Arquivo do mês: junho 2016

TEXTO LITERALMENTE VIAJANDÃO

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De fardos fez-se o existir sobre a Terra. Pesos, cargas, cruzes que oprimiam e estancavam o cidadão. Eram vozes, sons, palavras e gráficos que a todos atordoavam. Luzes, imagens, políticas, economias… Era um mundo de dores. E também de amores – que a todo dia de dentre as entranhas da biomassa do planeta surgiam novos flertares, frescos trançarem-se que faziam com que toda a horda de viajo-habitantes se multiplicasse e subsistisse.

Assim eram as coisas, viajando pelo espaço à estonteante velocidade de 30 quilômetros ao segundo – ou 108 mil por hora. Um segundo… zuuuuut… 30 quilômetros se passaram. Mas disso os terráqueos não se apercebiam. E sequer do fato de que não importa em qual latitude estivessem, sempre se sentiam em pleno plano horizontal, perfeitamente nivelados ’inda que por vezes em posições antípodas. Os que no equador se encontravam, aos 30 por segundo em torno do Sol acresciam 1666 por hora em torno do eixo da própria Terra. E nem uma brisa mais forte soprava, a tarde corria mansa e tépida num poema de azuis e amarelos por sobre um fundo verde.

“A Terra é azul”, disse o primeiro homem no espaço. Mas vista de dentro ela era verde. Na aurora dos anos 2000 era uma onda verde que a englobava, num crescendo tonitruante de rangeres dos tempos. Prenunciava-se a era do eco. A Ecoera, como a denominaram, por serem os ecos de um passado sano, que equivalia como a que à terceira idade dos homens. Uma desesperada tentativa de se estancar as sangrias e fechar as feridas, última água no deserto antes da evanescência do ser, este de volta ao porto de onde viera. Ou rumo ao nada, sem norte, nível ou aprumo.

Girando, girando no espaço. Como uma bailarina, num palco infinito…

Rodopiando e voando toda sua graça. Radiante e decrépito, estanque e girante era o planeta, que por cúmulo de zêlo da arte da dança tinha ainda em torno de si as evoluções da Lua.

Decantada lua já não mais virgem, onde nada nascia, nada se ouvia, nada havia e no entanto existia. Pisá-la foi possuí-la, mas não toda… que sua modesta massa de um octogésimo daquela da Terra ainda era de respeitáveis 81 bilhões de toneladas.

Seria o primeiro destino da humanidade no espaço, o próximo após os exíguos compartimentos de uma estação espacial internacional que há anos flutuava na estratosfera da Terra. E o segundo seria Marte, o primeiro planeta, o mais próximo, o vizinho, no qual nada nascia, nada se ouvia, nada havia e no entanto existia. Minto, agora existiam artefatos criados pelo homem, tendo desta fabricação participado muita mulher. Satélites, Jeeps, robôs movendo-se em torno de um corpo irmão, que se move com a Terra, que se move em torno do Sol, que se move em torno do centro da galáxia, que vem a ser a Via Láctea, nome leitoso e delicioso, como soem ser os produtos do leite.

Buracos negros sugando a matéria. Esta concentrando-se a ponto de esmagar os átomos, fundir prótons e elétrons, fazendo daí nascer estrelas de nêutrons, onde a densidade é tamanha que 1 cm3 de seu material chegaria a pesar bilhões de toneladas. Porque o átomo é vazio, sendo seu diâmetro 100 mil vezes maior que o diâmetro de seu núcleo. E por ser uma esfera 1 milhão de bilhões de seus núcleos nele caberia. E o estranho é que deveras cabem, quando a pressão é suficiente, resultando ser a estrela de nêutrons matéria comprimida extrema, a um passo de implodir num buraco negro.

Não sei dizer qual destes dois cósmicos objetos considero o mais fascinante: se o buraco negro, onde tudo virou-se do avesso, ou a estrela de nêutrons, este último estado, estágio de uma matéria que ainda nos é familiar. Mas acho fascinante ver-nos girando em rotação, girando em translação e levando 200 milhões de anos para girar ainda em torno do centro da galáxia, ponto que situa-se a 30 mil anos-luz, na direção da constelação de Sagitário.

E a Via Láctea, em torno do que girará?

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