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A VIAGEM A TÓKIO

Campai! Fui...

Campai! Fui...

Há coisas na vida que nos acontecem da forma mais inusitada. Minha viagem ao Japão foi uma delas, portanto… senta que lá vem história:

Super grande-angular

Super grande-angular

Nos primórdios do ano da Graça de 2006, pelas conveniências implícitas em ir-se comprar algo na fonte, acabei embarcando numa viagem a Tókio, em busca de uma objetiva grande-angular Canon HJ114.7B IASE. Havia um parceiro envolvido na aquisição e partiu dele a sugestão: “Se demora 15 dias o despacho de Tókio a Nova Iorque e outros 7 de Nova Iorque a São Paulo, por que você não vai buscá-la diretamente em Tókio?” Tendo naturalmente apreciado a idéia, lancei-me na pesquisa de algum agente no Japão que pudesse viabilizar o negócio. Com a ajuda do bom e (já naquela época) velho Google, localizei na capital japonesa uma empresa locadora de equipamentos, como a minha, Nova Engs, que talvez pudesse ajudar: a Besco. E entrei em contato.

Durma com esse barulho...

Durma com esse barulho...

Por artes da tecnologia contemporânea, do lado de lá do mundo fui atendido por um colega muito solícito, Seiji, que se dispôs a conseguir o equipamento junto ao fabricante e deixá-lo à minha disposição nas dependências da empresa dele. Para tanto, bastaria que eu depositasse no Brasil o equivalente ao valor do bem, na época cerca de US$ 30,000. Evidentemente, era uma transação de risco… Mas parti do princípio que em se tratando de uma empresa estabelecida, que havia sido procurada por mim (e não tendo sido eu procurado por ela), era grande também a chance de estarmos todos entre gente honesta. Aliado a isto, a troca de e-mails com Seiji convencia-me de tratar-se de uma pessoa confiável. O único ponto negativo era que, por falta de fontes de escrita japonesa instaladas em meu computador, seus e-mails chegavam com a seguinte notação: “????”. Confesso que isso me deixava com a pulga atrás da orelha… mas tive de ser frio nesta hora, aceitar o fato como irrelevante e decidi-me por realizar a ousada operação comercial.

só 374.744 km2

só 374.744 km2

 

Ufa!

Ufa!

E então começaram os trâmites: para a renovação do passaporte (o 4º), para o depósito internacional, para a obtenção do visto japonês e para a compra do bilhete aéreo – esta última a única parte fácil de ser realizada. Tanto para o depósito quanto para o visto foi necessária a apresentação de inúmeros documentos cujo conseguimento envolvia obstáculos e deu um trabalhão! Sendo o Japão uma das maiores economias do mundo e ocupando um arquipélago cujo território é infinitamente menor do que o do primeiro colocado (EUA, por enquanto), há um cuidado extraordinário das autoridades para evitar a imigração ilegal, o que significa que na prática conseguir o visto para visitá-lo costuma ser mais difícil do que obter o visto para os EUA.

Mas com os inestimáveis préstimos de minha amiga Rosana, que à época trabalhava numa agência de viagens, Renase, com o socorro de minha amiga Sandra, da Zanti Contabilidade (que me conseguiu cópias de antigos Impostos de Renda de uma minha ex-empresa) e com a confiança de minha amiga Fernanda (que apesar de meu passado concedeu-me uma carta de apresentação de sua empresa, a Vinil), tudo foi resolvido e eis que… Uebaaaa!!! …eu tinha à mão o necessário para ir ver de perto a terra do Sol Nascente.

Nunca se sabe...

Nunca se sabe...

Daí, ao preparar-me para partir, só havia mais uma coisa a fazer… uma providência que tomo antes de qualquer viagem para um local cujo idioma desconheço: estudar na internet os termos para uma comunicação básica. Coisas como “sim”, “não”, “por favor”, “obrigado” e por aí vai… Não só por serem absolutamente necessários para um mínimo de interação com os hospedeiros mas também porque sempre tive muito tesão em aprender línguas. E então estudei sobretudo a pronúncia destas palavras, já que não tinha a mínima intenção de aprofundar-me em sua complicadíssima grafia… Fiz uma lista e guardei-a no bolso para qualquer emergência. 

Prá cima é que se anda...

Prá cima é que se anda...

Obrigado!

Muito Obrigado!

Às 21:10 da 4a. feira, dia 17 de maio, tendo sido levado a Cumbica pela busão do Airport Service, munido da máquina fotográfica que me houvera sido emprestada pela minha querida amiga Claudinha (que ainda na volta foi buscar-me), eu deixava para trás (ou para baixo) o asfalto da pista de decolagem do aeroporto, em Guarulhos, a bordo de um Boeing da norte-americana Continental Airlines. Assim, graças às mulheres tudo finalmente dava certo e  após quase meio século realizava-se um velho sonho deste aventureiro errante…! E foram cerca de 10 horas de vôo, por sobre a instigante América Central, até que chegássemos às 06:10 ao aeroporto de Newark, em Nova Iorque, primeira e única escala de nosso périplo, de onde partiria novo vôo com destino ao Japão, logo mais às 11:00 da manhã. Ao chegar, minha primeiríssima providência foi dirigir-me a um caixa automático para angariar os fundos necessários para um sanduíche… E quando o vi, frente a frente, confesso que gelei: pela primeira vez ocorreu-me que talvez eu tivesse confiado demais na praticidade de um cartão de crédito internacional. Pensei: “Caraca, se essa porra não funcionar, tô na roça legal!”. Funcionou!

Devidamente nutrido e com horas de espera pela frente, fui à porta de saída do saguão para dar uma olhada nos Estados Unidos…
Só opulência...

Só opulência...

É impressionante: o Tio Sam esbanja opulência já à primeira vista. Encostando para deixar e recolher passageiros… só carrões. Nada de automóvel pequeno, quase sem exceção todos os veículos que chegavam e partiam eram bombados, majestosos, superdimensionados aos meus olhos sul-americanos. Fiquei com despeito e voltei para dentro do terminal. Clareando o dia, liguei para meu amigo Tony, que há anos possui em Long Island um restaurante, o Maxxel’s, e um bistrô, PastaVino, e que nos idos de 1982 era meu colega de quarto numa pensão em Roma.

Elcio, Tony & Rodolpho - Roma 82

Elcio, Tony & Rodolpho - Roma 82

Disse-lhe que estávamos próximos embora não fosse possível encontrarmo-nos. Ele prometeu vir ver-me ali alguns dias mais tarde, quando eu fizesse a escala da viagem de volta. E então fui andar de trem dentro do aeroporto. Sim, porque em Newark há um trem que liga os diversos terminais a uma estação externa de trem de linha.

2,5km de trilhos

Putz! 2,5km de trilhos

Uma coisa inacreditável. Da janela do vagão, pude ver o páteo de estacionamento do que parecia ser uma empresa transportadora… uma vez mais, fiquei perplexo: uma infinidade de caminhões enormes idênticos à espera sei lá do que… talvez do início do horário comercial. Tudo era três vezes maior do que estou habituado a ver e considero o normal. Por fim, às 11:10 chegou a hora de minha partida e acabou aquela longa e humilhante demonstração de superioridade.

Quenem um'ave d'arribação

Quenem um'ave d'arribação

Desta segunda parte da viagem – uma estirada de 14 horas – não há muito o que contar, exceto que ao meu lado sentaram-se duas lindas japonesinhas que não falavam porra nenhuma de nada que não fosse japonês. E que acompanhei avidamente o progresso do vôo através da tela do monitor instalado no encosto da poltrona à minha frente. Era mágico estar rumando noroeste a partir de Nova Iorque. Eu iria sobrevoar o Alasca, o Mar de Bering, tirar uma fininha da península de Kamchatka, na Rússia e, finalmente, aterrissar em solo japonês por volta das 13:50 do dia seguinte. Nunca dantes houvera eu estado por estas bandas… Lá pelas tantas, numa vez em que me levantei e fui até a sala das aeromoças, na traseira do avião, olhei pela janela e não acreditei: a Alasca, abaixo, era simplesmente deslumbrante com o jogo de sombras entre o Sol e a branquidão desolada de suas estepes.

E a Rússia vendeu...

E a Rússia vendeu isso...

Por fim, às 13:50 da 5a. feira os pneus do avião tocaram o solo japonês. Eu estava radiante de alegria, tinha de extravasar aquilo com alguém. Olhei para as japonesinhas que não paravam de tagarelar e, muito empolgado, apontando para fora da janela, disse-lhes: Nihon! (Japão, em japonês). Elas me olharam com uma cara de “que babaca” e continuraram tagarelando. Como a simples visão da pista já era por si muitíssimo mais interessante que seus dois rostinhos bonitos, fiquei ali absorto com o nariz grudado no vidro da janela. Lá fora, o Aeroporto Internacional de Narita.

Caraaaaca!!! Nihon!

Caraaaaca!!! Nihon!

Na hora de passar pelo guichê da imigração, sempre rola alguma preocupação. Mas nada aconteceu e poucos minutos depois – agora sim! – eu já me instalava na poltrona da frente do ônibus que iria nos levar pelos 70 quilômetros que nos separavam do hotel em Tókio.

Tudo maravilha, não fosse um senhor japonês, morador do Hawai, que queria a todo custo conversar. Só que para isso eu tinha de virar a cabeça, deixando de olhar pela janela, e isto estava fora de cogitação. Ocorre que tenho em mim um elemento – talvez atávico, sei lá – de inquietação em relação a conhecer o mundo. No passado, incomodava-me imensamente nunca ter estado em cidades como Londres, Paris, Santiago, Buenos Aires, Nova Iorque… Essa compulsão me fez rodar meio planeta. E quando finalmente, após tanto aguardo, estava conseguindo ver o Japão, este cidadão queria que eu olhasse prá fuça dele a fim de me contar que sempre vinha ali e que bla bla bla… Fechei a cara, não tive escolha, e passei a curtir sem culpa e deslumbrado a visão dos campos de arroz que margeavam o asfalto.

Caraaaaca!!! Nihon! II

Caraaaaca!!! Nihon! II

Shinagawa Prince

Shinagawa Prince

E então chegamos ao Shinagawa Prince Hotel, um edifício imponente num bairro movimentado ao sul da metrópole. Feito o check-in, dirigi-me aos meus aposentos e não pude deixar de notar a falta do 13º andar na botoeira do elevador. Como do lado de fora não havia notado a ausência de nenhum andar na estrutura do prédio, concluí tratar-se da velha superstição quanto ao malfadado número 13 que, para minha surpresa, havia dado a volta ao mundo.

Aqui também???

Aqui também essa frescura???

Ao descer do elevador, percebi que os caras ali devem gerar muita grana, porque o corredor era interminável…

Tudo é muito...

Tudo é muito...

Entrando no quarto, ficou-me claro o conceito japonês de hospedagem: pouco espaço, porém com tecnologia e conforto. O local era estreito, sobrando apenas um corredor ao lado da cama. A janela não abria, mas tudo era muito limpo e agradável.

Prá que mais?

Prá que mais?

Vista da janela

Vista da janela

Defronte ao hotel

Defronte ao hotel

O banheiro é que era um caso à parte: parecia um WC de avião, minúsculo, todo de plástico e totalmente funcional. E o vaso sanitário estava mais para um robô sanitário… ele aquecia o assento, percebia quando alguém se sentava, acionava pequenas descargas de quando em quando e ainda lavava a bunda do usuário que assim o quisesse. Um espanto. Só faltava falar (se é que não falava… sei lá… ao menos comigo, não puxou assunto).

Instruções para cagar...

Instruções para cagar...

Então, após circundar meia Terra concedi-me um pequeno e merecido descanso, findo o qual, já tendo escurecido, saí para jantar e bater pernas pelas redondezas.

Pelas ruas próximas ao hotel, andei procurando por algum restaurante em que pudesse experimentar iguarias nipônicas.
Japonês no Japão é diferente

Japonês no Japão é diferente

E encontrei um pequeno, bem tradicional com fachada de madeira, meia-cortininha na porta e tudo mais. Mal entrei, e já ouvi a frase com que todo chegante é recebido num estabelecimento comercial japonês: “Sumimasen!“, que significa, neste caso, algo como “Obrigado”. Prá não complicar, apenas sorri e sentei-me à mesa. Como não ia mesmo adiantar nada consultar o cardápio, olhei em volta e escolhi o prato cuja aparência mais me agradou e apontei-o à senhora que veio me atender. E comecei a arriscar o japonês, pedindo-lhe “Biro” (cerveja). Ela entendeu e retirou-se. Quando a comida chegou… bem… basta dizer que era muito esquisita e não gostei. Saí dalí com vontade de encarar uma macarronada… Fui dormir, com o relógio biológico de ponta-cabeça.

Eruchio San

Eruchio San

Mas com ou sem jet-lag, eis que amanheceu o meu primeiro dia inteiro no Japão! Após o café, saí para ir à Besco tratar de negócios. Havia impresso um mapa que estava no site deles, mas era todo escrito em japonês. Parei um taxi e entreguei o mapa ao motorista. Ele leu, virou, revirou e saiu dirigindo. Foi para uma parte de Tókio onde as ruas são muito estreitas, em algumas o carro nem conseguia entrar. De quando em quando, ele parava, descia e ia mostrar o mapa às pessoas do local.
De TX em TK

De TX em TK

Nessa hora senti medo… cheguei a acreditar que havia feito uma imensa besteira. Lá estava eu num bairro apertado procurando por uma firma numa rua que nem motorista de taxi encontrava, e que estava com muito do nosso dinheiro… Foram momentos de pura tensão.

Mas eis que tudo se acertou. Localizamos o prédio e da janela do terceiro andar já Seiji me acenava as boas-vindas.
Seiji (dir.) & sócio

Seiji (dir.) & sócio

Era 6a. feira, mas tudo estava um tanto deserto por alí, inclusive a empresa deles. Só havia ele e seu sócio, que me aguardavam tão temerosos quanto eu, já que o depósito ainda não havia caído na conta deles – e eles já haviam comprado o equipamento. Pedi para ver a lente, eles a mostraram e me pediram para ver o comprovante do depósito, que era em português. Xerocaram-no, mas tudo estava bem. Tranquilizei-os, garantindo que o dinheiro cairia até a segunda-feira.

Besco I

Besco I

E então, todos mais calmos e confiantes, combinamos que eu voltaria ali na segunda para levar a lente. Fotografei as dependências da empresa, porque a achei muito bem equipada embora fosse pequena (como tantas coisas dos japoneses).

Besco II

Besco II

E aí então, com as obrigações em dia, pude enfim entregar-me ao prazer pelo qual mais ansiava, o de perder-me pelas ruas de Tókio.

Três coisas chamaram-me a atenção: a primeira é que Tókio é de longe a metrópole mais densa em que já estive.
Densacidade I

Densacidade I

Densacidade II

Densacidade III

Densacidade III

Densacidade II

Densacidade IV

Densacidade IV

Densacidade V

Densacidade V

Ao olhar em volta, vi ao mesmo tempo uma autopista passando por sobre a cidade, uma linha de torres de alta tensão, um canal com barcos e tudo, muuuitas passarelas de pedestres, trens, um navio no porto e aviões sobreavoano. Ufa! Dá prá assustar. É muita coisa em pouco espaço. A segunda é que mesmo sendo uma metrópole cosmopolita, não há ocidentais em Tóquio (se há, não estão visíves…).

Putz! Só japonês...

Cáspita! Só tem japonês...

Prá onde quer que eu olhasse, só via japonês – e me sentia um ET em meio a eles. E a outra é que não havia meio de achar na rua uma lixeira prá jogar fora o papel da bala. Surpresa: não tem! Até entender que se tratava de uma demonstração de cultura e civilidade, fiquei tão puto que joguei o papel no chão. Mas foi só essa vez… depois entendi o recado e passei a guardar o lixo no bolso, até encontrar uma lixeira em recinto fechado. E me toquei o quão nojentas são lixeiras públicas. Nessas horas vejo como, mesmo tendo vivido por 3 longos anos na Europa e rodado um monte poraí, ainda sou tupiniquim (embora os tupiniquins deveras talvez sejam bem mais civilizados do que eu).

Na rua não!

Na rua não!

Estudando minha anotações e o manual que carregava comigo, percebi que em japonês muitas palavras, por incrível que pareça, são chupadas de linguas ocidentais, sobretudo o inglês: paspooto (de passport), orendi (de orange), uain (de wine), naifu (de knife), beddo (de bed), torancu (de trunk)… mas também do francês: toire (de toilette), … Quem esperaria por isso? Tempos depois, no Brasil, ao comentar este fato com um amigo nissei, perguntei-lhe “Koba, como é possível o idioma japonês usar tantas palavras do inglês depois de os EUA terem atirado 2 bombas atômicas sobre o Japão?”. Ao que ele respondeu: “Pois é… tinha de jogar mais uma!”. 

Dá pá krê?

Dá pá krê?

Na hora de comer, para evitar surpresas optei por algo menos radical e achei uma rede de fast-food japonês, chamada Yoshinoya, da qual fiquei freguês durante todo o restante da minha estada.

 

O que deu prá ver...

Só o que deu prá ver...

O sábado amanheceu muito chuvoso, mas eu queria de qualquer jeito ir até o mar. O mar, a praia… sei lá… algum lugar de onde desse prá ver o mar, afinal estamos à beira mar.

Ma che mare che nada!

Ma che mare che nada!

E fui andando em direção a onde pensei poder encontrar algo… Ma che mare che nada! Só consegui chegar até uma espécie de porto ou coisa parecida, cheio de containeres e congêneres. O fato é que Tókio construiu muitas ilhas artificiais para aumentar sua supefície, mas tá tudo tomado por alguma atividade industrial.

Ali, portanto… nada de areia. No entanto, o passeio valeu pela vista que tive da grande baía e da grande ponte que emolduram a cidade. E esta foi outra coisa que me surpreendeu: há muita água em Tókio… baía, canais, barcos e navios prá todo lado. Tókio é uma espécie de Veneza do Oriente.
Veneza d'Oriente II

Veneza d'Oriente II

Veneza d'Oriente I

Veneza d'Oriente I

Veneza d'Oriente III

Veneza d'Oriente III

Então saí para conhecer as instalações daquela espécie de porto e, ao caminhar, pude absorver um pouco da realidade daquele canto do mundo: Nesta cidade os carros são pequenos e os arranha-céus são enormes.
Selva de vidro

Selva de vidro

Kilometrópole

Kilometrópole

Beliche

Beliche

Bem arejado...

Bem arejado...

Para poupar espaço, em algumas garagens domésticas, empilha-se um carro sobre o outro e em alguns postos de serviço bombas de combustível pendem do teto para não ocupar o chão. No meio da tarde, deparei-me com a molecada treinando basebol.

Esporte nacional

Esporte nacional

E mais à noite descansei as pernas no apertado conforto de meu quarto de hotel.

 

Sem comentários

Vida dura!

Domingão larguei o regime que estoicamente vinha mantendo e caí no chocolate japonês. Custava só 100 yens e era uma delícia. Prá mim, dietas duram até a primeira viagem, aí desestrutura tudo…

Fui passear de metrô, mas tive alguma dificuldade na estação, nas máquinas que vendem bilhetes, porque não é todo mundo que fala inglês e então às vezes fica difícil esclarecer alguma dúvida. Mas acabei embarcando e fui ao primeiro vagão, olhar o maquinista pela janelinha. Bem, se não cheguei a ver nenhum dos famosos “empurradores de luva branca”, ao menos vi um cara operando a máquina usando luvas brancas! Show de bola!

Metrô I

Limpim!

Metrô II

Virginal...

Metrô IV

À prova de suicídio

Metrô III

Anti-stress

No vagão, durante a viagem é possível consultar o roteiro nas TVs instaladas sobre as portas. Entre outras coisas, elas dizem o quanto o trem já andou naquela linha, o quanto falta andar e de qual lado vão-se abrir as portas na próxima parada. Ali, outra demonstração do aperto que é a cidade: os fundos dos edifícios ficam debruçados quase dentro dos trilhos. Uma visão surpreendemente realista desta viagem de metrô pode ser vista nesta simulação da própria Yamanote Line, na qual me encontrava.

Metrô V

Tokyo Tube

Neste domingo estava acontecendo num centro de exposições ao norte, chamado Tokyo Big Sight, a Design Festa.

Já sabia disso desde o Brasil, pela internet, e resolvi visitá-la. Fiz todas as conexões, inclusive trocando metrôs de rodas por metrôs de pneus, e cheguei a um edificio de arquitetura impressionante.
Trilhos do Metrô

Trilhos (?) do Metrô

Tokyo Big Sight

Tokyo Big Sight

Tudo muito vistoso e espaçoso. Bom gosto mesmo, num local privilegiado com uma linda vista da cidade. Mas lá dentro, a tão decantada feira de design, que se dizia a maior da Ásia, não passava de uma grande feira hippie, com artesanato e tudo. No Brasil já vi melhores na Praça da República. Assim, decidi voltar à cidade, mas em grande estilo: já que estava ao lado da baía, por que não voltar de barco? E foi o que fiz.

'xa a vida me levar...

'xa a vida me levar...

Domingo & roda gigante

Domingo & roda gigante

Excelente passeio, que recomendo a quem quer que vá até lá. Da água, a capital do Japão fica ainda mais fotogênica, com destaque para a imensa roda gigante que à época estava montada perto do grande e vistoso edifício dos estúdios da Fuji TV.

NHK TV... inconfundível!

Fuji TV... inconfundível!

Ginza

Ginza

Descendo do barco voltei a caminhar e fui parar em Ginza, famoso distrito de Tókio, pólo de moda e luxo, um dos mais caros preços por metro quadrado do planeta (cerca de US$22,000/m2). Lindas lojas das mais renomadas (e conhecidas, já que tá tudo globalizado…) grifes e outras menos famosas mas muito ricas e interessantes. Foi numa delas que vi uma guitarra sem cordas.
Já viu uma destas?

Já viu uma destas?

O “acordoamento” onde se toca era fixo e nos trastes havia botões, mucho loco! Tava tão contente que resolvi tomar um cafezinho… péssima idéia. Foi a primeira e (espero) última vez na vida que eu, um brasileiro, deixei o equivalente a R$ 20,00 por um caffè espresso. Foi alí que tive mais uma demonstração do alto nível de civilidade do povo japonês: os caras, ao fumar, ficam parados ao lado de cinzeiros estrategicamente colocados nas calçadas, para que nenhuma bituca acabe abandonada pelo meio-fio.

No no no, seu porto!

No no no, you brazilian pig!

Não é o máximo da urbanidade? Ou talvez o máximo da urbanidade seja outra cena: que tal o executivo e sua secretária de pás e vassouras nas mãos varrendo a rua defronte à empresa?

Que tal na sua rua?

Que tal na sua rua?

Neste dia fiquei considerando a possibilidade de tomar um Shinkansen (trem-bala) e ir conhecer algum’outra parte do Japão… quem sabe Hiroshima, ao sul?

Metrô & Shinkansen

Metrô & Shinkansen

Poncovô?

Poncovô?

 

Mas pensei melhor, constatei que os 6 dias que iria permanecer em Tókio já eram insuficientes para conhecer bem uma metrópole daquelas e concluí que se fosse viajar (Hiroshima dista uns 800 km da capital) iria acabar não conhecendo direito nenhuma coisa nem outra. Decidi não ir e desencanei do assunto. Ao meio da tarde, acabei chegando muito por acaso a Chiyoda Ward, um enorme parque bem no centro de Tókio. Fiquei doido para conhecê-lo mas, após um longo dia de aventuras, minhas pernas olharam prá mim e disseram: “Nananinanão, nem pensar…” Tentei argumentar que tratava-se de um local delicioso, que se poderia ir devagarzinho… mas elas foram intransigentes e irredutíveis. Emburrado, desisti e tomei o metrô prá voltar pro hotel. A partir daí comecei a ter problemas com elas durante minha estada na cidade.

Parque I

Parque I

Parque II

Parque III

Parque III

Parque II

Parque IV

Parque IV

Shinjuku I I

Shinjuku I

À noite deste dia, já descansado, piquei a mula para Shinjuku – onde as fachadas de neon criam uma sensação feérica de ter-se chegado a uma típica cidade de outro planeta, se é que isso existe.
Shinjuku III

Shinjuku II

É impressionante o show de luzes, cores e capitalismo. Tudo é marca de algo. Tudo pisca, tudo é over! Só não foi melhor porque muita coisa (uns 95%…) não consegui ler. Curti tanto o visual que decidi voltar ali posteriormente. Nesta noite conheci uma das mais divulgadas imagens da Terra, e adorei.

Shinjuku II

Shinjuku III

Tsukiji III

Saaaai da frente!!!

Segundona, ainda meio no bode do jet-lag, decidi acordar bem cedo e ir conhecer o mercado de peixes de Tsukiji, sobre o qual muito havia lido. Uau!! Que lugar imperdível! Logo de cara, o visitante depara-se com um trânsito enlouquecedor de uns carrinhos motorizados que só existem lá. É carrinho zunindo prá cá, carrinho zunindo prá lá, tornando a aventura até um tanto arriscada. Pelo chão, carcaças enormes de atum sendo manipuladas e levadas para corte em máquinas de serra de fita, que estão prá todo lado…

Tsukiji I

No anzol?

Eu nem sabia que o atum é um peixe gigantesco, que chega a pesar mais de 600kg (atum-azul). O mercado é muito grande, lotado, cheio de vida (menos as dos peixes) e um ponto turístico procuradíssimo. Num dos esconderijos que descobri, cada animalzinho esquisito que chega vivo é mantido numa caixa com água do mar, de forma que nesta parte do mercado o que há é um verdadeiro zoológico de criaturas marinhas, as mais inacreditáveis que se possa imaginar, como costumam ser os seres do abismo.

Tsukiji IV

Micro zôo

Tsukiji II

Não perca!

Após curtir muito as curiosidades de Tsukiji, resolvi comer algo numa das barracas que margeiam o mercado. Aí começa a dificuldade… não havia como comunicar-se porque alí ou se falava (e lia) japonês ou nada feito. Como todos estavam tomando a mesma sopa com tempurá, bastou-me apontar para a cuia de um dos comensais para que o balconista se tocasse do que eu queria. Serviu-me a sopa com um tempurá, que estava delicioso e que acabou rapidinho. Pensei “quero mais um tempurá”, mas aí continua a dificuldade… poderia apontar novamente, mas resolvi por em prática o japonês que havia aprendido no computador e arrisquei somar 3 expressões: Mais + tempurá + por favor… e ver no que dava. Criei coragem e falei em alto e bom japonês: Motto tempurá okudasai! Para minha imensa surpresa e alegria, o balconista nem titubeou. Gritou “Hai!” e botou mais um tempurá na minha cuia. Uaaaaaaaauuu!!!! Falei japonês, foi emocionante! Adorei a experiência tanto que, tempos após, entrei na comunidade “Eu quero aprender a falar japonês“, do Orkut. 

Sugoi!

Sugoi!

À tarde, trabalho: voltei à Besco para concluir o negócio e buscar o equipamento. Tudo certo, a grana havia caído na conta e a objetiva estava disponível para retirada. É gozado como as coisas podem funcionar tão bem mesmo numa negociação feita de lado a lado do mundo, bastando para isso que seja tocada por gente honesta. Às vezes, negociando com o vizinho dá tudo errado… Mas com a lente devidamente guardada no cofre do hotel, voltei para as ruas. Em Tókio uma coisa que chama a atenção é o modelito predominante: terno escuro para os caras e tailleur para as mulheres.
Saída da peãozada...

Saída da peãozada...

Life's short!

Life's short!

Fim de expediente, quando o povo sai dos escritórios, é um desfile interminável de gente vestida igual.

Essas pegaram leve...

Essas pegaram leve...

Isso, no entanto, em contraste com a juventude ostentando os panos mais trash (ou seria punk, ou junk sei lá…) que já vi. No Japão a garotada é radical no visual. Mas neste dia ainda era começo da tarde e decidi visitar o Museu Nacional de Ciência e Natureza de Tókio, o qual achei muito duca! Coleções intermináveis de espécimes de insetos, uma coletânea de mamíferos empalhados (incluindo os grandes africanos) que parecia ser completa, fósseis pré-históricos… enfim, tudo o que se pode esperar de um excelente museu de ciências.

História Natural

História Natural

Spielbergossauro

Spielbergossauro

Só tava dificil conviver com a dor nas pernas… mas meu programa ao acordar era caminhar e caminhar, o dia todo. E à noite, após um bom banho e um lauto jantar, eu optava por… caminhar só mais um pouquinho. Eu adoro isso, minhas pernas é que tem suas restrições, sobretudo quando exigidas assim, de supetão… Não me lembro o que fiz nesta noite, mas na manhã seguinte, terça-feira, quis conhecer aquele cruzamento que vive lotado de pedestres por sobre as faixas, inclusive diagonais.
Shibuya I

Shibuya III

Shibuya II

Shibuya I

Shibuya III

Shibuya II

Ele fica em Shibuya e é mais um detalhe pitoresco do trânsito de Tókio, em parte incompreensível com seus carros na contra-mão e sua sinalização em japonês. Não bastasse, ainda por cima eles dirigem todos com os olhos meio fechados, não sei como os caras conseguem.

Alugar um carro... Aqui?

Alugar um carro... Aqui?

Tem certeza?

Tem certeza?

De Shibuya, embarquei no metrô para ir conhecer o Museu Nacional de Ciência Emergente, conhecido por Miraikan, que, como era de se esperar na capital do Japão, é algo invejável.

Miraikan III

Miraikan II

Miraikan I

Miraikan I

Miraikan II

Miraikan III

Muitíssimas coisas interessantes prá se ver, e a criançada prá todo lado. Todo mundo com a touquinha igual… uns com as amarelas e outros com as azuizinhas… todos aprendendo ciências desde os 3, 4 anos. Os mais velhos, já adolescentes, podiam ser vistos em laboratórios de física, dentro do museu, em aulas de robótica. Comecei a entender porque os caras mandam bem, seja nas indústrias de lá seja nos vestibulares daqui.

 

Tudo aprendendinho II

... ou pivetão, tudo aprendendinho!

Tudo aprendendinho I

Pivetinho...

Saindo do museu, fui para Ueno, um tradicional bairro ao norte. Andando por alí deparei-me com inúmeras bancas de rua que vendiam celulares a preço de banana. Em meio a um parque, vi um templo com telhados pontudos, e percebi que fora esta edificação e duas mulheres de quimono… não vi nada de “japonês” em Toquio.

Ueno I

Ueno II

Ueno II

Ueno I

Voltei para o centro e desci na Tokyo Station, interligada a um shopping center onde há salas de jogos eletrônicos. Elas estão por toda parte, mas aqui vi uma que me chamou a atenção: numa espécie de TV enorme na parede, podia-se acompanhar a simulação de um derby, tudo muito realista e o povo participando, apostando e se divertindo eletronicamente. Todo mundo jogando, só dava eu olhando e tirando fotos…

Mas a aposta é de verdade...

Mas a aposta é de verdade...

Voltando à rua, fui novamente a Chiyoda Ward, disposto a alugar uma das bicicletas que havia visto para locação da primeira vez em que lá estive. Estava decidido a conhecer aquele grande parque super atraente. Mas, lá chegando… surpresa… não havia locação de bicicletas às 3as. feiras. PQP! Não sei se foi uma alucinação ou se ouvi mesmo minhas pernas imediatamente dizerem “nananinanão, andando nem pensar…”.

Chiyoda Ward I

Chiyoda Ward I

Chiyoda Ward II

Chiyoda Ward II

E então, puto e resignado, desisti de conhecê-lo. Não sem atentar para um senhor, um mendigo, que dormia sentado por ali. E pude constatar que em Tókio até os mendigos são organizados.

Chiyoda Ward III

Olha isso...

Fui para o hotel descansar, porque tinha planos de, à noite, conhecer Roppongi Hills, literalmente o ponto alto da cidade.

 

Roppongi I

Roppongi I

 

Roppongi II

Roppongi II

E foi o que fiz. Lá pelas 20:00, chegava eu aos pés da grande torre de 54 andares que se debruça por sobre a metrópole e do alto da qual se tem uma visão panorâmica de Tókio e adjacências.

Roppongi III

Roppongi III

À noite, a vista é maravilhosa. Fiquei lá fazendo fotos e curtindo o privilégio de estar ali realizando um velho sonho, numa reviravolta do destino que absolutamente não estava programada. Estas magnânimas visões noturnas sempre mexem com o meu emocional. Que bom! A noite estava explêndida, convidando para se voltar a Shinjuku, o bairro das fachadas de neon e onde tudo rola…

Roppongi IV

Roppongi IV

S’imbora! Em Shinjuku só a vista já anima: luzes, gente, carros, sons, gente, cores, luzes… eita mundão velho e sem porteira.

Gostei tanto que voltei!

Gostei tanto que voltei!

Caminhando, fui abordado por um destes caras que tentam arrastar o turista prá zona. Era um rapaz escuro, de compleição franzina, porém muito educado o que fez com que eu lhe desse atenção. Eu não tinha intenção alguma de ir parar no puteiro, mas conversar com alguém após tanto tempo caminhando sozinho vinha bem a calhar. Não me recordo seu nome, mas quando lhe perguntei de onde era, disse-me “da Etiópia”, ao que, nem sei porque, emendei: “Eritréia?”. Quando disse isso, acho que abri as portas da sua simpatia. Sim, ele era da Eritréia e não podia acreditar que eu pudesse saber o nome da terra dele.  Na verdade, a Eritréia é um país independente (da Etiópia) desde 1993, mas suponho que ele suponha seja, por alguma razão, melhor apresentar-se como etíope.
E eu tava ainda mais longe...

E eu ind'além...

Tornamo-nos amigos e fui caminhando com ele, enquanto me explicava que fazia aquele bico prá pagar os estudos. Quando me dei conta, estava às portas do lupanar (sim, porque apesar da amizade ele não perdeu a oportunidade de tentar ganhar um troco às minhas custas). Então sorri e disse-lhe “Olha, não sou seu freguês-alvo… não estou a fim desse tipo de diversão”. E ele compreendeu e me desejou um bom passeio. Saí dalí enriquecido por ter conhecido uma tão curiosa figura humana… um africano em Tókio!

Rola de tudo...

Rola de tudo...

Mas havia outros… logo em seguida um outro negão abordou-me oferecendo a mesma mercadoria. Eu lhe disse algo como: “rapaz, se eu tiver de sair com alguma mulher terá de ser com alguma que se engrace comigo e me dê bola”. E ele respondeu algo como “pode ir tirando o cavalinho da chuva, que aqui você não vai conseguir isso”. Então deixemos as puras e a putas prá lá e continuemos sozinhos, que a noite tá boa. E parei num bar agitado prá tomar uma cerveja Sapporo. Voltei pro hotel altas horas, caminhando só prá variar, e me deparei com mais uma esquisitice: uma espécie de clube onde as pessoas, separadas em baias, ficam rebatendo com tacos de basebol bolas que lhes são arremessadas por máquinas.
Esporte solitário...

Esporte solitário...

...com o taco na mão!

...com o taco na mão!

E também foi nessa noite que vi estacionada uma motocicletazinha lindinha, com capota, que se tornou um dos meus sonhos de consumo.

Quero uma dessas !!

Quero uma dessas !!

Quarta-feira, manhã do último dia completo que passarei no Japão. Quero conhecer muito ainda, mas as pernas já entregaram os pontos. Sinto muita dor apenas em começar a caminhada, o resto do dia é pura forçação de barra, inclusive com alguma preocupação de estar lesando alguma coisa, com tamanha overdose repentina… Ainda assim, parado não dá prá ficar: fui conhecer o Museu de Ciência Marítima, instalado às margens da baía num edifício enorme em forma de navio.

Navio a ver navios.

Navio a ver navios

Prá viajar no tempo e no espaço...

Prá viajar no tempo e no espaço...

Na ponte do navio de concreto

Ponte do navio de concreto

Ao lado, aberto à visitação, estava ancorado um navio real, o Sôya Maru, no qual por 1000 yens você podia conhecer um quebra-gelo de verdade, que na década de 30 circundava o globo pelas gélidas águas da Antártida. Passei o dia entre navios e a visão de outras embarcações que transitavam pela baía de Tókio.

À noite, prá descansar, subi no bar do hotel para fuçar no computador e tentar contatar alguém no Brasil através do Orkut. Mas o desgraçado tinha várias teclas em japonês e era uma dificuldade operá-lo. Ainda assim, consegui contato com o outro lado do mundo e troquei idéias com alguns amigos que estavam online.
Shopping & Estação Shinagawa

Shopping & Estação Shinagawa

Então saí para jantar numa espécie de shopping interligado à estação de Trem/Metrô que há defronte ao hotel. Entrei num barzinho bem japonês, lotado de gente, com mesas minúsculas. Pedi um yakisoba e compartilhei a mesa com várias pessoas, todas alí apertadas. Pois numa situação dessas, um dos comensais dava-se ao prazer de chupar seu macarrão fazendo o máximo de barulho possível. Devia ser cultural, porque o japa não se avexava… levava o hashi à boca e… sssssshhhhhhhhhhhhhh sssssshhhhhhhhhhhhh. Sei lá… é difícil conviver com diferenças culturais. Me deu vontade de dizer: “O animal, vê se te manca!”. Mas achei melhor calar… em Roma, faça como os romanos. Suponho que em Tókio deva-se fazer como os tokianos.

Na quinta-feira, dia 25.05.06, logo cedo embarco no ônibus que me levará de volta a Narita. No caminho tento fazer algumas fotos, mas sou impedido pelos muros de contenção acústica que margeiam a estrada. Embarco agora em outro avião da Continental que me levará de volta a Nova Iorque.

Sons vedados, visão idem

Sons vedados, visão idem

Lá vamos nós...

Lá vamos nós...

Outras 14 horas. Ali chegando, ligo novamente ao meu amigo Tony, que em 40 minutos consegue chegar driblando o trânsito, vindo de Long Island. E é sempre muito bom rever um velho parceiro de aventuras, afinal foi na companhia dele que em fevereiro de 82 embarcava eu numa aventura muito maior, com destino a uma vida na Europa sem prazo para acabar. Mas isso já é outra história…

É um mundo pequeno!

É um mundo pequeno!

Sayonara Nihon e muito obrigado por tudo. Adorei conhecê-lo e espero um dia poder voltar. Neste dia, prometo, hei de sair de Toquio, já que vi a capital mas não o país… não se pode ter tudo. Aliás, sequer se concretizou meu desejo de que o retorno aéreo fosse via Frankfurt, o que me proporcionaria uma volta ao globo. Ainda não foi dessa vez…

dia lá, noite aqui

dia lá, noite aqui

 

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A VIAGEM A CARACAS

Logo de cara...

Logo de cara...

Sãos e salvos!

Sãos e salvos!

Terça-feira! Após um vôo curto proveniente de Cartagena, sobrevoávamos o litoral da Venezuela. Rente ao mar já se via o aeroporto e eu ansiava por pousar. Pousamos. Uêba, estamos num novo país. Chegando ao hall, quem nos aguardava? Sim, ele, sorridente e de braços abertos prá quem quisesse ver (e era impossível ignorar), ao lado da frase “Venezuela ha cambiado y ha cambiado para siempre”, ou coisa parecida. Hugo Chávez foi o primeiro venezuelano a nos recepcionar nesta terra. Fiquei comovido!

Llegando a Caracas

Llegando a Caracas

Hola, hermanos!

Hola, hermanos!

Quando no guichê da imigração o policial me perguntou em qual hotel iria ficar, respondi-lhe a verdade: “Todavia no lo sé. Lo voy a elegir quando llegar a la ciudad”. Ele pareceu não gostar muito da resposta, achei que o caldo iria entornar, mas foi condescendente. Disse: “Quando usted venga de nuevo en Venezuela, hay que tener lista la reserva en un hotel”. Ao que aliviado, respondi. “Por supuesto, señor! Muchas gracias” e, após carimbar a entrada no passaporte, saí dali para o saguão aberto do aeroporto de Maiquetía.

Bolivares fuertes (mesmo!)

Bolivares fuertes (mesmo!)

Taxis oficiais...

Taxis oficiais...

E já começaram meus problemas em Caracas. Fui tentar tirar algum bolívar de algum dos cajeros do aeroporto e… nada! Havia sete, não consegui em nenhum. Pensei, putz, fudeu! Sem a reserva de algum hotel, não tenho como sair do aeroporto assim… sem um puto no bolso. Mas lembrei que ao deixar o Brasil havia enfiado numa das repartições da carteira os reais que me restavam: R$ 200,00. Foi o que salvou. Fui a uma casa de câmbio ali mesmo e troquei-os por míseros Bs 140,00. Já comecei a tomar prejuízo antes mesmo de pisar na rua… Com a ajuda de um dedicado funcionário do serviço de recepção ao turista, consegui reservar por telefone um quarto no Hotel Altamira, distante dali uns 15 quilômetros. Tudo bem então? Nem tanto… o táxi “oficial” para chegar lá custaria Bs 170,00. Como fazer? Tomei um táxi “não-oficial” (lá tem disso), dos que têm a má-fama de espoliar estrangeiros incautos, e paguei Bs 130,00 até o centro. Apesar do risco, deu certo e ainda sobrou algum, mas foi caro.

Hotel Altamira

Hotel Altamira

Já estava encanado de tanto ouvir, na Colômbia, dizerem que Caracas é perigosa. Era uma boca só! Então na viagem do aeroporto até a cidade, aproveitei para inquirir o motorista, que era um magrelo calado. Para me reconfortar, ele disse que por questão de segurança nunca aceitava viagens para o centro à noite. Que beleza, legal! Havia lido na internet, num fórum sobre viagens, que o melhor de Caracas é a hora de ir embora… fiquei me perguntando… será? Ao ser deixado defronte o hotel, por via das dúvidas olhei para todos os lados antes de descer do carro. E instalei-me enfim no glorioso Hotel Altamira, no bairro de Altamira, onde por la mañana no hay desayuno. Estava preocupado sobre como meu VISA iria se comportar na manhã seguinte, e como eu iria conseguir comer algo aquela noite sem grana e sem crédito. O jeito era sair e tentar alguma idéia. Entrei no primeiro restaurante que vi e tomei o cuidado de explicar ao maître que só poderia ordenar o pedido se, antes, o cartão passasse na maquineta, porque não teria como pagar de outra maneira. Para minha surpresa, passou. E esta foi a primeira vez na vida em que paguei por um jantar antes de havê-lo jantado. Mas tive de comer 1/4 de frango com cerveja…  não exatamente minha refeição ideal.

Pollo a la cerveza

Pollo a la cerveza

by Burle Marx

by Burle Marx

Outro sulamericano

Outro sulamericano

Todo parque é bom!

Todo parque é bom!

Na manhã seguinte consegui o que queria: me entendi com as máquinas venezuelanas que, diferentemente das brasileiras, pedem para que sejam introduzidos os dois primeiros ou os dois últimos números da cédula de identidade. Como a minha termina num dígito isolado do número principal por um hífen, estava errando ao incluí-lo. Bem, aprendi e resolvi o problema de uma vez por todas. Ufa! Senti saudades dos velhos Traveller-Cheques. Enfim, listos para explotar la ciudad. E saí andando em direção ao leste pela principal avenida de Chacao, a Avenida Francisco Miranda.

O que incomodava era ter de olhar para trás a toda hora… Exagero, mas tava difícil relaxar, depois de tantos avisos. Após um café da manhã no Mc Donald’s (onipresente), acabei chegando num parque que parecia atraente, entrei. Qual não foi minha surpresa ao ler numa placa que havia sido projetado por Burle Marx (1909-1994), erroneamente identificado como o projetista de Brasília. Na verdade, ele foi o paisagista. Aquilo era uma razão a mais para conhecê-lo e então cai prá dentro, onde vi macacos (presos em ilhas) e esquilos (soltos nas árvores). Eram cerca de 11:30 da manhã, tudo estava muito legal quando os guardas vieram informar que o local iria fechar. Era o dia 31 de dezembro e a cidade preparava-se para o grande evento da noite… meio contrariado, porque ali estava gostoso, saí!

Rumo a Petare

Rumo a Petare

Petare I

Petare I

Petare II

Petare II

De volta à avenida peguei a primeira buseta que passou, com destino a um bairro chamado Petare. Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que que é aquilo?? Nunca vi tanta gente por metro quadrado. Talvez nem na Índia haja tanto alvoroço. Na rua, as pessoas disputavam o espaço com os ônibus, os carros e as motocicletas, uma fumaça desgraçada. Entre gritos, buzinas e aceleradores o barulho era insano. Eu desviava de um pára-choques aqui, um pára-lamas ali… Não dava prá andar sem se bater à esquerda e à direita, havia uma moto atrás de mim. Uma coisa de louco. Na dúvida, tirei a carteira do bolso de trás e passei-a para o bolso da frente, estava com a idéia fixa de que era uma cidade insegura. Na verdade, e verdade seja dita, nada aconteceu durante todo o tempo em que estive na Venezuela. Mas tratei de sair logo dali, caindo prá dentro da estação do metrô mais próxima. E foi assim que conheci o metrô de Caracas, um sistema moderno embora os trens não passem esta impressão. Voltei pras áreas mais centrais da cidade, descendo na estação Plaza Venezuela, e voltando a pé pelo boulevard formado sobre a Avenida Abraham Lincoln.

Ufa! Fui...

Ufa! Fui...

Venceram as brancas

Venceram as brancas

Ali era agitado também, porém de forma civilizada. Trata-se de uma rua de comércio, mas há também lazer, como mesas fixas com tabuleiros de xadrez onde disputam-se partidas animadíssimas. Fiquei pasmo em ver a velocidade com que jogam, alternando toques no relógio, estapeando-o a cada dois segundos. Sendo hora do almoço, aproveitei para conhecer mais uma marca de cerveja, cujo nome não me lembro. E voltei caminhando a Altamira passando por Sabana Grande e Chacalito. Chegando ao hotel, enquanto descansava, mergulhei novamente nas vidas de Florentino Ariza e Fermina Daza, que a esta altura já era uma viúva inconsolável. Ou quase… Lendo, recostado no travesseiro, logo peguei no son…

QG

QG

Sabana Grande

Sabana Grande

À noite, sai para despedir-me de 2008, um ano que me foi muito promissor e pelo que lhe sou grato. Fui à praça entre as Avenidas San Juan Bosco e Luiz Roche, em Chacao (10°29′47.44″N 66°50′56.10″O), que era perto e estava apinhada de gente. Ali uma banda tocava músicas venezuelanas muito legais, que levantavam a galera. Lembrou-me de dois dos meus ícones artísticos, os grupos de música andina Tarancón e Raíces de América. Duas coisas me chamaram a atenção: a primeira o fato de que as famílias traziam de casa provisões para fazer piqueniques em mesas plásticas improvisadas. Torta da vovó, salgadinhos, Coca litro, toalhinha… Uma cena inusitada para quem não esperava algo assim… E a segunda, a fixação que este povo tem em fogos de artifício. Abriu-se uma clareira na rua e ali formou-se uma verdadeira chuva de restos de rojões que espoucavam colorida e tresloucadamente nos céus sobre nossas cabeças. Olhar para cima era temerário. Alguns falhavam e vinham detonar aos nossos pés. Nunca vi tamanha artilharia tão perto das pessoas. Achei aquilo um despropósito, mas tudo era festa e creio que o estrangeiro aqui era o único ser destoante no pedaço. Assim, esperei pela passagem do ano bebemorando com uma latinha nas mãos e fui embora dormir. Era o ano da graça de 2009, o ano em que eu completarei meio século sobre o planeta. Cáspita!

Bueníssima onda!

Bueníssima onda!

Reveillon com pic-nic

Reveillon com pic-nic

Zona de guerra

Zona de guerra

Esse foi fudido!

Esse foi fudido!

Na Venezuela há Bolivar (1783-1830) em tudo. Do aeroporto internacional Simón Bolivar em Maiquetía, vizinha à capital, aos valorizados bolívares que se gasta no cotidiano, passando pelo nome oficial do país: República Bolivariana da Venezuela, que chama a atenção nas capas dos passaportes. O grande libertador nasceu em Caracas e o país não perde uma oportunidade de prestar-lhe uma homenagem. Mas o homem foi grande mesmo, tendo sido presidente da Gran Colômbia, nação formada pelas colonias liberadas, e presidente ainda do Peru e da Bolívia, além de ter contribuído decisivamente para a independência das atuais Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Panamá. Um herói de verdade! Ou alguém aí conhece mais alguém que já tenha sido presidente de três países?

Na rua ou no congresso... só ratos!

Na rua ou no congresso... só ratos!

Já Cháves, cujo palácio vi de longe, tem investido mucha plata na vizinhança. São petrodólares prá Argentina, prá Bolívia, prá Cuba… e Caracas suja prá caraca! Fiquei me perguntando porque ele não arruma a casa dele antes de investir na dos outros. Falando em grana, ô terrinha cara! Além de um Real comprar somente 0,7 Bolívar, um prato de comida que em São Paulo custaria, digamos, R$ 20,00 em Caracas sai por uns Bs 25,00. Ou seja, um “realista” brasileiro perde duplamente. Ainda assim, teria tido prazer em gastar até mais para o desayuno no dia 1° mas, como eu temia, tudo estava fechado. Resolvi a situação num carrinho de perro-caliente! E esta foi a primeira refeição do ano. À tarde, o comércio começou aos poucos a abrir. Então o almoço pode ser um Mc Donald’s mas, surpresa, não havia carne. Como assim?? Um Mac Donald’s sem Big Mac ??? Si, señor. Hoy tenemos solamente productos de pollo. Porra, só mesmo na chavisticamente americanófoba Venezuela…

Santo Obama, rogai por nós!

Santo Obama, rogai por nós!

Los Cocos

Los Cocos

Los locos

Los locos

E sendo feriado decidi ir conhecer a praia (não que eu precisasse de um feriado para isso, estando em férias). Após informar-me, tomei o metrô e desci na estação Gatonegro, de onde saem as busetas para as localidades litorâneas. O trajeto não é longo… talvez uns 30 minutos até o mar. E chegando lá fui me deixando levar até onde me desse na telha de descer do ônibus. E isso aconteceu na praia de Los Cocos. Andei até onde o povo estava e estava tudo lotado. Sobre a areia, ao invés de guarda-sóis, havia longas cabanas de sapé onde as famílias se amontoavam, digo, abrigavam do sol do verão. Voltando pela avenida que margeia o mar, fui visitando várias praias e constatando que todas estavam entupidas de gente. Eram praias sem vegetação e para mim não muito atraentes. Foi então que tomei uma decisão: como ainda me restava uma semana de férias, decidi passa-la numa praia “de verdade”, no meu país. E para isso deveria antecipar minha reserva de volta.

El Capitolio

El Capitolio

Foi o que fiz na sexta-feira, dia 2, no escritório da Varig, remarcando minha passagem já para o dia seguinte à noite. Saindo dali, resolvi perambular pelo centro de Caracas, descendo do metrô na estação Capitolio. Andei a esmo

Centro Caracas

Centro Caracas

Se não está abandonado, parece!

Se não está abandonado, parece!

quase o dia inteiro, conhecendo uma parte muito bonita da arquitetura da capital, bem como alguns edifícios enormes que mais pareciam abandonados. O pior é que não eram… Foi nestas andanças que vi, ao longe sobre um morro, a sede do governo. Não estava a fins de ir até lá, então aproveitei para descansar as pernas pegando um cineminha. Assisti a Macuro – La Fuerza de un Pueblo, uma grata surpresa vinda do moderno cinema venezuelano. E já com a noite caindo topei com um grande shopping center em meu caminho de volta ao hotel. Aproveitei para jantar ali, em meio a uma multidão de gente, sobretudo jovens, que pareciam ter eleito aquele lugar como seu point.

Pico da galera

Pico da galera

Hacia el zoo

Hacia el zoo

No sábado, meu último dia em Caracas, tomei o metrô em El Silencio para ir passear no Jardim Zoológico. Estava lotado mas era fraquinho, com pouca diversidade de animais, alguns repetidos (só de caimans havia uns 4 tipos). E os indefectíveis piqueniques… famílias com comida por todos os lados… de longe, o animal mais numeroso era o humano. Passei ali a manhã e voltei pra cidade onde as nuvens pesadas, que estiveram sobre os cerros ao norte durante toda a minha estada, permaneciam inalteradas ameaçando chuva, que nunca vinha.

Só fico aqui até às 21:45

Só fico aqui até às 21:45

Ao final da tarde tomei um táxi para o aeroporto, onde fiquei matando hora por bastante tempo. Fui conhecer a ala nacional, que fica longe da internacional e me pareceu grande demais pruma nação tão pequena. À noite embarquei de volta à terra que me viu nascer e deixei para trás o que pude ver da Venezuela. Parti com a impressão de ter sido injusto para com o país, tendo conhecido somente a capital. Só por saber que é na Venezuela que se encontra a maior cachoeira do mundo estou seguro de que há muitas maravilhas interior adentro. Com relação à minha realidade, contudo, acabei por concordar com o bloguista anônimo que escrevera “o melhor de Caracas é a hora de ir embora”… Sorry, hermanos, soy sincero!

Time can bend your knees!

Time can bend your knees!

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A VIAGEM A CARTAGENA

Ao Caribe imenso...

Ao Caribe imenso...

Ciudad amurallada

Ciudad amurallada

De vuelta al pasado

De vuelta al pasado

Uau! Enfim o mar do Caribe! Quem sabe um dia ainda volto aqui no meu veleiro? Mas por enquanto só de poder conhecê-lo já está bom demais. Estamos no topo da América do Sul, numa das cidadezinhas mais charmosas do continente. Cartagena de Indias, patrimônio da humanidade, é uma aula de história e para conhecer seus capítulos basta ir ao Museu Naval, que foi a primeira fachada que avistei quando adentrei os muros da cidade velha. Mas àquela hora, sob o sol da manhã, queria mais – prá variar – era andar e andar por sobre os paralelepípedos centenários. Adoro isso! E a parte histórica, chamada de ciudad amurallada, é mesmo digna de uma exploração minuciosa.

Vale 1 quarteirão...

Vale 1 quarteirão...

Avidaté parece uma festa

Avidaté parece uma festa

¿Gafas chinas, señor?

¿Gafas chinas, señor?

Vaticano, filial 908

Vaticano, filial 9999

Na cidade velha de Cartagena, pela primeira vez, vi calles que tem o comprimento apenas do quarteirão. Ou seja, a rua tem um nome e no quarteirão seguinte já tem outro, embora sendo a mesma rua. E todas tem nomes pitorescos: Calle de la Amargura, Calle del Porvenir, Calle de las Damas, Calle del Cuartel, Calle Tumbamuerto… Pelas calles, antigos sobrados com balcões no andar superior, muitos com jardineiras, enfeitam a paisagem, tomada de turistas. Fiz força para não parecer um deles, mas não houve jeito… Señor, ¿Cambio, dolares, coca? ¿De donde viene usted? Me ofereciam de tudo, e eu a todos respondia com um sorriso e… !No, gracias! Seguia caminhando por entre outros gringos e românticas charretes puxadas por cavalos devidamente enfraldados para não sujarem as ruas, em direção ao próximo assédio.

Dei a volta...

Dei a volta...

Forte San Felipe de Barajas

San Felipe de Barajas

shhh... BUM!

shhh... BUM!

Pau nos invasores!

Pau nos invasores!

Rota de fuga

Rota de fuga

Neste primeiro dia andei pacas e achei tudo bem legal. São 11 kms de muros na cidade velha e para o leste, no alto de uma montanha, há uma fortificação (no século XVI os caras só pensavam nisso…), o Forte San Felipe de Barajas. Aproveitei a disposição e subi lá. Muito legal vivenciar assim de perto um pouco da realidade do passado. Havia guias revelando curiosidades para grupos de turistas, e de grupo em grupo ia eu, roubando uma informaçãozinha aqui, outra ali… Assim, aprendi que Cartagena foi a quarta cidade fundada pelos espanhóis nas Américas e que o San Felipe foi a maior edificação militar ibérica nestas terras. Era em Cartagena que a Espanha depositava e dali partia a maior parte da riqueza (ouro e pedras) descoberta, com destino a Europa. Sempre em frotas, para evitar o ataque dos piratas, que pululavam nestas águas. (Mas ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, mesmo naqueles tempos, não é verdade?).

Fruta fresca!

Fruta fresca!

Calçada das guloseimas

Calçada das guloseimas

Parque de Bolivar

Parque de Bolivar

Tudo fake!

Tudo fake!

Descendo do morro fui conhecer o Museu de la Inquisición, que mostra um pouco dos suplícios a que eram submetidos os inimigos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana. Mas é pouco mesmo, o museu deixa a desejar, sobretudo porque raras peças são originais, quase tudo é réplica. Apesar disso, tive uma tarde muito proveitosa, turística-histórica-esportiva – porque andar desse jeito não deixa de ser esporte pesado. Algo que me intrigou não só em Cartagena, mas em toda a Colômbia, é que os sanitários são pagos, mas nem por isso limpos. E falando em intriga, no país do café (… vá lá… um dos…), achar um cafezinho não é mole. Há uma rede de cafeterias, Juan Valdéz, que serve um bom café. Mas é a única com que me deparei e, ao menos dentro das muralhas de Cartagena, seus preços eram assaz salgados.

El Glória, à esq.

El Glória, à esq.

Bocagrande noche!

Bocagrande noche!

A cidade circunda uma grande baía. Há água literalmente por todos os lados e num destes cais estava ancorado o navio-símbolo da marinha colombiana, o veleiro Gloria, majestosamente decorado e aberto à visitação pública. Mas tão cheio de horários e regras que nunca dava certo visitá-lo. Contentei-me em admirá-lo de perto, uma nave que impõe respeito. E já caindo a noite, voltei para o hotel, em Bocagrande, e descobri que este é um bairro prá lá de agitado, com as calçadas tomadas de turistas – a maioria colombianos vindos de outras partes do país. Cartagena é deveras uma cidade alegre!

Tecnologia!

Tecnologia!

Estávamos próximos (uns 300 km) do Panamá. Algo que fui aprender ali é que não há ligação rodoviária entre a América do Sul e a Central. O que significa que a tão decantada Rodovia Panamericana é uma quimera. Na verdade entre a Colômbia e o Panamá o que há é uma floresta de uns 100 quilômetros, fechada e pantanosa, por enquanto instransponível por via asfaltada. Para entender melhor a situação geográfica da região, entrei num cyber café e estudei as fotos do Google Earth. E fotografei a tela para ter o mapa comigo no celular, porque ali não havia conexão TIM para acessar diretamente o Google Maps.

Beira-mar

Beira-mar

O mar e o tempo

O mar e o tempo

nenhuma Brastemp...

nenhuma Brastemp...

Na segunda manhã voltei à cidade murada porque ainda estava muito a fins de bater pernas por ali. E fui fuçando… descobri uma parte em que há um intenso comércio de barracas populares, vendendo de tudo um pouco. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de barracas de sapateiro que havia lá, uma ao lado da outra. Ainda bem, porque neste mesmo dia uma de minhas sandálias abriu o bico e tive de valer-me dos préstimos de um destes valorosos profissionais. O que achei que ia ser complicado o cara resolveu em cerca de dois minutos, pela astronômica quantia de 1 peso. Salve os sapateiros! E de pisante reformado, aproveitei para dar uma esticada ao aeroporto, onde pretendia antecipar minha passagem para Caracas. Era longe, mas foi legal porque a avenida era à beira-mar.

Aquecendo as turbinas

Aquecendo as turbinas

Melhor que nada...

Melhor que nada...

O aeroporto de Cartagena é pequeno, moderno e simpático. Não tive problemas com os trâmites burocráticos no guichê da Avianca e saí de lá com minha reserva antecipada para o dia seguinte. Mas ainda tinha tempo de sobra… Assim, na volta aproveitei para caminhar um pouco pelas areias caribenhas. Verdade seja dita, entretanto, as praias ali não são legais, estreitas, de areia escura, com prédios à vista… Mar adentro, nas ilhas, haverá coisa melhor. Mas não fui. Caminhei pelas águas do Atlântico e alegrou-me a idéia de que já entrei neste oceano por todos os lados da América do Sul, com exceção do extremo sul, en la Tierra del Fuego. Quem sabe na próxima? Voltei para a cidade murada onde, muito acima do Equador, o sol brilhava sobre as praças e as pessoas.

Som ao vento!

Som ao vento!

Hoy todo és fiesta

Hoy todo és fiesta

Haga amor, no la guerra

Haga el amor, no la guerra

En el tiempo que pasa

En el tiempo que pasa

Ao entardecer, nos bares localizados sobre o largo muro, frente ao mar, bandas de músicas latinas abriram os trabalhos da noite. E o astral ia ficando cada vez melhor à medida em que o sol se punha. Agitos para todos os lados, gente linda – a mulher colombiana herdou o que há de melhor do sangue espanhol – e muita festa. Turistas, jovens, velhos, todos numa grande confraternização que em mim ressoava de maneira contagiante. Aquele caminho de pedras, aquele mar, a música, o poente… tudo contribuía para criar uma sensação de enlevamento que era assaz recompensadora. Considerei este o ponto alto de minha viagem. Após bebemorar o suficiente, saí dali agradecido.

Tudo de bom

Tudo de bom

E voltei pro hotel prá tomar uma ducha, com a intenção de esticar a festa, quem sabe indo a alguma boite mais tarde? E foi o que fiz. Lá pelas 23 saí e voltei para a cidade murada em busca de agito. Mas quem leu este blog até aqui já percebeu que de notívago eu não tenho nada. Queimo toda a energia sob o sol. E à noite eu sinto é sono! Tendo encontrado uma boite legal, música bombando, gente pulando e se agarrando, acabei ficando num canto, tomando uma ou duas cervejas, e concluindo que aquilo não era mesmo prá mim. Então desencanei e fui caminhar na praia, afinal, a noite estava linda.

Ao longe, o porto

Ao longe, o porto

Meu futuro ancoradouro

Meu futuro ancoradouro

Busetinha caliente

Busetinha caliente

No terceiro dia decidi conhecer o porto. Fui caminhando pela orla interna, que circunda a baía, e passei pela marina, onde havia muitas embarcações ancoradas. Sempre curto a companhia das embarcações… Mas quando cheguei próximo ao porto constatei que mesmo àquela hora do dia não era uma boa idéia perambular por ali. Como toda região portuária, aquela não inspirava confiança, e eu não havia logrado dissimular minha cara de turista… Então dei meia-volta, tomei uma buseta e voltei prá cidade, e quando ia descendo quase esqueço minha carteira sobre o banco. Fui avisado por um garoto, o que me poupou inimagináveis dores-de-cabeça futuras. Ficou no quase!

Ciudad Amurallada, desde Bocagrande

Ciudad Amurallada, desde Bocagrande

Cabeça nas nuvens

Cabeça nas nuvens

E na terceira noite fui para o lado oposto, para os confins de Bocagrande, onde constatei que se tratava de um bairro de classe média, com jardins, ciclovias e muita gente bem nutrida caminhando pelas calçadas. A Colômbia, para mim, foi uma grata surpresa. O tempo todo senti-me em casa e muito bem acolhido. Não presenciei nada que me desagradasse a ponto de não querer retornar. Os preços são acessíveis e viajar pelo país é estimulante. Ao quarto dia pela manhã, quando o avião subia vi abaixo, panoramicamente, Cartagena de Indias, a pequena jóia da Coroa espanhola – e agradeci de coração a felicidade de conhecê-la.

Shorter of breath, closer to death

Shorter of breath, closer to death

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A VIAGEM A MEDELLÍN

Seguuuura, peão!

Seguuuura, peão!

Vista antioqueña

Vista antioqueña

Llegada a Medellin

Llegada a Medellin

… então, montados no bumba do Rapido Ochoa sacolejávamos pelo interior da Colômbia, tendo por destino Medellín, o coração econômico do país. Passando a ponte de La Dorada estávamos no departamento de Caldas, porém ainda retornaríamos ao de Cundinamarca e passaríamos pelo de Boyacá antes de finalmente entrarmos no de Antióquia. O trajeto sinuoso, decididamente, não era nada objetivo. Enquanto a noite caía, nossa condução seguia por cidades e lugarejos de aparência sofrida e nomes pitorescos, como Cocorná, El Santuario, Rionegro, Guarne, Bello e, por volta das 22 horas, avistei enfim as luzes da capital. A chegada a Medellin à noite, pela Nacional 60, é uma dessas impressões indeléveis. O pedaço da cidade que se descortina é nada menos que as imensas encostas da cordilheira tomadas por miríades de luzes dos bairros populares. É uma visão impressionante, um vale cujas laterais remetem à cena de algum outro planeta. Fiquei deveras tocado e, confesso, um tanto apreensivo – naquele momento Medellín pareceu-me um lugar miserável e ameaçador. Mas na verdade vi probreza, mas não miséria na Colômbia.

Terminal del Norte

Terminal del Norte

Rio Medellin

Rio Medellin

Hotel Poblado Campestre

Hotel Poblado Campestre

Por fim, o ônibus estacionou numa das plataformas do Terminal del Norte e pude desembarcar para mais uma etapa desta aventura. Num táxi, percorri a marginal do Rio Medellín, onde havia gigantescos luminosos natalicios. Atravessando quase toda a cidade, chegamos ao simpático hotel Poblado Campestre, onde me aguardava uma reserva, uma ducha tépida e uma cama aconchegante. Um dia inteiro constrito numa poltrona vibratória é coisa para treinamento de astronautas, não para turistas em busca de sossego. Mas sobrevivi e agora queria apenas caminhar pelas redondezas na captura de algo para por entre os dentes.

Metrô Medellín

Metrô Medellín

Vista do Metrô...

Vista do Metrô…

Povo!

Povo!

Estación Caribe

Estación Caribe

Manhã de sol em Medellín! Saio à procura do metrô para voltar ao terminal norte onde na noite anterior, na pressa de sumir dali, havia esquecido de comprar a passagem para a próxima etapa: Cartagena de Indias. Em época de alta temporada convém não deixar prá depois. O metrô, limpo e bonito, ajudou a mudar a primeira impressão que eu havia tido da cidade. Medellín é moderna, com todos os contrastes esperáveis de uma metrópole sul-americana. Indústria pujante convivendo com populações empobrecidas. Ruas lotadas e comércio prá todas as faixas sociais, desde refinados shopping centers a feiras informais de venda e troca de usados. E passavam as estações… a partir de Aguacatala vinham: Poblado, Industriales, Exposiciones, Alpujarra, San Antonio, Parque Berrío, Prado, Hospital, Universidad e, finalmente, Caribe – interligada à rodoviária.

SOS dinherooooooooo

SOS dinherooooooooo

Sí, sí, sí, yo quiero

Sí, sí, sí yo quiero

Entro num cajero automático para ordenhar meu cartão VISA e – surpresa – nada de pesos: “sem comunicação”. Vou a outro e “sem comunicação”. Busco o terceiro, o quarto e último… Socorro! Nada! Procuro um local onde possa fazer uma chamada telefônica ao Brasil para entender o que está acontecendo, mas nenhum dos dois postos telefônicos que havia faziam chamadas a cobrar. Minha única saída era voltar todo o caminho até o hotel (sem dinheiro, sem passagem e bastante encanado) para poder utilizar um telefone. Quando enfim consegui falar com alguém, soube que o problema era queda de sistema no Brasil. Putz! Deveria ser indenizado pelo stress e pela manhã perdida. Mas estamos em férias, mantenhamos a fleuma e, embora quase duros, saiamos sorridentes a perambular… Quanto à grana, mais tarde tentaremos novamente.

Onde tudo acontece!

Onde tudo acontece!

Quando mais tarde chegou, finalmente consegui sacar de um caixa automático a quantia necessária para a passagem e voltei à rodoviária. Desta vez, tudo deu certo – aliás, com grana, quase sempre dá! Comprei o bilhete, desta vez pelo Expreso Brasilia, e fui ao posto de atendimento ao turista solicitar un mapa de la ciudad, por favor. Fui muito bem recebido por um senhor, policial militar, que estava disposto a mostrar-me sobre o mapa todos os atrativos da cidade. Mas minha curiosidade, confesso, era mais mórbida… diante de tanta boa vontade, arrisquei a pergunta que não queria calar. Disse-lhe:

– Mira, señor, pienso que para uno de Medellín no le gustará contestar a esa pregunta… pero me gustaria saber en que punto de ese mapa fué muerto Pablo Escobar.

Para minha surpresa, ele não se aborreceu. Ao contrário, mostrou-me o local sobre o mapa (a nordeste da cidade) e ainda me contou que, numa ocasião, houvera conhecido pessoalmente o maior traficante da história das Américas.

– ¿Verdad?

Barato inda é forte...

Barato é caro…

– !Si, por supuesto! E então contou-me que certa tarde, há uns 18 anos, quando estava de serviço no Hotel Intercontinental, ao norte no bairro de Los Cerros, viu chegar o traficante com toda a sua guarda pretoriana, fortemente armada. Sem chance de defesa não reagiu, porque sabia que seria morto. O homem entrou, ficou o quanto quis, fez o que tinha de fazer e foi embora. Naquela época, segundo o policial, os chefes da droga comportavam-se ostensivamente como se fossem os donos da cidade, um estado de coisas que mudou, pois hoje o tráfico embora intenso é discreto.

Talleres en Caribe

Talleres en El Caribe

Fazemos qq negócio!

Fazemos qq negócio!

Te lembra algo, né?

Te lembra algo, né?

Plaza Botero

Plaza Botero

Retornei ao centro a pé, para aproveitar melhor a tarde. No primeiro bairro que atravessei, El Caribe, havia uma concentração inusitada de oficinas mecânicas. O bairro inteiro era uma manutenção só, inclusive de veículos pesados, o que deixava as ruas cheias de caminhões parados. Vindo pela Carrera 52, cheguei então à parte mais popular do centro, onde havia pelas calçadas uma grande feira de objetos usados. Muitas lojas de bicicletas, autopeças, ferragens e eletrodomésticos. Por fim, cheguei à Plaza Botero, com suas curiosas esculturas de simpáticas figuras obesas. Era o dia 23 de dezembro e havia uma multidão que entupia as ruas. Estava difícil caminhar. Melhor parar numa das muitas galerias prá tomar uma cerveja, desta vez a Polar, ao som da Estrella FM.

Policial? Soldado?

Policial? Soldado?

Início de uma aventura...

Início de uma aventura…

Na Colômbia, ao menos nas metrópoles em que estive, não passam dois minutos sem que se aviste um policial. Em Medellín havia um em cada estação de metrô, sempre próximo às catracas. Mas também estavam pelas ruas, circulando em motos (2 por moto), em carros. Os vigilantes privados utilizam cães. E o uniforme da polícia é em tudo semelhante ao do exército, o que os diferencia é o jaleco de um verde fluorescente utilizado pelos policiais por sobre a farda. Assim, muito bem protegido, na manhã do segundo dia tomei uma vez mais o metrô com destino à Estación Acevedo, ali há uma conexão com o teleférico que leva para o alto de uma das encostas, no bairro de Santo Domingo Savio.

Panoramica de Suramerica

Panoramica de Suramerica

Muy moderno!

Muy moderno!

O teleférico, chamado Metrocable, é um passeio imperdível. Tanto um quanto o outro, pois há dois na cidade. Em cabines para 8 pessoas que viajam suspensas a uma surpreendente altura do solo, passeia-se por sobre os telhados, os bares, as esquinas, as lajes e os folguedos infantis que se desenrolam no mundo abaixo. É algo feérico. Sobrevoa-se as casas e vê-se o que nelas acontece. Quando há um sobrado alto à frente, têm-se a impressão de que se vai bater contra a parede mas eis que se sobe cada vez mais, mais alto, até que se avista ao longe toda a cidade. Gostei tanto que decidi visitar naquele mesmo dia a outra linha, que vai em direção aos bairros da encosta norte.

Brinquedão!

Brinquedão!

Natal perto do céu

Natal perto do céu

E foi o que fiz à noite, na véspera do dia de natal do ano de 2008. Tomei o outro teleférico, na Estación San Javier com destino à Estación Aurora. Se pela manhã o primeiro já havia me impressionado, a viagem que fiz nesta noite subindo e descendo as montanhas escuras dos Andes, foi algo indescritível. Se o primeiro ia por sobre as casas, este sobrevoava a mata escura. E do ponto mais alto, acima de tudo mais o que acontecia naquela parte do mundo, pude ver as infinitas luzes de Medellín no vale abaixo e parecia inacreditável o que se descortinava. Pensei: só por estar aqui e presenciar isso já valeu o meu natal. Sozinho ali, sem champanhe ou panetone, eu estava muito feliz.

Noche Buena!

Noche Buena!

Mucha gente!

Mucha gente!

Media Noche!!!

Media Noche!!!

Voltei para as partes baixas e fui aonde o povo estava – as margens ricamente iluminadas do Rio Medellín. Havia um trabalho em luzes que impressionava pela grandiosidade. Nunca havia visto uma instalação luminosa daquele tamanho, tomando quase todo o rio. E já passava das onze e o povo estava em festa. Crianças, casais, anciãos – muitos policiais – e eu lá pelo meio, experimentando desta vez uma cerveja cujo nome não me lembro mas que era horrível, doce, parecia a mistura de cerveja com tubaina.

Após a meia-noite, finda a festa, decidi voltar para o hotel. Fui para a avenida marginal, mas quem conseguia parar um táxi? Passavam todos lotados, sem uma única exceçãozinha para me tirar daquele sufoco. Pensei na possibilidade de voltar a pé, mas era longe demais, eu já estava com as pernas muito cansadas e àquela hora… o bom-senso absolutamente não recomendava. Porém, sem alternativa, comecei a caminhar. E por muitíssima sorte, vi parar um táxi do qual desceu uma família. Corri e foi a salvação. Em poucos minutos estava no conforto do meu quarto de hotel, mas muita gente ali deve ter se dado mal…

Envigado

Envigado

Na manhã do dia 25, meu último dia inteiro na cidade, sai caminhando por trás do hotel e descobri um bairro muito elegante, com direito até mesmo a um enorme campo de golfe. Andei até cansar, como é de meu costume, mas desta vez não deu prá continuar. Até queria ir um poquinho mais… mas as pernas se recusaram e tive de sentar-me à beira da rua para decidir o que fazer. E minha decisão foi continuar o turismo mas agora motorizado. Assim, tomei a primeira buseta que passava e deixei-me levar. Fui parar em Envigado, a próxima cidade a leste. E foi muito legal, porque embora tão próxima Envigado é muito diferente de Medellín. Para começar é muito menor, parecendo até uma cidadezinha de interior. E o ônibus ultrapassou o centro e seguiu para os bairros do subúrbio. Ali havia muitas famílias cozinhando nas calçadas, festas para todo lado, e um clima de Natal em Paz! Gostei muito do passeio improvisado. Quando achei que já estava indo longe demais, desci, tomei um malte (bebida comum na Colômbia) num quiosque e peguei outra buseta de volta (eu adoro busetas).

Tudo de novo... Vai ser foda!

Tudo de novo??… Sim, vai ser foda!

Às onze da manhã do dia seguinte embarcava no já familiar Terminal Norte para mais um sacolejo de 12 longas horas, desta vez com destino a Cartagena de Indias. O ônibus era um pouquinho melhor do que o anterior, ao menos tinha cineminha – e foram nada menos que quatro longa-metragens do início ao final da viagem, com espaço para mais alguns durante as pausas entre um e outro. Ao meu lado sentou-se um rapaz que parecia disposto a entabular uma animada conversação. Mas havia um problema: eu não entendia patavina do que ele dizia. Falava rápido mas aquilo não era castelhano – era colombiano, o que é muito diferente. Fui obrigado a fechar a cara e responder com monossílabos, pois previ que iria ficar com dor de cabeça se fosse tentar decifrá-lo. Já estava de saco cheio de ter de dizer “como?” e “hã?” a cada frase que ele dizia.

Bem que estranhei...

Bem que estranhei…

Lá pelas tantas, quando voltava do banheiro para a minha poltrona, senti algo estranho ao sentar-me e imediatamente soube do que se tratava. Era uma baita pistola – e carregada, pois o garoto era um policial à paisana que na minha ausência havia debruçado sobre o meu banco vazio para conversar com o vizinho do outro lado do corredor e neste movimento deixara cair a arma, sem perceber. Com naturalidade, apresentei-a a ele e perguntei “¿És tuya?”. Ele não pode acreditar, pegou-a e pareceu muito envergonhado, pois aquilo não havia sido nada profissional. Pero… cosas que suceden.  Quem nunca perdeu uma pistola, não é mesmo?

NÃO recomendo!

NÃO recomendo!

Por fim, lá pela uma da manhã – sim, foram mais que doze horas – chegamos ao litoral. Desembarquei na rodoviária de Cartagena e tomei um táxi que me levou ao bairro de Bocagrande, na Carrera 3, hotel Bonavento Real – (in)felizmente o único muquifo de toda a viagem. Aliás, diante das acomodações decepcionantes (reservadas às cegas pela Internet), tive de encurtar um pouco minha estada numa das mais agradáveis cidades em que estive, pois àquela altura não havia como encontrar vaga em outro hotel, todos abarrotados.

Mas (again) estamos em férias, mantenhamos a fleuma e, embora muito putos, saiamos sorridentes a perambular… Afinal, Cartagena é muitíssimo legal.  Mas isso merece outra história.

Time flies!

Time flies!

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A VIAGEM A BOGOTÁ

Ueba! S'imbora!!

Ueba! S'imbora!!

Eram 11 da manhã da quarta-feira, 17 de dezembro de 2008, quando subi num Boeing 737-800 da Varig, no aeroporto de Cumbica, com destino à Colômbia. Manhã cinzenta que se revelou mais que ensolarada, exuberante, assim que o avião ultrapassou o manto das nuvens. No encosto à minha frente não havia aquele monitor que nos situa geograficamente, mas a voz do comandante deu as diretrizes: “Senhores passageiros, bem vindos ao vôo 8698 da Varig com destino a Bogotá. Nosso trajeto será por Bauru, Cuiabá, Villavicencio e Bogotá. Tempo estimado de vôo 6 horas. Tenham todos uma boa viagem”. Tais palavras colocaram-me finalmente em sintonia com a situação: eu acabara de sentar-me numa poltrona da qual levantaria dentro de 6 horas para desembarcar noutro país, noutra cultura, noutro mundo. Na verdade, levantei-me antes disso para ir fazer xixi.

O aeroplano… não canso de admirar esse maravilha sonhada por Da Vinci e materializada por Santos Dumont (xô, usurpadores Wright). Trata-se de uma máquina que é quase o teletransportador de Jornada nas Estrelas. Você entra aqui e sai lá… apenas demora um pouquinho mais. Aliás é também uma máquina do tempo, na qual você pode magicamente ver o dia andando para trás, desde que voe para o oeste, como em Enquanto Isso.

Natureza e máquina!"

Natureza e máquina!

Nós rumávamos noroeste enquanto eu mentalizava cálculos… 4300 quilômetros em 6 horas significa que nossa velocidade é de pouco mais de 700 km/h. Se a hora tem 60 minutos, então estamos a quase 12 km/min, o que implica 200m por segundo. Concluí que a cada 5 segundos deixávamos 1 quilômetro para trás, impressão que foi melhor ilustrada quando pude ver a sombra negra do aparelho “voando” no chão. E por algum tempo estive a contar os segundos… 1… 2… 3… 4… um quilômetro… 1… 2… 3… 4… dois quilômetros… até que cansei da brincadeira e passei a ler a revista de bordo. Subindo para 30 mil pés, lá fora já não dava prá ver mais nada.

Hotelzinho legal!

Chiquitito, pero cumpridor!

galerias5

Galerias populares

Decorridas estas poucas horas, devidamente vacinado contra a febre amarela pousei no Aeropuerto Internacional El Dorado, na capital colombiana, onde era aguardado por uma senhora que ostentava uma plaqueta com meu nome. Com seu filho, que dirigia o Fiat e conhecera São Paulo, fui conduzido ao hotel que reservara no aprazível bairro de Chapinero Alto, não sem antes passar defronte à embaixada americana, que – como convinha – mais parecia um bunker gigantesco. Y entonces allí, en el coche mismo, empecé con ellos a utilizar mi castellano. Eso me gusta! Ueba! Ao cair da noite, já instalado e após uma ducha providencial, fui comprar um livro na movimentada Calle 53, próximo às Galerias. Por 25 pesos, adquiri “El Amor en los  Tiempos del Cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, porque o enredo transcorre na cidade de Cartagena, próxima parada prevista em meu roteiro.  Porém, talvez pelo desconforto das 6 horas sentado sentia-me indisposto, assim jantei por ali um sanduiche um tanto estranho e deixei para explorar a cidade no sol da manhã seguinte.

Arepas chôcolo

Arepas chôcolo

Cordilheira

Cordilheira logo alí

Buseta

Buseta

Comércio de rua

Comércio de rua

E foi o que fiz logo ao acordar. Após um desayuno de tamales com arepas-chôcolo (amei a segunda, abominei o primeiro) sai prá bater pernas por uma das capitais sulamericanas que há tempos tinha ganas de conhecer. Não sei porque, sempre simpatizei com a Colômbia. E então tudo era novidade: a cidade aos pés da cordilheira, o frio que surpreendia, as busetas multicoloridas, o comércio popular de artigos regionais. Fui clicando tudo no meu Nokia N95 comprado no Shopping Morumbi especialmente para a ocasião, o que me permitiu registrar a aventura completa em fotos de 5 megapixels. O frio era realmente inesperado… havia pensado que por estar mais próxima à linha do Equador Bogotá seria mais quente do que São Paulo, esqueci-me porém de considerar a altitude… A 2640m, a capital colombiana está mais alta que a paulista respeitáveis 1880m, e isso obviamente reflete muito na temperatura.

Motoqueiro

Identifique-se!!

Taxi

Prá avião ver

Ali, dentre as particularidades que chamam a atenção, está o fato de todos os motociclistas serem obrigados a utilizar um jaleco com destaque para o número da placa, o que não é de muita valia quando por cima do número vestem uma mochila… Assim, por via das dúvidas, são obrigados a pintar o mesmo número também na traseira do capacete. Os táxis são amarelos e todos veículos utilitários têm o número da placa pintado não só nas laterais, como também no teto. Todas essas regras de trânsito são neuras compreensíveis para um país que convive há tanto tempo com ataques terroristas… Mas meu medo de ser seqüestrado não se concretizou.

Transmilenio

Metrô sobre pneus

estacao-t

Estação Transmilenio

Plaquinha esquisita...

Que meda!

Mais 1 buseta

Buseta é o que há!

Ao invés de metrô, a cidade conta com um sistema de ônibus vermelhos articulados (chamados Transmilenio) que a cortam de lado a lado com as estações de embarque localizadas sobre as ilhas das principais avenidas. Trata-se de um meio de transporte eficiente, embora já subdimensionado para os horários de pico. Foi num destes ônibus que vi uma placa curiosa…  e até ligeiramente assustadora!  Mas o que mais salta aos olhos do turista desavisado, como eu, são mesmo as busetas. São ônibus pequenos, desuniformes, pintados em cores escandalosas e na maioria das vezes decrépitos, que por módicos 1,20 pesos levam o passageiro por longas distancias. É funcional, barato e pitoresco.

Bogotá nublada

Bogotá nublada

Localizar-se não é um problema. O país conta com um sistema de nomenclatura de logradouros que torna tudo fácil: de norte a sul estão as “carreras”, que são as avenidas. E de leste a oeste correm as “calles”, ou ruas. E todas levam números – e não nomes (com poucas exceções). Assim, por exemplo, o endereço Carrera 13 #27-17, significa: Avenida 13, altura da rua 27, número 17. E qualquer um que conheça minimamente a cidade já terá uma boa idéia de onde isso fica, mesmo sem olhar no mapa… muito prático.

Monserrate, pertim do céu

Monserrate

Trenzinho

Trenzim

Atrás da igreja

Atrás da igreja

Tá, mas sem galinha...

Tá, mas sem galinha...

Alto pacas!

Alto pacas!

Bogotá, já chamada pelos antigos de “Santa Fé” e depois “Santa Fé de Bogotá”, situa-se num terreno plano que a leste (lá dizem “oriente”) tem a cordilheira por limite natural. Então um ponto de grande interesse turístico é Monserrate, uma igreja localizada bem alto no topo da montanha de onde se descortina a vista de toda a região metropolitana.  Chega-se por um simpático trenzinho que sobe uma encosta íngreme ou por um teleférico que no sábado em que lá estive só iria iniciar as atividades às 3 da tarde. Aliás neste dia pouco se podia ver da cidade, tal era a neblina que se instalara. De trás da igreja sai um corredor de tendas que vendem souvenires e comidas típicas. Aliás, as comidas são um capítulo à parte. O que se via eram galinhas amarelas fumegantes, miudos de aves aferventados, linguiças de aspecto suspeito e tantas outras iguarias que, sinceramente, mais me assustavam que atraíam. Mas suponho que os colombianos as adorem, porque estão por toda parte – assim como o som da Candela FM.

1º Mundo

1º Mundo também, tá?

Museu Nacional

Museu Nacional

Planetario Bogotá

Planetário Bogotá

Centro Histórico

Centro Histórico

 

Visitei os centros econômicos e constatei que ali também há algo de primeiro mundo. Fui ao Museu Nacional de Colômbia, muito interessante, ao planetário municipal, que considerei melhor que o de São Paulo, e à região das praças, en La Candelaria, o centro histórico, que para mim é a parte mais charmosa da cidade. Por falar em charme, impagáveis são os caminhões cuja carroceria foi transformada num salão de baile aberto, que desfilam pelas avenidas com a música a todo volume e lotados de turistas dançando, bebendo e babando lá em cima.

Joyeux Noël partout

Joyeux Noël partout

Frio desfocante...

Frio desfocante...

Fiesta!

Fiesta!

Eram dias que antecediam o natal e por isso à noite a metrópole brilhava em cores. Pela avenida principal, a Carrera 7, famílias passeavam lotando as calçadas e este espírito de festa avançava até altas horas. Num frio de rachar, eu andava até as pernas doerem. Então tomava uma buseta de volta à casa e ia ler a saga de Florentino Ariza em sua perseverante – antes, obstinada – espera pelo amor de Fermina Daza.

Terminal Rodoviário

Terminal Rodoviário

Chevy Spark

Chevy Spark

Pablito do pó

Pablito do pó

Tudo ia bem, mas ao quarto dia concluí que meu projeto original – de ficar na capital por 8 dias – estava superestimado. Assim, entre Bogotá e Cartagena incluí no roteiro Medellin, para conhecer a terra do finado e famigerado Pablo Escobar que, embora não fosse um vulcão, tantas toneladas de pó derramou sobre os Estados Unidos… Em São Paulo, havia reservado um carro e então fui à sede da locadora (Hertz) para retirar meu Chevrolet Spark. Qual não foi minha surpresa ao negarem a entrega do veículo alegando que o escritório brasileiro havia cometido um erro, pois em alta temporada eles não poderiam ceder um carro para ser deixado em outra cidade. Com a reserva na mão, fiquei muito puto e já ia chamando a polícia quando descobri que meu parco portunhol fica pior ainda quando estou nervoso. Percebí que iria perder horas preciosas com esse assunto de desfecho duvidoso e rasguei a reserva no balcão. Fui prá estação rodoviária, onde resolvi o problema comprando uma passagem para Medellín pelo glorioso Rapido Ochoa!

Usaquén

Usaquén

Ciclovia dominical

Ciclovia dominical

Passagem comprada… último dia na cidade, um domingo, fui conhecer a graciosa feira de artesanato de Usaquén, um bairro elegante ao norte. Com tempo de sobra, fui caminhando pela Carrera 7 e apreciando o fato de que a haviam transformado numa ciclovia muito bem-sucedida, com gente de todas as idades pedalando pela longa avenida. E já que estava tudo fechado, aproveitei para conhecer dois shopping centers (abertos, óbvio), o mais bacana e o mais visitado. O Shopping Center Hacienda Santa Barbara foi, como o nome sugere, construído a partir da casa grande de uma fazenda histórica e por isso mesmo é original e agradável. Já o Shopping Unicentro não apresenta muitas novidades e num domingo como aquele estava botando gente pelo ladrão. Quase entre tapas, almocei e caí fora. Mas reconheço que a comida e a cerveja Aguila estavam muito saborosas.

Na manhã da segunda-feira, tomei um táxi e apresentei-me às 8 na rodoviária. Há malas que vão para Belém… Foi ótimo não ter pego o carro, porque a estrada que liga as duas principais cidades do país é um desafio à sanidade de qualquer motorista. De Bogotá a Medellín são 10 horas por uma pista única tortuosa, serpenteando e sacolejando por entre as encostas dos Andes com tal violência que no banheiro do ônibus não havia meio de eu conseguir mijar. Por fim, tive de segurar-me com ambas as mãos e abandoná-lo (a ele…) à própria sorte, o que comprometeu totalmente a pontaria e transformou-o momentaneamente numa alucinada metralhadora giratória – que fez o estrago que as metralhadoras sempre fazem… Enquanto isso, o ônibus, em plena faixa contínua, temerariamente ultrapassava mais um dos 1000 caminhões que encontrou pela frente. Encomendei minh’alma ao Santíssimo!

Fogón Paisa

Fogón Paisa

Tem baurú?

Tem baurú?

A cada 500m...

A cada 500m...

 

 

É nóis na estrada!

É nóis na estrada!

Lá pela uma da tarde, o motorista parou no Fogón Paisa para que os passageiros enchessem o tanque. Muitos ônibus, muita gente, muita comida. Mas eu bravamente continuei em jejum, pelo medo de vomitar em meio a tantas curvas. De volta à poltrona, tinha pela frente ainda muita estrada e a música que tocava o tempo todo. Canções populares colombianas, que em outras circunstâncias eu até teria apreciado, mas ali – uma atrás da outra naquele volume, por 10 horas – era uma tortura para o cérebro e os ouvidos. Aliás, ouvir música altíssima parece ser uma mania nacional… O que compensava eram os pueblos pelos quais o busão passava, lugarejos que revelavam a verdadeira alma da Colômbia, com sua gente simples e arquitetura modesta. Ao longo do asfalto, em vários pontos, soldados entrincheirados detrás de sacos de areia empilhados. E muitos “lavaderos”, locais improvisados para a lavagem de caminhões. Era a minha querida América do Sul passando pela janela…

Ponte sobre o Magdalena

Ponte sobre o Magdalena

Digna de nota a travessia por sobre o majestoso Rio Magdalena, com suas águas barrentas. Um ponto da viagem que constrastava com o verde da paisagem circundante. Lembro-me de, ao atravessar a grande ponte pênsil, ter pensado: isso será bem reconhecível depois, no Google Earth. De fato, foi: La Dorada (5°28’11.50 N, 74°39’48.43 O).

Estrada, só no zig-zag...

Estrada, só no zig-zag...

Mas o titulo desta história é Viagem a Bogotá. E esta ponte, entre os departamentos de Cundinamarca e Caldas, é já meio do caminho para Medellín… por mudança de jurisdição este texto acaba aqui!

Hoje é hoje!

Hoje é hoje!

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