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TRAVESSIA E MEDO

Capitão Mor versão mar

Capitão Mor versão mar

Porque soou-me pedante (e também pela métrica), não intitulei este post “Travessia e Coragem”… mas teria sido mais apropriado. Afinal, ele trata de travessias e da superação do medo, portanto a coragem.

Tens a manha?

11 hs direto... Tens a manha?

Há nesta Terra (prá não dizer fora dela…) tantas coisas que admiro. Algumas entretanto estão além da admiração, atingindo as raias do espanto. No que concerne à mente humana, o que dizer dos gênios e dos savants, pessoas dotadas de extraordinárias capacidades para realizar feitos que até Deus duvida? Ou, trazendo para a esfera das habilidades físicas, como não se assombrar diante da capacidade de um Ironman?

O Triatlo Ironman (homem de ferro), surgiu no Hawai e consiste numa disputa tríplice composta por 4 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e – ufa! – 42 quilômetros de corrida. O atual recorde (escrevo em 2009) foi estabelecido em 1996 pelo belga Luc Van Lierde, cujo tempo foi de 8 horas, 4 minutos e 8 segundos. E sem paradas!

Luc Van Lierde, the Superman

Luc Van Lierde, the Superman

A meu ver, trata-se de um estranho extremo extraordinário, ou coisa parecida. Como é possível que um homem possa nadar 4 quilometros (fácil?), pedalar 180 (putz… de repente complicou) e na hora de tombar morto ainda dar uma corridinha de 1 maratona (socorro!)?. É de fato um mistério, que se torna ainda mais presente quando por vezes sequer consigo correr direto os 6 quilometros da trilha grande do Ibirapuera…

Essa rampa já mata um...

Essa rampa já mata um...

São seres excepcionais. Mas nem precisa ser um Ironman (or Ironwoman, for that matter) para merecer minha admiração. No Triatlo Clássico, basta nadar 1,5 km, pedalar 40 kms e correr 10 kms prá completar a prova. É coisa demais! No que me diz respeito, creio que o máximo com que poderia sonhar (em participar, não vencer – e muitíssimo menos quebrar algum recorde) seria o Triatlo Sprint: 750 metros de natação, 20 kms de bicicleta e 5 kms de corrida. Mesmo assim, teria de treinar muito ainda.

Igor de Souza

Igor de Souza

Então melhor concentrar-se em apenas uma modalidade. No meu caso, a natação. Mas também aí, surgem as feras que nos deixam falando sozinhos. E nem me refiro à velocidade (dos Phelps e Cielos da vida), apenas à resistência. Prá ficar entre os brasileiros, admiro muito o tricampeão mundial de águas abertas Igor de Souza, o 3° homem a fazer (em 1997) ida e volta na travessia do Canal da Mancha, mas o único que voltou mais rápido do que foi, tendo concluído em 9 hs 31 min a ida e em 9 hs 02 min a volta.

Vou alí e já volto...

Vou alí e já volto...

Martin Strel

Martin Strel

Uma travessia dupla, non stop, portanto. Mas nem precisava… travessias simples também são feitos dignos de nota: como a realizada em 2007 pelo esloveno Martin Strel que, tendo caído n´água no Perú foi nadando pelo Rio Amazonas, ao longo de 65 dias, até chegar a Belém, 5.265 quilômetros depois. Aos 52 anos, Strel nadou entre piranhas e outros perigos e, ainda que seu ritmo tenha caído quase à metade no final, na maior parte da aventura percorreu cerca de 90 quilômetros por dia. Tudo bem que foi rio abaixo, mas… é mole?

Repetitivo, mas gostoso!

Repetitivo, mas gostoso!

Lembro-me que em 1987, quando iniciei como repórter do telejornalismo da TV Record, tive a oportunidade de cobrir uma edição da travessia Ilhabela – São Sebastião, acompanhando (embarcado, bem entendido) o líder da prova, que mantinha boa distância do segundo colocado. Ao final, já na praia e com água até os joelhos corri até o vencedor, um garoto de uns 17 anos, para colher suas primeiras palavras, que foram: “Não é prá qualquer um!”. E eram, se bem me lembro, apenas uns 3… 4 kms.

Mas cada pessoa tem seus próprios limites e é dentro deles que deve estabelecer seus desafios. Eu, que não sou triatleta, nem biatleta, nem atleta e nem porra nenhuma além de um empresário que fica o dia inteiro sentado, esquentando a cabeça diante de um computador, decidi investir na travessia de águas abertas, porém mais modestas. E é o que tenho feito.

Eu, em 1968

Eu, em 1968

Onde tudo começou.

Onde tudo começou.

Meu interesse pela natação começou nos idos de 1968, quando meu pai nos comprou um título de sócio-proprietário do Clube Atlético Aramaçan, de Santo André. Ali havia uma piscina bem pequena, onde aos 9 anos dei meus primeiros mergulhos. Ocorre que a menos de 50 metros daquela estava a piscina olímpica do Estádio Municipal Pedro Dell’Antonia… Naquela época havia um acordo entre o clube e a prefeitura, um portão aberto e nós tinhamos acesso livre àquela vastidão de água, que sob os trampolins chegava à assustadora profundidade de 5 metros.

Ali nadei muito, tudo bem erradamente (se é que o vocábulo existe) – como convinha a um pirralho que nunca havia tido lições de natação. Sinceramente, não sei como não me afoguei por aqueles dias. Essa foi minha brava e solitária iniciação.

Eu, em 1975

Eu, em 1975

Mas o desejo de aventurar umas braçadas além da relativa segurança das piscinas só veio mesmo aos 16 anos, numa tarde de 1975, quando caminhava numa praia cuja localização já não me lembro, do litoral norte de São Paulo. Eu estava perambulando pela areia quando acabei travando contato com uma turma de 4 amigos, todos mais ou menos da minha idade. Fomos caminhando juntos, dando risadas, até que surgiu um obstáculo: a praia acabava e só recomeçava uns 100 metros adiante, com um braço de mar entre as duas margens. Os caras nem se despediram… um deles olhou prá trás e disse “vamos nessa?” a resposta foi “tchibum”, “tchibum” e “tchibum”. Fiquei ali parado, que nem um tetraplégico, vendo os quatro se afastarem. Concluí que havia algo de errado naquilo… eu tinha de um dia vir a nadar daquele jeito também.

1 milha náutica

1 milha náutica

Doutra feita, muitos anos depois, já adulto, vi outra cena que me deixou sacaneado: estava eu com amigos tomando sol nas areias da Barra do Sahy quando vejo um cara fazendo aquecimento à beira d´água. Ele girava os braços prá frente e prá trás, curvava o corpo até tocar o solo e rotacionava o tronco, prá esquerda e prá direita… Curioso, fiquei olhando prá ver no que aquilo iria dar. Pois o cidadão mergulhou e saiu nadando, sozinho, em direção às ilhas. Fiquei de cara! Era muita coragem alguém sair daquele jeito, em direção ao mar aberto, tendo à frente absolutamente nada até poder atingir terra firme outra vez já perto do horizonte. Aquilo só fez aumentar minha revolta pessoal por não ter a coragem necessária. Hoje, graças ao inacreditável Google Earth, sei que ele nadou exatos 1700 metros até atingir o canto da ilha. Na ocasião pareceu-me uma loucura. Na verdade, ainda agora me parece… não mais pela distância (que hoje está ao meu alcance), mas pelo fato de perfazê-la só. Loucura? Coragem? Ambas?

Grito ou não grito ??

Grito ou não grito ??

E entre estes vários episódios, perdi a conta das vezes em que me vi em apuros a 50m da praia… Sempre a mesma história: Entrava no mar para nadar “só até ali” e na volta tinha a nítida sensação de não estar fazendo progressos em direção à areia. Imediatamente, sobrevinha o medo beirando o pânico. Da última vez que isto aconteceu, em 2006 em Itamambuca, fiquei a uma braçada de gritar por socorro. Uma dúvida estranha apossou-se de mim: enquanto me apavorava achando que o mar estava me arrastando pra dentro, por pura vergonha relutava em pedir ajuda. Eu pensava: “grito? não… se eu gritar vou criar o caos. Vou tentar mais umas braçadas na diagonal”. Por muita sorte, eu estava certo e saí vivo. Mas muito puto por ter me metido pela enésima vez na medésima roubada.

Mundo à parte

Mundo à parte

Voltando ao passado: Certa feita um amigo, Renato, me disse “Você já mergulhou com snorkel?”. E eu perguntei “Pra que?”, ao que ele respondeu “Pra ficar vendo os peixinhos… é o maior barato”. Gostei. Comprei não só a idéia como também nadadeiras, snorkel e cinturão de lastro. Isso foi em 1991, em Parati. Nesse mesmo ano, comecei a levar o aprendizado a sério e matriculei-me como aluno do curso de natação da academia Aquasport, da Vila Madalena, próxima de onde eu morava. Foi ali que tive a revelação de que realmente adorava nadar. Ao final de cada aula eu tinha a grata constatação de que havia de fato aprendido alguma técnica nova, aperfeiçoado algum procedimento ou ganho força extra n’alguma musculatura específica. Quero dizer que era tangível o meu progresso, dava para senti-lo dia a dia, nítida e muito prazerosamente.

Eu, em 1994

Eu, em 1994

No final de 1994, convidado para trabalhar na EPTV, mudei-me para Ribeirão Preto e imediatamente tratei de achar uma academia para continuar o aprendizado. Fui parar na Esporte & Cia, no bairro dos Campos Elíseos, a única que conheci até hoje cujas paredes da piscina projetavam-se para fora do chão. Era um tancão, porém muito honesto e de dimensões semi-olímpicas. Nunca havia ninguém na água naquele horário da noite e eu ficava ali absorto, indo e voltando… indo e voltando… sempre nadando crawl.

35m a 40km

35m a 40km

Logo alí, a um tirinho de arpão

Logo alí, a um tirinho de arpão

Em 1995, ao fazer uma reportagem sobre a abertura de um curso de mergulho que teria lugar na piscina olímpica do Centro Universitário Moura Lacerda, fui convidado pelo instrutor, o grande TC, a participar gratuitamente. Uma bolsa de estudos, portanto. Desnecessário dizer que agarrei com ambas as mãos aquela oportunidade de, literalmente, aprofundar meus conhecimentos aquáticos. E por vários domingos consecutivos passei as tardes aprendendo as técnicas do mergulho autônomo (com garrafas). Até que numa bela manhã, fomos de lancha para o “batismo” na Laje de Santos, a 40km do continente, onde pude descer à profundidade de 35m e constatar que mergulhar é de fato uma das melhores coisas a se fazer durante esta breve passagem pelo planeta.

Olímpica do Moura Lacerda

Olímpica do Moura Lacerda

Depois disso voltei ainda várias vezes à piscina do Moura Lacerda quando, nas tardes de domingo, o TC estava ali com seu grupo de alunos. Enquanto eles aprendiam mergulho, eu treinava natação. O local era fantástico: uma piscina olímpica no alto de um morro e cercada de árvores. E foi nela que bati meu recorde de distância de nado contínuo (que permanece até hoje…): 5.200 metros. Quase nada, mas que me tomou umas 3 horas.

Prá ir foi fácil...

Prá ir foi fácil...

Embevecido com a novidade do mergulho, fosse autônomo ou livre (apenas com snorkel, sem garrafas), quase ia me metendo em fria… um dia, em 1998, novamente na Barra do Sahy, munido de snorkel e nadadeiras fui beirando as pedras ao final da praia, contemplando os peixes e as formações rochosas no chão do mar, no máximo uns 3 metros abaixo. Nadei e nadei, só curtindo aquele visual. De repente, notei que os peixinhos haviam crescido… do nada, haviam se tornado peixões. Imediatamente, percebi também que o chão havia sumido e, vendo as formações rochosas enormes abaixo, senti-me como que sobrevoando os arranha-céus de uma megalópole. Algo estava errado.

Marzim virô marzão!

Marzim virô marzão!

Levantei a cabeça para ver onde estava e assustei-me com o que vi: eu havia nadado uns 500m, até onde as pedras fazem a curva e estava já de cara para o mar aberto. O problema é que a enorme rocha que descia a montanha era absolutamente lisa, não tendo ali a mínima chance de encontrar um ponto onde se agarrar, caso fosse necessário. Pensei “que cazzo eu tô fazendo sozinho aqui?”. E imediatamente comecei a voltar. Mas no caminho tive o azar de ter água entrando no snorkel e batendo diretamente no pulmão. Aquilo foi o fim… consegui agarrar-me numas rochas que sobressaíam à flor d’água e me ralei todo. Mas consegui ficar ali o tempo suficiente para tossir e recuperar o fôlego. Não houvesse aquelas pedras, acho que teria entrado em pânico, com consequências… digamos… imprevisíveis.

Eu, em 1998

Eu, em 1998

O velho estádio, hoje reformado

O velho estádio, hoje reformado

Tendo concluído meu ciclo de vida em Ribeirão Preto (2 anos), voltei para o aconchego da casa paterna, em Santo André, para recuperar as energias (e as finanças…). Então, sempre em 1998, fui treinar no mesmo Estádio Pedro Dell’Antonia da minha infância, desta vez, porém, na piscina coberta semi-olímpica, onde treinava a equipe de natação da cidade. Foi muito complicado, porque os caras nadavam demais… Eu era sempre o último a chegar nos “tiros” de 50 e 100 metros. E, ao contrário dos demais, que ao chegar ficavam parados me esperando, quando eu chegava já tinha de sair novamente sem qualquer pausa para descanso. Fiz o que pude, porém não era para mim. Mudei para outra academia da cidade.

Mas após isso, concluí que meus problemas de rinite deviam-se ao cloro das piscinas e resolvi dar um tempo com a natação. Foi uma péssima idéia que me afastou por quase 10 anos das águas que tanto bem me fizeram. Após esse período (e 2 cirurgias no nariz), percebi que a rinite persistia com ou sem cloro (ou cirurgia) – e que com essa enorme pausa eu havia apenas perdido tempo e fôlego.

Capitão Mor

Capitão Mor

Água por água, em 2000, resolvi fazer um curso de vela na represa de Guarapiranga. Concluídos os breves estudos teóricos, embarquei num veleiro (um laser) e não consegui fazê-lo sair do lugar. Então decidi alugar um daqueles barcos por 3 meses, para aperfeiçoar os conhecimentos, e foi aí que entendi como é que a banda tocava. Quando captei o princípio da vela, sumi pelos recônditos da represa e, ao longo daquelas 12 semanas, explorei-a sozinho de cabo a rabo. Não sem virar o barco uma centena de vezes, que o laser é extremamente arisco. Virava tanto que acabei ficando safo na arte de antecipar-me ao mergulho: quando percebia que a virada era iminente, saltava para a bolina que já surgia na lateral, com o peso do corpo puxava o barco de volta e imediatamente saltava de novo para dentro. Vivia roxo de hematomas, mas evitei assim muitos caldos desnecessários.

Brinquedão!

Brinquedão!

Nunca, durante estas emborcadas, senti um pingo de medo que fosse – com exceção do dia em que o colete que vestia pareceu enroscar-se nos cabos que estavam sob o barco virado. Foi só um susto, mas teria sido irônico morrer afogado por culpa do único acessório que estava ali exatamente para salvaguardar minha vida. O fato é que estas viradas me deram maior confiança em minha capacidade de sobreviver na água. Ainda assim tinha medo de travessias de longos trechos… sabia nadar, mas não sabia o que esperar de minha reação emocional quando me visse lá no meio, sem barco e longe de qualquer margem. Vivia com a idéia de pedir a algum amigo que me acompanhasse embarcado enquanto eu nadava, mas nunca cheguei a pô-la em prática.

Foi, mas não voltou.

Foi, mas não voltou.

Jamais pude esquecer a cena que vi num domingo de 1988, quando com meu amigo Emersão presenciei a morte de um nadador no lago do Parque Ecológico do Tietê. Estávamos os dois sentados à beira d´água quando o cara entrou para atravessá-lo, uma distância besta de uns 200 metros, se tanto. Na ida foi tudo bem, mas na metade da volta ele começou a se debater, o que nos chamou a atenção. Pude ouvir o som distante de sua voz que nos chegava rente à flor d’água gritando “eu vou morrer!”. Ele tinha amigos na margem que hesitavam em nadar em seu auxílio. Ele afundou uma, duas vezes e depois sumiu de vez. Então dois de seus amigos saltaram n’água para ir até onde ele estava, mas sabíamos que era tarde demais. Foi a única vez que vi alguém morrer.

Aqui se faz o aquecimento...

Aqui se faz o aquecimento...

Por estas e outras, em 2003, voltei a nadar em academia, desta vez na Oficina de Saúde, de meu amigo Mario Colombo, novamente na Vila Madalena… mas, por alguma razão, parei de novo. Só retomei a prática em 2008, quando me inscrevi na ACM da Praça Roosevelt. No princípio ia lá e ficava nadando sozinho, cerca de 1500m por noite. Mas aquilo era maçante e me incomodava imensamente aquele pessoal conversando dentro da água, nas cabeceiras, impedindo-me de fazer as viradas. Achava o cúmulo, porque piscina é prá nadar e não conversar – e reclamei com a diretoria. Diante da resposta de que “isso é assim mesmo, não há o que possamos fazer porque eles também são pagantes”, desisti de continuar ali e, outra vez, abandonei as raias.

Achei o que eu queria...

Achei o que eu queria...

Essa situação só mudou meses depois, quando recebi em casa um exemplar da revista da ACM no qual havia uma reportagem sobre as travessias de águas abertas coordenadas pelo instrutor Bruno. Quando li aquilo, meus olhos brilharam, ao mesmo tempo em que senti um calafrio percorrer a espinha. Ali estava a chance de eu demonstrar a mim mesmo que, sim, eu podia atravessar a nado uma represa ou coisa parecida. Era uma obsessão! Criei coragem e entrei em contato.

Bruno

Bruno

O Bruno é um garoto de uns 22 anos, formado em Educação Física com especialização em esportes aquáticos, a quem devo muito por ter-me insuflado a coragem suficiente para as primeiras aventuras em águas grandes… Ele se dispôs a acompanhar-me em quantas travessias fossem necessárias até que eu tivesse os culhões de nadar sozinho. E eis que chegou a oportunidade… Iria haver uma travessia no Guarujá e eu poderia escolher entre as três opções de prova: de 500, 1000 e 1500m. Claro que escolhi a menor – e mesmo assim com um baita cagaço. Quinhentos metros na água é distância suficiente prá se morrer umas 490 vezes. A prova estava marcada para o dia 24 de maio, mas foi adiada devido às más condições do mar… brrrrrr

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1ª TRAVESSIA (marítima – 500m) – Guarujá SP
(23°59’8.71″S; 46°12’48.90″O) – Praia da Enseada
5ª etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 08.06.08 – Manhã nublada de outono

Praia da Enseada - Guarujá

Praia da Enseada - Guarujá

Tchurma da ACM

Tchurma da ACM

E a primeira travessia foi, até hoje, a mais dura que enfrentei. Prá ser exato, a largada da primeira travessia. Era junho de 2008, estávamos na praia da Enseada, no Guarujá e havia uma multidão de gente em trajes de banho, todos prontos para largar quando soasse a buzina de suas respectivas baterias. O Bruno e eu levávamos no pulso uma fita da mesma cor, indicando que se tratava de uma travessia acompanhada. Eu estava nervoso e o mar, como um cão, parecia sentir isso – estava agitado, com ondas grandes vindo em direção à praia. No último momento, outra novata juntou-se a nós, contra a vontade do instrutor – que não teve tempo de dizer não.

Tipo assim...

Tipo assim... dai prá pior!

Soou a buzina. Todos correram em direção à água. Eu corri também, mas o mar estava jogando com força prá fora. Tratei de mergulhar. O Bruno gritava “vai bem por baixo da onda”. Eu saía de uma onda e, ainda ofegante, tinha de encarar outra, todavia maior. Estava descoordenado, meu coração aos pulos, nada dando certo. Comecei a sentir muito medo, pensei “como vou entrar neste mar com o coração acelerado desse jeito? Eu vou é morrer aí dentro”. E gritei ao Bruno: “Cara, eu não vou. Vou começar por uma represa…” E ele, que conhecia meu nado, dizia, “Vamos lá, Elcio, você consegue!”. Não dava tempo de pensar. Já sem ter pé, lá vinha outra onda me afogando. Eu estava tão apavorado que não me dei conta de que entre uma reclamação e outra havia progredido o suficiente para passar a arrebentação.

2 Iniciantes e 1 instrutor

2 Iniciantes e 1 instrutor

Então olhei à frente e o que vi contrastava totalmente do que via há um segundo… diante de mim o mar se abria plácido, calmo, lindo como um lago convidativo. Percebi que havia uma clara divisão ali, e que eu havia vencido a pior parte. Ainda aturdido, estava praticamente parado, só boiando e nadando “cachorrinho”. Olhei para a bóia, que estava lá dentro, a uns 150m, e criei coragem: saí em crawl em direção ao alto-mar. Neste momento, como que por mágica, meu coração mudou de marcha e, de descompassado que estava, passou ao “regime de natação” : compassadíssimos tum-tum, tum-tum, tum-tum… Surpreendi-me, nunca havia sentido algo assim. Aquilo, mais o grito do Bruno de “É isso aí, Elcio, agora é só ir nadando” foram suficientes para me convencer de que eu tinha uma chance de sair daquela vivo. Fui… arrastando pela asa o meu relutante anjo-da-guarda.

Putz... melhor sair nadando...

Putz... melhor sair nadando...

Virei a primeira bóia à direita e esta foi minha primeira vitória! Empolgado, continuei em direção à segunda. Mas quando a ia contornando ouvi a voz do Bruno dizendo: “Elcio, espera aí”. Parei, virei prá trás e entendi que ele estava querendo que ficássemos próximos para esperar a outra nadadora que também estava sob os seus cuidados. Enquanto esperávamos ele disse: “Quando chegar lá no jacaré, pare de nadar e apenas estenda os braços”. Ao que respondi “OK!” Então, ali parado com tempo de sobra e sossegadão, olhei em direção à praia. Gelei! Estava longe pacas… A realidade (e a precariedade) da situação desabou sobre mim como um tsunami. Assustado, desobedecendo as ordens do instrutor, saí nadando direto em direção às flâmulas da chegada. Em poucos minutos, atingi a “zona do jacaré” a que ele se referira… Foi uma sensação única: senti-me despencando por uma onda que devia ter a altura de um sobrado ou coisa parecida, o fim nunca chegava… uma delícia! Enfim, areia… são, salvo, ofegante e realizado. Ganhei até um troféuzinho, que não esperava, pela participação. Embora tenha sido na água, foi um batismo de fogo!

Trofeuzinho sabor trofeuzão

Trofeuzinho sabor trofeuzão

Fiquei em 12° lugar entre 13 competidores na minha categoria. Mas nunca uma penúltima colocação teve tanto sabor de vitória, contra o medo e a morte. Então, dessa 1ª travessia no Guarujá, à qual fui em companhia do meu amigo Geléia (que enquanto nadávamos ficou apreciando tudo embarcado num caiaque emprestado, que transportamos no bagageiro do meu carro), tirei 3 lições:

Num mar que não esteja decididamente revolto, o difícil é a arrebentação. Passada a faixa de turbulência, a realidade é outra e muito agradável. Portanto, cabeça fria e objetividade nos movimentos até chegar aldilá das ondas, furando-as bem por baixo.

A menos que já se esteja dominando a visão das longas distâncias, não se deve parar. A distância até a margem pode assustar e alterar o equilíbrio emocional, afetando o nado e todo o resto. Mas isso se supera logo, com mais uma ou duas experiências já se ganha alguma autoconfiança…

Quando voltando do mar, na zona de arrebentação, ao invés de nadar melhor jacarezar em paz, numa boa. Sobretudo se o mar estiver grande… a sensação é ótima!

Vários tipos de fumaça...

Vários tipos de fumaça...

A partir daí passei a sentir prazer em comparecer aos 3 treinos semanais na piscina da ACM. O fato de ter travessias agendadas à frente é um excelente estímulo para o que de outra forma poderia tornar-se um tanto maçante, ainda que com instrutores as aulas tenham ficado bem mais variadas do que quando eu ia lá nadar sozinho. Agora há desafios: além dos 4 estilos, exigem-se “tiros” de 25, 50, 100, 200 e até de 400m que são verdadeiras torturas, porque a velocidade não é meu forte. Aliás, depois de fazer mau uso pulmonar durante tanto tempo (não fumo mais nada), hoje tenho alguma dificuldade com o fole e acabo sendo o café-com-leite da raia, chegando sempre atrás de todo mundo. Mas como bem disse minha amiga Marta: “estamos pagando pelas loucuras que fizemos”. E é a pura verdade e tá tudo certo, afinal “não dá prá atravessar a vida sem cicatrizes” (essa é minha).

Álcool e água não se misturam

Álcool e água são imiscíveis

Mas de fato nenhuma droga combina com natação… lembro-me de uma história real que me foi contada por um amigo: ele morava em São Vicente, defronte ao mar, e quase todos os dias fazia a travessia até a Ilha Porchat, ida-e-volta, num total de 2.600 metros. Um belo dia, tendo tomado umas com os amigos, lançou-se na água como de hábito e, no meio do trajeto de ida, começou a sentir vertigens e chegou a ver a morte rondando… traumatizado, nunca mais voltou a nadar em águas abertas. Álcool é literalmente uma droga!

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2ª TRAVESSIA (marítima – 500m) – Santos SP
(23°59’09.90″S; 46°18’35.14″O) – Canal 6
6ª etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 29.06.08 – Manhã ensolarada de inverno
Canal 6 - Santos

Canal 6 - Santos

Sai da frente, grandão

Sai da frente, grandão

Bem, se a primeira deu certo… não vejo porque esta não daria. Então partamos para nossa segunda travessia de 500m, ainda acompanhado pelo nosso mentor Bruno. Fui para a baixada sozinho, bem cedo, tentando precariamente manter o equilíbrio entre chegar a tempo e não ser (mais uma vez) vítima da indústria de multas que assola a região (não consegui…). Um dia bonito e enfim estamos num canto da praia de Santos que já se aproxima pacas da rota dos grandes navios. Eles são sempre uma visão magnânima! Apenas uma fieira de bóias amarelas nos separava.

É nóis...

É nóis...

Na areia, muita gente, pessoas vindas de várias academias. Tem homem, tem mulher, adulto, criança, aleijados que apóiam-se em muletas até a hora de cair n’água. Travessias realizadas próximas da capital costumam atrair um bom público. Tudo certo, já com o chip preso ao calção, aguardo ansiosamente pela buzina da largada, um som que sempre me deixa nervoso porque indica que é hora de sair em desabalada carreira, dando braçadas queném um fugitivo de Alcatraz. Uoooooooooooooóóóóóoó!! chap-chap, chap-chap, chap-chap… Ainda deu tempo de ouvir o Bruno gritando “Beleza, Elcio, as braçadas tão fortes!” E não ouvi mais nada. Só tinha em mente chegar àquela bóia que estava posicionada uns 150m à minha frente. O Bruno vinha na retaguarda, tranquilo apesar de já ter feito uma travessia de 1000m naquela manhã (prá estas coisas, ter 20 e poucos anos ajuda pacas…).

Ufa... deu certo de novo

Ufa... deu certo de novo

Enfim atingi a primeira bóia e a circundei à esquerda, sem problemas. No arranque para a segunda bóia, que estava a uns 200m, consegui até ultrapassar alguém. Fiquei me achando! Atinjo a segunda bóia, circundo-a pela esquerda e parto decidido em direção à chegada, na praia quando… cóf-cóf, cóf-cóf puta-que-o-pariu, bateu água no pulmão. Imediatamente paro de nadar crawl e entro no modo “cachorrinho”, que é sempre a minha primeira defesa reflexa em emergências na água. O erro foi de iniciante, porque o mar tem marolas… além disso, a necessidade de olhar para frente em busca do rumo enquanto aspirando o ar pela boca expõe o nadador a uma situação de risco. Eu não sabia nada disso, vacilei e agora estava ali, toss… cof-cof cof-cof …indo em pleno oceano.

Só alegria!

Só alegria!

Com água salgada no pulmão a mais de 100 metros da praia, eu não estava exatamente tranquilo. Não dava prá nadar crawl, porque o pulmão queimava… Então disse prá acalmar o Bruno, que havia parado e dava sinais de nervosismo: “Não estou apavorado, eu chego lá só que vou nadando de peito”. Ele não só discordou como ficou botando pilha “Nada disso! Vamos lá, Elcio. Não dá prá ficar parado aqui. Vamos embora!”. Nisso já vinha chegando o barco do resgate, com um papinho meigo do tipo “E aí meurmão, vai ou não vai?”. Pressionado daquele jeito, já derivando para as bóias que arranhavam por estarem cheias de cracas, meti a cabeça na água e comecei a nadar crawl, mas a queimação no pulmão era insuportável. Simplesmente, eu não havia tido tempo de tossir o suficiente. Parei, tossi mais um pouco e voltei a nadar. Cheguei na praia com os pulmões em brasa. Ainda que na 11ª posição entre 12 nadadores na categoria, concluí o trecho! E em se tratando de água é isso o que importa.

Tô começando a gostar...

Tô começando a gostar...

Então, dessa 2a. travessia em Santos, tirei 2 lições:

– Não importa onde esteja nadando, nunca se pode deixar a água bater no pulmão. No mar, devido às marolas, é uma situação ainda mais delicada… Por vezes a água entra na boca, às vezes até desce pelo esôfago. Tudo bem. Mas na traquéia é totalmente proibido, por razões óbvias. Assim, toda atenção é pouca na hora de respirar. E o cuidado deve ser ainda maior na hora de olhar para frente para checar o rumo.

– Se a água entrar no pulmão, é preciso parar, flutuar e tossir o que for necessário, sem se desesperar. Isso é bem mais fácil de escrever do que fazer… Se for para entrar em pânico, é preferível lançar mão do último recurso: a posição que considero a mais segura dentro da água (embora nunca a tenha testado numa situação de emergência) – boiar de costas.

Adoro Bertioga

Adoro a balsa e Bertioga

Peguei minha Parati parceirona e caí na estrada em direção à balsa de Bertioga, sonhando em lá celebrar a vida com um peixe e uma cerveja. Das 3 travessias que se seguiram, não participei de nenhuma. Não porque não quisesse, mas por adversidades… A próxima foi:

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1ª TRAVESSIA FRUSTRADA (marítima – 500m) – Bertioga SP
(23°51’02.72″S; 46°08’01.01″O) – Praia do Forte
7ª etapa etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 17.08.2008 – manhã ensolarada de inverno
Praia do Forte, Bertioga

Praia do Forte, Bertioga

Era inverno mas não fazia frio. Havia sol e a praia estava lotada de banhistas e nadadores aguardando para lançar-se à água… No entanto, a comissão organizadora hesitava. Havia muita correnteza e eles temiam pela integridade dos participantes, porque na organização de uma travessia é preferível que todos os que partiram voltem… Haviam liberado uma bateria de 500m, o tempo passava e nada de liberarem as saídas das demais. A barra estava pesada para os que iriam nadar 500m, considerados (não sem razão) inexperientes.

Pria do Forte

Praia do Forte

De repente uma mãe começa a chorar na praia, porque dois de seus filhos não haviam retornado da prova. Isso causou muita comoção e várias pessoas empenharam-se nas buscas, inclusive 3 dos instrutores da ACM que partiram a nado. A situação permaneceu tensa por um bom tempo, até que chegaram os rapazes sãos e salvos, nadando. De fato, eles haviam sido arrastados pela força do mar e acabaram resgatados por um dos barcos de apoio, que os tirou dali e os devolveu à prova num ponto mais seguro à frente (não que isso seja válido para a contagem de pontos). Aí quem se deu mal foram os 3 instrutores, o Bruno inclusive, que acabaram caindo na correnteza do canal. Tiveram de lutar para voltar, aplicando todas as técnicas e forças à disposição… Deu certo, mas o fato demonstrou que a brincadeira é séria.

Mais tarde, após infinitas elucubrações, o comitê organizador decidiu cancelar as provas de 500m e soltar apenas as de 1000m e 3000m, compostas por nadadores teoricamente mais experientes. Fiquei naquela praia das 08:30 às 13:00 aguardando a decisão. No fim não participei, mas meu nome consta da lista. E como ficou valendo apenas a ordem alfabética, ainda conquistei um honroso 6° lugar dentre 14 participantes da categoria, hehe.

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2ª TRAVESSIA FRUSTRADA (marítima – 500m) – Bertioga SP
(23°49’19.81″S; 46°02’44.63″O) – Canto do Indaiá
8ª etapa etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 14.09.2008 – manhã chuvosa e congelante de inverno
Canto de Indaiá, Bertioga

Canto de Indaiá, Bertioga

Por estes dias, não era prá ser mesmo. Tendo descido a serra em vão na travessia passada, esperava melhor sorte desta vez. Sobretudo porque o tempo não estava nada convidativo e tive de fazer força para me convencer a ir… chuva e frio, em pleno inverno. No inverno as travessias são somente no mar, porque as águas doces costumam ficar geladas demais.

Canto do Indaiá

Canto do Indaiá

Como ninguém se animou a ir comigo, fui só. Lá chegando, ao Canto do Indaiá, no extremo norte da praia da enseada de Bertioga, preparei-me para o que viria: calção, touca, óculos e… mais nada. Fazia frio, muito frio. Chovia e ventava. Meu instrutor não iria participar porque estava numa maratona aquática em Buenos Aires, mas eu não só estava disposto a nadar sozinho como aguardava ansioso pela liberação da minha bateria. Queria cair na água logo e acabar com aquele sofrimento, porém estava claro que isso ainda iria demorar… Congelado, não deu prá suportar aquela roubada: de sunguinha numa situação em que deveria estar de camiseta, camisa, blusa e impermeável. Devolvi o chip na mesa da organização e o rapaz perguntou “Não vai nadar?”, ao que respondi “Vim aqui prá me divertir, não prá sofrer”. E como ainda dava tempo, subi a serra para almoçar no aconchego da companhia dos meus velhos.

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3ª TRAVESSIA FRUSTRADA (represa – 500m) – Alumínio SP
(não sei o ponto exato onde foi) – Represa de Itupararanga
9ª etapa etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 19.10.2008 – não sei que tempo fazia, mas já era primavera
Represa de Itupararanga, Alumínio

Represa de Itupararanga, Alumínio

Nessa eu não fui porque tava podrão, acho que com um resfriado brabo, se bem me lembro… Ficou prá próxima!

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3ª TRAVESSIA (represa – 500m) – São Roque SP
(23°37’02.84″S; 47°13’34.74″O) – São Roque Iate Clube
10ª etapa do Circuito Paulista de Travessias Aquáticas
Domingo, 09.11.08 – Manhã ensolarada de primavera
Iate Clube - Ibiúna

Iate Clube - São Roque

Represa é mais fácil

Represa é mais fácil

Domingão, ainda com o galo cantando eu saio de casa prá buscar o brother Geléia, meu parceirão das aventuras aquáticas, que iria me fazer companhia em mais esta empreitada. Fomos prá represa de Itupararanga, entrando por São Roque. O local, o São Roque Iate Clube, era simpático e a represa estava convidativa. Era a primeira vez que eu iria cair na água sozinho, então assim que cheguei já dei umas braçadas para fazer as pazes com os elementos… Tudo certo com exceção de haver esquecido o filtro solar… Havia barracas vendendo calções e camisetas, mas não filtros solares. O resultado foi o esperado: queimaduras e desconforto.

Saudável e bronzeado

Saradão e bronzeadaço

Então a prova começou, atirei-me n’água e percebi que enquanto eu estava a 10 metros da margem havia uns carinhas que estavam já a uns 100… não dá prá pensar nem em acompanhar, quem dirá competir. Tem gente que nada muito. Aí minha preocupação passou a ser não ser o último… então dei umas olhadas de rabo de olho prá me certificar de que havia atrás gente ainda mais lerda do que eu. Foi um estímulo. Mas enquanto a prova evoluía, até alcancei e ultrapassei alguns que haviam largado na frente. Legal, porque eu me sinto o Mark Spitz nessas horas… É ridículo, mas uma sensação gostosa. E a prova transcorreu absolutamente uneventful até a chegada. Fiquei feliz e dela tirei duas lições:

– Dá prá fazer uma travessia lisinha, sem novidades. Nem sempre tem de ter algum enrosco…

– Não dá prá esquecer o filtro solar.

Dos 12 que partiram na minha categoria, só 9 chegaram à minha frente. Peguei o 10° lugar. Para um domingo cuja opção era ficar no sofá vendo o Discovery, tá bom prá cacete!

Não é uma graça?

Não é uma graça?

Rio Quiririm

Rio Quiririm

Aí chegou o fim do ano e graças à hospitalidade dos meus amigos Emersão e Edsão, proprietários da deliciosa Pousada Canto de Itamambuca, fui pra praia do Poruba descansar da visão dos edifícios. Ali, numa bela tarde de dezembro, fui para o Rio Quiririm preparar-me um pouco, ao menos psicologicamente, para a próxima travessia. Então naquela paz da Mata Atlântica, subi nadando o rio e aproveitei para entender de vez algo que já fazia de forma um tanto desordenada: a frequencia com que olho prá frente em busca do rumo.

Fiz vários estudos enquanto nadava e descobri que para mim o ideal é uma olhada frontal para cada 3 braçadas. Em travessias, utiliza-se o bloqueio 2:1, o que significa que se tira a cabeça da água para respirar a cada braçada do mesmo braço, no meu caso o direito. Portanto a cada 3 braçadas do braço direito, aproveito o momento em que a mão está fazendo apoio na água para olhar rapidamente à frente antes de virar a cabeça para o lado em busca de ar. Para mim, dá certo para manter-me no rumo sem me cansar.

Raia de estudos

Raia de estudos

Fui até depois da curva e voltei, até porque já era tarde em breve chegariam as muriçocas. Depois vi no Google Earth que a distância percorrida foi de exatos 1000m, por coincidência. Isso me deu uma certa tranquilidade para enfrentar minha primeira travessia fluvial, ainda de 500m.

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4ª TRAVESSIA (fluvial – 500m) – Iguape SP
(24°42’35.15″S; 47°32’32.34″O) – Ponte do Mar Pequeno
1ª Ecotravessia de Iguape
Domingo, 01.02.09 – Manhã ensolarada de verão
Mar Pequeno - Iguape

Mar Pequeno - Iguape

Iguape - Ilha Comprida

Iguape - Ilha Comprida

Geléia, meu brother

Geléia, meu brother

Uma vez mais, mano Geléia foi dar uma força e passar um domingo diferente. Eu não conhecia o caminho para Iguape e nem a cidade. Achei tudo muito bonito, a começar pela BR-116, no trecho da Régis Bittencourt que começa passando o Embú das Artes. Desta vez o organizador era outro, e as metragens eram diferentes. Havia provas de 500m e 1500m. Como Iguape é longe da capital, havia pouca gente, não mais do que umas 40 pessoas. A travessia seria bem debaixo da Ponte do Mar Pequeno, onde o rio tem exatos 500 metros de largura.

Foi daqui prá lá...

Foi daqui prá lá...

A correnteza estava forte pacas. O Bruno disse “nem tente nadar direto, tem de ir na diagonal”. Então peguei um ponto de referência já bem a montante do rio, na outra margem… a torre de uma igreja. E quando soou a largada saí que nem um boi bravo, lutando contra a água. Tinha mesmo de nadar na diagonal, com o corpo na diagonal, o que desperdiça muita energia. Além disso, a braçada encontra água que já está correndo no mesmo sentido da mão, o que diminui o apoio e… desperdiça mais energia. A conclusão disso tudo é que quando estava bem no meio do rio senti que a água estava me vencendo. Fiquei ofegante, perdi o ritmo e um segundo depois me encontrei parado, boiando, nadando cachorrinho… é automático nessas horas. Estava tranquilo, enquanto recuperava o fôlego olhei para frente para avaliar a distância faltante… de fato, ainda estava na metade do trajeto. Quando já estava decidido a retomar as braçadas (porque parado não dá prá ficar) o barco dos bombeiros aproximou-se e um deles gritou “E aí, garoto, tá tudo bem ?” Nem respondi. Grato pelo “garoto”, meti a cabeça na água e saí rasgando em direção à chegada.

Caraca, parece cola...

Caraca, parece cola...

Queném caranguejo

Queném caranguejo

Não foi muito fácil não, mas cheguei ao ponto em que afundei na lama até os joelhos. Exausto, apoiei também os braços e afundei até os cotovelos. Quase fico preso naquela gosma que me sugava, na frente de toda a platéia que estava em cima da margem do rio. Fui fazendo um baita esforço prá sair daquela situação e enfim consegui. Teve um camarada que não atendeu às advertências de nadar em diagonal e foi parar bem mais prá baixo, prá lá da ponte, tendo sido resgatado pelos bombeiros. Desse mico me livrei.

Êee.. s'imbora tomar uma!

Êee.. s'imbora tomar uma!

Essa não foi fácil...

Essa não foi fácil...

Dessa travessia aprendi uma lição importantíssima:

– Não se pode estressar o pulmão. É necessário imprimir um ritmo, sobretudo na saída, com o qual o sistema cardio-respiratório se sinta confortável. Caso contrário é certeza de ter de parar para recuperar o fôlego o que, embora nada crítico, nunca é o ideal.

100 km/h ! e sem radar...

100 km/h ! e sem radar...

Banho doce na torneira de um posto de gasolina e dali atravessamos a ponte prá ir almoçar em Cananéia, via Ilha Comprida, o que foi mais uma aventura. Vai-se com o carro pela areia, a mais de 100km/h, sabendo que se o cálculo da maré estiver errado e o mar subir… adeus carro, porque não há por onde sair.

... só não pode parar!

... só não pode vacilar!

Mas não foi desta vez e logo estávamos curtindo um peixinho num restaurante a beira-rio em Cananéia. Esses domingos de travessia costumam ser muito legais.

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5ª TRAVESSIA (fluvial – 2000m) – Peruíbe SP
(24°22’48.63″S; 47°02’21.89″O) – Rio Guaraú
4ª etapa do Circuito de Maratonas Aquáticas da Costa da Mata Atlântica
Sábado, 07.03.09 – Manhã ensolarada de verão
Rio Guaraú - Peruíbe

Rio Guaraú - Peruíbe

Chegamos, vamos prá + 1!

Chegamos, vamos prá + 1!

Após 4 travessias de 500 metros, estava na hora de ousar. E a próxima seria de 2000m. Eu, que me perguntava quando iria reunir a coragem necessária pra encarar uma de 1000m, de repente estava me inscrevendo para uma de 2000m! O que me inspirou a fazer isso foi o fato de que o nado seria fluvial, rio abaixo… Então, pensei, sempre haverá uma margem por perto se eu cansar ou coisa parecida. E fui com a cara e a coragem

Entradas e bandeiras

Entradas e bandeiras

A Travessia foi no Rio Guaraú, que fica no bairro de mesmo nome, alguns quilômetros prá lá do centro de Peruíbe, do outro lado de uma serrinha. A concentração foi num clube e dali saímos todos caminhando por cerca de meia-hora, mato adentro, até atingir o ponto do rio no qual seria dada a largada. Dali até o clube, rio abaixo, seriam 2000m. O lugar era inóspito, mata fechada mesmo. Para encarar o nado nesta nova distância, precavi-me comprando um saquinho de carboidrato em gel, então aproveitei para tomá-lo enquanto caminhava. O astral estava ótimo, durante a caminhada todo mundo ia fazendo piadas.

De 500m prá 2000m sem escala

De 500m prá 2000m sem escala

A água estava excelente. Aproveitei para tomar um bom gole, para diluir no estômago o gel, que é grosso que nem mel. Também era uma forma de fazer as pazes com os elementos… Dada a largada, comecei a nadar entre socos e pontapés, pois havia muita gente. Aos poucos, os corpos foram se distanciando e pude saborear uma das travessias mais gostosas que já fiz. O rio ia se desdobrando em curvas e a paisagem era linda. A correnteza era mansa, quase imperceptível e tudo estava ajudando.

Ôba, falta pouco!

Ôba, falta pouco!

Após uma das curvas, lá pela terceira ou quarta, a visão do mar se descortinou ao longe e para lá eu fui. Não tive dificuldade alguma em vencer os 2000m e achei tudo delicioso. A única coisa que não fiz foi acelerar… fiquei em 176º lugar, de 184 participantes, na classificação geral masculina. Mas quem tá com pressa?

Essa foi longa, mas tranquila!

Essa foi longa, mas tranquila!

Medalha... medalha... medalha!

Medalha... medalha... medalha! 😛

Desta travessia também tirei lições, desta vez duas:

– Usar as pernas é muito importante para auxiliar na impulsão do corpo à frente. (Parece óbvio, mas é fácil errar) E para que ele seja eficiente é necessário manter a coluna à flor d’água, sem deixar o quadril afundar. Portanto, “empinar a rabeta” pode ser uma posição um tanto forçada, mas ajuda a natação.

– Em um portal de chegada, é necessário bater a mão em cima para definir o momento exato da passagem. Sob pena de desclassificação. (Ali por ignorância não bati, mas também ninguém estava muito preocupado com isso…)

Voltei prá São Paulo curtindo meu CD do Wim Mertens e com a sensação de missão cumprida.

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6ª TRAVESSIA (represa – 1500m) – São Paulo SP
(23°41’33.53″S; 46°43’05.81″O) – Represa de Guarapiranga
2ª Travessia Aquática Guarapiranga
Domingo, 22.03.09 – Manhã ensolarada de outono
Guarapiranga - São Paulo

Guarapiranga - São Paulo

Vamos tirar essa roupa, povo!

Vamos tirar essa roupa, povo!

Agora, pela primeira vez, a travessia seria bem perto. Fui na grata companhia de minha amiga Cláudia, que por essa época até andou alimentando idéias natatórias… O local era a ADC Eletropaulo e estava cheio de policiais, porque o evento contaria com a presença do prefeito, o que eu desconhecia. Na hora de visualizar o trajeto, sempre a mesma confusão: antes de cada travessia, um barco faz o que é chamado de “Congresso Técnico”, ou seja, ele percorre o trajeto que os nadadores deverão percorrer. Mas, por incrível que pareça, isso nunca é simples e sempre deixa margem a muitas dúvidas. Enfim, estávamos todos dentro da água aguardando a largada. Tendo acabado de tomar meu carboidrato em gel, desta vez não tive coragem de dar um gole na Guarapiranga… seria como sorver esgoto.

Saudável, ms insalubre...

Saudável, mas insalubre...

Buzina e vamos! A partida foi rápida e eu acompanhei. Logo percebi que naquele ritmo iria estressar o pulmão e ofegar. Já mais experiente, apenas afrouxei um pouco a marcha enquanto acalmava os brônquios com sutis mudanças na respiração. Deu certo, o mal estar que se avizinhava passou e deu lugar a uma sensação de “satisfação pulmonar”. Ou seja, tudo como tinha de ser. Mas a primeira bóia não chegava nunca… com muita gente à minha frente eu mal podia vê-la. Quando se está nadando, os olhos ficam num ponto-de-vista muito baixo, rente à água, e isso dificulta pacas localizar pontos à frente. No mar, que tem “depressões” às vezes fica impossível. Mas ali bastava tentar novamente na próxima braçada para visualizar a bóia, que por fim atingi, deixando-a pela esquerda.

Se a medalha já tava bom...

Se medalha já tava bom...

Na estilingada para a segunda bóia, sentindo-me bem para isso, pela primeira vez até arrisquei apertar um pouco o ritmo. Não tive problemas. Deixei a segunda bóia também pela esquerda e me mandei em direção à chegada. Nos metros finais, fiquei pau a pau com outro nadador, acelerei tudo e acho até que poderia vencê-lo por um braço não fosse um organizador que estava de pé à minha frente, o que me obrigou a ceder a vez para o adversário. Tudo bem, ainda assim fiquei com o terceiro lugar em minha categoria (não sei de quantos) e pela primeira vez ganhei, além da medalha de participação, um troféu! Ueba, quem diria? Com o tempo de 35:07.10 conquistei o 164° lugar, de 235 participantes, na classificação geral. Eu estava feliz e fomos comemorar num restaurante na Raposo Tavares, com direito a sobremesa no Embú das Artes que, aos domingos, recomendo. Como disse, os dias de travessia costumam ser sempre muito legais.

...imagina o troféu!

...imagina troféu!

Desta feita, 3 lições:

– A visão da bóia (ou de algum ponto de referência em terra) é fundamental para manter-me mais calmo. Nadar por nadar, sem ver para onde estou indo ou ter como avaliar o progresso, causa-me uma ansiedade desnecessária. Melhor conseguir ver a bóia a cada intervalo de 3 braçadas.

– Se o pulmão chegar a se incomodar pelo ritmo forte, dá perfeitamente para desacelerá-lo sem ter de parar de nadar. Basta perceber a tempo.

– Depois de estabelecido um ritmo confortável, dá até pra apertar um pouco. O que não se pode (no meu caso) é já sair acelerado… é preciso antes “amaciar” o pulmão.

Desta travessia, difícil mesmo foi só lavar o calção… devo tê-lo lavado umas 5 vezes e sempre saía água escura.

No momento em que escrevo, 00:41hs da sexta-feira, dia 30.04.09, relaxo do treino que tive há pouco e preparo-me para minha primeira travessia longa em água salgada. Serão 1800m em Bertioga no domingo próximo, na mesma praia onde há 7 meses quase congelei e, confesso, água salgada, com suas ondas e imensidões, me dá medo. Depois eu conto no que deu… se sobreviver, é claro.

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7ª TRAVESSIA (marítima – 1800m) – Bertioga SP
(23°49’19.81″S; 46°02’44.63″O) – Canto do Indaiá
6ª etapa do Circuito de Maratonas Aquáticas da Costa da Mata Atlântica
Domingo, 03.05.09 – Manhã ensolarada de outono
Canto do Indaiá - Bertioga

Canto do Indaiá - Bertioga

Ueba… Sobrevivi! Na sexta-feira, saindo do trabalho e ouvindo o rádio do carro o locutor conversava com o “homem-do-tempo:

– E então, como está o litoral prá esse fim-de-semana?
– O tempo virando e o mar tá bravo, com ondas de 2 a 3 metros…
– Ah… então você, que é metido a surfista, melhor não se arriscar dessa vez.
– Nem, melhor ficar longe!

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Então beleza, se nem surfista tá se animando… grande estímulo. Uma dorzinha no ombro direito (mal-cicatrizado após um longínquo tombo de moto) e uma tosse persistente também não ajudavam muito. Mas nem tudo são flores, e eu tinha de terminar esse post aqui no blog. Não dava prá fugir da raia, assim, em público. Então vamos e lá veremos…

Domingão, acordo às 7. Ninguém prá descer comigo. No problem, fui só. Cheguei atrasado e quase perco a largada. Dia esplêndido, tempo quente. Olhei pro mar… calmo como uma represa. Ê maravilha, ainda bem que a meteorologia vive pisando na bola. Isso me animou muito e entrei na água prá ambientar o corpo e fazer as pazes com os elementos.

Será que vai ??

Será que vai ??

Olhei prá primeira bóia, ela estava a uns 700m lá dentro. Deveríamos contorná-la à direita e nadar uns outros 400m até a segunda e dali voltar prá praia. Pensei: zuzu zen! Estava confiante num recurso que havia adotado para o caso de necessidade extrema: havia amarrado, com um cabo de 1 metro, um apito no calção. Sim, um apito desses de fazer priiiiiiiiiiiiiiii. Calculei que se tudo o mais desse errado e eu tivesse de chamar o bote de resgate, tudo seria mais eficaz e discreto se apitasse, ao invés de ficar berrando “socorro”!

Em caso de "SOCOOOORRO!!!"

Em caso de "SOCOOOORRO!!!"

Dada a largada, saí procurando não forçar muito, prá manter a respiração sob controle. O início de uma travessia, para mim, é sempre algo um tanto estranho… uma sensação de “mas que merda eu estou fazendo aqui?”. No entanto, passa logo… Dá-lhe energia que a bóia tá longe, usemos também as pernas.

Prá frente é que se nada!

Prá frente é que se nada!

E aí ocorreu o único incidente da prova… lá pelos 400 metros, a touca começou a sair. Tinha de parar para ajeitá-la e isso implicaria interromper aquele ritmo que já havia estabelecido. Isso não é bom, mas não havia jeito, senão ela iria cair e com ela os óculos.

Então parei para arrumá-la e, parado flutuando, olhei prá bóia… Não prestou! Ao ver-me na água longe de tudo, o coração acelerou, o pulmão descompassou e comecei a sentir aquela sensação de pânico que tanto me assustou no passado. Mas desta vez, eu tinha um trunfo: não estava ali à toa e sabia disso. Pensei: “calma, você está preparado e é só retomar o ritmo da respiração que tudo irá voltar aos eixos”. Mas percebi que a respiração não melhoraria enquanto eu ficasse ali boiando… ficou claro que ela só iria entrar nos trilhos quando eu voltasse a nadar. Então, ainda ofegante, meti a cabeça na água e mandando leve comecei a controlar o pulmão. Deu certo. Em pouquíssimas braçadas havia recuperado o ritmo e a confiança. Serviu para constatar que, mesmo à essa altura do campeonato, ainda tenho muito chão antes de dominar o medo da água.

Só ir ali, virar e voltar.

Só ir ali, virar e voltar.

Aí prossegui tomando todo o cuidado para não deixar água entrar na boca numa marola qualquer. A cada respirada à direita, a visão do meu braço subindo ao céu contra o sol e espalhando água, embora muitíssimo fotogênica trazia uma certa apreensão: lembrava-me o tempo todo onde eu estava… passei a não prestar mais atenção nisso. E aos poucos o mar começou a crescer… Já perto da primeira bóia, sentia nitidamente os “tapas” prá cima e prá baixo que as ondulações davam. A clara sensação era de que ali já era água aberta e então, finalmente, alcancei a primeira bóia.

Não parei para admirá-la, circundei-a e mandei bala prá segunda… Fui ultrapassado por duas pessoas, que cruzaram em diagonal à minha frente. Maior trânsito em pleno Atlântico. Entre uma bóia e outra o mar estava decididamente grande, com muita variação de nível, mas sem ondas ou marolas hostis. Chegando à segunda bóia pensei “Agora ninguém me segura”, embora ainda estivesse longe pacas da segurança da areia…

Olhei prá praia prá tentar localizar o portal de chegada (que é uma bóia amarela imensa, escrito CHEGADA em vermelho), mas contra aquele sol não consegui ver nada. Saí seguindo a direção do cara que estava à minha frente, que deveria estar cego também e fazendo a mesma coisa. Disse prá mim mesmo o óbvio: “o jeito é tocar em direção à praia e chegando mais perto vai dar prá ver prá onde devo ir”. No meio do caminho de volta, um rapaz num caiaque apontou com o remo que eu deveria ir mais para a esquerda. Ele vestia uma camiseta camuflada, do exército, e concluí que fosse da turma de resgate. Parei de nadar, olhei prá praia e disse “Não consigo enxergar a chegada, cadê ela?”

– Tá ali, tá vendo?
– Não! Muito sol. Tá tudo da mesma cor.
– Tá vendo aquela antena, vai nadando em direção a ela.
– OK, obrigado.
– Eu vou ficar aqui, navegando ao seu lado.
– (estranhando) Sou o último?
– Não, tem mais uns 10 atrás de você.
– Valeu!
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E fui, tendo por companhia um caiaque a menos de um metro de distância. Pensei “Pô, se fosse sempre assim…”.  Até que comecei a divisar o amarelo da bóia de chegada. É sempre muito bom saber prá onde se está indo, sobretudo na água. Em mais alguns minutos já estava a menos de 100 metros. O rapaz aproximou-se novamente e disse “agora falta pouco”. Não respondi, fiz apenas um “positivo” com a mão e continuei acelerando, prá diminuir alguns segundos no resultado final.
.. foi um desafio !

.. foi um desafio !

Cáspita, dessa vez...

Cáspita, dessa vez...

E então cheguei! Muito feliz por ter vencido – com uma forcinha de São Pedro – mais este, que considerei o maior desafio nas minhas travessias até aqui.

Por continuar vivo...

Por continuar vivo...

Corri prá (Uêba!) receber minha medalha, que veio dentro do saco plástico no qual são distribuídas frutas e água aos competidores. Nas travessias promovidas pelo Circuito da Mata Atlântica essa prática é comum. Beleza… medalha com bananas, algo que considero de extremo mau-gosto – o gesto, não as bananas!  De 180 participantes do masculino, conquistei o 171° lugar.  Uau… quase que eu não chego eheh…

E daí tirei três lições:

Quando tiver de arrumar touca ou óculos, não vou olhar onde estou. Se for a touca, arrumo debaixo da água mesmo. Se forem os óculos, arrumo-os de olhos fechados. E isso forçando o movimento de pernas, tentando manter a respiração ativa, mesmo parado. Não vale a pena assustar-se e deixar o ritmo todo degringolar…

– Se por qualquer razão o ritmo do pulmão descambar e for necessário parar, não adianta esperar que ele vá se normalizar ali parado. A parada serve apenas para dar um tempinho… mas a respiração só se organiza mesmo é voltando a nadar.

– Não dá prá esquecer de levar uma bermuda, para o caso de ao final da travessia estar fazendo um dia lindo, radiante, alegre, quente e magnífico como estava aquela manhã de domingo no litoral norte de São Paulo.

Fui comprar uma ducha doce num boteco da praia e comemorar almoçando em Bertioga, um local que me é muito familiar e querido.

CONCLUSÃO: Então a conclusão, até aqui, é que tenho feito progressos mas talvez algum medo da água permaneça. No entanto, pelo bem da minha saúde acho que não dá prá parar mais de nadar e, consequentemente, de fazer travessias. A meta agora é fazer uma de 3000m no mar. Prá quem já fez de 2000m não é um objetivo tão distante. Enquanto isso, vou acumulando trofeuzinhos e medalhinhas sobre a minha mesa… faz bem pro ego.

Eu me amo! :)

Eu me amo! 🙂

De qualquer forma, hoje quando vejo um lago, uma represa, já sinto vontade de entrar – com a certeza de que conseguirei atravessar ainda que nadando só. Vamos nos aperfeiçoando e, quem sabe, um dia ainda piro de vez: depois de velho, decido fazer como o Paulo Maia e atravessar a Mancha?

Espero que este texto sirva um dia prá ajudar algum(a) maluco(a)… e caso você tenha a mesma obsessão que eu e tantos outros pelas travessias em águas abertas e queira informar-se um pouco mais, tente, dentre outras, a ACM.

E muitos bons ventos!

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Ufa! Esse deu trabalho!

Ufa! Esse deu trabalho!

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