Arquivo do mês: fevereiro 2013

A TARDE

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Um fugaz lampejo chamou-lhe a atenção. O sol refletindo no Citroën que passava o fez alçar os olhos do jornal. E só por isso a viu aproximar-se, contra o fundo verde das árvores que margeiam o Sena. Levantou-se do café na calçada e sem dizer palavra interpôs-se em seu caminho, mal contendo a emoção em revê-la. Esboçou um sorriso.

Ela pausou o caminhar e, aturdida, levou um segundo para reconhecer na face dele – vívida e vivida – os traços do homem que amara um dia. Sorriu em retorno e, igualmente calada, o abraçou com ternura. Silentes ficaram num eloquente aperto até que ele disse:

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– Que milagre! É inacreditável te ver aqui. Você vai se sentar comigo por um minuto.

Ela hesitou, pensando talvez no passado ou quem sabe nos afazeres daquela tarde naquela cidade estrangeira, porém sentou-se e respondeu:

– Você… Aqui… Como esse mundo é pequeno!

– Mas nada é por acaso. Aliás, sabes o quanto gosto de ti. Vai ver foi a minha saudade que te trouxe.

Ela sorriu incrédula.

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– Ah, mentiroso… Há anos que não me procura.

– Pode ser, mas veja bem… Jamais te excluí do meu Facebook!

– E?

– Você não vê? Isso significa que sempre mantive o desejo de te ter por perto.

– Ah, então o critério da amizade agora é esse? O Facebook?

– E não? Hoje em dia uma amizade só termina de fato quando um deleta o outro do seu perfil.

E dizendo isso ele apanhou o smartphone que jazia sobre a mesa e o configurou para sacar uma foto. Estendeu o braço até que ambos se viram enquadrados no visor e anunciou:

– Pois falando em “Face”, vou eternizar este momento mágico, postando-o no meu mural.

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Ao que ela rebelou-se.

– Peraí, como assim? Você me perguntou se eu quero ir parar no Facebook?

Percebendo a gafe ele recolheu o aparelho e desculpou-se, mas não desistiu do intento…

– É que são muitos os que navegam, porém eu vivo na nuvem.

– Pois eu não! Tenho vários senões contra a vida virtual…

Pego de surpresa ele desconversou, buscando ganhar tempo.

– Você toma um café comigo?

Ela assentiu, ele ordenou.

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Monsieur, deux cafés, s’il vous plaît.

Ela procurou apaziguar o ambiente, explicando-se:

– Querido, entenda… Não quero ser vista em Paris. Tenho os meus motivos.

– Se você diz…, disse ele aquiescendo. E completou: Contudo é estranho, confesso: para mim, não postarmos esse momento é quase como se ele não houvesse existido.

– Você só pode estar brincando, levar a internet tão a sério… Sabe, essa é uma invenção muito perigosa. Nela você pode expressar a sua sombra, o seu pior. É um espaço sem limites, sem fronteiras. Isso chega a meter medo. Onde já se viu? A garota atinge o ponto mais sublime de sua juventude, a maturidade, e então decide-se por leiloar sua virgindade online. Ora, faça-me um favor…

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Ele riu do que lhe pareceu ser uma visão retrógrada dela.

– Calma, vamos! São os sinais dos tempos.

– Sim! E que tempos são estes? Outro dia assisti a um filme que descrevia uma rede criminosa que vendia vídeos de assassinatos sexuais. Eles sequestravam as garotas, as estupravam, matavam e gravavam tudo. E vendiam os vídeos pelas redes sociais.

– Mas era um filme. Isso é ficção.

– E que diferença faz? Pode ser ficção hoje, no entanto a possibilidade existe de fato. A internet está aí e é totalmente permissiva, não é?

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– Bem, isso lá é verdade. Já viu a última novidade? Garotos inventaram um software, para ser usado no Facebook, através do qual você pode marcar dos seus contatos com quais gostaria de ir prá cama. Se houver reciprocidade… Bang!

Mas ela, desatenta, parecia não ouvir. Farejava o ar, perdida num devaneio.

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– Que perfume, o dessa garota que passou. Transportou-me… Por um segundo foi como se estivéssemos noutro tempo. Nesta mesma mesa, mas em algum dia do século XIX. Ah, querido, é isso… No fundo sinto-me como uma melancólica donzela do início do século XIX, assustadíssima com o andar da carruagem.

– Nesse caso já vai prá quase duzentos anos que você é linda, aproveitou ele.

– Tudo isso é tão fútil, tão vazio. Lembro-me de outro caso: um rapaz, norte-americano se bem me recordo, divulgou as fotos de um fofo coelhinho branco juntamente com as receitas para o seu preparo. Ameaçava matar o bichinho se não conseguisse arrecadar determinada quantia em doações. Que absurdo!

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– E conseguiu?

– O pior é que sim. Antes do prazo fatal alguém arrematou o coelho e lhe deu um lar.

– Viu como coisas boas também acontecem?

– Não se iluda! Dia desses teremos o desprazer de presenciar um suicídio anunciado e exibido pela internet. Se é que já não houve.

Porém agora o desatento era ele, que nervosamente teclava seu smartphone enquanto ela falava.

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– Vê o que digo? Protestou ela. A internet rouba a… a inteiridade da pessoa.

A estranha palavra tirou-o do transe cibernético:

– Inteiridade ?

– Sim, olhe para você. Não está inteiro aqui agora. Só tenho meia companhia sua.

– Oh, me perdoe. Fui rude. É que para mim a humanidade se divide em duas categorias de pessoas: as que uploadam e as que não uploadam.

– Como? Quem não entendeu agora fui eu.

– Sim. Metade do mundo navega na web, faz downloads… Mas bem menos são os que contribuem com o seu conteúdo. Já eu não perco uma oportunidade, e às vezes exagero. Pardon.

– O que você precisa é exercitar o dolce far niente, e não estar sempre plugado. Viver o tempo que passa… Ele não volta.

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– Não! Isso não é para mim. Veja nós dois agora. Somos o ápice da civilização, a vanguarda de toda a humanidade que um dia já pisou neste planeta, a somatória de tudo o que já houve. Neste exato segundo, vivemos o que de mais moderno há para se viver.  Adiante de nós ainda não há nada. É como se a raça humana estivesse num eterno mergulho no porvir. E nós somos seus braços estendidos à frente.

– Sim, e imagino que quem está online encontra-se com uma braçada de vantagem, não?

Ambos riram. Nisso, chegou o café.

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– Hummm… sinta este sabor divino, disse ela sorvendo a negra bebida. Vê como a vida real ainda é muito mais rica do que a virtual? Qual computador poderia te proporcionar este êxtase?

– Por enquanto, nenhum. Mas é só uma questão de tempo. Há algo que quero lhe mostrar, disse ele, enquanto freneticamente dedilhava as teclas de seu gadget inseparável.

E exibiu-lhe um vídeo que falava sobre o tempo que corre e a necessidade de se usar sempre um filtro solar.

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– É antigo, no entanto sempre me comove. Para mim a net é isso, uma nave que já hoje nos conecta com o futuro. E por vezes com o passado. Eu amo o fascínio, a sedução e mesmo o vício e a ilusão que ela proporciona. Neste telefone estão todas as informações, todas as possibilidades…

Ela sorriu tristemente.

– O que eu vejo é que com tal apego pelo instantâneo, pelo efêmero, a internet nos faz lembrar estarmos mais velhos a cada dia. É só isso, além, claro, do incessante amor pelo dinheiro.

Subitamente, ele se levantou.

– Que coisa! Ocorreu-me que, juntos, nós dois temos mais de um século de conhecimento acumulado. Venha, quero o teu abraço.

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Ela o abraçou e disse:

– Online ou não, meu querido, muitos nesta vida correm atrás da riqueza. Porém eu lhe digo: Os ricos não são os vencedores. Os velhos são.

– Sim, querida, tem razão. E isso pede uma comemoração mais forte: Monsieur, du champagne, s’il vous plaît.

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                                                                    Leonardo Colosso & Elcio Thenorio

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