DO PÓ VIESTES

 magnetic_loops

Parecia um ser vivo: À frente da bicicleta a poeira cruzava a estrada em línguas que serpenteavam sobre o asfalto. Formava pelo solo figuras ondulantes que delineavam rios, correntezas… Um sublime espetáculo de se ver!

Não amainava porém a ventania. Antes recrudescia, uivava e chegava a meter medo! A poeira já cegava o sol e agora era tanta que havia o risco de engripar a corrente deixando-me ali, à margem da vida, longe de tudo na tarde fria do outono. Subindo do chão o pó invadia as narinas, sufocava fazendo os olhos marejarem. A garganta secara e eu tossia, a custo respirava!

Reunia forças enquanto lutava por vencer a violência das rajadas. Por aliada tinha somente a gravidade e dela dependia para forçar o pedal, carregando sobre ele todo o peso do meu corpo. Avançava girando as rodas metro a metro por dentre aquele entorno amarelo, opaco, tempestuoso. O cheiro fresco de chuva prometia lavar tudo o que de sólido houvesse. Mas o chão seguia seco.

E então o esforço e o medo juntaram-se para criar um humor de revolta. E urrei contra tal ataque hostil e o que estivesse por detrás daquele caos. Blasfemar em desatino no entanto iluminou em mim a ideia inusitada: “De inimiga a poeira não tem nada! Ela é sim a fonte de tudo! Envolto por ela integro a matéria-prima da qual o universo advém”.

Tal revelação foi como enxergar através do pó, ao de lá da atmosfera, para dentro do ambiente da galáxia. Vislumbrei a poeira preenchendo vastíssimas regiões do cosmo, vi-a aglutinar-se em torno de um ponto que crescia à medida em que girava. Vertiginosamente. Vi surgirem estrelas, vi-as agigantarem-se a ponto de explodir, vi-as explodirem e transformarem-se novamente em poeira – que em alucinante velocidade refluía para as profundezas do espaço.

Foi assim enxergando com olhos d’alma que logrei vencer aquele trecho inclemente do caminho, descobrindo-me outra vez num pedalar suave sob um céu ameno. E ali estava, louvando a poeira que vinda do infinito formava meu mundo e nele me permitia existir.

Não era à toa chamarem a esse mundo de “Terra”.

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1 comentário

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Uma resposta para “DO PÓ VIESTES

  1. Um grão deleite
    um enfeite
    ao girar manivela tão bela
    faz o mundo girar sem sair do lugar
    é ela a mãe Terra.

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