DIAS MELHORES VIRÃO

Há nesta vida muitas portas
E por detrás de cada porta há uma vida
Uma vida à tua escolha, por detrás de cada porta
Por detrás de cada porta uma saída.

Por mais torta que esteja a vida
Ali quando a ferida não conforta
Verás que atrás de cada porta há uma vida
E que a ti cabe escolher a porta.

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A TARDE

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Um fugaz lampejo chamou-lhe a atenção. O sol refletindo no Citroën que passava o fez alçar os olhos do jornal. E só por isso a viu aproximar-se, contra o fundo verde das árvores que margeiam o Sena. Levantou-se do café na calçada e sem dizer palavra interpôs-se em seu caminho, mal contendo a emoção em revê-la. Esboçou um sorriso.

Ela pausou o caminhar e, aturdida, levou um segundo para reconhecer na face dele – vívida e vivida – os traços do homem que amara um dia. Sorriu em retorno e, igualmente calada, o abraçou com ternura. Silentes ficaram num eloquente aperto até que ele disse:

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– Que milagre! É inacreditável te ver aqui. Você vai se sentar comigo por um minuto.

Ela hesitou, pensando talvez no passado ou quem sabe nos afazeres daquela tarde naquela cidade estrangeira, porém sentou-se e respondeu:

– Você… Aqui… Como esse mundo é pequeno!

– Mas nada é por acaso. Aliás, sabes o quanto gosto de ti. Vai ver foi a minha saudade que te trouxe.

Ela sorriu incrédula.

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– Ah, mentiroso… Há anos que não me procura.

– Pode ser, mas veja bem… Jamais te excluí do meu Facebook!

– E?

– Você não vê? Isso significa que sempre mantive o desejo de te ter por perto.

– Ah, então o critério da amizade agora é esse? O Facebook?

– E não? Hoje em dia uma amizade só termina de fato quando um deleta o outro do seu perfil.

E dizendo isso ele apanhou o smartphone que jazia sobre a mesa e o configurou para sacar uma foto. Estendeu o braço até que ambos se viram enquadrados no visor e anunciou:

– Pois falando em “Face”, vou eternizar este momento mágico, postando-o no meu mural.

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Ao que ela rebelou-se.

– Peraí, como assim? Você me perguntou se eu quero ir parar no Facebook?

Percebendo a gafe ele recolheu o aparelho e desculpou-se, mas não desistiu do intento…

– É que são muitos os que navegam, porém eu vivo na nuvem.

– Pois eu não! Tenho vários senões contra a vida virtual…

Pego de surpresa ele desconversou, buscando ganhar tempo.

– Você toma um café comigo?

Ela assentiu, ele ordenou.

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Monsieur, deux cafés, s’il vous plaît.

Ela procurou apaziguar o ambiente, explicando-se:

– Querido, entenda… Não quero ser vista em Paris. Tenho os meus motivos.

– Se você diz…, disse ele aquiescendo. E completou: Contudo é estranho, confesso: para mim, não postarmos esse momento é quase como se ele não houvesse existido.

– Você só pode estar brincando, levar a internet tão a sério… Sabe, essa é uma invenção muito perigosa. Nela você pode expressar a sua sombra, o seu pior. É um espaço sem limites, sem fronteiras. Isso chega a meter medo. Onde já se viu? A garota atinge o ponto mais sublime de sua juventude, a maturidade, e então decide-se por leiloar sua virgindade online. Ora, faça-me um favor…

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Ele riu do que lhe pareceu ser uma visão retrógrada dela.

– Calma, vamos! São os sinais dos tempos.

– Sim! E que tempos são estes? Outro dia assisti a um filme que descrevia uma rede criminosa que vendia vídeos de assassinatos sexuais. Eles sequestravam as garotas, as estupravam, matavam e gravavam tudo. E vendiam os vídeos pelas redes sociais.

– Mas era um filme. Isso é ficção.

– E que diferença faz? Pode ser ficção hoje, no entanto a possibilidade existe de fato. A internet está aí e é totalmente permissiva, não é?

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– Bem, isso lá é verdade. Já viu a última novidade? Garotos inventaram um software, para ser usado no Facebook, através do qual você pode marcar dos seus contatos com quais gostaria de ir prá cama. Se houver reciprocidade… Bang!

Mas ela, desatenta, parecia não ouvir. Farejava o ar, perdida num devaneio.

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– Que perfume, o dessa garota que passou. Transportou-me… Por um segundo foi como se estivéssemos noutro tempo. Nesta mesma mesa, mas em algum dia do século XIX. Ah, querido, é isso… No fundo sinto-me como uma melancólica donzela do início do século XIX, assustadíssima com o andar da carruagem.

– Nesse caso já vai prá quase duzentos anos que você é linda, aproveitou ele.

– Tudo isso é tão fútil, tão vazio. Lembro-me de outro caso: um rapaz, norte-americano se bem me recordo, divulgou as fotos de um fofo coelhinho branco juntamente com as receitas para o seu preparo. Ameaçava matar o bichinho se não conseguisse arrecadar determinada quantia em doações. Que absurdo!

coelho

– E conseguiu?

– O pior é que sim. Antes do prazo fatal alguém arrematou o coelho e lhe deu um lar.

– Viu como coisas boas também acontecem?

– Não se iluda! Dia desses teremos o desprazer de presenciar um suicídio anunciado e exibido pela internet. Se é que já não houve.

Porém agora o desatento era ele, que nervosamente teclava seu smartphone enquanto ela falava.

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– Vê o que digo? Protestou ela. A internet rouba a… a inteiridade da pessoa.

A estranha palavra tirou-o do transe cibernético:

– Inteiridade ?

– Sim, olhe para você. Não está inteiro aqui agora. Só tenho meia companhia sua.

– Oh, me perdoe. Fui rude. É que para mim a humanidade se divide em duas categorias de pessoas: as que uploadam e as que não uploadam.

– Como? Quem não entendeu agora fui eu.

– Sim. Metade do mundo navega na web, faz downloads… Mas bem menos são os que contribuem com o seu conteúdo. Já eu não perco uma oportunidade, e às vezes exagero. Pardon.

– O que você precisa é exercitar o dolce far niente, e não estar sempre plugado. Viver o tempo que passa… Ele não volta.

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– Não! Isso não é para mim. Veja nós dois agora. Somos o ápice da civilização, a vanguarda de toda a humanidade que um dia já pisou neste planeta, a somatória de tudo o que já houve. Neste exato segundo, vivemos o que de mais moderno há para se viver.  Adiante de nós ainda não há nada. É como se a raça humana estivesse num eterno mergulho no porvir. E nós somos seus braços estendidos à frente.

– Sim, e imagino que quem está online encontra-se com uma braçada de vantagem, não?

Ambos riram. Nisso, chegou o café.

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– Hummm… sinta este sabor divino, disse ela sorvendo a negra bebida. Vê como a vida real ainda é muito mais rica do que a virtual? Qual computador poderia te proporcionar este êxtase?

– Por enquanto, nenhum. Mas é só uma questão de tempo. Há algo que quero lhe mostrar, disse ele, enquanto freneticamente dedilhava as teclas de seu gadget inseparável.

E exibiu-lhe um vídeo que falava sobre o tempo que corre e a necessidade de se usar sempre um filtro solar.

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– É antigo, no entanto sempre me comove. Para mim a net é isso, uma nave que já hoje nos conecta com o futuro. E por vezes com o passado. Eu amo o fascínio, a sedução e mesmo o vício e a ilusão que ela proporciona. Neste telefone estão todas as informações, todas as possibilidades…

Ela sorriu tristemente.

– O que eu vejo é que com tal apego pelo instantâneo, pelo efêmero, a internet nos faz lembrar estarmos mais velhos a cada dia. É só isso, além, claro, do incessante amor pelo dinheiro.

Subitamente, ele se levantou.

– Que coisa! Ocorreu-me que, juntos, nós dois temos mais de um século de conhecimento acumulado. Venha, quero o teu abraço.

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Ela o abraçou e disse:

– Online ou não, meu querido, muitos nesta vida correm atrás da riqueza. Porém eu lhe digo: Os ricos não são os vencedores. Os velhos são.

– Sim, querida, tem razão. E isso pede uma comemoração mais forte: Monsieur, du champagne, s’il vous plaît.

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                                                                    Leonardo Colosso & Elcio Thenorio

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PIMPOLHOS

OlhosDesobedecendo a dona Dora, sua mãe, a quem prometera nunca fechar o trinco,
Tulio trancou-se no banheiro. Queria a certeza de estar sozinho para embriagar-se do que mais o enchia de terror: Mirar-se no espelho!

Percorria o próprio reflexo com atenção crescente: Camisa xadrez levemente verde, colarinho aberto um tantinho surrado. Seu olhar ultrapassava o queixo, subia-lhe o rosto pelas curvas do nariz e invadia o domínio dos olhos.

Escancarou-os, enquanto os aproximava do vidro platinado. Concentrou-se no brilho daqueles dois pontos negros, suas pupilas, misteriosos portais. Devagar, das profundezas indistintas de algum canto de seu ser, passava a dominá-lo certa sensação assustadora: “Eu existo”… “estou vivo”… “isso é real”… “eu sou eu”… E sentiu um assombro medonho, por constatar que a existência era irreversível. Estava no mundo, era um fato.

Pupila

Também experimentou nessa hora um enorme desamparo. Mesmo ainda uma criança, perfeitamente entendia que estava só. Não havia pai ou mãe que vivesse por ele. Era Tulio e a vida que lhe pulsava nas veias. E isso dava um medo atroz, pela certeza de que ela um dia não mais pulsaria.

Para romper tal espiral de sedução piscou repetidas vezes apertando as pálpebras, e saiu do banheiro ávido por sorver a brisa da tarde à luz de um sol ardente.

– “Mãe, vou dar uma volta”, gritou para que a casa inteira escutasse.

Estava na idade em que um homem reivindica o direito de sair às ruas. Então sua mãe não se opôs:

– Vai chover!

Corrida

Mas ele só ouviu o bater descuidado do portão e já corria ladeira abaixo, acelerando o coração. Buscava dissipar a estranha impressão de há pouco, espécie de mergulho no abismo. Foi retomando a confiança e afrouxando o passo. Baixou os olhos e reconheceu a velha calçada composta de placas, que faziam um delicioso bump-bump  bump-bump quando por elas passava alguma bicicleta.

O sol ardia mas o vento refrescava quando dobrou a esquina e viu a cena insólita: o animado garoto negro, debruçado no muro, gritava para um papagaio engaiolado no quintal:

Tonho

– O Amadeu é um corno! O Amadeu é um corno!

Era Tonho, seu amigo, pouco mais velho.

– O que cê tá fazendo?

– Sacaneando o Seu Amadeu. Faz dois dias que tô ensinando o papagaio dele a dizer que ele é um corno. Já já o bicho aprende.

– E por quê?

– Prá sacanear o velho, ué. Filho-da-puta que vive me tratando mal. Aonde cê tá indo?

– Sei lá… tô dando uma volta.

– Então vem comigo, vou te mostrar uma coisa legal.

Vira-lata

E foram pela calçada, seguidos por Tapioca, vira-lata sem dono que ao vê-los desistiu de investir contra os carros e juntou-se ao movimento.

Falasse o cão a língua dos homens… Pois participava ali de momentos dos mais marcantes na vida de dois amigos. Mas como nada entendia, disso ele não sabia.

– Esse é o trabalho que eu quero fazer quando crescer, disse Tonho, apontando para um técnico da companhia telefônica aboletado no poste.

– Por quê?

– Prá ficar ouvindo a conversa dos outros, já imaginou que legal?

poste

Tulio não imaginara, mas agora imaginava.

O céu aos poucos se tornava ameaçador, nuvens negras avolumando-se vindas do horizonte. Os três amigos chegaram por fim à linha férrea, num trecho distante das porteiras da estação. Tonho tirou do bolso uma moeda dourada e a colocou cuidadosamente sobre um dos trilhos.

Moeda

– Cê vai ver que legal!

Nisso já uma composição prateada assomava a toda velocidade, soando a ensurdecedora buzina a fim de expulsar os pimpolhos da linha. De repente, toneladas passaram zunindo, um vagão atrás do outro, um vagão atrás do outro, um vagão atrás do outro… Barulhão infernal prá quem se encontrava ali embaixo, rente ao atrito das rodas. Tapioca fugiu correndo.

Tonho foi recolher o que restara da moeda, uma fina lâmina redonda com o dobro do tamanho original. Tulio estava encantado pela ousadia do amigo.

– Uau!

E assim ficaram enquanto duraram as moedas de Tonho, que não eram mais que quatro. Quatro moedas, quatro trens – três de passageiros e um de carga. Mas a medida certa, porque já se ouviam as trovoadas e a ventania aumentara. Começaram a cair os primeiros pingos, grossos e intimidadores. A tarde esfriara, escurecera e relâmpagos riscavam o céu, clareando tudo com um esverdeado elétrico. Voltaram apressados.

Ferrovia

Caía agora um temporal pesado. Ensopados, chegaram ao pé da subida para o folguedo ideal num dia de chuva: caminhar contra a enxurrada. Os minutos que levaram para vir dos trilhos à avenida bastaram para que um dilúvio se formasse. Tulio ia à frente, um caudal barrento a bater-lhe nas canelas e espirrando acima dos joelhos. Sorria e gritava de alegria quando num relance viu o filhote de gato que descia na correnteza, miando desesperado.

– Tonho, o gato!

Enxurrada

O bichinho resvalou com força em suas pernas e ia sumindo sarjeta abaixo se Tonho, ágil como um saci, não tivesse dado dois pulos e conseguido resgatá-lo.

– Caramba, que milagre ele ainda estar vivo!

– É… Mas está mais morto do que vivo, observou Tulio.

O passeio perdeu a graça, entraram a correr para chegar logo à casa de Tulio, onde algum cuidado poderia ser providenciado. Os segundos urgiam. Ao chegarem, ninguém sabia o que fazer.

– Vamos enxugá-lo com uma toalha, disse Tulio.

– Não. Vamos aquecê-lo. Está tremendo de frio, retrucou Tonho.

Foi o que fizeram. Deixando de fora o focinho, colocaram o filhote numa tigela com água morna. O bichinho estava entregue, já mal miava. Secaram-no e o puseram coberto com uma velha blusa frente ao pires com leite. Por ora, nada mais havia a ser feito. Tonho se foi.

Naquela noite Tulio sonhou que voava e que salvava gatos e gentes, e que era uma pessoa boa, porque depois de salvos todos ficavam amigos dele. Em seu sonho acudira um gato e o batizara de “Sininho”. Alegrou-se, era mais um parceiro na turma.

flying boy

Pela manhã, ao encontrar o bichano morto a imagem do espelho veio-lhe aos olhos.

E em seu coração misturou amigos e morte, existência e tristeza, e sentiu um nó na garganta. Fitando Sininho morto, perguntou-se o que fazer. Tão novo e já enterrando um amigo, mas assim era a vida, concluiu.  E verteu uma lágrima.

Foi ao quintal, abriu uma cova rasa, nela sepultou o gato. E para que nem tudo ali fosse tão funesto, para que mesmo na morte houvesse vida, transplantou à campa o broto de feijão que há dias semeara no algodão.

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METACONTO

Enfim, a tempestade amainara!  Pois já não era sem tempo… havia quase dez minutos que ele pacientemente aguardava, de pé sob o toldo do mercado. Não se poderia dizer que fosse propriamente a estiagem, mas só gotículas esparsas instavam ainda em cair.  Animou-se a deixar o abrigo e ganhar a calçada, confiando no arrimo que vinha da velha bengala, com cabo de osso e cara de cão, centenária relíquia oriunda do Vêneto e que fora do avô.

Portanto encetou o retorno à casa e cruzou a rua, vencendo a enxurrada que corria sarjeta abaixo. Molhou os pés. O corpo já desajudava e por isso era essencial não arriscar-se no momento errado. O que, sim, ainda lhe inflamava as emoções era o cérebro.  Este, com tudo o que já passara, era todavia uma surpreendente usina de idéias. E enquanto avançava a passos lentos, vergado sob o peso das compras, concebia o conto que tencionava escrever.

Quando finalmente chegou à casa era já tarde alta. Calçou os chinelos secos, aviou na cozinha um café a coar, sentou-se à escrivaninha de imbuia e, trocando os óculos, pôs-se a elucubrar. Sentia compulsão por fazê-lo. Tinha vaga ideia acerca do que redigiria… um jovial personagem masculino, uma estória curta e sóbria… mas naquele momento nada ainda estava claro.  Confiava em seu instinto, estava com noventa e três anos e as décadas de lavor com as letras o haviam dotado de uma espécie de sexto-sentido que, bem ou mal, sempre o guiara a compor obras apresentáveis.

Desse modo, sem muita determinação mas com destreza desferiu os primeiros golpes nas teclas do computador.  Por toda uma vida fustigara as de uma máquina de escrever, a princípio uma velha Remington metálica de mesa, depois uma Olivetti plástica portátil e então uma IBM elétrica (esta sim revolucionária: introduzira tecla de correção e esfera de tipos cambiável!). Houve mesmo um tempo em que operara um aparelho de Telex, moderníssimo à época.  Não era tão diferente agora.  Fora um exímio datilógrafo e esta qualificação se notava a quem o visse digitar.  Pois malgrado a velhice saiu premendo as letras, grafando as sílabas, palavras, frases, ideias.  Ideias que montavam a estória.  Aos poucos, via clarear-se as características do protagonista, seu comportamento, suas aspirações, virtudes e incorreções.  E imediatamente transportava a essência destes achados ao texto, dividindo-o em parágrafos assimétricos.

Assim agindo experimentava uma peculiar sensação de felicidade.  Era como se o ato de contar estórias o completasse, como a um médium é mister desenvolver a mediunidade,  sob o risco de adoecer não o fazendo.  Enfim, era como atender ao apelo de algo maior, à voz de algum imperativo oculto.

Cerrando os olhos concentrou-se, para melhor captar o que lhe ia dentro.  Sentiu desenhar-se na mente o panorama de uma cidade, que não era pequena, bucólica ou interiorana.  Era antes uma metrópole, não… talvez até megalópole, visto que o jovem rapaz a quem já agora descrevia habitava os altos de um edifício, de onde descortinava-se uma vista perturbadoramente urbana. Este seu personagem, o qual num arroubo de grandiloquência provisoriamente batizara de Zeus, era, como ele, um escritor.  E na cena em questão escrevia, alheio à vista da janela e ao ruído vindo do encontro da borracha de mil pneus contra o asfalto, abaixo.

Embora toda ficção tenha algo de autobiográfico, resolveu que sua criatura valer-se-ia de um expediente o qual ele próprio nunca utilizara: pena e tinteiro.  Era um modo de melhor delinear os contornos de seu escriba, que numa declaração velada (existente só na cabeça do autor) considerara o manuscrito à tinta a mais emotiva, e por isso eficiente, forma de redação.

Metódico e introspectivo, Zeus suspendia o mata-borrão e numa enésima revisão corria os olhos por seu conto inacabado.

Este se chamava Tânatos, e era uma adaptação inspirada na mitológica saga grega do colar que tinha o poder de deter a morte.  Quase em transe, rabiscando copiosamente, Zeus formava um quadro no qual a tecnologia moderna descobrira não só como criar deveras tal objeto, mas também como reproduzi-lo aos milhões!  Tudo começara com a descoberta de um novo elemento, o Sisifórnio(de Sísifo), cujas estranhas características incluíam interagir com as células humanas, até então inermes.

Através de emanações profundamente invasivas, o Sisifórnio causava (segundo os estudos mais recentes) a ionização dos átomos de carbono presentes nos núcleos celulares, fenômeno físico que desencadeava consequências tanto químicas quanto biológicas.  Uma vez alterada sua estrutura nuclear, a célula passava a liberar bioprotetina, subproduto que funcionava como poderoso antídoto à ação destrutiva dos radicais livres.

Desta maneira, numa espécie de radioatividade reversa, a nova substância originava a existência de células fortalecidas, ao dotá-las de uma sorte de armadura impenetrável, invencível, conferindo-lhes por conseguinte imortalidade.  Esta característica extendia-se às moléculas, depois aos tecidos e então a todos os órgãos, favorecendo as funções metabólicas do indivíduo.

Deste fato, em Tânatos, decorriam inúmeras consequências – a maioria deletérias.

Neste ponto, nosso velho escriba ergue as mãos das teclas. Vinda da cozinha, que tinha a janela aberta, uma brisa suave trazia o aroma do café que deixara coando.  O olor da bebida amada o convenceu a pausar e levantar-se. Não só adorava o sabor forte e marcante do café recém-coado como também confiava em seu poder fitoterápico para excitar o pensamento.  Após vertê-lo na xícara, degustou-o com vagar.

Ali de pé, à beira do fogão, enquanto pelas narinas sorvia a fumaça quente e perfumada, mantinha os olhos fixos e a mente atarefada, ocupada em imaginar o que adviria daquele mundo imperecível.  Pensou nas mazelas do homem, no quanto estas poderiam agravar-se diante de um tal cenário.  Para que tudo fizesse sentido, não só a morte deveria ser suspensa como também o envelhecimento.  Afinal, não eram concebíveis seres eternos que envelhecessem, porque envelhecer é morrer aos poucos.

Mas concluiu ser melhor voltar à composição e raciocinar tendo já os dedos ativos.  Deixou assim a cozinha e retomou seu teclado e Zeus, como uma alma desencarnada que psicografasse. E este, em seu estilo frenético, prosseguiu na construção de Tânatos:

Tão logo a notícia da descoberta propagou-se um desvario tomou conta da humanidade.  Fosse pela grande imprensa, blogosfera ou redes sociais, fosse pelo boca-a-boca, a notícia espalhava-se qual fogo no celeiro.  De repente, todos externavam o primitivo anseio de ser imortais.  E um dos resultados disso foi uma convulsão nas principais bolsas de valores.  Em Hong Kong, no sexto dia após o anúncio (feito por cientistas suíços), o pregão matinal acusou uma derrocada de 15% no valor global das ações, o que superava em 4% o recorde histórico, ocorrido quando do crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929.

Os reflexos imediatos atingiam tanto as finanças quanto estatísticas, previsões, preços em geral e a vida dos cidadãos de toda a Terra, enfim.

No entanto a maior ameaça era mesmo populacional. Temendo um estouro irrefreável da população mundial, governos do G7 consonantes determinaram a pronta proibição da produção dos colares, o que foi só parcialmente cumprido.  Em mais de um laboratório ao redor do globo, cientistas e assistentes mal-intencionados não resistiram à tentação do lucro fácil e contrabandearam amostras do novo elemento para montar fábricas de colares clandestinas.  Estas proliferaram e a venda pirata desse proibido objeto do desejo disseminou-se com velocidade suficiente para tornar ineficaz a repressão das autoridades, exercida através das polícias e exércitos de diversos países.  “Sou capaz de resistir a tudo, menos à tentação”, disse, à guisa de explicação e emblematicamente, um comprador satisfeito.

A princípio lentamente e depois de forma abrupta as taxas de mortalidade despencaram, até praticamente zerarem.  Se no início dos acontecimentos havia no planeta um saldo positivo de 2,4 novos seres humanos a cada segundo (4,2 nascimentos para 1,8 mortes), em três meses este número quase dobrara, atingindo 4,3 (relação de 4,4 : 0,1 – os óbitos só não zeraram  porque alguns raros humanos recusaram-se a aderir à novidade). Em muito pouco tempo, o desequilíbrio causado por tão brutal redução já se fazia sentir a quem quer que mirasse em torno.

A cada hora a situação agravava-se, o flagelo era iminente. A menos que algo de drástico fosse feito, o mundo estava condenado a sucumbir por uma sobrecarga fatal de sua biomassa.  E não sem antes retornar à barbárie, já que o excesso de gente aos poucos ocasionava a escassez de alimentos, o que se não mais matava, ainda revoltava pelo nauseabundo estímulo da fome.

E não só isso.  Vitimados pela violência crescente, imortais com os corpos mutilados pelos mais variados tipos de ataques perambulavam arrastando seus andrajos de carnes, seus ossos rotos e expostos, pelos campos e cidades.  Não estavam mortos, mas qual zumbis a vida que tinham já não tinha viço.

As moléstias – sobretudo infecciosas – disseminavam-se, atingindo indiscriminadamente mesmo pessoas localizadas nos mais longínquos recônditos. Assim a fome, a violência, a morbidez e a desesperança grassavam. Era o caos que se instalava, dantesco, e muito pouco se podia fazer para evitá-lo.  Estranhamente, embora bastasse tirar o colar para sustar seus efeitos (e expor-se à morte, consequentemente), era desprezível o número de pessoas que o faziam, consoante ao fato de que os suicidas sempre foram minoria.

A mais eficiente maneira, talvez, de impedir a extinção da raça humana seria excluir da superfície do planeta o artífice de tal infame ideia antes que esta viesse a ser publicada.  Ato contínuo, o velho autor passou a descrever a cena na qual Zeus, acometido por um mal súbito enquanto redigia, num espasmo levava a mão direita ao peito, tombando inânime sobre o tinteiro. Morto, entornava a tinta sobre as folhas prontas, destruindo o que fora escrito. E isso antes mesmo que viesse a ter um nome definitivo.

Porém, sendo a existência essa entidade fugaz e enganadora, no justo momento em que digitava as últimas letras do final da estória de seu personagem, o próprio ancião sentiu um tranco subir-lhe à garganta.  Buscou por ar e não o conseguia. Num átimo suas vistas escureceram, como se alguém lhe houvesse apagado o monitor à frente.  Estupefato, teve o tempo de pensar “não é possível… é coincidência demai…”, e no instante seguinte já não pensava mais nada.  Finara-se sobre o teclado, envolto no aroma de café que ainda vinha da cozinha.

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MINHA VIDA NA EUROPA


Velho Mundo

Velho Mundo

Sempre tive compulsão em conhecer a Europa… ainda moleque, bem antes de entender que aquelas fotos atraentes de lugares deslumbrantes eram a Europa, eu já tinha compulsão em conhecer a Europa. Sei lá… talvez porque parte de mim venha de lá… só pode ser isso prá explicar esse desejo manifesto tão cedo em minha vida. Os Thenorios vêm da Espanha.  E meus bisavós maternos, italianos da região do Veneto, conheceram-se no navio que os trazia ao Brasil e aqui se casaram, uma linda história de amor do século XIX. Devo ter molho de macarrão no sangue.

Dito Preto

Eu & o Dito

Assim que em meados dos idos de 1981 decidi vender meu Chevettão 1974 (o Dito Preto), juntar as merrecas que havia ganho do IBGE como recenseador de um censo (o populacional, em 80) e supervisor de outro (o econômico, em 81), trancar o curso de jornalismo da Metodista de São Bernardo do Campo no final do terceiro ano e partir pr’além mar.

Agora vai... !

Agora vai... !

Pedro Dominguez Sanchez

Pedro Sanchez Dominguez

Antes, porém, tinha de partir para os preparativos… dentre eles tirar meu 1º passaporte (UAU!) e trocar, com meu querido amigo Pedrinho (que viria a falecer em 2006, vítima de um acidente) uma jaqueta de couro que não esquentava muito por um casaco com gola de pele que segurava mais a onda… Ele iria curtir melhor sua Suzuki 180 e eu o frio do inverno na terra dos nossos antepassados comuns, a Espanha.

Jorge, Jens, Ira, Elcio, Fiva, Leão & Pepo

Jorge, Jens, Ira, Elcio, Silvia, Leão & Pepo

Tonheta & Delcy, em 82

Tonheta & Delcy, em 82

Chamei os amigos lá em casa prá um bota-fora e já no dia seguinte via meus pais acenarem-me adeus enquanto se afastavam, na calçada do Aeroporto de Congonhas. Senti um aperto no peito, um nó na garganta e por um momento questionei estar fazendo a coisa certa… mas como é prá frente que se anda, engoli em seco e embarquei no ônibus que me levaria a 101 quilometros dali, ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas, de onde partiria o Boeing da (hoje extinta) LAP – Líneas Aéreas Paraguayas, o mais barato que consegui para voar ao velho mundo.

Congonhas: último adeus!

Congonhas: último adeus!

Viracopos: meu 1º avião

Viracopos: meu 1º avião

E eis que aos 22 anos ali estava eu, sentado num avião pela primeira vez e já com destino a uma vida noutro continente. Éramos todos aerovirgens, eu e os dois amigos que viajavam comigo, o Toni (Carmelo Antonio Sappupo) e o Sérgio (Luiz Sérgio Santório).

Bye Bye Brazil

Bye Bye Brazil

Decolamos! Sendo as linhas aéreas do Paraguai, a primeira escala foi, logicamente, em… Assunção, onde mais? Sim, porque avião tem dessas coisas… você quer ir pra um lado mas primeiro vai centenas de milhas pro outro – e isso parece normal. Pouco tempo de vôo no final da tarde para percorrer 1100 quilometros e aterrissávamos em Assunção, no Aeropuerto Internacional Presidente Stroessner (por aqueles dias, ainda amargávamos ditaduras em quase toda a América do Sul). Viajando a oeste, chegamos lá mais cedo do que partimos daqui, o sol ainda brilhava um forte laranja-avermelhado, o que tornava a parede de vidro do aeroporto muito quente. Um ocaso memorável brindando minha primeira incursão num país estrangeiro.

No encalço do sol

No encalço do sol

Vista de Assunção...

Vista de Assunção...

Aguardando a partida do próximo vôo, preso no saguão, imaginava como seria a capital, por detrás daqueles outdoors que via ao longe. Deveríamos reembarcar em 1 hora, não daria tempo de sair do aeroporto. E no entanto ali ficamos por nada menos do que 8 intermináveis horas, enquanto no pátio os mecânicos esforçavam-se por consertar o aparelho, que apresentara defeito numa das turbinas… Lá pelas tantas, já de noite, quando imaginávamos que nos levariam para algum hotel no centro, chega a notícia de que o avião estava consertado, podíamos embarcar e voar tranquilos pelos 9100 quilômetros que nos separavam de nosso destino, o Aeropuerto Internacional de Barajas, em Madrid, com uma breve escala para reabastecimento no Recife. Tranqüilos ???

Salve-se quem puder!

Salve-se quem puder!

Voamos! Doze horas depois, mal as rodas tocaram o solo da Espanha e já um batalhão de bombeiros movimentava-se para cercar o avião… eram caminhões vermelhos com canhões de espuma, homens em trajes prateados de amianto e a turbina “consertada” ameaçando incendiar-se. Lembro-me da aeromoça insistindo para que eu me sentasse, mas por nada eu deixaria de fotografar aquela cena, registrando o quão perto havíamos passado de aterrissar (ou espatifarmo-nos) no breu da noite nas águas gélidas do Atlântico norte.

Bombeiro ou astronauta?

Bombeiro ou astronauta?

Por fim, abriram-se as portas da aeronave… de súbito, um frio polar invadiu a cabine dos passageiros. Vestindo uma camiseta, eu não estava preparado nem física nem psicologicamente para um choque daqueles… a Espanha era muito mais glacial do que eu estava esperando.

Madrid encantadora

Madrid encantadora

Saindo do aeroporto, tomamos um ônibus que nos levaria por 17 quilometros até o centro da cidade. E então entrei em êxtase… com que prazer indescritível meus olhos absorviam as cenas que se descortinavam naquele fevereiro: ruas, praças, fachadas, pessoas e esquinas iam-se revelando umas após as outras. Um cenário de inverno como nunca houvera visto… tudo muito diferente, muito lindo, inacreditável. Era um daqueles raros momentos em que se tem a sensação de se estar realizando um sonho. Eu estava na Europa!

Madrid exuberante

Madrid exuberante

Calle de Fuencarral

Calle de Fuencarral

Desembarcamos na Plaza Mayor e imediatamente uma senhora nos abordou, oferecendo-nos hospedagem em sua pousada. Não tendo porque recusar, aceitamos e fomos parar na Calle de Fuencarral, uma perpendicular da principal avenida, a Gran Via. Instalamo-nos às pressas e num momento já nos entregávamos àquilo a que todos ansiavam: bater pernas por Madrid, andar a esmo numa capital européia, entorpecendo os sentidos de frio, arte e história. E também do exótico cheiro de tabaco negro, que impregnava o ar gelado da grande cidade, surpreendendo-nos e contribuindo para criar aquela atmosfera de enlevamento. Madrid era perfumada, cheirava bem.

GANHAAAAAAMOS!!!

GANHAAAAAAMOS!!!

Na primeira noite, ainda não satisfeitos de caminhar, fomos parar numa casa de bingo e decidimos apostar. Qual não foi nossa alegria quando saiu o número que esperávamos e batemos a cartela. Numa algazarra, todos gritamos eufóricos – só para sermos repreendidos por dezenas de olhares frios e silenciosos… compreendemos que nosso arroubo colonial não era bem-vindo naquele austero estabelecimento da antiga metrópole. Repartimos as parcas pesetas ganhas e, em alvoroço, voltamos às luzes das ruas. Fodam-se eles, éramos moleques do Brasil.

Gran Via noche

Gran Via noche

No dia seguinte, na hora do almoço, descolamos um comedor (restaurante) singelo e pedimos o prato que, por ser barato, nos sustentaria ao longo de toda a nossa estada na cidade: tortillas con judias blancas y lentejas (omelete e batatas com feijão branco e lentilhas). Sempre acompanhadas de pan y una taza de viño, para entrar no clima… Madrid me deslumbrava… as mulheres eram lindas e os nomes das estações do Metrô tinham algo de feérico: Sainz de Baranda, Moncloa, Cuatro Caminos, Callao e por aí vai…

Os nomes já eram uma viagem

Os nomes já eram uma viagem

Plaza de Toros las Ventas

Plaza de Toros las Ventas

Tanto que uma tarde resolvi ir até o fim de uma das linhas (terminal Canillejas) e voltar caminhando ao centro, uma excelente oportunidade de viver a cidade. No caminho passei defronte à Plaza de Toros de Las Ventas, que estava fechada, e por ali aproveitei para comprar um livro em espanhol (Noche, tradução de Noite, do brasileiro Érico Veríssimo) que, apesar de ser baixo astral pacas, me ajudou muito nos primeiros passos com o idioma.

Suicida !

Suicida !

Vale tudo...

Vale tudo...

Mas a preocupação com dinheiro falava alto… havia levado muito poucas reservas e precisava dar um jeito de ganhar a vida, mesmo clandestino, mesmo transitório… assim, meio no desespero, numa das noites em que estive na cidade fui ao Mercado de Chamartín, ver se conseguia algo como ajudante de caminhoneiro. O número de caminhões – todos pitorescamente muito decorados – era grande e, com certeza, encontraria algumas caixas para descarregar… mas logo descobri que não seria tão simples arranjar dinheiro. Continuei desempregado.

La sangre iberica

La sangre iberica

Ainda nos primeiros dias, demos a sorte de conhecer um paulistano que nos introduziu no seu grupo de amigos, composto por brasileiros(as) e espanhóis(las). Isso foi ótimo, porque nos colocou em contato diretamente com a vida real da cidade, e numa das noites fomos levados para conhecer um Tablao Flamenco, onde casais trajados no mais fino estilo andaluz encantavam a todos com suas enérgicas danças sensuais.

Uau !!!

Uau !!!

Por estes dias estava sendo realizada num parque denominado Casa de Campo, no oeste da cidade, uma Feira Internacional. Íamos lá quase que diariamente para nos encontrar com nosso grupo de amigos, e foi lá que vi pela primeira vez – com grande assombro – um ônibus de turismo de dois andares. Que show de tecnologia para um garoto tupiniquim.

Marita

Marita

Também fomos levados noutra noite a uma festa muito elegante (já não me lembro o que se comemorava), num edifício suntuoso do centro da cidade, onde conheci uma garota vinda da cidade de Molina de Segura, próxima a Murcia, chamada Marita, com quem vim a ter meu primeiro caso em idioma estrangeiro. Isso era muito legal. Mas nem tudo são flores e com seis dias de Madrid meus dois companheiros de viagem decidiram que já era hora de partir para Roma, nosso destino programado.

No more...

No more...

Parece que o Toni havia perdido uma nota de US$ 100,00 e por isso tinha pressa de chegar à Itália, onde contava com parentes e conhecidos. Para mim, ainda era cedo demais para deixar aquela cidade de sonhos. Disse-lhes que fossem e aproximei-me de outros dois brasileiros que havia conhecido no avião, um deles por nome Gainor e o outro, Flávio. Eles pretendiam viajar a Londres, mas deveriam ficar ainda um tempo na capital da Espanha. Achei que poderia pegar uma carona na estadia, porque ficar sozinho de vez… era muita barra pesada.

Los gauchos y yo

Los gauchos y yo

E mais 6 dias se passaram. Porém numa manhã, quando num supermercado já estava com uma caixa de sapateiro (sim, vendia-se isso) na mão para comprá-la, disposto a ganhar a vida engraxando sapatos, meus novos amigos me deram a notícia de que haviam decidido antecipar sua partida para a Inglaterra. Lamentavam mas, eles também, iriam me deixar. Então não tive escolha: não havia condição de arcar sozinho com o aluguel do quarto de hospedaria e, confesso, senti medo de encarar a vida ali sem qualquer apoio. Doze dias procurando emprego sem sucesso haviam me ensinado que o desemprego era grande e que o buraco era mais embaixo…

Hmmmm... fudeu!

Hmmmm... fudeu!

E assim tomei a decisão de partir também. Iria a Roma, juntar-me aos meus dois parceiros originais, porque em três a gente se vira melhor… E iria de carona. Foi uma decisão que resultou numa viagem de 2 mil quilometros, que me proporcionaria vários dias de aventuras deliciosas pelas estradas do sul da Europa. Na última noite, hospedei-me num hotelzinho próximo ao centro, tendo a companhia de Marita, e dormi até o meio-dia, quando fomos acordados pelo dono da espelunca batendo à porta, gritando “brasileño, te quedas o te marchas?”. Me marché, não sem uma ponta de tristeza por deixar para trás tantos lugares deliciosos e tantas boas companhias.

Adiós Madrid !

Adiós Madrid !

Tomei o metrô no centro de Madrid e desembarquei numa estação já nos arrabaldes da cidade, à beira da rodovia que leva à Catalunha, a Autovia del Nordeste. A viagem que se seguiria é até hoje um capítulo à parte em minha vida, talvez por haver representado o que para mim era na época a expressão máxima da aventura e da liberdade: cortar vilarejos, cidades, países em companhia de desconhecidos, falando línguas estrangeiras e saboreando cada metro do caminho como se fosse “Stairway to Heaven”.

Gipsy Kings...

Gipsy Kings...

A primeira carona foi com um grupo de ciganos que viajavam numa Kombi. Eles eram muito alegres e se interessaram pela minha história, fazendo várias perguntas sobre de onde eu vinha e para onde ia. Mas o passeio foi curto. De significativo, lembro-me apenas de termos passado ao lado de uma base aérea que, não sei ao certo o porque, pareceu-me ser norte-americana. Na Espanha? Será ??

Só novidades ...

Só novidades ...

Em seguida, alguns quilômetros após, desembarquei do festivo utilitário e logo consegui a segunda carona, com um senhor de meia-idade muito agradável e solícito. O carro avançava pela estrada e foi então que vi a neve pela primeira vez. Que emoção! Que espetáculo! Os flocos brancos caindo do céu, vindo de encontro ao pára-brisa, de onde eram expulsos pelo limpador. Até então eu só os havia visto limparem água…. Eu estava mesmerizado… Até que chegamos a um ponto da estrada onde à esquerda saía um asfalto secundário. Ele me disse: “Bien, yo me voy por acá. Tenga usted um buen viaje”. Ao que lhe agradeci e desci… para descobrir que estava só em meio a um acostamento vazio com a temperatura senão abaixo, beirando o zero grau.

Brrrrrrrrr...!

Brrrrrrrrr...!

Mas estava prevenido: tinha na mochila as peças de roupa necessárias para dar suporte à vida… Logo à margem da estrada havia uma casa de pedra, vazia, fui para trás dela e pacientemente despi-me e revesti-me a rigor: a começar pelas ceroulas longas, indo até luvas, meias duplas e gorro. Que sensação de proteção e alegria. Agora sim, estava paramentado para voltar ao acostamento e retomar minha jornada de caronista em pleno inverno.

1º trecho: 580 km

1º trecho: 580 km

Seriam mais algumas centenas de quilometros até meu primeiro destino: Villanueva y la Geltru, uma cidade cerca de 45 quilometros ao sul de Barcelona, onde morava (e mora) um grande amigo de infância, o Bayarri, que na verdade era amigo de meus irmãos mais velhos. Saltitei um pouco para esquentar, mas logo peguei mais uma carona e a certo ponto me lembro de haver visto da estrada, à esquerda, a imponente fachada da catedral de Zaragoza. Tive vontade de ir até lá, mas não era o caso… não se pode ter tudo.

Nuestra Señora del Pilar, Zaragoza

Nuestra Señora del Pilar, Zaragoza

Caraca, que grude!

Caraca, que grude!

Cheguei em Villanueva já de noite, talvez por voltaidas 20 horas. Dirigi-me a um hotelzinho porque não queria chegar na casa de meu amigo estando escuro… Na recepção, a TV sintonizava o seriado Dallas e eu pensei “Cacete, aqui também? Então é isso que é globalização?” Instalei-me, sai para dar umas voltas pelo local e voltei para dormir.

Llegada del pescado

Llegada del pescado

No outro dia, após o almoço, dirigi-me à casa do Bayarri e como ninguém atendia à campainha fiquei ali à porta, aguardando. Após coisa de uma hora, chegou a sua esposa, Carmen, que eu não conhecia. Apresentei-me como amigo de longa data de seu esposo mas ela, por receio, pediu que eu retornasse ao final da tarde, quando ele já estaria em casa. Tudo bem, dirigi-me ao cais do porto, para matar o tempo. Ali pescadores chegavam do mar com suas embarcações lotadas de pescado. Um deles gritou para o outro “Gel” e foi assim que aprendi como se diz “gelo” em catalão. À tarde, voltei à casa de meu amigo e o esperei chegar. Fiquei feliz por ele ter se lembrado de meu nome assim que me viu. Eu estava com 22 anos e havíamos nos visto pela última vez quando eu tinha 7…

Bayarri

Bayarri

Aldeia catalã

Aldeia catalã

O dia seguinte passei em companhia do Bayarri, que me levou para conhecer vilarejos muito interessantes no coração da Catalunha. Ele temia por minha segurança nessa vida de caronista e insistiu para que eu ficasse por lá mesmo, mas absolutamente não era o caso. Então meu amigo me deu um par de pincéis atômicos, um preto e um rosa fosforescente, para que quando na estrada eu pudesse pintar cartazes, o que facilitaria a minha viagem. No outro dia, o quarto desde que saíra de Madrid, parti lá pelas 17:00hs com destino a Perpignan, do outro lado da fronteira.

2º trecho: 180 km

2º trecho: 180 km

Mas ainda não seria neste dia que chegaria à França… tendo saído tarde, logo escureceu. Desta vez a carona veio na forma de um jovem casal que se comunicava comigo em castelhano e entre eles em catalão. Sentei-me no banco de trás e fui respondendo às perguntas da garota, que fazia o possível para ser simpática. Por esta hora, o sol já se havia posto e ela me perguntou “¿donde vas a pasar la noche?”, ao que respondi “por la carretera”.

Muy loco!

Muy loco!

Então os vi confabulando e imaginei que ela o estava consultando sobre a possibilidade de me dar abrigo n’algum lugar para onde estavam indo… Ele assentiu e me levaram para uma bela casa de campo, n’algum ponto entre Girona e Figueres, de onde sairíamos logo após prá uma balada numa discoteca inacreditável: uma caverna no meio do mato lotada de gente. Eles se divertiam, mas eu, muito cansado, encostei numa poltrona e babei. Só acordei altas horas, com eles me chamando prá ir prá casa, onde passei a noite numa cama confortável e de onde saí na manhã seguinte para seguir viagem. Como é legal conhecer gente legal.

Vive la France!

Vive la France!

Novo dia, de volta à estrada… logo consegui carona com um casal de turistas canadenses que me deixou na fronteira com a França. Então a atravessei no carro de um cara que me lembro chamar-se Giorgio, que me levou até antes de Perpignan. E estava em território francês. Ueba! Sozinho na estrada, no meio do mato, saquei meus 2 pincéis, minha faixa de papel branco que havia levado e nela escrevi “S’IL VOUS PLAÎT” em garrafais letras rosas com contornos pretos. Funcionou… rapidinho já estava num Citroën 2CV, daqueles antigos, ganhando mais umas milhazinhas… o difícil era (não) conversar em francês…

grato ao velho "Sapo"

grato ao velho "Sapo"

Curiosidades...

Curiosidades...

De carona em carona, fui atravessando o sul da França. Lembro-me de uma imagem nesta mesma ocasião que me marcou: já estava bem escuro e numa encosta a estrada descia num serpentear de faróis muito amarelos, iguais aos “Cibié” que havia no Brasil. Naquela época, na França, eles eram obrigatórios. Era um longo risco dourado no breu da noite, uma visão assaz romântica.

3º trecho: 600 km

3º trecho: 600 km

Maldição de Babel

Maldição de Babel

Então dei sorte: peguei carona com um cara que ia atravessar praticamente de fora a fora o sul do país. Ele dirigia um VW Scirocco e não falava inglês. Como eu não falava francês, passamos a noite inteira lado a lado basicamente mudos… o papo se resumia a:
– Coffee?
– Yes, thanks.
– Ok
E parávamos em plena madrugada prá um café num posto qualquer. Mas ele me levou por toda a Cote d’Azur e adiantou pacas a minha viagem.

Nice

Nice

A última carona que peguei na França foi num caminhão muito moderno. Era legal viajar lá em cima e ver as soberbas paisagens do Mediterrâneo à direita. Fomos até à fronteira com a Itália, onde chegamos por volta das 5 da manhã. E então com algum esforço consegui entender que o caminhoneiro estava me dizendo que iria esperar a fronteira abrir, uma hora mais tarde. Agradeci e entrei na Itália a pé. Fui parar na estação de trem de Ventimiglia, onde deitei num banco e dormi.

La terra dei nonni

La terra dei nonni

Ventimiglia

Ventimiglia

Não deu prá dormir muito… já às 7 o guarda veio me acordar, sorrindo e dizendo “Freddo, he?”. Pensei: “Alfredo?? Que porra esse cara tá dizendo?” Só muito depois fui entender que ele dissera “Frio, hein?”. Tomei um café por ali mesmo, troquei uns dólares e saí para retomar o asfalto. Foi então que vi que naquele ponto a estrada entrava por um túnel. Imaginei que do outro lado, longe da vista dos policiais da estação, ficaria mais à vontade para pedir carona.

Esse era já o finzinho...

Esse era já o finzinho...

Péssima idéia… o túnel era interminável e eu fiquei naquela de não saber se voltava ou prosseguia. Mas como é prá frente que se anda… Mal saí do outro lado e percebi a merda que fizera: vi-me em um enorme viaduto altíssimo, sem saída prá lugar nenhum e numa situação ruim prá cacete. Nem deu tempo de lamentar, já encostava uma viatura azul e branca da “Polizia Stradale” (polícia rodoviária) com 2 policiais, um deles muito puto.

₤ 10.000 !!!

₤ 10.000 !!!

Desceram e ele disse, aos berros:
– Ma dove vai?
– A Roma
– Ma vai a Roma a piedi ???
Achei graça, mas a situação não era nada engraçada. O desgraçado engrossou: sacou o talão de multas e me multou em 10 mil liras (tudo o que eu havia acabado de trocar, na estação) exigindo o pagamento ali mesmo. Surpreendi-me… nunca havia visto no Brasil um pedestre ser multado… Mas não tive escolha e paguei, ficando duro já na minha primeira manhã na Itália, tendo me sobrado apenas um recibo na mão. O policial ainda disse:
– A Bordighera, scendi!

...descer daí não foi fácil...

...descer daí não foi fácil...

E eu não entendi porra nenhuma, mas gravei a frase. Muito depois compreendi que ele dissera “Quando chegar em Bordighera, desça (do viaduto)!”. Entendendo ou não, foi exatamente o que eu fiz assim que deu. E esse foi meu primeiro contato com a surpreendente Autostrada del Sole.

...degli amici...

...degli amici...

E desci quase rolando pela montanha até a cidade de Bordighera. É engraçado… quando você muda de país, imediatamente muda tudo: o dinheiro, o idioma, as pessoas, a polícia… até acostumar demora. Mas há males que vem para bem! O fato de estar sem um puto fez com que eu conhecesse pessoas ainda mais generosas. Lembro-me de um cara que me deu carona e me deixou na porta de uma modesta e charmosa trattoria à beira da estrada. Ele conhecia o dono e me disse para almoçar (com direito a vinho), pendurando a conta na conta dele. Saí daquele restaurante com uma sensação de alegria da qual me recordo com saudades. Parece que é mais fácil ficar alegre quando se é mais jovem…

S'imbora!

S'imbora!

Assaz soturno...

Deveras soturno...

E seguiram-se as caronas: lembro-me de um viado que quis me dar dinheiro prá transar com ele (caramba… mesmo completamente duro, resisti) e de outra nevasca que caiu pelo caminho. Depois abriu o sol e invadi uma fazenda para roubar uma mixirica, ou bergamota, já que ela era italiana. Por fim, uma das caronas me deixou, já escuro, dentro do porto de Gênova. Sei lá o que o cara tinha de fazer lá, mas desci do carro em meio a barris e contêineres, numa circunstância precária e um tanto perigosa. Tratei de sair logo dali e fui pro Albergue da Juventude, onde desabei num beliche para acordar na manhã do sétimo dia desde que deixara Madrid.

4º trecho: 670 km

4º trecho: 670 km

Neste dia, após mais algumas caronas, que totalizaram 25, cheguei finalmente a Roma ao anoitecer. A última delas foi com um jovem casal que tentava me ensinar advérbios em italiano… “Il bicchiere è pieno o il bicchiere è vuoto”, me dizia o rapaz.  Entendi: “copo, cheio e vazio”. Aos poucos, já ia aprendendo a falar a lingua de Dante… Era a terça-feira, dia 16.02.82, e começava minha vida italiana.

Evviva l'avventura! ;)

Evviva l'avventura 😉

Mais de 28 anos após...

Mais de 28 anos após...

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MINHA VIDA EM ROMA – 1 / 2

La città eterna

La città eterna

Morei em Roma por duas vezes: a primeira por 8 meses, de fevereiro a outubro de 1982, e a segunda por mais 4 meses, de outubro de 1984 a janeiro de 1985.

20 séculos vos contemplam!

20 séculos vos contemplam!

…Naquela terça-feira à noite, chegando pela primeira vez à capital da Itália liguei de um telefone público para os meus amigos (não, ainda não havia celular) e os fui descobrir jantando num restaurante próximo ao Coliseu, ou Colosseo. Já fiquei extasiado…

Via Savóia

Via Savóia

Juntei-me a eles e assim me instalei na pensão em que estavam hospedados: a gloriosa Pensione Silvestri, na Via Savóia, próxima à Piazza Fiume e à Villa Borghese, de propriedade de uma austera senhora de nome Enza e zelada por outra simpática senhora chamada Veglia, nome que eu achava muito engraçado.

Pensione Silvestri

Pensione Silvestri

Elcio & Tony

Elcio & Tony

C'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro?...

C'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro? c'è lavoro?...

E ali estávamos… finalmente instalados em plena Europa. E prontos para o que desse e viesse. E o que tinha de vir, o mais rápido possível, era alguma forma de trabalho que garantisse a subsistência, antes que os parcos caraminguás trazidos do Brasil se esvaíssem pelo esgoto romano, literalmente. O Toni, que levava alguns dias de vantagem na cidade e por isso já sabia algumas palavras, me ensinou a frase mágica, que deveria abrir-me as portas do dinheiro: “c’è lavoro?” (tem trabalho?). E a partir de então saí batendo de bar em bar pelas ruas de Roma repetindo estóica e incansavelmente o mantra…

Ops...  foto errada.

Ops... foto errada.

Mas nada… os dias se passavam e a ficha ia caindo: não seria moleza encontrar um trabalho. Enquanto isso, comíamos todos na mensa (restaurante universitário) da faculdade, que ficava ao lado do Cimitero Monumentale di Campo Verano. A comida era boa, mas o local era sinistro: pela manhã, a rua amanhecia lotada de seringas e camisinhas, delatando que nas madrugadas por ali rolava um bundalelê pesado… muito consumo de heroína já naqueles tempos.

Sex, Drugs & Rockn'roll

Sex, Drugs & Rockn'roll

dia de azar...

dia de azar...

O problema era chegar para comer e encontrar a mensa fechada, devido a mais um dos incontáveis scioperi (greves) que os funcionários faziam. Vira e mexe acontecia, mas mesmo isso servia para me fazer admirar o primeiro mundo: nesses dias ninguém ficava sem comer, já que à porta da mensa era distribuído um kit alimentar, composto de um pacotaço de batatas fritas, um queijinho Philadelphia, um pão e uma lata de refresco.

mata fome...

mata fome...

A Europa diante dos olhos

A Europa diante dos olhos

Ainda não acreditando no que estava me acontecendo, em certas tardes, ia à Stazione Termini, a central de Roma, só prá ver os trens que dali partiam para vários destinos na Europa. E ficava minutos infindáveis com a cabeça erguida, só vendo o placar rotativo mostrar aquele monte de nomes de cidades: Nápoles, Paris, Lugano, Bologna, Munique… Para mim, havia algo de mágico naquele som: flap- flap- flap- flap- flap…

Instiuto Dante Alighieri

Instituto Dante Alighieri

Difícil mesmo era fazer-se entender… após os 12 dias que havia passado na Espanha esforçando-me por falar espanhol, não conseguia dizer sequer uma palavra em italiano… Quando tentava arriscar um “Io” (pronúncia: ío), saía “Yo” (pronúncia: djô). Minha mente, até então virgem para línguas, havia travado no espanhol…

Il mio vecchio libro

Il mio vecchio libro

Então parti prá me matricular num curso de Italiano per gli Stranieri, no colégio Dante Alighieri, perto da Via del Corso. Nossa professoressa, uma simpaticíssima velhinha, alternava aulas de gramática e conversação. Isso muito me ajudou a pegar o italiano no tranco…

E foi ali que conheci Christine, uma linda alemãzinha de Stuttgart que, como eu, estava na capital italiana mais perdida do que cego em tiroteio. Passamos a nos consolar mutuamente…

Christine

Christine

Próxima a Roma, ao alcance do metrô, fica a praia de Óstia, onde o nudismo era permitido. O Rodolfo, uma das amizades brasileiras que logo fiz por ali, me convidou: “Vamos lá, cara? Vamos ver mulher pelada!” Eu gostei da impudica sugestão e fomos. Mas lá chegando, quem diz que um tinha coragem de ficar pelado na frente do outro? E lá andaram os dois caipiras de sunga prá cima e prá baixo…

Cáspita! Liberou geral...

Cáspita! Liberou geral...

Foi só meses depois que, na companhia de outro amigo, outra cabeça, o astral mudou e criei coragem para juntar-me aos peladões e pela primeira vez sentir o sol bater em partes inusitadas… sensação deveras sui generis. E nesse dia tive um choque cultural: vi uma garota deitada de bruços, as pernas abertas, e dali saindo um fio de O.B., produto que eu mal conhecia. Nossa! Era liberalidade demais prá minha cabecinha…

...oh! então é assim?

oh! então é assim?

Ciao, come stai?...

Ciao, come stai?...

Mas depois disso, infelizmente, pouco voltávamos à Óstia porque ali o assédio partia muito mais dos incontáveis finocchi (homossexuais masculinos) do que da mulherada… era uma barra um tanto pesada, tanto que foi lá que Pasolini acabou assassinado por um michê…

Viajante...

Viajante...

Celestial.

Celestial.

Já estávamos em março e nada de trampo. Morávamos os 3 no mesmo quarto de pensão e com isso tive acesso às fitas cassete do Toni, rapaz de fino gosto musical. Foi assim que tomei contato com os maravilhosos “The Concerts in China”, de Jean-Michel Jarre e “Eye in the Sky”, de Alan Parsons Project, que acabaram se tornando a trilha sonora de minha vida naquelas latitudes. De minha parte, contribuí com o não menos maravilhoso “Raíces de America vol. II”, do Raíces de America, os quais amo até hoje…

El cantar tiene sentido!

El cantar tiene sentido!

Que moleque resistiria?

Que moleque resistiria?

Enquanto não pintava emprego, a vida transcorria pacata na Pensione Silvestri… o Sérgio foi embora prá Bélgica e a gente se divertia espiando a mulherada tomar banho, pelo buraco da fechadura do banheiro comum, no corredor … Tinha uma que era o xodó de todos, uma loira gostosa que pouco espaço dava à molecada… lembro-me de um dia em especial, no qual a vi sair do banheiro enrolada na toalha e entrar em seu quarto.

Sujou !

Sujou !

Pé ante pé, fui olhar pela fechadura e – UAU! – deu prá ver tudo… ela estava visível de corpo inteiro, mirando-se no espelho da penteadeira. Concentradíssimo, abri os braços e apoiei as mãos nos batentes da porta. Quando forcei o tronco para frente para aproximar o olho do buraco, minhas costas estalaram – CLAC ! Naquele silencio, foi como uma bomba atômica: ela se virou imediatamente e eu, em dois pulos, entrava pela porta do banheiro. Mas ela abriu a do quarto a tempo de ver que era eu. Deve ter gostado, porque nunca fez ou disse nada a respeito… Aprendi: as traições sempre vem pelas costas.

Internet de 1982

Internet de 1982

Por esta época, anterior ao advento do e-mail, eu recebia uma enxurrada de cartas vindas do Brasil. Quase todo dia havia uma e eu, criteriosamente, respondia a todas. Parecia que todo mundo havia sentido a minha partida. Isso fazia muito bem ao ego de um garotão perdido no mundo… Muitos me parabenizavam e diziam que gostariam de poder fazer o que eu estava fazendo. Uma missiva que me marcou veio na forma de fita gravada, pela Tonheta, minha mãe, na qual ela se orgulhava do “filho corajoso” que tinha. Aquilo foi decisivo prá me insuflar deveras a coragem a que ela se referia. E todos eram unânimes em querer saber como era a vida ultramarina…

Má idéia!

Má idéia!

Bem, era curiosa, diferente… prá se ter uma idéia, uma tarde aconteceu de eu estar no quarto da pensão, fazendo nada, quando o Toni chegou com uma lata de Coca-Cola. Dei um gole e, como estava muito quente, decidi descer do jeito que estava – sem camisa – para comprar outra lata na venda da esquina. Quando lá cheguei, as duas senhoras que atendiam o balcão quase enfartaram ao me ver seminú… Prá piorar, enquanto ainda tentava entender o que estava acontecendo, o filho de uma delas apareceu vindo de não sei onde, dizendo “Ma che succede?” (o que está acontecendo?). Ao que uma delas respondeu algo como “Nada, o senhor aqui já estava de saída” , livrando assim a minha cara. Ao sair à rua para voltar à pensão, senti-me o mais nú dos mortais… parecia que todos me repreendiam com o olhar. E nesse dia senti o gosto do que a diferença cultural é capaz de fazer…

Olha prá lá!

Olha prá lá!

Enfim... barista!

Enfim... barista!

Após muito batalho, finalmente consegui uma vaga de barista na cantina da Facoltà La Sapienza, na esquina da imponente Via Nomentana com Via Carlo Fea. Era muito legal ficar fazendo e servindo cappucinos, lattes macchiatos, tès al limone e por aí ia… Outro choque cultural foi fazer laranjadas com uma laranja que por dentro não era amarela, mas cor de vinho tinto. Laranjada cor de beterraba, incrível. Foi ali que conheci Maria, uma estudante de letras, meu segundo caso na Itália… a vida era leve e ilustrada, por essa época…

Tavas duvidando, né?

Tavas duvidando, né?

Adilson Barros

Adilson Barros

Já era abril e numa tarde em que estava sentado no gramado da Villa Borghese, perto de casa, gravando uma fita para os meus pais, fui abordado por um brasileiro que ao passar me ouviu falando em português. Era Adilson Barros, um ator (A Marvada Carne), que acabou se tornando nosso amigo naqueles dias. Trouxe-o à pensão e o apresentei aos meus camaradas. Fizemos muitas caminhadas juntos… lembro-me de um domingo em que estávamos os dois na pitoresca Feira de Portaportese, examinando uniformes de guerra usados (vários deles furados de bala), quando o Adilson viu passar Ruth Escobar. Ele a conhecia e a trouxe para confabular por um momento. Infelizmente, Adilson viria a morrer de AIDS em novembro de 1997.

Foro Romano

Foro Romano

Colosseo

Colosseo

Trinità dei Monti

Trinità dei Monti

Fontana di Trevi

Fontana di Trevi

Capela Sistina

Capela Sistina

E Roma ia nos surpreendendo… com seus pontos turísticos… os milênios desfilando diante de nossos olhos: Foro Romano, Colosseo, Trinità dei Monti, Fontana di Trevi, Capela Sistina na Basílica de São Pedro… muita história em cada esquina, cada viela… era tudo encantador. E tanto passado em meio a manifestações de modernidade como, por exemplo, o ônibus sem cobrador: comprava-se o bilhete n’algum estabelecimento comercial da rua e depois bastava inutilizá-lo na maquineta dentro do ônibus. Nem sempre fazíamos esta parte… e uma vez tivemos de sair correndo do veículo quando um fiscal entrou…  sujeitávamo-nos ao que fosse necessário para economizar qualquer merreca.

Autobus romano

Autobus romano, em 82

Era por aí...

Era por aí...

No Vaticano, sob uma das colunatas da Praça de São Pedro, havia um telefone público que estava quebrado… com ele era possível fazer ligações gratuitas para a América do Sul, que maravilha! Mas pouco durou nossa alegria: em 2 de abril começou a Guerra das Malvinas e daí em diante o aparelho ficava constantemente congestionado de argentinos, que com avidez buscavam notícias de casa… Pra ser sincero, lembro-me vagamente de ter visto o Papa, que na época era João Paulo II, em sua sacada. Mas isso para mim não significava grande coisa.

Era o outro, mas dá na mesma

Era o outro, mas dá na mesma

Pequena notável

Pequena notável

Foi também em maio que o Toni inventou de irmos à Suíça procurar emprego nas vendimias, ou colheitas de uva, que se aproximavam. Pegamos o trem na Termini e rasgamos pro norte, indo parar em Berna, a capital. Lá chegados eu não podia crer que existisse um lugar tão lindo, tão bem cuidado, tão…tão… perfeitinho. Tudo era impecável, tudo era moderníssimo… os bondes articulados, as máquinas de comprar bilhetes que calculavam a tarifa e davam troco, as floreiras nas fachadas, as fontes, as estátuas pintadas uma a uma, as bandeiras do país por todo os lados. A Suiça era deslumbrante. Ao menos prá se ver, aquilo sim era primeiro mundo.

Colírio

Colírio

Casa de bonecas

Casa de bonecas

Classe A

Classe A

De Berna seguimos para Zurique, que era tão exuberante quanto… lembro-me do sol resplandecendo quando o relógio marcava quase 9 da noite!…lembro-me das lindas garotas praticando topless às margens do lago Zürich… lembro-me do Toni insistindo para comprarmos dos famosos chocolates suíços… lembro-me do Albergue da Juventude que tinha até secador de cabelos no banheiro e lembro-me do Rio Limmat correndo por entre edificações de uma arquitetura de sonhos. Parece que o índice de suicídios lá é alto, mas para mim a Suíça seria inesquecível.

Eu & Rio Limmat

Eu & Rio Limmat

9h... noite alta !

9h... noite alta !

Zürich bahnhof

Zürich bahnhof

Sigamos!

Sigamos!

Antes de voltar à Itália, pretendíamos ir a Genebra, e então saímos de Zurique em autostop… mas pegamos carona com um estudante, que insistiu para que ficássemos por uma noite hospedados na casa dele, onde vivia com a esposa, em Freiburg, capital do cantão de mesmo nome. E lá fomos, saborear a realidade de um lar suíço, onde havia um quadro branco cheio de mensagens deixadas por viajores de antanho. Desistimos de Genebra, até porque nosso contato lá sumiu no mundo e não atendia o telefone… (depois de tudo o que havíamos feito por ele em Roma, filho-da-puta!).

Giuseppe

Giuseppe

Voltando a Roma, ainda em maio o Adilson me arranjou um emprego muito legal: de radioator na RAI – Radiotelevizione Italiana. Eu era o protagonista de uma série intitulada “Garibaldi – o Herói de Dois Mundos”, produzida pela RAI para difundir a cultura italiana nos países de lingua portuguesa. Ali conheci várias pessoas interessantes e foi um bico que reforçou meu caixa até os últimos dias da minha estada na cidade.

Bão e barato!

Bão e barato!

Falando em cultura, algo que me fascinava era o fato de que havia um cineclube próximo à nossa pensão, cujo ingresso era quase gratuito, o pequeno e glorioso Cine Tibur. Eu não acreditava que cinema pudesse custar tão barato e ia lá umas três noites por semana. E estranhava muito eles interromperem a sessão na metade do filme para, com as luzes acesas, venderem pipoca, refrescos e demais guloseimas dentro da sala de projeções.

O bar do corredor

O bar do corredor

Tudo ia bem quando, lá pro fim de maio, aconteceu de eu quebrar uma peça de vidro do balcão refrigerado da cantina onde trabalhava. Foi um acidente, mas o dono queria descontar do salário. Emputecido, me demiti. Imediatamente fui reaproveitado noutro bar, mais exatamente dois bares contíguos: o piano bar e o bar do corredor do Grand Hotel Ritz. Chegava lá às 17:00 para abrir o suntuoso Black Horse Piano Bar e quando dava 19:00 ia para o bar do corredor, onde ficava sozinho servindo sobretudo cafés.

Oba! Achei o cartão...

Oba! Achei o cartão...

Vecchio dizionario

Vecchio dizionario

Foi ali que numa tarde, quando tinha livros e dicionários de italiano abertos sobre o balcão, conheci uma garota norte-americana, de Peoria, Illinois, chamada Jane, muito interessante e interessada… naquela noite fui prá pensão mais tarde, mas nos deu um trabalhão achar um local que nos proporcionasse alguma privacidade, que acabou sendo uma espécie de bosque ermo, que se atingia através do buraco de um muro quebrado… é… não dispúnhamos de drive-in nem motel.

Fazemos qualquer negócio

Fazemos qualquer negócio

Gostava mesmo era do piano bar, onde logo ao chegar, ali sozinho, já começava a degustar os finos licores que a casa oferecia: Amaretto del’Orso, Drambuie, Sambuca Romana, Tia Maria, Liquore Strega, um mais delicioso que o outro. N’alguns dias até dava uma exageradinha e ficava meio ubriaco… adorava ouvir a linda vinheta de encerramento (às 19:00hs !!) da Radio Montecarlo que, se bem me lembro, simpaticamente dizia: “Ciao, a domani… sicuramente sarai con noi!… Ci sentiremo, per stare ancora insieme a te!.. Per ora chiudiamo… la Radio Montecarlo!”

Tom, piano & saudades

Tom, piano & saudades

Naquele piano bar também havia uma figura curiosa: o pianista, que era um senhor beirando os 60 anos e que adorava bossa-nova. Como eu era brasileiro… vira e mexe ele me chamava, tocava em seu piano de cauda preto as notas de alguma canção de Tom Jobim, cantava-a com um baita sotaque e me perguntava: come ti pare? Sta bene cosi? Eu, que de ritmo entendia muito menos do que ele, ria e respondia: ma si, certo, bravissimo! Ao final do expediente, lá pela meia-noite, voltava a pé o longo caminho até a pensão. Confesso que neste trajeto uma vez ou outra cheguei a chorar de saudades da minha casa no Brasil e dos meus familiares e amigos queridos… mas me consolava lembrando que estava ali por livre e espontânea vontade e que, afinal, tudo ia bem.

Sangue, areia & Hollywood

Sangue, areia & Hollywood

E eis que chegou o mês de junho, e com ele o verão. Foi então que conheci uma das exuberâncias da Europa que mais marcaram minha memória: durante todos os meses de verão, era exibida a céu aberto no imponente Circo Massimo uma série de 5 longa metragens por noite. A loucura começava por volta das 20:00 e só terminava ao raiar do dia. Aquilo era uma manifestação de arte e cultura que jamais imaginara, simplesmente me assombrava. Era legal demais ir lá, naquele recinto milenar que no passado fora palco de tanta atrocidade prá… ver filmes.

Arena da derrota

Arena da derrota

Espetáculo por espetáculo, em julho daquele ano foi instalado na Piazza del Popolo um imenso telão (outra novidade para mim) para que o próprio (il popolo) pudesse assistir às finais da Copa do Mundo. Com que emoção dirigimo-nos, nós um bando de brasileiros, para lá a fim de ver e celebrar (discretamente, prá não tomar porrada) a segura vitória da célebre Canarinho sobre o time da casa, a gloriosa Azzurra, já que precisávamos apenas empatar… Qual! o que vimos foi o povo romano gritando e gemendo de satisfação por roubar dos reis do futebol a possibilidade de caneco naquele mundial. Contrafeitos, mas não querendo perder a festa, seguimos a multidão, após o final da partida, numa estridente marcha até a Via Veneto, onde as festividades se estenderam até sei lá que horas… fui prá casa.

3x2: Paolo Rossi, o algoz

3x2: Paolo Rossi, o algoz

Emersão

Emersão

Enquanto isso, eu seguia trabalhando na RAI, dando voz à saga de Giuseppe Garibaldi. Foi lá que conheci a Valéria, brasileira que há anos morava em Roma e que, por sua vez, me apresentou o Emerson (Emerson Tomáz de Lima, hoje sócio-proprietário da Pousada Canto de Itamambuca), parceirão com quem viria a viver muitas aventuras futuras Europa afora. Conhecemo-nos no Fonclea, uma balada que fazia sucesso à época. O Emerson era descolado: após viver várias peripécias prá ganhar algum, na ocasião sobrevivia à custa da venda de spillette (bottons) na Piazza Navona, onde, aliás, situava-se a Embaixada do Brasil.

Piazza Navona

Piazza Navona

Dapertutto!

Dapertutto!

Foi ali que uma vez o Toni e eu decidimos conhecer a novidade da refeição por quilo… fiz um prato tão gigantesco que ao voltar para a mesa, equilibrando no topo a metade de uma berinjela, fui duramente admoestado pelo garçon, que esbravejou: “Ma è cosi che mangi a casa tua?”. Não era… pode ser que eu houvesse exagerado um tantinho. Então para evitar problemas (e porque era uma delícia), comíamos muita pizza rústica (ou pizza a taglio), que eram pizzas feitas em grandes formas retangulares e vendidas a peso em estabelecimentos à beira da calçada.

Em julho, os Rolling Stones se apresentaram em Nápoles. O Toni foi prá lá com o Emerson para um show que prometia ser indelével… e foi mesmo: ao pular de um muro ele caiu de mau jeito e quebrou a perna. Nada bom para quem vivia como nós… sem grana e sem amparo social. Mas “with a little help from his friends” as coisas se ajeitaram e a vida seguiu seu curso…

Pedras rolantes & ...

Pedras rolantes & ...

... gesso paralisante!

... gesso paralisante!

Enfim, algo do sul...

Enfim, algo do sul...

Então fui convidado por outro amigo brasileiro, o Lourenço, a ir com ele a Bari, onde iria visitar sua avó e tias que lá moravam. Aceitei, pois era a minha chance de conhecer um pouco o sul da Itália. E fomos. Uma vez lá fui muito bem tratado… tão bem que houve um problema: no almoço familiar que naquele domingo era em minha homenagem, o prato principal foi cérebro de carneiro… Miolos! E eu não posso sentir nem o cheiro de miúdos que passo mal… Não tive como contornar a situação a não ser dizendo a verdade, mas o clima ficou pesado. A avó dele não entendia como era possível eu rejeitar a iguaria. Foi bem constrangedor, mas não dava para fazer nada além de sorrir e elogiar os demais pratos servidos… Hoje, quando às vezes assisto ao “À Prova de Tudo” no Discovery Channel e vejo Bears Grylls comer qualquer coisa, de vermes a carniças… só posso invejá-lo.

Puxa...  que legal...

Puxa... que legal...

Mas em Bari houve outro fato pitoresco: ainda no trem de ida, estava eu tomando um ar no amplo espaço que fica no fundo do vagão quando interessei-me por um sinalizador preso à porta. Era um baita rojão de emergência e estava ali, dando sopa… Eu era cleptomaníaco nos meus tempos de Europa. Não tive dúvida: achei-o legal e o subtraí às “Ferrovie dello Stato”. Ficou na minha mochila durante toda a minha estada em Bari. No domingo à tarde, o dia em que estava indo embora (sozinho, pois o Lourenço iria ficar lá), quando me vi numa rua deserta resolvi meter fogo no bicho, só prá ver como era…

Idéia idiota...

Idéia idiota...

Não prestou: quando a mecha acendeu, o artefato começou a lançar um enorme jorro de fogo cor-de-rosa, fazendo um barulho ensurdecedor que parecia querer atrair a atenção de toda a cidade. Se me vissem com aquilo, estaria roubado – porque estava na cara que roubado era ele. Fiquei desesperado, sem ter como apagá-lo… e aquele escândalo parecia ter sido projetado para durar… Então, por muita sorte, vi um monte de areia e foi o que me salvou: enterrei-o num golpe e saí correndo, com medo que explodisse ou que aparecesse alguém. Foi o que hoje chamaria de uma idéia de jerico, mas não tenho do que me envergonhar… eram dias difíceis eheheh.

Por entre as azeitonas

Por entre as azeitonas

E fui voltando sozinho, de carona, subindo a costa leste italiana, rente ao Mar Adriático, com destino a Pescara, 300 quilometros ao norte, onde pretendia tomar um trem para Roma. Na ida havia conhecido umas garotas, da cidade de San Severo, e uma delas me convidara a ir lá e me dado o número de seu telefone. Então, fui. Mas dei com os burros n’água, porque lá chegando descobri que ela nunca estava em casa. Acho que se arrependeu e me evitou… Segui viagem por entre os olivais e acabei em Pescara, onde passei o dia perambulando e esperando a hora de embarcar no trem, que através da madrugada me levaria adormecido à capital, rasgando a Italia ao meio no sentido leste-oeste.

La lupa romana

La lupa romana

Eu & Rodolfo no "Regno"

Eu & Rodolfo no "Regno"

Quando cheguei à cidade de Rômulo e Remo as coisas melhoraram. Arranjei um emprego de garçon num restaurante muito legal, “Nel Regno di Re Ferdinando”, de culinária napolitana e onde já trabalhava o Rodolfo. Entrava às 17:00 e ia até o último cliente, o que às vezes podia ser bem tarde… Mas era supimpa. A comida era deliciosa, a fartura imensa e eu comia que nem um porco, sempre que tinha a oportunidade.

Nunca tinha visto...

Nunca tinha visto...

Que sensação abrir aquelas latas atum, contendo uma única posta com diâmetro de 30 centímetros por uns 10 de altura. Uau… Comia e bebia (gaseosa, uma espécie de soda) tanto que uma noite, quando sorvia mais uma garrafa aos borbotões para combater o calor insano, a dona do restaurante, Marilina, me viu e exclamou: “Ma che troppa pancia hai!” (mas que barriga enorme você tem!). Olhei prá baixo e… daquele dia em diante a vida nunca mais seria a mesma. Eu tinha só 22…

Via dei Banchi Nuovi, 8

Via dei Banchi Nuovi, 8

O restaurante ficava na Via dei Banchi Nuovi, uma viela próxima a Trastevere, o bairro boêmio de Roma, e era freqüentado pela elite da capital. Lá iam de artistas a senadores. Lembro-me de ter servido Monica Vitti. O trabalho era estafante, nas noites de casa cheia não se parava um minuto sequer, mas até que era divertido. Uma tarde, quando me preparava para ir trabalhar, o Toni chegou em casa com um baseado… dei um tapa (tá bom…talvez mais de um…) e fiquei tão doido que não conseguia mais sair. Me bateu medo de morrer atropelado. Naquele dia não sei o que cheguei mais: atrasado ou alucinado.

Ana Maria Kulcsár

Ana Maria Kulcsár

Já entrara setembro e, numa sequencia de folgas no restaurante, fomos, o Toni e eu, fazer turismo na Hungria, onde pretendíamos contatar a avó de uma ex-namorada minha, a Ana Maria (que faleceria num acidente de moto em 1997) e que morava em Komáron, no norte do pais. Pegamos o trem na Stazione Termini e fizemos escala em Zagreb, na então Iugoslávia (hoje Croácia), onde dormimos na estação aguardando a partida do outro trem, na manhã seguinte.

Zagreb lotada...

Zagreb lotada...

...de trens

...de trens emparelhados

Mas quando clareou o dia e nos dirigimos para a plataforma, surpresa: havia nada menos do que 7 trens emparelhados e nós não sabíamos qual se destinava a Budapeste. Loucura total, a hora passando e nós tentando obter informações dos guardas que não falavam italiano, nem inglês, nem porra nenhuma que não fosse a lingua deles. Por um triz não perdemos a condução, que saiu pontualmente às 07:00 da matina. Hungria, aqui vamos nós!

O Lago Balaton

O Lago Balaton

Era ainda plena época da “Cortina de Ferro” e na fronteira pudemos constatar um pouco da ternura com que os policiais húngaros tratavam os chegantes. Prá pedir o passaporte, o cara veio dando joelhada e só faltou sacar a arma. Por sorte (e juízo) nossos vistos estavam em dia. No caminho até a capital, do trem pudemos ver o longo e lindo lago Balaton, com muita gente divertindo-se às suas margens.

Keleti Pu: terminal e cama

Keleti Pu: terminal e cama

E enfim chegamos à Keleti Pu, a imponente estação central de Budapeste. Imediatamente saímos em busca de um hotel, uma pensão, um alojamento qualquer e… nada! Alta temporada, tudo lotado! Na Hungria só se conseguia acomodação naquele tempo dirigindo-se a uma central de reservas… não adiantava ir diretamente aos estabelecimentos… Desespero! Estávamos cansados, famintos, doidos prá encostar as mochilas, tomar um banho e passear pela cidade, mas… nada disso. Ficamos perambulando, carregando peso prá lá e prá cá.

Toni & mala

Toni & mala

O Danúbio & eu

O Danúbio & eu

Nesse dia, mesmo estropiados, deu prá conhecer um pouco da realidade de uma capital que vivia sob o jugo soviético. Tudo era cinza, sem propagandas, sem cores, sem nada daquilo que estávamos habituados a ver sob o capitalismo… Entramos num supermercado e nas prateleiras havia um tipo de cada coisa: um tipo de sardinha e só, um tipo de detergente e só… Entramos numa doceria e para beber havia uma jarra de água sobre o balcão. Era tudo simples demais, até para um brasileiro (em 2001, 19 anos depois, voltei lá e tudo estava mudado: o capitalismo e suas cores já haviam dominado a paisagem).

Pandemia

Pandemia

Naquele dia veio a noite e nos ajeitamos como pudemos no chão duro da estação, por colchão uns pedaços de papelão. Pela manhã estávamos cansados, estressados e desiludidos… lutávamos por permanecer íntegros… até que o Toni desistiu e disse que estava voltando pra Roma.  Não consegui demovê-lo.  Pensei em permanecer e tentar ir por conta própria até a casa da vovó, mas se até ali já havia sido difícil em dois, que dirá sozinho… lamentando, resignei-me em voltar com ele.

Back to the road!

Back to the road!

Toni, em 82

Toni, em 82

Na volta, topamos no trem com um maluco que vinha pela ferrovia transiberiana desde Pequim com destino a Roma, uma viagem que corta a Mongólia e a Rússia de fora a fora, estendendo-se por mais de 9 mil quilômetros. Isso é que é aventureiro. No fim, fiquei com uma certa inveja do Toni (que hoje é um respeitável pai de família em Nova Iorque e dono dos restaurantes Maxxel’s e PastaVino), que pegou uma menina no trem de ida e outra no trem de volta. Nos idos de 1982 o ragazzo mandava bem…

Mudança de ares...

Mudança de ares...

Por fim, decidi aceitar um convite que o Emerson me houvera feito meses antes, de ir tentar a vida em Paris. Perguntei-lhe se o convite ainda estava de pé, ele disse que sim mas que não havia mais como me esperar porque já estava de partida. Então combinamos que ele partiria na frente e nos encontraríamos em Lugano, na Suíça, onde ele tinha amigos e de onde seguiríamos juntos. A idéia era que se ele não estivesse me esperando na estação quando eu chegasse, deveríamos ambos ir ali todas as manhãs, às 10:00 em ponto, até que coincidisse de nos encontrarmos.

Roma - Lugano

Roma - Lugano

Sempre avanti...

Sempre avanti...

E foi assim que parti sozinho de Roma, num dia de outubro, início de outono, com destino a novas aventuras no hemisfério norte. Mas quando cheguei a Lugano e não vi o Emerson na estação fiquei mal… apesar do combinado, o emocional falou mais alto e me vi sozinho no meio de uma roubada… para criar coragem, ali mesmo escrevi uma carta para o meu amigo Leonardo, no Brasil, postei-a e fui para o centro da cidade, onde havia uma feira, festa, algo assim. E foi então que fui “achado” pelo Emerson e pela Cristina, sua amiga, enquanto comia um lanche, sentado num banco em plena rua. Ufa, que alívio!  Como às vezes é reconfortante ver gente conhecida!

Oba! era dia de festa...

Oba! era dia de festa...

Rifugio nella montagna

Rifugio nella montagna

E em Lugano nossas novas aventuras já começaram… ao cair da noite conhecemos duas garotas, ambas suíças, que se engraçaram conosco e nos levaram para a casa de uma delas, que era uma espécie de chalé, no alto de um morro, onde havia muitas castanheiras. Tudo absolutamente charmoso. Ao passarmos pela porta da sala, que estava aberta, ela nos apresentou aos seus pais, que assistiam à TV e não pareciam nem aí que a filha e a amiga estivessem levando aos aposentos superiores dois terceiro-mundistas desconhecidos. Eu ficava maravilhado com estas demonstrações de modernidade. E lá ficamos até alta madrugada, quando o Emerson veio me chamar para partirmos, que nosso trem para Stuttgart sairia logo mais ao alvorecer. Fazia frio, estava bom demais ali… acho que nunca na vida saí de algum lugar tão contrariado.

Prá Paris, via Alemanha

Prá Paris, via Alemanha

Alemanha sempre moderna

Alemanha sempre moderna

E assim seguimos para Stuttgart, minha primeira visita à Alemanha. Lá chegando, tratamos de comer uma salsicha com cerveja, para entrar no clima local, e procurar pela Christine, minha ex-namorada dos tempos de Dante Alighieri, em Roma. Conseguimos que um transeunte alemão fizesse a ligação telefônica, mas não deu certo e não pudemos encontrá-la. Fiquei triste, mas por aqueles dias a tristeza durava pouco… De Stuttgart lembro-me bem do Metrô, que impressionava por conter na mesma linha trens com várias destinações. E também lembro de ter visto muitas fábricas, nos trechos fora dos túneis.

Scwharzenegger incompreensível...

Scwharzenegger incompreensível...

À tarde, prá descansar entramos num kino (cinema), no qual assistimos a “Conan – O Bárbaro”. Mas como o filme era em alemão, não deu prá entender patavina. À noite retomamos a ferrovia… s’imbora prá Paris.

Da Cidade Eterna para a Cidade Luz

Da Cidade Eterna para a Cidade Luz

E fomos! Mas aí… aí já é outra história… das melhores, por sinal.

Saudosamente...

Saudosamente...

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MINHA VIDA EM PARIS

Enfin... Gare de l'Est

Enfin… Gare de l’Est

E foi assim que naquela tarde de outubro de 1982 desembarcávamos, o Emerson e eu, na Gare de L’Est, em plena Paris, para aquele que viria a ser (até agora, porque muito ainda pode acontecer…) o ano mais incrível da minha vida. De cara já ordenamos, ali mesmo no bar, um croissant avec du cafè au lait cada um e, assim abastecidos, dirigimo-nos à saída da estação. Qual não foi minha surpresa quando, ao iniciar a subida da escada rolante, ouvi um grito, em alto e bom brasileiro: “NUM ‘CREDITO!”.

Tipo assim...

Tipo assim…

Olhei prá cima e vi o Toninho (Antonio Hélio), um conhecido  de Santo André, que descia pela escada paralela e havia me reconhecido. Assim, com apenas alguns minutos de Cidade Luz no meu currículo, eu já tinha um amigo na metrópole  (o Toninho, infelizmente, viria a falecer de choque anafilático em Santo André, décadas após).

Graças a ele, tomamos conhecimento de onde estava instalado o Sérgio, um dos meus parceiros da viagem inicial. E ele estava no 11ème arrondissement, mais precisamente no nº 45 da Rue Alexandre Dumas, onde viviam vários brasileiros num apartamento de um dormitório, que havia sido descolado pelo João (João Figueiredo Jr.), campo-grandense que viria a se tornar mais um brother.  Dentre eles, estava também o França (Valmir Krauss, hoje na Flórida), outro que eu conhecia da terrinha…

João Figar, em  82

João Figar, em 82

Murielle

Murielle

Era o início da era Miterrand e de sua França socialista, mas no momento importava mais encontrar um local onde se hospedar, uma vez que o apê dos conterrâneos já estava abarrotado… O Emerson tinha para onde ir: a casa da amiga que em Roma lhe havia sugerido a mudança para Paris. Ela se chamava Murielle e morava em Bourg-la-Reine, um banlieue (subúrbio) ao sul. Mas eu ainda tinha de me arranjar… Provisoriamente, fui prá um Albergue da Juventude na Place d’Italie, onde não dava prá ficar por muito tempo, devido ao preço. Mas quebrou o galho durante uns 3 dias, após o que me mudei para uma pensão bem mais legal no nº 46 da Rue de Vaugirard, de frente pro Jardin du Luxembourg.

Exuberante!

Exuberante!

Pensão da Vaugirard

Pensão da Vaugirard

Escurinho & Etelvina

Escurinho & Etelvina

Ali, onde fiquei hospedado por cerca de um mês, tudo foi muito bom. O lugar era ótimo e conheci pessoas interessantes, dentre elas um argentino gente fina (sim, existe), chamado Fernando (Fernando Méndez Casariego), que me deu várias dicas sobre a cidade e o idioma. Por esses dias tinha na mochila, não atino o porquê, uma fita com velhos e deliciosos sambas brasileiros que me fizeram ótima companhia… de dois deles me recordo: “O Escurinho” e “Acertei no Milhar“. Era engraçado andar por Paris ouvindo isso…

Nosso apê!

Nosso apê!

Até que lá para o final de novembro vagou um colchão no apê dos amigos e mudar para lá convinha. Não por conforto, já que quando cheguei éramos em 6 marmanjos dormindo juntos: João, Sérgio, Toninho, Valmir, Baiano e eu. Mas durou pouco esse sufoco: logo 3 deles se descolaram para outras paragens e ficamos apenas o João, o Sérgio e eu.

Rue Alexandre Dumas

Rue Alexandre Dumas

O apê, embora minúsculo, até que era legal… bem situado, defronte a um açougue de carne de cavalo, a quitanda de um árabe e próximo às estações do metrô Alexandre Dumas e Nation. A mobília é que eram elas… não tínhamos nada, apenas colchões de solteiro, duas cadeiras e uma espécie de carteira escolar encontrada no lixo, porque em Paris as caçambas espalhadas pelas ruas podiam conter verdadeiros tesouros…

Putz...  e a senha?

8567? 7568? 5678? putz…

Só foi difícil a primeira noite: como cheguei de madrugada e esquecera a senha para abrir o grande portão do prédio, fiquei prá fora – e acabei tendo de voltar à estação prá dormir na companhia dos pitorescos clochards, que adormeciam abraçados às suas garrafas de vinho

Tem lugar prá mais um?

Ei… lugar prá mais um?

Cité Universitaire de Paris

Cité Universitaire de Paris

Mas aí sim, devidamente instalado, começou de fato a minha vida parisiense… para comer ia diariamente ao restaurante da Cité Universitaire, onde eram servidos bandejões “estudantis” a um bom preço. Era longe porém prático, já que a cidade contava, além do metrô, com trens rápidos de longo percurso, os RER.

Partout !

Partout !

Também havia espalhados pelos bairros outros restaurantes universitários, todos acessíveis e com direito a queijos brie.  Gostava muito do de Mabillon.  O problema é que mesmo baratos custavam dinheiro. E os francos que obtivera ao cambiar as liras que trouxera de Roma aos poucos se esvaíam, até porque a vida era mais cara em Paris.

sem  os damascos, bem entendido.

… só que sem os damascos

Bir Hakeim

Bir Hakeim

Então o jeito era, em pleno frio do outono, acordar cedo e ir consultar os anúncios de emprego que ficavam afixados em colunas num centro de apoio conhecido por Bir-Hakeim, praticamente aos pés da Torre Eiffel. Mas era uma merda: ficava lotado de estrangeiros se empurrando, esperando a abertura dos portões.

Vamos trabalhar...

Vamos trabalhar…

Quando estes abriam, a boiada estourava prá anotar os telefones dos parisienses que procuravam por domésticas, baby-sitters, garçons e coisas do gênero. E depois saíam todos esbaforidos à procura do telefone público mais próximo. Percebi que daquele jeito nunca iria conseguir nada de interessante, porém ainda não tinha nenhuma outra boa idéia. Assim, continuava indo lá…

Mon chèr Beaubourg

Mon chèr Beaubourg

Difícil era aprender o francês. Não que se trate de uma língua árdua, mas é que no começo tudo é difícil… Então passei a ir todas as tardes ao Beaubourg, nome carinhoso pelo qual é conhecido o Centre Georges Pompidou, para tomar lições gratuitas de francês, gravadas em fitas e à disposição dos estrangeiros. A arquitetura do local já me impressionava, nunca vira algo assim: um edifício enorme, com a tubulação exposta no exterior e pintada em cores vibrantes.

très jolie !

très jolie !

Alice no país das maravilhas

Alice no país das maravilhas

Dentro, a surpresa era ainda maior: uma moderníssima mescla de biblioteca, videoteca, discoteca, hemeroteca, salas de exposições, lanchonete e outros que tais, tudo num ambiente permissivo e iluminado pelo fato de as paredes serem de vidro. Eu adorava ir ali.

Superbe !

Superbe !

E foi ali que logo nos primeiros dias, enquanto estávamos o Emerson e eu explorando os livros da biblioteca, uma linda francesinha sorriu para mim. Ao apresentar-me, ela me disse chamar-se Isabelle e convidou-me para tomarmos algo no bar, lá embaixo na calçada. Certamente fui, mas… como conversar sem saber uma palavra de seu idioma? Até hoje não sei, mas sei que duas pessoas interessadas sempre se entenderão numa situação dessas.

ainda que em esperanto...

ainda que em esperanto…

Rodas do trem?

Rodas do trem?

E lá íamos pelas ruas da milenar capital – ou por baixo delas, já que o metrô de Paris é onipresente. Durante minha estada na cidade, minha relação com o metrô sempre foi muito estreita – desde o primeiro dia, quando me embasbaquei ao vê-lo rodando não sobre rodas, mas pneus. Íamos com ele para todos os cantos e vivíamos em suas velhas e charmosas estações.

Estação e palco

Estação e palco

Então tivemos a idéia de aproveitar isso para ganhar algum e partimos para cantar em suas dependências… N’algumas vezes quem tocava o violão era o Emerson, noutras o João, e em todas eu cantava junto. Desfiávamos nosso repertório de MPB e sempre utilizávamos a técnica de “quem não tá na cantoria joga a moeda prá chamar freguesia”. Não dava lá muita grana… mas quebrou um galho enquanto não tínhamos nada. E seguramente serviu para estabelecermos muitas novas amizades.

Los 3 amigos

Los 3 amigos

Velhinho, porém enxuto !

Velhinho, porém enxuto !

Foi numa dessas andanças que uma tarde, ao adentrar o submundo do metrô deparei-me com uma simpática antiguidade: a título de comemoração de alguma data que já não lembro, haviam posto prá rodar uma composição do antigo metrô de Paris, carinhosamente chamado de “L’Artiste”.

João & Walter

João & Walter

Pois comemorações havia quase todos os dias…  tinha a macarronada na casa dos amigos italianos, o cous-cous marroquino na casa de amigos árabes (que se comia com as mãos, todos sentados em roda), o João que nas reuniões vivia dizendo “agora é a tua vez de levantar e ir comprar o vinho” e os romances, que insistiam em acontecer.

Alline

Alline

Em dezembro, conheci uma atraente morena de nacionalidade argelina, chamada Alline, e passei a dormir mais na casa dela, em Couronnes, do que na minha. Foi ali que fizemos uma festa em que todos se pintavam uns aos outros e virou uma salada geral, já que não havia como evitar que rolassem drogas pesadas, até heroína… Incrivelmente todos sobreviveram, inclusive eu.

Pére-Lachaise

Pére-Lachaise

Quando não ia de metrô, para chegar à casa de Alline eu tinha de passar defronte ao intrigante Cimetière du Père-Lachaise… até que um dia resolvi explorá-lo. Com que espanto fui adentrando aquele enorme e secular recinto, diferente de todos os cemitérios que já havia visto.

Morrison's grave

Morrison’s grave

Père-Lachaise era admirável, raízes enormes de árvores por sobre túmulos, gente famosa enterrada ali, como Edith Piaf, Alan Kardec, Jim Morrison e muitos outros. Eram tantos os mortos ilustres que à entrada era distribuído um guia de ruas com a localização das tumbas das celebridades… No jazigo de Morrisson, anos após sua morte havia fãs em campana. No de Kardec, uma profusão de flores frescas.

& Kardec's

& Kardec’s

Café

Café

Mas não só lá… Paris transpirava celebridade por todos os lados. Quão prazeiroso nos era sentar num daqueles pitorescos cafés de esquina, com seus garçons com aventais até a canela, e imaginar que por ali – quem sabe – já passara Proust, Freud, Maupassant, Molière ou qualquer outro luminar cujo nome estava em alguma daquelas sugestivas placas de rua.

Tous mes idoles...

Tous mes idoles…

Très belle!

Très belle!

A arquitetura da cidade, com seu estilo Belle Époque, evocava dias de intensa atividade artística e cultural num passado não tão distante. Mas Paris era muito mais velha que isso, e qualquer coisa poderia ter acontecido naquele chão desde os tempos em que a região se chamara Lutèce.

Antiguidade...

Antiguidade…

O barato sai caro...

O barato sai caro…

No dia 3 de janeiro de 1983, talvez compelido pela emoção do ano novo, fui a uma cabine telefônica que ficava na esquina da nossa rua, Alexandre Dumas, com a Avenue Phillippe Auguste e apliquei no telefone o “Truque do Durex”. Era uma artimanha para falar sem pagar, bastando inserir na ranhura de 5 francos uma moeda de 1 franco presa em linha de costura com fita adesiva. Quando dava contato era só imobilizá-la na posição, prendendo a linha no corpo do telefone com outro pedaço de fita. Funcionava que era uma beleza. Cheguei lá devia ser uma da manhã e comecei a fazer ligações para amigos de vários países onde o horário local permitisse, sobretudo do Brasil.

Devassável...

Devassável…

Ocorre que a cabine era tripla, e as três divisões tinham apenas vidro entre uma e outra. Então sucedeu que, lá pelas quatro da manhã (é… já estava lá há umas 3 horas…), entrou na cabine ao lado um senhor negro. Não fiz muita questão de esconder o que estava fazendo, mas isso provou ser um dos maiores erros que cometi na Europa. Não se passaram dez minutos e já um homem abria a porta com violência, dizendo “C’est la Police”. Gelei, mas era tarde demais.

Hmmm... fudeu

Hmmm… fudeu

O policial pediu minha “Carte de Sejour” (visto de permanência). Eu não tinha. E então declarou “Vous venez avec moi, vous êtes arresté!”. (O senhor vem comigo, está preso!). E eu estava em cana! Ao me carregar pelo braço até a viatura, onde outro policial aguardava, ele me disse: “Quem te entregou foi o negão”. Não fazia grande diferença… o fato é que quem cavara o buraco para cair dentro houvera sido eu mesmo.

Durma se puder...

Durma se puder…

Fui levado para a delegacia e jogado numa cela juntamente com uma senhora que para louca faltava pouco. Deviam ser cinco da manhã e me disseram que às nove me levariam para outro local. A mulher gritava e eu não me conformava de ter feito semelhante besteira (ter-me deixado flagrar, bem entendido). Era uma zueira. Minha cabeça estava a um milhão e apesar disso nada havia que eu pudesse fazer senão esforçar-me por esfriá-la.

Tá com pressa de que?

Tá com pressa de que?

Mas em vão. Quatro horas após, quando deu nove e cinco comecei a esbravejar com os carcereiros, argumentando que eles haviam prometido me tirar dali às nove horas. Eles riam. Por fim, lá pelas dez, fui algemado à doida senhora e levado numa viatura a outro local, onde fui encarcerado sozinho numa cela. Ali fiquei sem saber o que viria, mas desconfiando que seria deportado.

Manhê!!

Manhê!!

Quando me vi em silencio, comecei a ficar mal, deprimido, assustado, desesperado. Fui piorando! Não tinha a menor idéia de quando iria sair dali, se iria sair dali, ou o que mais aconteceria. Foram alguns dos piores momentos que já vivi. Por fim, quinze horas após ter sido pego, quando eram sete da noite vieram me buscar e me levaram à presença do delegado. Ele me disse que o telefone seria revisado, a conta das ligações calculada e a fatura me seria enviada. Se eu pagasse tudo bem, caso contrário voltaria a ser procurado pela policia. Dito isso, me soltou. Atônito, fui prá casa e devo ter dormido umas 24 horas seguidas, ao final das quais acordei ainda estressado…

Era aqui, mas há era...

Era aqui, mas já era…

Entrou fevereiro, fazia frio e em alguns dias chegava a cair uma neve fina. De tanto procurar, acabei encontrando um emprego no Bar du Bac, que ficava na Rue du Bac: todas as tardes, lá pelas 18:30, antes do bar fechar eu chegava, virava todas as cadeiras por sobre as mesas, varria o chão e o esfregava com um pano molhado. Era um serviço sujo, mas alguém tinha de fazê-lo. Por essa época, prá ganhar uns trocos o Emerson andava dando uma de animador cultural infantil em L’Haÿ-les-Roses, e nós vivíamos pensando em formas de aumentar os proventos.

Hummm... preciso de grana!

Putz… grana!

João Vagareza

João Vagareza

Um amigo, o João Vagareza (João Antonio dos Santos), antes de partir para o Brasil havia me deixado uns moldes de gesso e algumas ferramentas para a fabricação de flautas de barro. Ele me disse: “isso me sustentou em Londres, então quero deixar para um amigo”. E veio uma manhã especialmente para me dar uma aula sobre técnicas de fabricação. Aprendi, mas como era meio difícil fazê-las havia encostado toda aquela tralha.

Porém uma tarde, enquanto tomávamos une demi bière num café do Boulevard Saint-Germain, surgiu uma conversa entre o Emerson e eu que selaria nosso destino na cidade…

Ótima idéia! Vamos bebemorar...

Boa idéia! Vamos bebemorar.

Eu – Cara, precisamos unir forças prá ganhar dinheiro!
Ele – O que precisamos é fazer algo prá vender…
– Que tal aquele brinquedo de madeira… aquele macaquinho que fica pulando num barbante quando a gente aperta as traves?
– Sei… mas e aqueles moldes de flautas que o Vagareza te deixou?
– Tão lá… nunca usei.
– Então vamos tentar, pô!

A nossa era parecida

A mais parecida…

E partimos para a primeira tentativa de fabricar ocarinas, artesanato de barro que com o formato (no caso das nossas) de pequenas tartarugas eram as fiéis depositárias de nossa esperança de dias melhores… Fomos à loja Rougier & Plé, compramos um saco com 5 kg de argila cor de areia e fomos para casa por em prática os sumários ensinamentos que o Vagareza havia me passado… Após várias frustrações enfim conseguimos fabricar uma ocarina que, quando soprada, produzia som.

Marché aux puces de Paris

Marché aux puces de Paris

Êba! Faltava encontrar um forno onde cozê-las. Batalhamos até conseguir isso também. E então partimos para tentar vender nossa primeira fornada no Marché aux Puces (mercado das pulgas) de Saint-Ouen, pela Porte de Clignancourt. Ficamos lá uma tarde inteira e quando estávamos quase desistindo, eis que surgiu um comprador, disposto a desembolsar 4 francos pela novidade.

Sim, dá prá viver com isso...

Sim, dá prá viver com isso…

Vendemos a primeira das milhares de flautinhas que encheriam de acordes o ar de Paris e nos proporcionariam um estilo de vida alternativo que foi perfeito para curtirmos os melhores dias de nossas vidas, com dinheiro, liberdade, amizades, romances, festas e loucuras em geral.

Voilà le Printemps

Voilà le Printemps

Não bastasse isso, fui surpreendido pela primavera! Foi-se a neve, o frio e sem aviso Paris explodiu em flores, cores, artes e cultura prá todos os lados. Desatento à troca das estações, demorei um pouco prá entender o que estava acontecendo. Em cada esquina um show… mágica, mímica, música, pintura.

Beaux-arts

Beaux-arts

Tous les couleurs

Tous les couleurs

Tous les tons

Tous les tons

Em cada vagão do metrô alguém dando algum espetáculo. Em cada estação, ponto turístico, por toda a cidade multiplicavam-se os vendedores de artesanatos – e dentre eles estávamos nós, com a nossa mercadoria.
Bach? Chopin?

Bach? Chopin?

Cena comum...

Cena comum…

Era realmente uma revolução o que estava acontecendo. Parecia até que havia mais gente nas ruas! Eu, que já vinha simpatizando com a capital francesa havia 5 meses, apaixonei-me de vez… não podia acreditar no que via. Era bom demais estar ali, participando daquele êxtase sensorial.

Atelier

Atelier

Aí sim passou a dar gosto nosso métier de artesãos / vendedores de ocarinas. Pelas tardes nos reuníamos em casa para produzir… Era um trabalho delicioso de manipular a argila e dar-lhe as formas de um instrumento musical que era ao mesmo tempo um brinquedo. Contribuía a tornar estas sessões de trabalho interessantes o fato do João (futuramente João Figar), que vinha de uma linhagem de artistas sul-matogrossenses que incluía Almir Sater, Geraldo e Tetê Spindola, tocar divinamente o violão e fazer um fundo musical de primeira linha com canções do centro-oeste e do resto do Brasil.

Emerson en jouant

Emerson en jouant

João en chantant

João en chantant

Aliás, foi por esses dias que eu, em estreita convivência com o Emerson e o João, ambos violonistas, passei a interessar-me por aprender o instrumento. Com a ajuda do Emerson, desbravei os primeiros acordes (de Rain and Tears, de Demis Roussos), venci as dificuldades iniciais e, bem ou mal, toco até hoje.

Chiquinho

Chiquinho

Sérgio

Sérgio

Mas havia outros amigos que estavam sempre por lá… O Vanderlei, O Chiquinho, além dos antigos habitantes do apê: Toninho, Valmir e Baiano. Foi inclusive por esta época que, motivados pelo nosso sucesso nas vendas, o Chiquinho e o Sérgio decidiram partir, eles também, para a confecção e venda de ocarinas. Mas a sociedade composta pelo Emerson e eu era mais regular… produzíamos e vendíamos todos os dias, quase sem exceções.

Elcião ceramista

Elcião ceramista

Emersão artesão

Emersão artesão

S'imbora trabalhar...

S’imbora trabalhar…

Se fabricá-las já era bom, vendê-las é que era nossa grande curtição. Quando caía a noite, pegávamos o lote de flautas que já estava seco (por sugestão do Emerson, havíamos abolido a etapa do forno), colocávamos todas numa bolsa juntamente com um veludo cor de vinho e partíamos para os pontos turísticos da cidade. Lá chegando, descolávamos uma caixa de papelão qualquer, a cobríamos com o veludo e ali dispúnhamos nossa produção. Enquanto eu tocava, o Emerson abordava a clientela. Era sucesso quase sempre.

Rara foto da empresa...

Rara foto da empresa…

La nuit c'est un enfant!

La nuit c’est un enfant!

Aprendi a tocar várias canções que, no timbre agudo da ocarina, chamavam a atenção de quem quer que passasse por perto. Executava Greensleeves, can-can e até a marselhesa (que por sua letra belicista despertava antipatia nos franceses jovens).
O dia tá ganho!

Ueba! O dia tá ganho

Enquanto isso, o Emerson ia atendendo a todos, vendendo a mercadoria e enchendo os bolsos de valorosas notas e moedas.  Muitas vezes juntava gente, muitos turistas estrangeiros, e era sempre uma curtição. Ao final fechávamos a banca, repartíamos a féria auferida e partíamos rapidamente prá alguma gandaia, já que quase diariamente havia uma…

O "Banco do Brasil"

O “Banco do Brasil”

A essa altura já tínhamos feito muitos amigos, e toda noite nos reuníamos para passar ótimos momentos juntos. Havia um local onde vários brasileiros se concentravam, o qual denominamos “Banco do Brasil”: ficava defronte “La Croissanterie”, no 168 do Boulevard St. Germain e era na verdade um simples banco de madeira, desses de calçada.

Ali era um ponto de encontro que vivia lotado de cores, já que nossa presença acabava por atrair amigos de todas as raças, numa saudável confraternização cosmopolita.

Presque toutes les nuits

Presque toutes les nuits…

Desde sempre...

… desde sempre

Paris era uma eterna festa e nunca fui tão notívago quanto neste ano. Até virei poeta, não ia a lugar algum sem carregar meu caderno de versos o qual, infelizmente, perdi e só sobraram duas obras, a primeira não das mais alegres:

 

Nossa realidade / é chama que arde / e roubando este tema / do teu poema / eu quero dizê-lo: / adorei tê-lo / hoje, sombria tarde

e a segunda, uma alegoria:

 

Um vento refresca a Itália
Embala-a qual fosse um cântico
E cheira a café-de-coador
E vem do outro lado do Atlântico
De fato a fascina, esse vento
Que traz qualquer coisa de etéreo
Que lembra feijão com arroz
E vem lá do outro hemisfério
.
A Itália, menina, adormece
Desnuda, sonhando contente
Entrega-se aos braços de um vento
Que é filho d’outro continente
Não sabe a Itália, tão pura
Que o vento tem más intenções
E dorme, ofegante e segura
Não o sente encostar-lhe os culhões
.
Mas eis que estes são encostados
E quente é o contato cutâneo
E goza e geme a Itália
No meio do Mediterrâneo
E ficam assim, vento e Itália
Os lençóis a dupla ensopa
A Itália, coitada, dormindo
E o vento envergonhando a Europa
.
No entanto é o sol moralista
E logo levanta a alvorada
A Itália desperta, confusa
Do vento ninguém sabe nada
E passam-se os anos e os séculos
Países tem gestação lenta
Mas chegam as dores à Itália
Que, incauta, ainda lamenta:
.
“Ah vento, ah vento malvado
Infame, vil e pequeno
És maldito por teres sujado
As minhas costas no Tirreno
E não só as minhas costas sujastes
Também minha honra e meu leste
Pois ‘inda se sente o teu cheiro
De Bríndisi até a Trieste”
.
Alheio às lamúrias da Itália
O parto, porém, se inicia
Alarga-se o colo de Roma…
… a Régia Calábria se amplia
A Itália, sofrendo, se agita
E um vento lhe vem à lembrança
Enquanto desponta no mundo
Sicília, a bela criança
.
Do pai nunca mais ninguém soube
A Itália o maldiz e desdenha
Mas eis que milênios depois
Surgiu a pequena Sardenha
Porém são segredos da Itália
Que a nós não nos cabe saber
Pois negra é a noite no mar
E o dia demora a nascer
.
O VENTO E A ITÁLIA

.

Rubão, Elcio, Caderno & Emerson

Rubão, Elcio, caderno & Emerson

Rubão, Tania, Elcio & seu caderno

Rubão, Tania, Elcio & caderno

Fecha que lá vem o rapa!

Fecha que lá vem o rapa!

Mas nem tudo eram flores… o som persistente da ocarina podia ser irritante, nós éramos imigrantes ilegais e mais de uma vez tivemos problemas. Numa feita foi um balde d´água vindo de uma janela indiscernível, na Rue Saint Andre des Arts… doutra foram os seguranças de um magazine popular, em Barbés-Rochechouart, que chegaram chutando a banca e espalhando cacos de flautas prá todo lado. Emersão quis gritar, mas de cima eu falei: “Os home tá com a razão, nóis arranja outro lugar”.  Porém o perigo mesmo era a polícia. Quando eles conseguiam nos surpreender não só perdíamos a mercadoria como acabávamos em cana. Já estávamos até nos acostumando.

Riacho do navio, corre pro Pajeú...

… allez, les amis!

E não só pela venda das ocarinas éramos alvos das autoridades… Uma vez estávamos tocando e cantando numa esquina quando começou a juntar gente, o João segurou a onda e depois passou o violão para o Emerson que, com seu extenso repertório de baiões, transformou aquilo num verdadeiro carnaval, com gente de todas as nacionalidades pulando alucinadamente.

Um pouco menos...

Um pouco menos…

Já eram altas horas quando chegaram les flics (os policiais)… lançaram bombas de gás lacrimogêneo e prenderam o tocador com algemas, violão e tudo. Inconformada, a turba seguiu o furgão até a delegacia e exigiu, aos berros, que o soltassem – o que acabou acontecendo ao cabo de algumas horas de pressão popular. Isso era inacreditável para mim, um brasileiro criado na ditadura.

Vive la fête!

Vive la fête!

Quando não eram nas ruas, as festas eram nos squatters, prédios abandonados invadidos. Essas eram as melhores, onde de tudo rolava um pouco. Teve uma em que rolou um cantil de sabe-se lá o quê que deixou todo mundo aparvalhado… numa outra o Emerson fez a proeza de ficar com duas mulheres em sequencia na mesma noite, era uma fartura. E todas iam até o dia raiar.

Ueba, uma cama!!

Ueba, sexo!!

Lembro-me de uma em especial porque foi num barco, ancorado em algum ponto a montante do Sena, a oeste da cidade. O astral estava ótimo, era minha primeira festa num barco e acabei enrolado com uma brasileira que estava tão doida quanto eu. Em busca de privacidade fomos para o deck superior, onde encontramos um quarto vazio com uma mais que convidativa cama de casal. Mal o havíamos invadido e o dono da festa apareceu furibundo, expulsando-nos dalí, naquilo que hoje denominaríamos uma típica atitude empata-foda. Aliás literalmente, porque cortou nosso barato… Até hoje acho que quem não quer ter seus aposentos invadidos que os tranque ou que não dê festas.

Kalunga, anos 80

Kalunga, anos 80

Era já final de abril e tive a grata surpresa de receber a visita de meu querido amigo Carlinhos Kalunga que, vindo do Brasil via EUA em companhia de outro amigo brasileiro, o Bira, chegava à França para tocar na banda de Roberto Leal, famoso artista português. Acompanhei-os até Arpajon, onde estavam hospedados, e pude empregar meu incipiente francês para auxiliá-los na compra de instrumentos, no Boulevard de Clichy, em Pigalle. Embora tosco, por essa época meu francês já dava pro gasto… Foi muito bom tê-los ali e saber notícias frescas do Brasil, de meus pais e de minha terra, Santo André.

Pigalle

Pigalle

Servicinho, hein?

Servicinho, hein?

Que bicho é esse ??

Meu Deus !

Muitas coisas eram surpreendentes para mim na capital francesa: as assustadoras burcas negras  que passavam pelas ruas ocultando as mulheres do Islã; as caninettes, motos equipadas com aspiradores para limpar cacas caninas das calçadas; os banheiros públicos automáticos que funcionavam com moedas e quebravam um galhão; o fato de os operários de uma obra lavarem o barro dos pneus dos caminhões antes destes voltarem à rua; e as maravilhas como o Arco do Triunfo, que ficava ao centro de uma praça à qual convergiam 12 avenidas; o Museu do Louvre, um recinto imenso repleto do melhor que a humanidade já produziu e tantas, tantas outras coisas…

Nunca foi tão fácil !

Nunca foi tão fácil !

Duca!

Duca!

Le Louvre

Le Louvre

Que tá passando?

Que tá passando?

Era cultura por todos os lados… Às quartas-feiras era dia de estréias nos cinemas de toda a cidade. E para mim foi uma grata surpresa descobrir que em Paris cada cinema tinha sempre 5, 6 salas passando diferentes filmes. Em São Paulo, por aquela época, raros cinemas eram assim. E então aproveitávamos! Numa das vezes em que fomos assistir a um destes filmes, deparamo-nos com nada menos do que a estréia de The Wall, do Pink Floyd. Se na sala de projeções já entramos chapados, dela saímos em alfa… Foi um filme que caiu como uma bomba sobre a cabeça de todos, não havia como deixar a poltrona incólume.

Trans pirante

Trans pirante

Marie, petite sorcière

Marie, petite sorcière

E como todos tínhamos a vida solta… os romances não paravam de acontecer.  O Emerson, por esses dias havia praticamente se mudado para a casa da Marie, na Rue des Trois Frères, subida de Montmartre, onde aperfeiçoava seus estudos de I-Ching.

Vem prá cá que aí já acabou

Vamos dormir lá em casa…

E houve uma garota brasileira que numa noite, ao sairmos de uma festa, foi parar na mesma estação de metrô que nós. Estávamos em plataformas opostas, quando avisou-se que na dela não haveria mais trens, então a convidamos para ir dormir lá em casa. Sem opção, ela topou.  Na hora de dormir, sobrou de ela ficar ao meu lado… e foi o enrosco mais elaborado que já tive na vida, porque ficamos umas duas horas nos esbarrando, silentes, até que as coisas engatassem…

Violaine & Elcio

Violaine & Elcio

Creio ter sido também por esta época que, andando pelas ruas, o Emerson e eu conhecemos duas parisienses. Enquanto ele se acertava com Isabelle, Violaine e eu viemos a ter um caso que, dentre outras alegrias, me proporcionou um bom aprofundamento no idioma francês. Namorar uma nativa é uma excelente maneira de se aprender uma nova língua.

Arapucas

Arapucas

Mas como tudo o que é bom dura pouco, a vida começou a ficar difícil em Paris por aqueles dias… Pelas estações, recrudesciam as blitz dos policiais em busca de estrangeiros em situação irregular. Virava-se uma esquina subterrânea e – bumba – dava-se de cara com um comando armado.

A cobrança...

A cobrança…

Não bastasse isso, a minha em particular tornou-se insustentável porque em junho finalmente chegou a conta do telefone: exorbitantes Fr 4.500,50, os quais me demandariam a venda de exatas 562 flautinhas para serem quitados. E a comida, o aluguel? Impensável. E por umas três vezes aconteceu de eu chegar em casa e a concierge (zeladora) do prédio me dizer “Mas o que está acontecendo? A polícia esteve aqui hoje novamente à sua procura”. Se me pegassem, eu estaria frito.

Île de la Cité

Île de la Cité

Aí comuniquei ao meu sócio, Emersão, que para mim era chegada a hora de deixar Paris, sendo que o próximo destino seria Londres. Numa longa confabulação na Île de la Citè ele então sugeriu que acelerássemos a produção das ocarinas, vendêssemos todo o estoque para fazer um pé-de-meia e partíssemos para a Inglaterra. Acatada a idéia, foi o que fizemos.

Estoque...

Estoque…

Place du Tertre, só alegria

Place du Tertre, só alegria

E então, dadas as circunstâncias, partimos para vender nossa grande produção com maior agressividade ousando n’alguns dos melhores pontos de Paris, alguns que nos eram proibidos até então, como a deliciosa Place du Tertre, em Montmartre. Trata-se de uma encantadora pracinha, ao lado da igreja do Sacré Coeur, no alto do único morro da cidade, onde se reúnem artesãos de todas as estirpes.

Fé eu Deus & Pé na tábua

Fé em Deus & Pé na tábua

E demos um gás total, apesar de eu ter me enroscado com mais uma paquera, o que frustrou um pouco as estratégias comerciais do Emerson. Mas ao final valeu a pena e conseguimos juntar a grana de que necessitávamos para mudar de país.

Paris, vista de Montmartre

Paris, vista de Montmartre

Assim, no dia 4 de julho de 1983 deixamos o porto de Calais e com ele o solo francês, que tantas alegrias e delícias nos havia proporcionado. Estávamos a caminho da Grã-Bretanha, onde a estada do Emerson seria curta e a minha seria dura. Mas isso é outra história, separada desta pelas águas do Canal da Mancha, particularmente tormentosas naquela tarde.

Adieu, les amis

Adieu, les amis

Grato por tê-lo vivido

Grato por tê-lo vivido

de Paris

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