dotado de uma espécie de sexto-sentido que, bem ou mal, sempre o guiara a compor obras apresentáveis.

Desse modo, sem muita determinação mas com destreza desferiu os primeiros golpes nas teclas do computador.  Por toda uma vida fustigara as de uma máquina de escrever, a princípio uma velha Remington metálica de mesa, depois uma Olivetti plástica portátil e então uma IBM elétrica (esta sim revolucionária: introduzira tecla de correção e esfera de tipos cambiável!). Houve mesmo um tempo em que operara um aparelho de Telex, moderníssimo à época.  Não era tão diferente agora.  Fora um exímio datilógrafo e esta qualificação se notava a quem o visse digitar.  Pois malgrado a velhice saiu premendo as letras, grafando as sílabas, palavras, frases, ideias.  Ideias que montavam a estória.  Aos poucos, via clarear-se as características do protagonista, seu comportamento, suas aspirações, virtudes e incorreções.  E imediatamente transportava a essência destes achados ao texto, dividindo-o em parágrafos assimétricos.

Assim agindo experimentava uma peculiar sensação de felicidade.  Era como se o ato de contar estórias o completasse, como a um médium é mister desenvolver a mediunidade,  sob o risco de adoecer não o fazendo.  Enfim, era como atender ao apelo de algo maior, à voz de algum imperativo oculto.

Cerrando os olhos concentrou-se, para melhor captar o que lhe ia dentro.  Sentiu desenhar-se na mente o panorama de uma cidade, que não era pequena, bucólica ou interiorana.  Era antes uma metrópole, não… talvez até megalópole, visto que o jovem rapaz a quem já agora descrevia habitava os altos de um edifício, de onde descortinava-se uma vista perturbadoramente urbana. Este seu personagem, o qual num arroubo de grandiloquência provisoriamente batizara de Zeus, era, como ele, um escritor.  E na cena em questão escrevia, alheio à vista da janela e ao ruído vindo do encontro da borracha de mil pneus contra o asfalto, abaixo.

Embora toda ficção tenha algo de autobiográfico, resolveu que sua criatura valer-se-ia de um expediente o qual ele próprio nunca utilizara: pena e tinteiro.  Era um modo de melhor delinear os contornos de seu escriba, que numa declaração velada (existente só na cabeça do autor) considerara o manuscrito à tinta a mais emotiva, e por isso eficiente, forma de redação.

Metódico e introspectivo, Zeus suspendia o mata-borrão e numa enésima revisão corria os olhos por seu conto inacabado.

Este se chamava Tânatos, e era uma adaptação inspirada na mitológica saga grega do colar que tinha o poder de deter a morte.  Quase em transe, rabiscando copiosamente, Zeus formava um quadro no qual a tecnologia moderna descobrira não só como criar deveras tal objeto, mas também como reproduzi-lo aos milhões!  Tudo começara com a descoberta de um novo elemento, o Sisifórnio(de Sísifo), cujas estranhas características incluíam interagir com as células humanas, até então inermes.

Através de emanações profundamente invasivas, o Sisifórnio causava (segundo os estudos mais recentes) a ionização dos átomos de carbono presentes nos núcleos celulares, fenômeno físico que desencadeava consequências tanto químicas quanto biológicas.  Uma vez alterada sua estrutura nuclear, a célula passava a liberar bioprotetina, subproduto que funcionava como poderoso antídoto à ação destrutiva dos radicais livres.

Desta maneira, numa espécie de radioatividade reversa, a nova substância originava a existência de células fortalecidas, ao dotá-las de uma sorte de armadura impenetrável, invencível, conferindo-lhes por conseguinte imortalidade.  Esta característica extendia-se às moléculas, depois aos tecidos e então a todos os órgãos, favorecendo as funções metabólicas do indivíduo.

Deste fato, em Tânatos, decorriam inúmeras consequências – a maioria deletérias.

Neste ponto, nosso velho escriba ergue as mãos das teclas. Vinda da cozinha, que tinha a janela aberta, uma brisa suave trazia o aroma do café que deixara coando.  O olor da bebida amada o convenceu a pausar e levantar-se. Não só adorava o sabor forte e marcante do café recém-coado como também confiava em seu poder fitoterápico para excitar o pensamento.  Após vertê-lo na xícara, degustou-o com vagar.

Ali de pé, à beira do fogão, enquanto pelas narinas sorvia a fumaça quente e perfumada, mantinha os olhos fixos e a mente atarefada, ocupada em imaginar o que adviria daquele mundo imperecível.  Pensou nas mazelas do homem, no quanto estas poderiam agravar-se diante de um tal cenário.  Para que tudo fizesse sentido, não só a morte deveria ser suspensa como também o envelhecimento.  Afinal, não eram concebíveis seres eternos que envelhecessem, porque envelhecer é morrer aos poucos.

Mas concluiu ser melhor voltar à composição e raciocinar tendo já os dedos ativos.  Deixou assim a cozinha e retomou seu teclado e Zeus, como uma alma desencarnada que psicografasse. E este, em seu estilo frenético, prosseguiu na construção de Tânatos:

Tão logo a notícia da descoberta propagou-se um desvario tomou conta da humanidade.  Fosse pela grande imprensa, blogosfera ou redes sociais, fosse pelo boca-a-boca, a notícia espalhava-se qual fogo no celeiro.  De repente, todos externavam o primitivo anseio de ser imortais.  E um dos resultados disso foi uma convulsão nas principais bolsas de valores.  Em Hong Kong, no sexto dia após o anúncio (feito por cientistas suíços), o pregão matinal acusou uma derrocada de 15% no valor global das ações, o que superava em 4% o recorde histórico, ocorrido quando do crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Os reflexos imediatos atingiam tanto as finanças quanto estatísticas, previsões, preços em geral e a vida dos cidadãos de toda a Terra, enfim.

No entanto a maior ameaça era mesmo populacional. Temendo um estouro irrefreável da população mundial, governos do G7 consonantes determinaram a pronta proibição da produção dos colares, o que foi só parcialmente cumprido.  Em mais de um laboratório ao redor do globo, cientistas e assistentes mal-intencionados não resistiram à tentação do lucro fácil e contrabandearam amostras do novo elemento para montar fábricas de colares clandestinas.  Estas proliferaram e a venda pirata desse proibido objeto do desejo disseminou-se com velocidade suficiente para tornar ineficaz a repressão das autoridades, exercida através das polícias e exércitos de diversos países.  “Sou capaz de resistir a tudo, menos à tentação”, disse, à guisa de explicação e emblematicamente, um comprador satisfeito.

A princípio lentamente e depois de forma abrupta as taxas de mortalidade despencaram, até praticamente zerarem.  Se no início dos acontecimentos havia no planeta um saldo positivo de 2,4 novos seres humanos a cada segundo (4,2 nascimentos para 1,8 mortes), em três meses este número quase dobrara, atingindo 4,3 (relação de 4,4 : 0,1 – os óbitos só não zeraram  porque alguns raros humanos recusaram-se a aderir à novidade). Em muito pouco tempo, o desequilíbrio causado por tão brutal redução já se fazia sentir a quem quer que mirasse em torno.

A cada hora a situação agravava-se, o flagelo era iminente. A menos que algo de drástico fosse feito, o mundo estava condenado a sucumbir por uma sobrecarga fatal de sua biomassa.  E não sem antes retornar à barbárie, já que o excesso de gente aos poucos ocasionava a escassez de alimentos, o que se não mais matava, ainda revoltava pelo nauseabundo estímulo da fome.

E não só isso.  Vitimados pela violência crescente, imortais com os corpos mutilados pelos mais variados tipos de ataques perambulavam arrastando seus andrajos de carnes, seus ossos rotos e expostos, pelos campos e cidades.  Não estavam mortos, mas qual zumbis a vida que tinham já não tinha viço.

As moléstias – sobretudo infecciosas – disseminavam-se, atingindo indiscriminadamente mesmo pessoas localizadas nos mais longínquos recônditos. Assim a fome, a violência, a morbidez e a desesperança grassavam. Era o caos que se instalava, dantesco, e muito pouco se podia fazer para evitá-lo.  Estranhamente, embora bastasse tirar o colar para sustar seus efeitos (e expor-se à morte, consequentemente), era desprezível o número de pessoas que o faziam, consoante ao fato de que os suicidas sempre foram minoria.

A mais eficiente maneira, talvez, de impedir a extinção da raça humana seria excluir da superfície do planeta o artífice de tal infame ideia antes que esta viesse a ser publicada.  Ato contínuo, o velho autor passou a descrever a cena na qual Zeus, acometido por um mal súbito enquanto redigia, num espasmo levava a mão direita ao peito, tombando inânime sobre o tinteiro. Morto, entornava a tinta sobre as folhas prontas, destruindo o que fora escrito. E isso antes mesmo que viesse a ter um nome definitivo.

Porém, sendo a existência essa entidade fugaz e enganadora, no justo momento em que digitava as últimas letras do final da estória de seu personagem, o próprio ancião sentiu um tranco subir-lhe à garganta.  Buscou por ar e não o conseguia. Num átimo suas vistas escureceram, como se alguém lhe houvesse apagado o monitor à frente.  Estupefato, teve o tempo de pensar “não é possível… é coincidência demai…”, e no instante seguinte já não pensava mais nada.  Finara-se sobre o teclado, envolto no aroma de café que ainda vinha da cozinha.

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