Arquivo do mês: janeiro 2013

PIMPOLHOS

OlhosDesobedecendo a dona Dora, sua mãe, a quem prometera nunca fechar o trinco,
Tulio trancou-se no banheiro. Queria a certeza de estar sozinho para embriagar-se do que mais o enchia de terror: Mirar-se no espelho!

Percorria o próprio reflexo com atenção crescente: Camisa xadrez levemente verde, colarinho aberto um tantinho surrado. Seu olhar ultrapassava o queixo, subia-lhe o rosto pelas curvas do nariz e invadia o domínio dos olhos.

Escancarou-os, enquanto os aproximava do vidro platinado. Concentrou-se no brilho daqueles dois pontos negros, suas pupilas, misteriosos portais. Devagar, das profundezas indistintas de algum canto de seu ser, passava a dominá-lo certa sensação assustadora: “Eu existo”… “estou vivo”… “isso é real”… “eu sou eu”… E sentiu um assombro medonho, por constatar que a existência era irreversível. Estava no mundo, era um fato.

Pupila

Também experimentou nessa hora um enorme desamparo. Mesmo ainda uma criança, perfeitamente entendia que estava só. Não havia pai ou mãe que vivesse por ele. Era Tulio e a vida que lhe pulsava nas veias. E isso dava um medo atroz, pela certeza de que ela um dia não mais pulsaria.

Para romper tal espiral de sedução piscou repetidas vezes apertando as pálpebras, e saiu do banheiro ávido por sorver a brisa da tarde à luz de um sol ardente.

– “Mãe, vou dar uma volta”, gritou para que a casa inteira escutasse.

Estava na idade em que um homem reivindica o direito de sair às ruas. Então sua mãe não se opôs:

– Vai chover!

Corrida

Mas ele só ouviu o bater descuidado do portão e já corria ladeira abaixo, acelerando o coração. Buscava dissipar a estranha impressão de há pouco, espécie de mergulho no abismo. Foi retomando a confiança e afrouxando o passo. Baixou os olhos e reconheceu a velha calçada composta de placas, que faziam um delicioso bump-bump  bump-bump quando por elas passava alguma bicicleta.

O sol ardia mas o vento refrescava quando dobrou a esquina e viu a cena insólita: o animado garoto negro, debruçado no muro, gritava para um papagaio engaiolado no quintal:

Tonho

– O Amadeu é um corno! O Amadeu é um corno!

Era Tonho, seu amigo, pouco mais velho.

– O que cê tá fazendo?

– Sacaneando o Seu Amadeu. Faz dois dias que tô ensinando o papagaio dele a dizer que ele é um corno. Já já o bicho aprende.

– E por quê?

– Prá sacanear o velho, ué. Filho-da-puta que vive me tratando mal. Aonde cê tá indo?

– Sei lá… tô dando uma volta.

– Então vem comigo, vou te mostrar uma coisa legal.

Vira-lata

E foram pela calçada, seguidos por Tapioca, vira-lata sem dono que ao vê-los desistiu de investir contra os carros e juntou-se ao movimento.

Falasse o cão a língua dos homens… Pois participava ali de momentos dos mais marcantes na vida de dois amigos. Mas como nada entendia, disso ele não sabia.

– Esse é o trabalho que eu quero fazer quando crescer, disse Tonho, apontando para um técnico da companhia telefônica aboletado no poste.

– Por quê?

– Prá ficar ouvindo a conversa dos outros, já imaginou que legal?

poste

Tulio não imaginara, mas agora imaginava.

O céu aos poucos se tornava ameaçador, nuvens negras avolumando-se vindas do horizonte. Os três amigos chegaram por fim à linha férrea, num trecho distante das porteiras da estação. Tonho tirou do bolso uma moeda dourada e a colocou cuidadosamente sobre um dos trilhos.

Moeda

– Cê vai ver que legal!

Nisso já uma composição prateada assomava a toda velocidade, soando a ensurdecedora buzina a fim de expulsar os pimpolhos da linha. De repente, toneladas passaram zunindo, um vagão atrás do outro, um vagão atrás do outro, um vagão atrás do outro… Barulhão infernal prá quem se encontrava ali embaixo, rente ao atrito das rodas. Tapioca fugiu correndo.

Tonho foi recolher o que restara da moeda, uma fina lâmina redonda com o dobro do tamanho original. Tulio estava encantado pela ousadia do amigo.

– Uau!

E assim ficaram enquanto duraram as moedas de Tonho, que não eram mais que quatro. Quatro moedas, quatro trens – três de passageiros e um de carga. Mas a medida certa, porque já se ouviam as trovoadas e a ventania aumentara. Começaram a cair os primeiros pingos, grossos e intimidadores. A tarde esfriara, escurecera e relâmpagos riscavam o céu, clareando tudo com um esverdeado elétrico. Voltaram apressados.

Ferrovia

Caía agora um temporal pesado. Ensopados, chegaram ao pé da subida para o folguedo ideal num dia de chuva: caminhar contra a enxurrada. Os minutos que levaram para vir dos trilhos à avenida bastaram para que um dilúvio se formasse. Tulio ia à frente, um caudal barrento a bater-lhe nas canelas e espirrando acima dos joelhos. Sorria e gritava de alegria quando num relance viu o filhote de gato que descia na correnteza, miando desesperado.

– Tonho, o gato!

Enxurrada

O bichinho resvalou com força em suas pernas e ia sumindo sarjeta abaixo se Tonho, ágil como um saci, não tivesse dado dois pulos e conseguido resgatá-lo.

– Caramba, que milagre ele ainda estar vivo!

– É… Mas está mais morto do que vivo, observou Tulio.

O passeio perdeu a graça, entraram a correr para chegar logo à casa de Tulio, onde algum cuidado poderia ser providenciado. Os segundos urgiam. Ao chegarem, ninguém sabia o que fazer.

– Vamos enxugá-lo com uma toalha, disse Tulio.

– Não. Vamos aquecê-lo. Está tremendo de frio, retrucou Tonho.

Foi o que fizeram. Deixando de fora o focinho, colocaram o filhote numa tigela com água morna. O bichinho estava entregue, já mal miava. Secaram-no e o puseram coberto com uma velha blusa frente ao pires com leite. Por ora, nada mais havia a ser feito. Tonho se foi.

Naquela noite Tulio sonhou que voava e que salvava gatos e gentes, e que era uma pessoa boa, porque depois de salvos todos ficavam amigos dele. Em seu sonho acudira um gato e o batizara de “Sininho”. Alegrou-se, era mais um parceiro na turma.

flying boy

Pela manhã, ao encontrar o bichano morto a imagem do espelho veio-lhe aos olhos.

E em seu coração misturou amigos e morte, existência e tristeza, e sentiu um nó na garganta. Fitando Sininho morto, perguntou-se o que fazer. Tão novo e já enterrando um amigo, mas assim era a vida, concluiu.  E verteu uma lágrima.

Foi ao quintal, abriu uma cova rasa, nela sepultou o gato. E para que nem tudo ali fosse tão funesto, para que mesmo na morte houvesse vida, transplantou à campa o broto de feijão que há dias semeara no algodão.

feiijão

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